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31 maio 2023

Alijó: Judith Hill atua no festival Sons no Parque

Município de Alijó
Além de Hill, também estão no cartaz The Black Wizards e The Last Internationale.

A quinta edição do festival "Sons no Parque", em Alijó, já tem cartaz definido com a norte-americana Judith Hill como cabeça de cartaz. O festival decorre nos dias 14 e 15 de julho no anfiteatro natural do Parque da Vila, em Alijó e tem entrada gratuita.

Além de Hill, que aturá no dia 15, os norte-americanos The Last Internationale também integram o cartaz para o dia 14, que inclui The Black Wizards (Portugal), Lola (Austrália), Koko-Jean & The Tonics (Espanha) e The Limboos (Espanha). Numa nota à imprensa, o município alijoense considera que o "a confluência de diferentes sonoridades e estilos musicais continua a ser a marca distintiva deste Festival que se reflete na aposta em bandas nacionais, mas também em bandas originárias de outros países que prometem, como sempre, agitar o Parque da Vila", não descurando "grupos musicais emergentes no panorama artístico".

Nas últimas edições do festival, Cais do Sodré Funk Connection, The Legendary Tigerman ou The Black Mamba foram alguns dos nomes que passaram pelo evento.

Em breve, serão anunciados os horários do festival. Todas as informações podem ser encontradas no site oficial do evento.

"Medellín" estreia no Amazon Prime Video

Amazon Prime Video
Filme de ação estará dispoível para os subscritores "Prime" da plataforma.

Há um novo filme a caminho do catálogo do serviço de streaming Amazon Prime Video: "Medellín", de Franck Gastambide, estreia esta sexta-feira, dia 02, em mais de 240 territórios.

Baseado numa ideia de Gastambide e escrito em coautoria com Charles Van Tieghem, o novo filme de ação dá a conhecer o "plano tão simples quanto louco" de Reda (Ramazy Bedia) para salvar o irmão dum cartel perigoso de Medelim: "reunir uma equipa e levar a cabo uma rusga na Colômbia. Mas, este plano louco vai fugir de controlo quando decide sequestrar o filho do líder do cartel para trocá-lo pela vida do irmão", refere a plataforma de streaming.

Além de Gastambide e Bedia, Anouar Toubali, Brahim Bouhlel, Raymond Cruz e Assined Aponte completam o elenco, que contará também com a participação de Mike Tyson.

"Medellín" estará disponível para todos os subscritores "Prime" da plataforma.

https://www.youtube.com/watch?v=sCmCayvkABI

TVCine dedica primeiro domingo de junho à família

© 2020 TOPSIDE PRODUCTIONS, LLC. ALL RIGHTS RESERVED.
Especial traz seis filmes de diferentes géneros sobre crianças e as suas famílias.

O TVCine Emotion vai aproveitar o dia da Criança e dedicar um especial de programação em que "os mais novos têm um papel de destaque" já este domingo, dia 04 de junho.

O "Especial Domingo de Família" arranca às 14h10 e, "entre a comédia, a aventura e o drama, chegam-nos seis filmes sobre crianças e as suas famílias", refere o canal em nota de imprensa.

O Especial arranca com a comédia francesa "Gravidez de Alto Risco". "Submundo" (15h30), "Uma Viagem Mágica" (16h55), "King - Regresso A Casa" (18h30), "Um Rapaz Normal" (20h15) e "À Espera de Bojangles" (21h45) completam a programação.

Todos os filmes ficarão disponíveis no serviço de streaming TVCine+.

https://www.youtube.com/watch?v=aCrEKtpmdTk

30 maio 2023

Diplomacia cultural, direitos LGBTQ+ e Ucrânia no Festival Eurovisão da Canção 2023

Chloe Hashemi/EBU
A Eurovisão tem tanto a ver com diplomacia como com a política ou a música

A banda Tvorchi fez apenas uma publicação na sua página do Facebook na noite de sábado, antes de começarem a sua atuação na final do Festival Eurovisão da Canção 2023. Os participantes ucranianos partilharam uma imagem com a palavra “Ternopil”, o nome da cidade onde a banda começou, escrita em letras brancas sobre um fundo preto. Na noite da grande final da competição, a cidade no oeste da Ucrânia estava a ser brutalmente bombardeada pelas forças russas. Um utilizador comentou a foto: “Não importa em que posição vocês fiquem, nos nossos corações, vocês estarão sempre em primeiro lugar”.

Sendo vencedora da edição 2022 da Eurovisão, normalmente, a Ucrânia acolheria a competição de 2023; no entanto, devido à guerra em grande escala da Rússia contra o país, a competição foi transferida para Liverpool, no Reino Unido, vice-campeã da edição de 2022.  A seleção ucraniana para a Eurovisão aconteceu numa estação de metro no centro de Kyiv, fechada para passageiros desde os primeiros dias da invasão russa em fevereiro de 2022 e que foi convertida num abrigo antiaéreo até o final de 2022. Durante esse período, foi usada como um local para espetáculos, competições e conferências de imprensa.

Em Liverpool, os organizadores tentaram homenagear os legítimos anfitriões, incorporando o simbolismo ucraniano, uma coapresentadora ucraniana, figurinos de designers ucranianos, um grupo de artistas ucranianos participantes de edições anteriores da Eurovisão na cerimónia de abertura, apresentações de tributo de apoio à Ucrânia e até Kate Middleton, a princesa de Gales, a tocar um excerto da música ucraniana do grupo Kalush Orchestra, os vencedores da Eurovision 2022.

https://www.youtube.com/watch?v=y8QtKIMOM3k

Também teve mais convidados ucranianos do que qualquer outro evento da Eurovisão, porque os ucranianos que fugiram da guerra estão agora espalhados por todo o mundo, incluindo o Reino Unido. Desse modo, para os ucranianos, o festival europeu da canção deste ano foi, em muitos aspetos, revelador e, até, surpreendente.

Kateryna Horodnicha, uma jornalista ucraniana que vive agora no Reino Unido, visitou pessoalmente a Eurovisão pela primeira vez. E, numa publicação na sua página do Facebook, partilhou:

Nunca vi tanto glitter e lantejoulas por metro quadrado como na fila à entrada da Arena onde se realizou a final [da Eurovisão]. […] E embora eu seja contra qualquer generalização, depois de mergulhar de cabeça no evento tenho duas conclusões. Uma é bem conhecida, a outra é uma verdadeira descoberta.
1. Esta é uma verdadeira celebração LGBTQ+. É por isso que é engraçado ver/ouvir/ler homofóbicos que ficam verdadeiramente surpreendidos com o envolvimento das minorias sexuais em comentários, perícias, etc. Por favor: essa é a principal força motriz do processo.
2. Eu não entendi imediatamente. Na Ucrânia, as questões raciais não são priorizadas porque há pouca representação não europeia lá. Mas a Eurovisão é mesmo um concurso de canções para pessoas brancas. Não conheci NENHUM fã afrodescendente. Embora Liverpool não seja uma sociedade unicamente branca.

Kateryna Horodnicha, jornalista ucraniana a viver no Reino Unido

Guerra, sexo e direitos humanos

A Ucrânia tem sido acusada de discriminar tanto pessoas LGBTQ+ como pessoas negras.  Mas, no meio duma guerra em grande escala, muitas pessoas têm pedido para que o país reconheça oficialmente casais do mesmo sexo. As pessoas LGBTQ+ também estão a lutar pelo Estado ucraniano durante a invasão da Rússia, e o reconhecimento legal pode lhes dar proteções adicionais, por exemplo, se uma pessoa for ferida ou morta.

No entanto, o movimento pela igualdade no casamento tem oponentes poderosos, incluindo muitas igrejas cristãs na Ucrânia, onde cerca de 85% dos ucranianos se identificam como cristãos, de acordo com um estudo de 2022 do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev.  Também é considerado perigoso ser percebido como queer nas ruas, e as marchas do orgulho nas cidades ucranianas sempre foram fortemente vigiadas pela polícia porque os participantes eram frequentemente atacados. Ao mesmo tempo, ao contrário da Rússia, não há legislação anti-LGBTQ+ na Ucrânia e ativistas proeminentes do movimento são visíveis nos media ucranianos e na sociedade civil.

Há também uma pequena comunidade de pessoas negras na Ucrânia, filhos de casais mistos ou estudantes internacionais, já que o país oferece educação universitária mais acessível do que muitos países da UE. No entanto, no início da guerra, houve alegações generalizadas sobre estudantes estrangeiros sendo discriminados por autoridades ucranianas enquanto tentavam fugir do país.

Jimoh Augustus Kehinde, de 25 anos, mais conhecido como Jeffrey, um dos membros da banda Tvorchi, é um desses estudantes. Mas decidiu ficar na Ucrânia. Ele veio da Nigéria para Ternopil, na Ucrânia, em 2013, para estudar farmácia. Em 2018, Andrew (Andriy Hutsuliak), 27, outro membro da Tvorchi, abordou-o na rua para praticar seu inglês. Parecia, aliás, que eles estavam a estudar na mesma universidade. Tornaram-se amigos, criaram uma banda em 2017 e participaram nas seleções nacionais para a Eurovisão por duas vezes, em 2020 e 2022, apesar de não acharem que poderiam ganhar.

Entretanto, por mais que seja sobre música e política, a Eurovisão também é sobre diplomacia, e a presença de Jeffrey na banda ucraniana tem potenciais benefícios diplomáticos para a Ucrânia. E parece que os membros da Tvorchi estão cientes disso. Em março de 2023, eles fizeram uma viagem a Nairóbi, no Quénia, organizada pela USAID “para influenciar o nível de propaganda contra a Ucrânia [que] lá [existe]”, como eles explicaram.  “Nós unimo-nos e nos tornamos um exército da frente cultural”, acrescentaram. “Conseguimos arrecadar milhões de dólares, realizar ações de consciencialização, encontrar líderes de estados parceiros, dizer a verdade, pedir ajuda e proferir palavras de gratidão”. Na cerimónia de abertura da Eurovisão 2023, eles usaram casacos com nomes e pesos de crianças nascidas prematuramente após o início da invasão russa, devido ao stress que as suas mães vivenciaram, no intuito de arrecadar fundos para hospitais ucranianos.

Os vencedores

Na Eurovisão 2023, os Tvorchi ficou em sexto lugar e, apesar da sua história comovente, os espetadores tinham outros favoritos, até mesmo na Ucrânia. A banda também ainda não conseguiu superar o sucesso da Kalush Orchestra noutros aspetos, como na criação de símbolos icónicos como o chapéu rosa Panamá de Kalush, que ainda foi usado na Eurovisão 2023, um ano após a sua apresentação vencedora. Em Ivano-Frankivsk, o centro da região onde fica a cidade de Kalush (Ivano-Frankivsk-Kyivsk), o comboio Ivano-Frankivsk-Kyiv foi renomeado para Stefania Express por um ano em homenagem à canção vencedora da Eurovisão “Stefania”. A canção também tem sido reproduzida nas estações ferroviárias de Ivano-Frankivsk, Kalush e Kiev quando o comboio chega

https://youtu.be/I2oqDpefJ1s

A vitória da Kalush Orchestra na Eurovisão foi a terceira da Ucrânia em 20 anos. Em 2017, Jamala, uma tártara oriunda da Crimeia, tornou-se a segunda vencedora mais recente, com a canção "1944" sobre a deportação dos tártaros da Crimeia no final da II Guerra Mundial pelo ditador soviético Josef Estaline:

https://youtu.be/B-rnM-MwRHY

Já Ruslana obteve a primeira vitória em 2004, com a sua interpretação de “Wild Dances” (“Дикі танці”), fazendo referência à cultura popular nas montanhas ucranianas dos Cárpatos:

https://youtu.be/10XR67NQcAc

A maioria das outras participações ucranianas na Eurovisão foram, em grande parte, esquecidas, pois raramente estavam entre os mais populares, mesmo no seu próprio país. Para Tvorchi, no entanto, dada a receção positiva e o trabalho comunitário, os seus melhores dias ainda podem estar para vir.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito por Yulia Abibok e traduzido por Doralice Silve, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

29 maio 2023

Museu FC Porto celebra Dia da Criança com entradas gratuitas

Museu FC Porto
Ação é dirigida a todos os menores de 12 anos.

O Museu Futebol Clube do Porto (Museu FC Porto) vai assinalar o dia mundial da Criança com a oferta de bilhetes de entrada gratuitos para todas as crianças com até 12 anos.

Os bilhetes serão para a "Tour FC Porto", que inclui uma visita ao museu e ao estádio do Dragão, sendo que a oferta acontece desde que a criança seja acompanhada de um adulto portador de bilhete adquirido na receção.

Segundo uma nota enviada às redações, o Museu afirma que "celebra [a data] sempre em grande" e que, além da "oportunidade sensacional de viver em família a experiência premiada do Tour FC Porto, os mais novos também vão poder explorar a imaginação na oficina aberta 'Quando Eu Crescer, Quero…'", uma oficina de educativa que "vai ajudar os mais novos a sonhar com o futuro. Com uns quantos truques de projeção e boas doses de criatividade, o evento será uma diversão pura para as crianças, mas dirigido a todas as idades".

Além da oferta da tour e da oficina aberta, o Museu também vai promover a sessão já esgotada "Música com Dragõezinhos" sob os temas "Criança e "Santos Populares", no próximo dia 04 e estar presente na edição 2023 do Gaia Festival com duas oficinas abertas.

Todas as condições sobres as ofertas, assim como a programação do museu, podem ser consultadas no site oficial.

24 maio 2023

Cientistas desenvolvem robô que ajudará crianças cegas e com boa visão a conversar entre si

Interactive Technologies Institute
Um novo robô desenvolvido a pensar na acessibilidade, permitirá que crianças com e sem problemas de visão tenham uma conversa onde todos participam equitativamente.

Investigadores do Interactive Technologies Institute divulgaram recentemente um estudo[nota]Neto, I., Correia, F., Rocha, F., Piedade, P., Paiva, A., & Nicolau, H. (2023). The Robot Made Us Hear Each Other: Fostering Inclusive Conversations among Mixed-Visual Ability Children. Proceedings of the 2023 ACM/IEEE International Conference on Human-Robot Interaction, 13–23. Presented at the Stockholm, Sweden. doi:10.1145/3568162.3576997[/nota] sobre a utilização de um robô para mediar discussões em grupo entre crianças com habilidades visuais mistas. A equipa apresentou o estudo durante uma conferência internacional sobre Interação Humano-Robô, realizada em março deste ano em Estocolmo.

A equipa de investigação tomou conhecimento que crianças com deficiência visual participam menos nas discussões em grupo. O grupo de investigação aponta o dedo à falta de tecnologias acessíveis que se adaptem às necessidades das crianças com e sem deficiência visual. “A maioria das tecnologias acessíveis é desenvolvida para ser utilizada apenas por crianças com deficiência, o que as exclui de muitas atividades que possam ser realizadas em sala de aula. Além disso, as crianças com deficiência visual têm maior dificuldade em perceber a conversação e as pistas não verbais relacionadas”, explica Isabel Neto, investigadora principal e doutoranda no Instituto Superior Técnico.

Com vista a encontrar uma solução, os investigadores adaptaram um robô disponível comercialmente – Dash – para que seja capaz de mediar discussões em grupo entre crianças com habilidades visuais mistas. O robô move-se entre as crianças e permanece ao pé da criança que se encontra a falar, enquanto usa microfones para entender quanto é que cada criança está a contribuir para a discussão. O robô é ainda apaz de se deslocar até às crianças do grupo que falam menos para as incentivar a intervir mais. O Dash usa LEDs coloridos e expressões verbais para comunicar o envolvimento da conversa e incentivar a participação das crianças. “Os comportamentos do robô foram criados através do desenvolvimento de software, especificamente concebido para ser usado por crianças de capacidades visuais mistas. Os seus comportamentos são percecionados por qualquer criança, independentemente da sua acuidade visual”, esclarece a investigadora.

O estudo realizado com grupos de crianças teve como objetivo testar se a intervenção do robô promoveria a participação igualitária de crianças com e sem deficiência visual em conversas em grupo. “Estávamos interessados em avaliar o quão equilibrada seria a participação do grupo. Considerámos um grupo equilibrado sempre que as crianças falavam de forma justa pelo mesmo período de tempo. Por outro lado, considerámos desequilibrados os grupos em que pelo menos uma criança falava significativamente mais ou menos do que as outras”, esclarece Isabel Neto.

O estudo mostrou que o robô reduziu a discrepância entre a participação de crianças com e sem deficiência visual. A equipa alcançou estes resultados usando o que apelidaram de estratégia diretiva. Neste caso, o robô aproxima-se da criança menos participante, incentivando-a a falar. “Embora não tenha eliminado totalmente as discrepâncias, o robô reduziu consideravelmente essa desigualdade. Estamos a falar de um pequeno mas promissor passo no sentido de uma participação mais justa de todas as crianças nas atividades em sala de aula”, conclui a investigadora.

Esta investigação destaca as vantagens da criação de tecnologias inclusivas que qualquer pessoa pode usar, promovendo experiências justas e equitativas. No futuro, a equipa do Interactive Technologies Institute aperfeiçoará a estratégia diretiva para torná-la mais orgânica e natural. “Também queremos expandir nosso público e explorar como poderíamos usar um robô noutros grupos de habilidades mistas, como crianças no espectro do autismo”, revela. Os investigadores esperam que suas descobertas influenciem positivamente a dinâmica de grupo em casa, nas salas de aula e locais de trabalho.

Esta investigação resultou de uma colaboração entre o Interactive Technologies Institute, o Instituto Superior Técnico, o INESC-ID e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

23 maio 2023

Cem anos de Eduardo Lourenço: a redescoberta de Portugal e da cultura portuguesa

Agência Lusa (CC BY 3.0)
Um dos legados da obra multifacetada de Eduardo Lourenço – que contempla leituras inovadoras de Camões, de Fernando Pessoa, dos labirintos de Portual e do homem português – foi também restituir-nos um Antero de carne e osso, desde os anos que frequentou a Universidade de Coimbra, a debater-se, angustiadamente, entre a lama da política e a procura de uma âncora associada à esperança.

O centenário do nascimento de Eduardo Lourenço – que decorre hoje (dia 23 de Maio) e com as mais diversas e justas homenagens – abrange os grandes temas que analisou em extensão e profundidade. Durante mais de 60 anos, Eduardo Lourenço abriu novos horizontes com leituras inovadoras sobre a obra e vida de Camões, de Antero e de Fernando Pessoa. Outras questões que aprofundou abrangem a relação e aproximação com a Europa e sobretudo os labirintos de Portugal dos portugueses através dos tempos.

Recorde-se que foi publicado através das edições Gulbenkian, num único volume e com o título “Antero, Portugal como Tragédia”, os ensaios, as conferências e as anotações ocasionais que escreveu. Revela alguns inéditos, entre os quais um texto muito significativo acerca dos Açores. Concretamente sobre a ilha de São Miguel e a propósito da importância que o mar exerceu na vida e na obra de Antero.

Pôde, assim, concluir que, enquanto «o mar em Camões é um elemento exterior, uma estrada para chegar a um porto já sabido», o mar tem outra ressonância em Antero.  São inúmeras as referências ao mar em inúmeros poetas, escritores e dramaturgos portugueses. Mas, na opinião de Eduardo Lourenço, falta-lhes a autenticidade que se depara na obra de Antero. O mar, na literatura portuguesa, «só irrompeu em Antero» com a força, o deslumbramento e a plenitude da sua evidência oceânica e da sua profundidade cósmica. O mar que envolve a ilha de São Miguel e acompanha Antero até ao fim – insiste Eduardo Lourenço – «identifica-se com a sua luta espiritual, fluxo e refluxo eterno, entre ser ou não ser como a vida».

O início da Modernidade

Antero, para Eduardo Lourenço, desde que frequentou a Universidade de Coimbra, é «a maior referência intelectual portuguesa» e «o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano»; é outra conclusão de Eduardo Lourenço. E justifica que, vários ensaístas, para retirar Antero do «lote dos suicidas anónimos», atribuem a «procura desesperada da morte a depressões patológicas, a uma peripécia subjetiva ou, ainda, a uma tragédia sentimental», quando, afinal, se trata do «último ato de uma vida que desejou tocar a face de Deus e não a encontrou». A essência do trágico deriva, portanto, do «combate a rosto descoberto que destrói uma por uma, com uma espécie de raiva triste, todas as flores da ilusão, todas as esperanças que o nascer do dia oferece à alma humana».

Antero marcou o início da nossa modernidade. Representa «o seu próprio ato fundador» escreve Eduardo Lourenço. Verificou-se na criação poética – e esta é a primeira leitura das Odes Modernas – não apenas ao nível da ideia, no domínio da filosofia e da poesia social, a «poesia revolucionária do futuro». Estendeu-se a novas formas de expressão literária. Abriu caminho ao imaginário de Cesário Verde, de Camilo Pessanha e de Fernando Pessoa.

«Um ajuste de contas...»

Revestiu-se, ainda, de maior impacto na afirmação da modernidade o discurso que Antero proferiu na sessão inaugural das Conferências do Casino (1871). Intitula-se Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. A expulsão dos judeus, em 1496, a instauração da Inquisição, 1536, o catolicismo imposto pelo Concílio de Trento (1563), destacam -se entre as mais graves consequências que impediram Portugal de ter acesso às grandes aquisições filosóficas e científicas que renovaram a Europa.

Antero introduziu uma revolução cultural que «nem é de natureza literária, nem política, nem mesmo ideológica ou banalmente filosófica, embora se traduza em todos estes planos, mas religiosa» pondera Eduardo Lourenço, após o que esclarece: «proposta sem precedentes em Portugal «no círculo da religião, não abstratamente visada, mas concreta, institucional», abrangendo «todos os valores intocáveis, desde os da Pátria aos da Justiça, desde os da Ordem aos da Família».

Estabeleceu, pela primeira vez e em público, um «separar das águas, um ajuste de contas da nossa cultura com ela mesma». Condenou a doutrinação do Concílio de Trento, que amordaça a liberdade de consciência e todas as outras liberdades. Insurgiu-se contra a Inquisição e o catolicismo dogmático e intolerante. Por tudo isto Antero preconizou a urgência de uma rutura frontal.

As inovações aprovadas no Concílio Vaticano II e desenvolvidas em algumas encíclicas não interromperam a polémica desencadeada por Antero, nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Permanece atual. Continua a ser – acentua Lourenço – uma questão «recalcada, diluída, escamoteada, não apenas na ordem das ideias (que é essencial) mas nos efeitos delas, no plano dos sentimentos, dos afetos, dos rituais privados e públicos que os encarnam».

A mais de cem anos da «sua voluntária morte», Antero «ainda tem inimigos. E merece tê-los», acrescenta Eduardo Lourenço: «O horror seria que os não tivesse». (…) «A visão unanimista da Geração de 70 que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos, os antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que, com matéria viva, o atravessaram» (…) Antero deixou uma obra que «é a estrela negra, fascinadora e repulsiva». (…) «A configuração trágica da obra e da vida de Antero – a primeira entre nós que assumiu esse perfil – é odiosa a gregos e troianos».

As interpelações de sempre

Esta visão clarificadora de Eduardo Lourenço, em torno da problemática anteriana, do aprofundamento do homem múltiplo, incita-nos á leitura e à reflexão dos vários ciclos da criação «do poeta e do prosador de génio». E, também, à reflexão em torno do percurso exemplar do homem e do cidadão. Remete-nos, quantas vezes, para as vulnerabilidades do mundo contemporâneo.

Estamos a viver uma época de enorme complexidade agravada por dois extremos: o ressurgimento dos nacionalismos populistas que conduzem aos regimes totalitários; e a ambição ilimitada de aprofundar a cooperação global que não consegue garantir em liberdade e democracia, o pluralismo de opinião, a estabilidade e a confiança.

O tempo é outro. Mas perdura a oportunidade das suas advertências. Perdura a firmeza dos seus clamores: «amei os homens e sonhei ventura/pela Justiça heróica, ao mundo inteiro/pelo Direito ergui a voz ardente/ no meio das revoltas homicidas; / caminhando entre raças oprimidas/ fi-las surgir como um clarim fremente». E era com enorme ansiedade que interrogava os homens indiferentes e dispersos: «Quando há-de vir o dia da Justiça? /Quando há-de vir o dia do resgate? /Traiu-me o gládio, em meio do combate/ e semeei na areia movediça».

A insatisfação excedia todos os limites. E interpela-o com veemência: «Amei a Deus e em Deus pus alma e tudo/fiz do seu nome fortaleza e escudo» ;/ invoquei-o nas horas afrontosas/ em que o mal e o pecado dão assalto/; procurei-o com ânsia e sobressalto». /Ai dos que juntam com fervor as mãos, /ai dos que creem, ai dos que ainda esperam»! Deus nunca atendeu as súplicas de Antero. Um silêncio mais espesso confundiu-se com todas as lágrimas. Imperturbavelmente: «rolam, desabam, com fragor e espanto/ os astros pelo céu, frios e escuros».

Em cada dia e em cada ano que passavam Antero não conseguia qualquer resposta a um dos seus apelos de sempre: «Pelo mundo procuro um Deus clemente, / mas a ara só lhe encontro… nua e velha/Que és tu aqui? Olhar de piedade, / Gota de mel em taça de venenos…/Pura essência das lágrimas que choro/ e sonho dos meus sonhos! Se és verdade, / Descobre-te, visão, no céu ao menos!» Mais distantes e impassíveis os céus permaneciam calados nas alturas.

«Veneno e Podridão»

A classe política – tal como hoje – refugiava-se em vagos compromissos. Os intelectuais não se empenhavam em concretizar um projeto concreto e viável para transformar o presente e construir o futuro. Portugal mergulhara num conflito de interesses, numa teia de ódios e num emaranhado de ambições. O desgaste provocado nos jogos políticos e nas retóricas parlamentares esgotava as energias para enfrentar o medo, transpor a insegurança e ultrapassar o marasmo e o conformismo.

Antero deplorava tudo o que via e tudo o que ouvia. Não era possível mais. Não era possível pior: «que vento de ruína bate os muros, /e deixando pender as mãos cansadas, /num gesto inerte ao abandono extremo?». Mas a indignação tornara-se implacável perante a situação política e social o oportunismo, a ausência de carácter e a falta de vergonha.

Portugal debatia-se com a ausência de soluções para vencer a crise. Crise aguda: crise política e crise social. Crise, acima de tudo, moral. O entusiasmo de Antero, a entrega incondicional à vida e a aposta nos ideais humanitários converteram-se em desalento, em aversão, em horror: “em largo voo, penetrei na esfera/ livre, contente, bom como os que moram/ entre os astros na eterna primavera». O contato direto com a realidade quotidiana desfez todas as ilusões.

Estas e outras questões que Antero viveu e sofreu permitem-nos encontro desmistificado do homem, do poeta, do pensador e do cidadão que não conseguiu reprimir a luta contra os sinais preocupantes de desgaste político e social, o excesso da palavra e o abuso do silencio e exclama com insuportável amargura: «por que irrompe no azul do puro amor, /o sopro do desejo pestilento? /No combate do mundo traiçoeiro/só ressuma veneno e podridão».

Um dos legados da obra multifacetada de Eduardo Lourenço – e que vai, avultar nas comemorações nacionais e internacionais do centenário do nascimento – é a restituição de um Antero de carne e osso a confrontar-se, entre a lama da política e a procura de uma âncora associada à esperança.

22 maio 2023

TDT está "morta", diz CEO da Media Capital

Fran Jacquier/Unsplash
Pedro Morais Leitão considera que é preciso encontrar alternativas ao atual modelo de concessão.

A Altice Portugal quis renovar a licença de gestão da rede de Televisão Digital Terrestre (TDT), mas as vozes contra o estado atual da rede começam a surgir, com o grupo Media Capital à cabeça.

Depois de, no início do mês, Pedro Morais Leitão, CEO do grupo Media Capital, ter dito que, "no limite, "a TVI pode deixar de ser generalista para sair da TDT", agora, em entrevista esta segunda-feira à Agência Lusa, citada em diversos órgãos de comunicação social, vem considerar que há dificuldades em fazer o funeral ao sistema: "Na minha opinião, ela [TDT] está morta", considera o gestor.

Para Morais Leitão, é necessário parar de sustentar "um sistema de estradas nacionais que quem o paga são os privados" e lembrou os problemas económicos que a estação de Queluz de Baixo teve no final da década de 90 do século XX, quando decidiu montar a sua própria rede de emissão, na qual fez um grande investimento. Em setembro de 1997, o Expresso escrevia mesmo que a situação do canal era de "falência técnica" e que se "aguardava um plano de recuperação". A empresa acabou por pedir insolvência no ano seguinte. Ainda assim, a TVI "tinha a sua própria rede de transmissão e fazia cobertura nacional com custos inferiores aos custos que paga agora", diz o gestor.

O gestor pede assim mudanças na forma como a licença será renovada, alterando o prazo da concessão para um período mais curto, em vez dos quinze anos atuais: "Todas as dúvidas tecnológicas que existem sobre o próximo passo serão, em princípio, resolvidas nos próximos três ou quatro anos", diz, acrescentando que Portugal já tem infraestruturas para sustentar um sistema universal de acesso a televisão por outra via. "Achamos que os oito milhões de euros que pagamos [as estações generalistas] anualmente chegam para pôr televisão por via digital em todas essas casas", frisa.

A TDT cobre 100% do território nacional, através de sinal terrestre ou de satélite, sendo que a oferta de canais é baixa, quando comparada com outros países europeus. Segundo dados de março de 2023, 96,4% das famílias dispunham de algum serviço de televisão por subscrição. Atualmente, estão presentes na grelha RTP 1, RTP 2, RTP 3, RTP Açores, RTP Madeira, RTP Memória, SIC, TVI e AR TV.

21 maio 2023

Morreu a jornalista Lídia Sales

Facebook Lusopress.tv
Foi uma das fundadoras do meio de comunicação social Lusopress.

A jornalista portugesa Lídia Sales morreu este domingo em França. A notícia foi avançada pela Lusopress.tv, publicação portuguesa sedeada em França onde Sales era diretora.

Numa nota publicada na página de Facebook, a publicação refere que a jornalista "foi o pilar da Lusopress, o grande projeto de vida do casal Gomes de Sá. Querida e estimada por todos os que se cruzaram consigo, vai deixar muitas saudades", acrescenta a publicação.

Lídia Sales nasceu em Lisboa, tendo emigrado para França em 2003 e fundado o projeto Lusopress com o marido José Gomes de Sá dois anos mais tarde.

As cerimónias fúnebres acontecem nas capelas exequiais de S.João de Deus, na praça de Londres, em Lisboa, na próxima terça-feira, a partir das 18h, sendo que o funeral acontece na quarta-feira a partir das 11h15.

Lídia Sales tinha 68 anos.

Tondela candidata Festa das Cruzes a Património Imaterial nacional

Município de Tondela
Celebração tem mais de 300 anos.

A câmara municipal de Tondela efetivou a candidatura da Festa das Cruzes ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. A iniciativa da autarquia foi efetivada no passado dia 18 de maio, sendo que foi anunciada publicamente este sábado.

Numa nota enviada à imprensa, a autarquia esclarece que a tradição vem do tempo da conquista de território: "A Festa das Cruzes acontece há mais de 300 anos, juntando as povoações de Castelões, Santiago de Besteiros e Campo de Besteiros, povos que anualmente, por altura da Ascensão, sobem à serra, juntando-se aos habitantes do Guardão, para cumprir “a promessa antiga” de agradecimento à Nossa Senhora dos Milagres pela sua ajuda na expulsão dos mouros", explica o município, acrescentando que os fiéis das três freguesias "percorrem o mesmo itinerário ancestral, da Capela de São Bartolomeu até ao Guardão, ao som de ladainhas, para o abraço das suas cruzes com as da freguesia anfitriã, sob uma chuva de pétalas de flores. A singularidade desta manifestação reside no momento em que as cruzes se tocam, duas a duas, repetindo o abraço do “tempo da memória”, em que o povo se abraçou por ter conseguido, com ajuda divina, expulsar os mouros", acrescenta.

A presidente da autarquia Carla Antunes Borges considerou que a candidatura é uma "obrigação de cuidar e preservar, queremos que seja uma festa de todos, uma festa nacional. Se este registo nos for concedido a Festa das Cruzes será elevada a um patamar nacional", acrescenta.

A efetivação aconteceu simbolicamente no mesmo dia em que se celebrava tradicionalmente a festa, quinta-feira da Ascenção. A partir de 2022, a celebração começou a ser celebrada no sábado seguinte para que atraísse mais pessoas.

20 maio 2023

Uma importação de práticas não democráticas: o ataque do Quirguistão aos media, jornalistas e bloggers

JoPanwatD
Os jornalistas são alvo de inúmeras acusações, agressões e processos judiciais.

O governo do Quirguistão está a importar práticas pouco liberais da Rússia e estas mudanças tiveram impacto na vida pública e afetaram a atividade dos meios de comunicação social, dos jornalistas e dos bloggers.

A 5 de outubro de 2020, começaram os protestos no Quirguistão em resposta às eleições parlamentares do dia anterior, cujo resultado foi considerado injusto. Assim, o governo em funções foi destituído e Sadyr Japarov subiu ao poder. As medidas autoritárias assertivas que se seguiram, em especial os ataques do Estado a meios de comunicação social, a bloggers e jornalistas, são incidentes pouco comuns num país que há décadas se posiciona como "uma ilha" de democracia na Ásia Central.

'Cópia e cola': a lei sobre proteção conta informações falsas

Tal como os jornalistas na Rússia têm sentido, a pressão sobre os meios de comunicação social tem aumentado constantemente desde que Vladimir Putin assumiu o poder. Nos últimos três anos, na Rússia, os jornalistas que criticaram o governo ou o Presidente Putin foram arbitrariamente detidos e os meios de comunicação social que o fizeram foram rotulados de agentes estrangeiros e encerrados.

O governo quirguistanês propôs uma lei sobre agentes estrangeiros, em grande parte inspirada neste modelo russo, para restringir as atividades de Organizações Não Governamentais (ONG) e dos meios de comunicação social estrangeiros, mas não foi adotada. O governo também passou a regular a esfera do online, introduzindo uma nova lei quanto à proteção contra informações falsas (também conhecida como a lei contra as fakes) em agosto de 2021. Em novembro de 2022, a administração presidencial publicou para discussão pública o projeto de lei sobre "Organizações não comerciais não estatais". O objetivo da lei é proteger os interesses do Estado contra atividades ilegais de instituições não estatais. Se a lei for aprovada, a Procuradoria-Geral da República e o Ministério da Justiça terão acesso a documentos internos relacionados com as fontes de financiamento, as despesas e outras informações das ONG, o que lhes permitirá visá-las em investigações com base nessas informações.

Ataques contra os media, jornalistas e bloggers

Em outubro de 2022, o Ministério da Cultura, da Informação, do Desporto e da Juventude encerrou o site da filial da Radio Free Europe (RFE/RL), a Azattyk, alegando que, uma vez que a Azattyk tinha retransmitido informações não confirmadas oriundas de outra filial da RFE/RL, a Nastoyashee Vremya, sobre os confrontos entre tajiques [nota]NOTA DO TRADUTOR: povo de origem iraniana e que vivem em comunidades no Afeganistão, Tajiquistão e Uzbesquistão [/nota] e quirguizes em Batken em Setembro de 2022, o meio de comunicação social não era imparcial e pôs-se do lado tajique ao dar as notícias. A maioria acredita que a verdadeira razão para o encerramento foi uma investigação da Azattyk sobre a controversa questão do reservatório de água de Kempir-Abad. A investigação foi oportuna e crítica porque forneceu informações detalhadas sobre o reservatório e partilhou as preocupações locais sobre o impacto da decisão na sua vida quotidiana. Poucos dias depois, as contas bancárias da Azattyk foram congeladas por ordem do Comité Estatal de Segurança Nacional da República do Quirguistão. Até à data da publicação desta notícia, a Azattyk está oficialmente encerrada.

Pouco antes do anúncio da decisão do governo de encerrar o site da Azattyk, um grupo de "ativistas" pró-governo organizou um protesto junto às instalações do órgão de comunicação social em Bishkek, em 13 de outubro. Os manifestantes, de cara tapada, empunhavam cartazes apelando ao encerramento das instalações da Azattyk e de outros media independentes, como a Kloop e a Kaktus, e culpavam a Azattyk, a Kloop e a Kaktus pela desinformação durante a invasão tajique do Quirguistão em setembro de 2022 e os confrontos de junho de 2010 no sul do país. Além disso, os manifestantes estavam preocupados com as suas "políticas" de promoção de valores não tradicionais, como os posicionamentos positivos em relação à questão LGBTQ+. O líder do protesto, Ilimbek Israilov, ameaçou incendiar o edifício da Azattyk, se o parlamento quirguize não aprovasse a lei sobre os agentes estrangeiros. Para além disso, houve tentativas de acusar e difamar a Azattyk com a ajuda de "trolls" pagos. Estes utilizadores deixavam comentários negativos nas notícias publicadas nas páginas da Azattyk nas redes sociais (Facebook, Instagram e YouTube).

Antes, em agosto de 2022, as autoridades também tentaram bloquear o site da agência noticiosa 24.kg durante dois meses. Na carta que enviaram às operadoras, as autoridades não especificaram o conteúdo com base no qual o site da agência havia sido suspenso. Pouco depois da 24.kg se ter dirigido ao Ministério da Cultura para obter um comentário oficial, descobriram que a decisão havia sido anulada pelo governo.

O encerramento do site da Azattyk foi um esforço para assumir o controlo do espaço mediático online e constitui uma tentativa de atacar o jornalismo independente (em especial, o jornalismo de investigação) no Quirguistão. No passado, os artigos de investigação da Azattyk (redigidos em conjunto com a OCCRP e a Kloop) sobre esquemas de corrupção estatal e de branqueamento de capitais, relacionados com o antigo subchefe dos serviços aduaneiros quirguizes Raimbek Matraimov, criaram uma enorme ressonância nas comunidades e contribuíram para o protesto de outubro de 2020 e que resultou numa mudança de poder.

Hoje, o jornalismo de investigação no Quirguistão enfrenta vários desafios e alguns jornalistas foram alvo de inúmeras acusações, agressões e processos judiciais. Um caso recente e proeminente foi o do diretor do media de investigação Temirov Live. Bolot Temirov foi acusado de posse de droga, aquisição ilegal dum passaporte quirguize e passagem ilegal de fronteira. No entanto, devido à pressão pública, foi considerado inocente no julgamento e foi libertado em setembro de 2022. No entanto, no início de Novembro, o Ministério Público recorreu da decisão do tribunal. A perseguição a Temirov começou depois deste ter publicado uma investigação sobre o chefe do Comité Estatal de Segurança Nacional, Kamchybek Tashiev, e a sua família, especificamente sobre o seu esquema de corrupção, a participação da sua empresa em concursos públicos, entre outros. Em 23 de novembro, Bolot Temirov foi expulso à força do Quirguistão para a Rússia logo após a audiência em tribunal.

O número de utilizadores do Facebook e de outras redes sociais censurados e interrogados pelos serviços de segurança quirguizes pelas suas críticas ao presidente e ao governo em funções está a aumentar rapidamente. Só desde o início de 2022, sete bloggers, incluindo os relacionados com os meios de comunicação social críticos, foram censurados e interrogados pelos serviços de segurança. Entre 23 e 27 de outubro de 2022, teve lugar no Quirguistão uma nova ronda de detenções de ativistas da sociedade civil, ex-políticos e políticos em exercício. No total, 27 pessoas foram detidas durante dois meses antes de serem julgadas, incluindo seis mulheres. Os críticos manifestaram-se publicamente, nas suas páginas nas redes sociais ce durante a assembleia pública (Kurultai) organizada em Uzgen em 15 de outubro, contra a entrega do reservatório de água de Kempir-Abad ao Uzbequistão, no âmbito dum acordo fronteiriço entre os dois países. Dezasseis detidos continuam atrás das grades à data da publicação deste artigo. De acordo com o código penal, a pena pode ir até aos dez anos de prisão. Assim, o governo quirguize tem-se empenhado cada vez mais em atacar os meios de comunicação social livres e em censurar as publicações da sua própria população nas redes sociais, pondo em risco a liberdade dos meios de comunicação social e o direito de expressão.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito pelo projeto Advox, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

16 maio 2023

Observador aposta em novo podcast narrativo

Observador
"Piratinha do Ar" conta com narração de Margarida Vila-Nova e música de David Fonseca.

Um jovem de 16 anos desvia um voo regional e exige dez milhões de dólares em troca dos 82 passageiros a bordo. Pode parecer o ponto de partida de um filme de Hollywood, mas aconteceu mesmo a bordo de um voo da TAP em 1980 e será o tema do próximo podcast narrativo do jornal digital Observador: "Piratinha do Ar" estreia a 23 de maio.

Inserido no projeto "Podcast Plus", "Piratinha do Ar" narra a história de Rui Rodrigues, um adolescente de 16 anos que desvia um voo da TAP, armado apenas com "uma pistola que alguém tinha em tempos abandonado no táxi do pai, faltou ao liceu e embarcou no voo noturno de Lisboa para Faro. Depois, já a sobrevoar o Algarve, cumpriu o resto do plano que tinha magicado ao longo de meses: invadiu o cockpit, que em plena era dourada da pirataria aérea nem fechadura tinha, e obrigou o Boeing 727 da TAP a ser desviado para Madrid, com outros 82 passageiros a bordo", descreve a sinopse do jornal digital.

https://open.spotify.com/episode/6jbLRyItcPzgvQjPvlIwsr?si=c5a1ae9ee8dd4782

Descrito pela imprensa na época como um "bom aluno e filho exemplar, fã de óvnis, que nunca tinha passado uma única noite fora de casa", Rodrigues ganhava a alcunha que ficaria na memória: "Piratinha do ar". O podcast faz, assim, uma viagem à década de 80, entrevistando os intervenientes e mostrando os arquivos de imprensa da época e próprio processo judicial.

O guião e as entrevistas foram conduzidos pelo jornalista do Observador Miguel Cordeiro, sendo que o podcast será narrado pela atriz Margarida Vila-Nova. David Fonseca é o autor da banda sonora original criada especificamente para o podcast.

Depois de "O Sargento na Cela 7" que, segundo os números do jornal, "já foi ouvido mais de meio milhão de vezes", "Piratinha do Ar" é a nova adição ao "Podcast Plus", um projeto de podcasts narrativos e que reforça o foco do jornal digital e rádio neste segmento, estando previsto o lançamento de cinco séries áudio até ao final de 2023.

15 maio 2023

Os rituais da felicidade

Pressmaster
Enquanto o rito é o conceito, o ritual é a prática.

O ser humano por natureza tem necessidade de criar o novo, explicar o inexplicável, questionar o óbvio e quando possuído pelo medo construir um andaime de segurança nem que, na verdade, seja apenas uma ilusão. Estamos rodeados por andaimes que em forma de ritos e rituais nos seguram e não permitem que percamos o sentido.

A palavra rito tem origem no latim e é um termo que se refere aos costumes invariáveis, já estabelecidos por meio de regras ou normas de uma cerimônia de determinada cultura ou religião.

Um rito é baseado nas crenças das pessoas que o realizam e é uma forma de simbolizar e transmitir as ideias e os conceitos de algum tipo de mito.

Enquanto o rito é o conceito, o ritual é a prática. Dessa forma, a celebração do rito, isto é, a concretização dos costumes, das regras estabelecidas e dos ensinamentos tradicionais é chamada de ritual. Formado por um conjunto de ações, símbolos, palavras e/ou gestos, o ritual – palavra que também tem origem no latim – é feito com o objetivo de celebrar uma tradição e alcançar um determinado resultado. Por exemplo, a cerimônia do casamento é um ritual elaborado para aplicar o rito de união entre duas pessoas e, desta forma, alterar o seu “estatuto” de pessoa solteira para casada.

Os ritos e os rituais ajudam a criar os contornos na nossa vida. Simples práticas como os encontros familiares ao Domingo, as férias de verão, os bolos com velas no dia de aniversário, os presentes no Natal, entre outros comportamentos, pela sua previsibilidade trazem uma subconsciente tranquilidade neste mar inquieto da rotina diária. Numa perspetiva superior, os rituais religiosos podem servir como analgésicos à dor da alma quando os da farmácia não fazem efeito. As repetidas palavras sempre nas mesmas alturas, como “Feliz Ano Novo”, “Parabéns”, “Boa Páscoa” dão esperança para que o desejado aconteça.

Voltando ao casamento, as palavras que compõem a promessa matrimonial mudam a realidade ou fazem-nos acreditar nessa mudança.

Eu, recebo-te por meu (minha) esposo(a) e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe

Estas famosas palavras são por muitos tratadas como uma chave para a eterna felicidade ou uma garantia para tal, num mundo onde nada está garantido.

Tal como o par perfeito são o cérebro e o coração, os rituais criados na base do instinto ou necessidade são andaimes que equilibram o que é fisicamente inevitável.

14 maio 2023

Google pagou mais de cem mil euros em anúncios no Facebook contra projeto de lei sobre fake news no Brasil

Pawel Czerwinski/Unsplash
Desde abril, a empresa gastou mais de 670 mil reais, cerca de 125 mil euros, em publicidade contra o PL 2630, segundo dados da Meta.

Este artigo é uma republicação integral de um artigo de Bruno Fonseca e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

O Google foi o maior anunciante político nas redes do Facebook e Instagram no início do mês de maio no Brasil. Segundo a Agência Pública apurou, o Google gastou mais de R$ 470 mil [nota]cerca de 88 mil euros[/nota] em anúncios contra o PL[nota]Projeto de Lei[/nota] 2630, o chamado PL das Fake News, no Facebook e Instagram entre 30 de abril e 6 de maio. Ao todo, desde abril, o Google pagou mais de R$ 670 mil [nota]cerca de 125 mil euros[/nota] em anúncios, todos eles de postagens contrárias ao PL.

As campanhas funcionam da seguinte forma: o Google paga para a Meta - a empresa que é dona das redes Facebook e Instagram - para que postagens sejam impulsionadas como propaganda e tenham maior alcance. Ou seja, esses conteúdos aparecem com maior frequência e chegam a mais pessoas que usam as redes sociais. 

Para se ter uma ideia da dimensão dessa campanha, em apenas um anúncio entre os dias 1 e 3 de maio, o Google pagou de R$ 200 mil a R$ 250 mil [nota]de 37 mil a 47 mil euros[/nota] - o PL das Fake News iria ser votado no dia 2 de maio. Com isso, um vídeo de 15 segundos que afirma que “o PL 2630 pode aumentar a confusão sobre o que é verdade ou mentira no Brasil” apareceu mais de 1 milhão de vezes para usuários do Facebook e Instagram no Brasil.

A peça de publicidade ainda afirma que “precisamos melhorar o texto deste projeto de lei” e convoca o usuário: “fale com seu representante nas redes sociais ainda hoje”. A postagem inclui um link do blog do Google no Brasil. Nele, um texto de Marcelo Lacerda, Diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas, diz que “o PL das Fake News pode aumentar a desinformação no Brasil” e que “o PL 2630 pode piorar a sua internet”.

Agência Pública/Reprodução

Antes dessa ação contra o projeto de lei, a última campanha do Google registrada no Facebook e Instagram tinha sido em novembro de 2022, sobre o mês da consciência negra. Nela, o Google pagou menos de R$ 100[nota]cerca de 19 euros[/nota]. O anúncio atingiu cerca de 35 mil telas.

Agência Pública/Reprodução

Google dirigiu campanha para empresários, marketeers, advogados e políticos

Donos de empresas, diretores, chefes de marketing, profissionais de relações públicas, advogados, defensores públicos, juízes, vereadores e servidores públicos foram alguns dos públicos para os quais o Google mirou a sua campanha contra o PL das Fake News.

Isso se chama direcionamento detalhado. Quem anuncia no Facebook pode escolher incluir ou excluir determinados públicos a serem atingidos pelas suas postagens. 

Além disso, o Google segmentou a sua campanha para pessoas com os seguintes interesses: meios de comunicação, revistas, jornalismo de cidade, negócios e economia financeira.

O anúncio mais caro da campanha, ativo entre 28 de abril e 2 de maio, foi visto por mais mulheres que homens. São Paulo foi o estado onde o anúncio foi mais exibido.

Google fez campanha política sem indicação

A campanha milionária do Google nas redes do Facebook inclui a veiculação de anúncios sem a devida identificação de conteúdo político, segundo dados da própria Biblioteca de Anúncios da Meta.

Explicando: no Brasil, quem deseja patrocinar campanhas no Facebook ou Instagram que tratem de assuntos sociais, eleições ou política precisa indicar que os anúncios falam disso. Esse rótulo aparece para a Meta e para os usuários das redes. Ao fim, todos esses dados vão para a Biblioteca de Anúncios da Meta, que está disponível para todas as pessoas.

Conforme a Pública apurou, metade dos anúncios do Google contra o PL 2630 nos últimos sete dias foram veiculados sem rótulo dizendo se tratar de uma campanha política.

Está nesse grupo dos “sem rótulo” o segundo anúncio mais caro feito pelo Google nos últimos dias: uma peça, exibida para mais de 1 milhão de telas e com o mesmo vídeo que diz que “o PL 2630 pode aumentar a confusão sobre o que é verdade ou mentira no Brasil” foi veiculada sem rótulo. O Google pagou de R$ 400 mil a R$ 450 mil [nota]entre cerca de 75 mil e 84 mil euros[/nota] apenas para impulsionar esse anúncio.

A Pública questionou a Meta se isso configura infração às regras da plataforma, que respondeu que não irá comentar sobre o assunto. Também perguntamos ao Google por que não informou que os anúncios tratavam de assuntos sobre questões sociais, eleições ou política.

Após a publicação da reportagem, o Google respondeu que não iria comentar “sobre os valores exibidos na ferramenta da Meta”. A empresa reconheceu que os anúncios haviam sido veiculados sem rótulo: “Por uma questão técnica, parte dos anúncios que rodamos nas plataformas da Meta estavam com a classificação incorreta. Assim que identificamos o problema, paramos a campanha e realizamos as correções necessárias”. A empresa ainda acrescentou que “a campanha está suspensa desde o dia 2 de maio, em cumprimento a uma ordem do Supremo Tribunal Federal”. A resposta completa está aqui.

Aprovação do PL está bloqueada na Câmara dos Deputados

O PL 2.630, que ganhou o apelido de PL das Fake News, ainda precisa ser votado na Câmara dos Deputados. Na primeira semana de maio, a votação, que estava na pauta do dia, foi adiada. O texto inicial foi aprovado no Senado há três anos.

O principal ponto do projeto é obrigar as plataformas como Google e Meta a proativamente remover conteúdos que se enquadrem em situações como crimes contra o Estado Democrático de Direito, atos de terrorismo ou preparatórios, estímulo ao suicídio ou à automutilação e crimes contra crianças e adolescentes. O texto também regula transparência das plataformas, acesso a dados via API e a imunidade parlamentar. O projeto vale para plataformas com mais de 10 milhões de usuários no Brasil.

Além disso, o texto trazia mudanças sobre direitos autorais e remuneração de conteúdos jornalísticos compartilhados nas redes sociais. Segundo reportagens, o relator do projeto, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), deve retirar esses trechos do PL, para serem votados separadamente.

No dia 1º de maio, o Google exibiu em sua home um link contra o PL. Quem acessava a página — a home do Google é utilizada por 97% dos 160 milhões de brasileiros que usam a internet — via a afirmação de que “O PL das Fake News pode aumentar a confusão sobre o que é verdade ou mentira no Brasil”. O link direcionava para o mesmo texto do Google que foi veiculado nos anúncios no Facebook.

Agência Pública/Reprodução
Licença Creative Commons

Este artigo foi originalmente publicado no site Agência Pública e republicado na íntegra n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY-ND 4.0.

Suécia vence o Festival da Canção

Corinne Cumming/EBU
Portugal termina em 23.º lugar.

Loreen, da Suécia, venceu a final da edição 2023 do Festival Eurovisão da Canção, que decorreu este sábado em Liverpool, no Reino Unido.

O tema "Tattoo" conseguiu 583 pontos, depois da soma da votação dos juris nacionais e do público. Portugal, com o tema "Ai, Coração" de Mimicat, conseguiu o 23.º lugar, tendo obtido 59 pontos.

A Finlândia e Israel conseguiram o segundo e terceiro lugares, respetivamente.

É a sétima vez que o país vence a Eurovisão, desde que participou pela primeira vez no festival em 1958. Loreen venceu o festival por duas vezes. A primeira vez que a cantora venceu foi com o tema "Euphoria" em 2012.

https://www.youtube.com/watch?v=BE2Fj0W4jP4

13 maio 2023

Eurovisão 2023: Portugal já atuou em Liverpool

Corinne Cumming/EBU
Vê ou revê a atuação de Mimicat com Ai Coração
https://www.youtube.com/watch?v=HYfkxX4PFyw

A música "Ai Coração" foi a segunda a subir ao palco da final do Festival Eurovisão da Canção, que decorre este sábado em Liverpool, no Reino Unido.

Mimicat é a representante portuguesa, sendo que está concorrer por uma boa posição com mais 25 países: Áustria, Suíça, Polónia, Sérvia, França, Chipre, Espanha, Suécia, Albânia, Itália, Estónia, Finlândia, Chéquia, Austrália, Bélgica, Arménia, Moldávia, Ucrânia, Noruega, Alemanha, Lituânia, Israel, Eslovénia, Croácia e Reino Unido.

A Ucrânia devia ser a anfitriã deste ano, depois de vencer a edição de 2022. No entanto, devido à guerra naquele país, o Reino Unido organizou a edição em parceria com a emissora pública ucraniana.

A ascensão e queda da diversidade linguística na Eurovisão

Corinne Cumming/EBU
As tendências inverteram-se inúmeras vezes ao longo dos anos.

Este artigo foi originalmente publicado por Kelsey Wetherbee no blogue da Langoly e é republicado no site Global Voices como parte de um acorde de parceria de conteúdos.


No sábado, 13 de Maio, pessoas de todo o mundo vão assistir à final do Festival Eurovisão da Canção. O que começou por ser um pequeno concurso de música entre alguns países transformou-se num grande espetáculo internacional que produz êxitos e transforma os concorrentes em estrelas internacionais.

É uma máquina bem oleada, como tem de ser para coordenar um evento desta envergadura. As regras são precisas, desde o número de pessoas que podem atuar em palco até à duração máxima das canções, e os concorrentes têm de as cumprir escrupulosamente. Mas as regras relativas às línguas que podem ser utilizadas nunca parecem ser muito permanentes. Ao longo dos anos, mudaram, voltaram a mudar e mudaram novamente.

Há um debate permanente sobre a língua em que os concorrentes devem cantar. Embora em tempos só fosse utilizada no festival pelo Reino Unido e pela Irlanda, a língua inglesa tem vindo a dominar o palco. Os intérpretes estão a optar por uma das línguas oficiais dos seus países, em detrimento de uma língua mais conhecida, numa tentativa de ganhar popularidade junto dos jurados e dos fãs. Mas será esta uma estratégia eficaz?

https://youtu.be/pxI7KVLDvzg

Eurovisão: uma curta história

De acordo com o site da Eurovisão, "o Festival Eurovisão da Canção começou como uma experiência técnica na transmissão televisiva: a transmissão em direto, simultânea e transnacional". O primeiro Festival Eurovisão da Canção aconteceu em 1956 com sete países em competição: Países Baixos, Suíça, Bélgica, Alemanha, França, Luxemburgo e Itália.

Cada país apresentou duas músicas a concurso, tendo a Suíça sido declarada a primeira vencedora. Só no concurso de 1958 é que se estabeleceu o precedente do país vencedor ser o anfitrião do evento do ano seguinte - uma tradição que se mantém até hoje, sempre que possível.

Nas décadas seguintes, o festival cresceu rapidamente e hoje cada edição conta geralmente com cerca de 40 países a competir. Prevê-se que 37 países atuem no concurso de 2023.

No início, não existia qualquer regra sobre a língua em que um país podia atuar e, até 1965, todos os países utilizaram a sua língua nacional. A Suécia foi o primeiro país a quebrar a norma nesse ano, competindo com uma canção em inglês. No ano seguinte, os organizadores implementaram a primeira regra segundo a qual um país deve competir numa das línguas oficialmente reconhecidas do país.

A regra foi abolida em 1973, mas foi reintroduzida em 1977. No entanto, a Bélgica e a Alemanha foram autorizadas a competir em inglês nesse ano, uma vez que já tinham escolhido as suas músicas antes de ser anunciada a alteração da regra.

Desta vez, a regra manteve-se durante 22 anos, até 1999. Na competição desse ano, 14 das 23 canções tinham letras em inglês e a utilização maioritária da língua inglesa na competição tem-se mantido estável desde então.

Os idiomas na Eurovisão

A questão continua a ser se cantar em inglês pode dar mais hipóteses de ganhar o concurso. Até à data, a resposta é claramente afirmativa, tendo em conta que 34 canções vencedoras (ou 46,6%) foram cantadas em inglês. Mesmo se retirarmos as sete vitórias da Irlanda e as cinco vitórias do Reino Unido (os dois países concorrentes que têm o inglês como língua oficial), ainda assim são 22 as vezes que um país ganhou por não cantar na sua língua oficial.

No nosso site, pode ver um mapa que compara a percentagem de participações de cada país que competiu numa língua que não a sua língua oficial com o número de vezes que o país ganhou.

Esse mapa apresenta também alguns padrões interessantes. Podemos ver uma tendência de oeste para leste. Em geral, os países ocidentais competem mais nas suas línguas nacionais, enquanto os países da Europa Central e Oriental preferem as línguas não oficiais. No entanto, quando comparamos isso com o número de vitórias, verifica-se que os países da Europa Ocidental têm geralmente mais vitórias do que os países da Europa Oriental, o que sugere uma correlação favorável para cantar numa língua materna.

E, embora a eliminação da regra da língua em 1999 tenha levado a um aumento dramático das participações em inglês, o pico da tendência pode estar iminente. A partir de 2018, registou-se um aumento de participações noutras línguas para além do inglês. Em 2021, os três primeiros classificados cantaram todos nas línguas oficiais do seu país, algo que não acontecia desde 1995. O vencedor de 2022, a Ucrânia, continuou a tendência cantando na sua língua oficial, o ucraniano.

Embora os vencedores recentes tenham cantado na língua oficial do seu país, isso não é assim tão comum. O gráfico mostra os 10 vencedores mais recentes que cantaram na língua oficial do seu país: o mais recente foi a Ucrânia, em 2022, e o décimo foi a Irlanda, em 1992, uma diferença de 30 anos.

Controvérsia e tendências linguísticas

Embora cantar numa língua não oficial seja permitido há muitos anos e se tenha tornado a norma, ainda há pessoas que não estão satisfeitas com esta decisão. Em 2008, o concorrente francês, Sébastien Tellier, cantou a canção "Divine" em inglês. Este facto gerou controvérsia entre os responsáveis pela proteção da língua francesa.

O secretário de Estado francês para a Cooperação e da Francofonia Alain Joyandet afirmou: "Quando se tem a honra de ser selecionado para representar a França, canta-se em francês". O político francês François-Michel Gonnot também apresentou uma queixa contra o canal de radiodifusão francês France 3 [Nota do tradutor: France 3 é um dos canais de serviço público francês de rádio e televisão], afirmando que "a defesa da língua francesa faz parte da responsabilidade do canal" e apelou a que Tellier cantasse a sua canção da Eurovisão em francês.

Mais recentemente, a representante espanhola Ruth Lorenzo foi criticada pela Real Academia Espanhola, o organismo governamental que regula a língua espanhola, pela sua escolha de cantar "Dancing in the Rain" maioritariamente em inglês. Ruth respondeu dizendo: "O inglês é uma realidade em Espanha e eu quis captar isso na minha canção". E prosseguiu, afirmando que apenas o refrão seria cantado em inglês.

Outra tendência interessante é a inclusão de outros tipos de línguas nas atuações, como as línguas imaginárias e as línguas gestuais. A Bélgica foi o primeiro país a concorrer com uma canção numa língua imaginária em 2003. Urban Trad, o concorrente belga, ficou em segundo lugar com a canção "Sanomi". A Bélgica voltou a competir com uma canção numa língua imaginária em 2008, mas com muito menos sucesso. Os Países Baixos também cantaram numa mistura de inglês e de uma língua imaginária em 2006, igualmente com pouco sucesso.

https://youtu.be/jFrO6QUl61k

Também houve vários casos de utilização da língua gestual. Cinco países incluíram a língua gestual nas suas atuações. No entanto, as regras estipulam que uma canção tem de ter vozes e não pode ser puramente instrumental, pelo que uma canção interpretada apenas em língua gestual não é tecnicamente permitida. No entanto, estas tendências mostram a inclusão e a crescente popularidade de diferentes línguas.

O que esperar da edição deste ano

A edição deste ano está a aproximar-se rapidamente. Uma vez que os países têm de escolher previamente a sua canção, já sabemos quais serão as línguas deste ano. Dos 37 países, 28 irão competir com uma canção totalmente em inglês ou que incluírá letras em inglêsem algum momento. Embora esta seja uma ruptura com a tendência dos últimos anos de incluir mais línguas oficiais e menos inglês, isto pode dever-se ao facto de o inglês ser a língua do país anfitrião deste ano, o Reino Unido.

Apesar deste ano assistirmos a um domínio quase total da língua inglesa na Eurovisão, no cerne do espetáculo está o facto de reunir pessoas para uma experiência partilhada. Apesar de ter sido a vencedora do ano passado, a Ucrânia não será a anfitriã do evento devido a preocupações de segurança decorrentes da contínua invasão da Rússia. Em vez disso, fizeram uma parceria com o Reino Unido, o segundo classificado do ano passado, e o espetáculo terá lugar em Liverpool. O slogan deste ano é "United By Music" ("Unidos pela Música") para mostrar a parceria entre o Reino Unido e a Ucrânia, bem como o poder da música para unir as pessoas. As rondas semifinais serão transmitidas na terça-feira, 9 de Maio, e na quinta-feira, 11 de Maio. Os finalistas competirão no sábado, 13 de Maio.

https://open.spotify.com/playlist/37i9dQZF1DWVCKO3xAlT1Q?go=1&sp_cid=98352a7527a97d1b71d6651931380068&utm_source=embed_player_p&utm_medium=desktop&nd=1
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Este artigo, escrito por Kelsey Wetherbee para o blog da Langoly, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

11 maio 2023

Os 75 anos do nascimento de José Mariano Gago e o relançamento do "Manifesto para a ciência em Portugal"

Site "Homenagem a Mariano Gago"/Isabel Pina/Domínio Público
O ensaio "Manifesto para a Ciência em Portugal", da autoria de José Mariano Gago, foi publicado pela primeira vez em 1990.

Por ocasião dos 75 anos do nascimento de José Mariano Gago, a editora Gradiva e o LIP-Laboratório de Instrumentação e Partículas reeditam o ensaio "Manifesto para a Ciência em Portugal", publicado em 1990 pelo fundador do LIP e primeiro dos ministros da ciência em Portugal. O lançamento, sob o mote “Na reedição do ‘Manifesto’, relancemos o debate”, far-se-á com três mesas redondas simultâneas em Lisboa, Coimbra e Braga, que contarão com um painel de convidados, a participação do público e uma conclusão conjunta online. Será no dia 16 de Maio, dia nacional do Cientista e data do aniversário de José Mariano Gago.

O ensaio "Manifesto para a Ciência em Portugal", da autoria de José Mariano Gago, foi publicado pela primeira vez em 1990 pela Gradiva, e há muito que se encontrava esgotado. A editora lança agora, com o apoio do LIP - Laboratório de Instrumentação e Partículas, uma pequena reedição de 500 exemplares. Numa nota prévia à nova edição, Mário Pimenta, actual presidente do LIP e professor catedrático do Instituto Superior Técnico, que teve Mariano Gago como orientador do seu doutoramento e como colega no LIP, explica da seguinte forma o propósito desta nova edição:

A 16 de Maio de 2023, o José Mariano Gago faria 75 anos. Passaram já oito anos desde a sua morte, e 33 desde a publicação do seu "Manifesto para a Ciência em Portugal". Contudo, o seu pensamento e acção continuam a ser de extrema actualidade: não há desenvolvimento científico sustentado numa sociedade sem cultura científica, ou em que confunda ciência e tecnologia, reduzindo a primeira a um instrumento da segunda, ouvi-lhe muitas vezes. Mais do que uma homenagem, a presente reedição do "Manifesto para a Ciência em Portugal" é o nosso contributo para que cada um, na construção da sua visão própria, possa a ele ter acesso.

Mário Pimenta, presidente do LIP

A nova edição inclui ainda um prefácio escrito por três investigadores do LIP pertencentes a uma geração que se apresenta como beneficiária das diferentes estratégias de internacionalização e de promoção da ciência postas em prática por Mariano Gago: Joana Gonçalves de Sá (investigadora principal de duas bolsas do European Research Council), Nuno Castro (professor da UMinho) e Patrícia Gonçalves (professora do Instituto Superior Técnico). Citamos aqui o seu ponto de partida:

O ensaio "Manifesto para a Ciência em Portugal" foi publicado pela primeira vez no final de 1990, pouco depois de José Mariano Gago ter deixado a presidência da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT). Portugal tinha entrado na CEE em 1986 e a palavra de ordem era “convergência”: era urgente que o país pudesse recuperar dos seus enormes atrasos, um dos quais, científico. Este ensaio foi fundamental para lançar o debate sobre como e que ciência deveria ser feita em Portugal e terá sido importante na hora da escolha, menos de cinco anos depois, de Mariano Gago como ministro de um novo ministério inteiramente dedicado à ciência e tecnologia. (…) Reler o Manifesto, passados mais de 30 anos, ajuda a perceber o quanto a ciência portuguesa tem progredido, mas também o tanto que ainda está por cumprir. Feliz ou infelizmente o Manifesto continua actual. (…) Também em modo ensaístico, optámos por destacar três ideias fundamentais.

Prefácio da nova edição de "Manifesto para a Ciência em Portugal"

O desenho das sessões de lançamento partiu do espírito da obra tal como está explicado no prefácio da primeira edição, que apresenta o Manifesto como um livro de acção:

Este manifesto É um ensaio. Propõe uma análise de estratégias de desenvolvimento científico baseadas na renovação da educação, na criação de cultura científica, na ruptura do isolamento científico português — isolamento face ao estrangeiro mas, igualmente, isolamento social e cultural, económico e político, da ciência no próprio país. (…) Este livro visa, pois, a acção prática. É seu propósito suscitar a construção de estratégias para o desenvolvimento científico português.

Prefácio da primeira edição de "Manifesto para a Ciência em Portugal"

Ao relançar o manifesto relança-se, pois, o debate. No dia 16 de Maio, terça-feira, às 17h30, nas três cidades em que existem pólos do LIP (Lisboa, Coimbra e Braga) decorrerão mesas redondas sobre o tema. Foi pedido a cada participante que contribua com uma ideia para o futuro da ciência em Portugal. À apresentação das ideias seguir-se-á um período de discussão, com a participação do público e, a terminar, uma sessão conjunta, online, sintetizando as ideias surgidas nas três mesas redondas realizadas nas três cidades, com moderação de Joana Gonçalves de Sá. O debate para o qual queremos contribuir com esta iniciativa não pode deixar de ser feito com todos, e esse debate é indissociável do papel da comunicação social, que convidamos a estar presente nas sessões de lançamento, disponibilizando-nos também para ajudar a pôr em prática outras ideias e acções que vos parecerem pertinentes.

Informações sobre os locais de realização das sessões e a composição e moderação das mesas redondas em www.lip.pt/manifesto-jmg.

Livro disponível aqui.

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