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24 abril 2025

Comunicação científica: o que difere as ciências sociais das ciências naturais?

Rawpixel/Envato Elements
Essa separação entre os cientistas e o público em geral trouxe uma nova questão: quem fala sobre ciência para quem não é parte desse mundo?

A ciência é algo presente no nosso cotidiano, estudamos sobre ela na escola e vemos notícias sobre os desenvolvimentos tecnológicos e médicos nos jornais. Apesar disso, o conceito de ciência ainda é abstrato, quando pensamos sobre o processo científico, imaginamos um grupo de pesquisadores em um laboratório operando máquinas complexas e falando em termos que não entendemos. Os cientistas parecem ser pessoas de fora da nossa realidade, que trabalham com coisas que não sonhamos em entender sem muitos anos de estudo e treinamento. Essa imagem não ocorre por acaso, a alta especialização do conhecimento científico separa os cientistas do resto da população desde o século XIX em um movimento que levou a ciência a desenvolver uma linguagem própria em textos que seriam lidos apenas por outros cientistas.

Essa separação entre os cientistas e o público em geral trouxe uma nova questão: quem fala sobre ciência para quem não é parte desse mundo? Com o afastamento dos cientistas, esse papel foi assumido principalmente por jornalistas e, consequentemente, a ciência transmitida para o público ficou sujeita aos interesses deles. Temas como o descobrimento de galáxias e avanços médicos eram de interesse para esses jornalistas, pois eles trazem novidades e tendem a chamar a atenção de um leitor em potencial. Um exemplo recente é a pandemia do Covid-19, nesse período nós acompanhamos cada passo dos cientistas procurando por respostas à ação do vírus e o desenvolvimento da vacina que iria aliviar aquela aflição que assolava o mundo.

No geral, a comunicação científica parece ocorrer no contexto das ciências naturais, como por exemplo a biologia, sendo que a mídia tem um interesse em particular em tópicos sobre a medicina e a saúde. Quando um jornal faz uma matéria sobre ciência, são esses os pesquisadores que ficam em evidência, muitas vezes ignorando outras temáticas de desenvolvimentos científicos como as ciências sociais. Os cientistas sociais também são figuras presentes nas notícias, mas de uma forma diferente dos cientistas naturais. Enquanto biólogos, médicos e físicos costumam aparecer na mídia relatando as suas descobertas, cientistas sociais normalmente são convidados como comentadores em notícias pré-existentes.

Essa distinção entre cientistas naturais e sociais parece vir do próprio tema de pesquisa. Enquanto o público geral não tem conhecimentos profundos sobre temas das ciências naturais, ele tem muito conhecimento sobre as ciências sociais, pois o que os cientistas sociais estudam faz parte do dia a dia das pessoas e tratam de conhecimentos do senso comum. Por exemplo, todos temos uma noção da história do nosso país, estudamos sobre isso na escola, ouvimos as histórias dos nossos pais e avós e constantemente vemos as representações desse passado nos nomes das ruas da nossa cidade e em monumentos pelos quais passamos nas ruas.

A familiaridade do público com os temas estudados pelas ciências sociais pode trazer dúvidas em relação a investigações desenvolvidas nessas áreas, por exemplo, resultados compatíveis com experiências prévias do público podem ser vistos como mais credíveis do que aqueles que contrariam o “senso comum”.  Além disso, as pesquisas nas áreas das ciências sociais parecem ser percebidas como menos absolutas do que as pesquisas das ciências naturais. Por outro lado, a natureza das ciências sociais permite que os seus estudiosos assumam o papel de comentadores na mídia em diversos contextos, essas são oportunidades que não ocorrem com a mesma frequência para cientistas naturais.

16 abril 2025

Prémio Nobel para IA

Freepik
O método científico será sempre a forma de identificarmos soluções com real benefício para a Humanidade.

Os Prémios Nobel nasceram de um desejo de reconhecimento e contribuição para o progresso da humanidade, idealizado por Alfred Nobel.

O inventor e filantropo sueco destinou sua fortuna para criar prémios anuais em diversas categorias, visando homenagear aqueles que, durante o ano, trouxessem os maiores benefícios à humanidade. Assim, desde 1901, os Prémios Nobel são entregues em seis áreas principais: Paz, Física, Química, Medicina, Literatura e Economia.

Algumas temáticas do conhecimento ficaram excluídas. Destaque para a Matemática que é distinguida através da Medalha Fields e Prémio Abel.

E as novas áreas do conhecimento? Como podem ser enaltecidas?

Recentemente a academia sueca distinguiu a investigação em Inteligência Artificial através do Prémio Nobel da Física entregue no ano passado a Geoffrey Hinton e John J. Hopfield.
John Hopfield desenvolveu uma rede que utiliza um método para armazenar e recriar padrões. Quando a rede Hopfield recebe uma imagem distorcida ou incompleta, ela examina meticulosamente os nós e ajusta seus valores, reduzindo, assim, a energia da rede. Dessa forma, o sistema busca, passo a passo, a imagem armazenada que mais se assemelha àquela que lhe foi apresentada.

Geoffrey Hinton baseou-se na rede Hopfield para desenvolver um novo modelo conhecido como máquina de Boltzmann, que adota um método distinto. Essa máquina é capaz de aprender a reconhecer elementos característicos em um conjunto específico de dados. Hinton aplicou conceitos da física estatística. O treino da máquina consiste em alimentá-la com exemplos que têm alta probabilidade de ocorrer durante sua operação. A máquina de Boltzmann pode ser utilizada tanto para classificar imagens quanto para gerar novos exemplos do tipo de padrão para o qual foi treinada.

O trabalho dos laureados foi essencial para o desenvolvimento da Inteligência Artificial.

Seguem-se novas investigações e oportunidades. Os riscos, como referiu Hinton, serão também objecto de futuras investigações científicas.

O método científico será sempre a forma de identificarmos soluções com real benefício para a Humanidade.

15 abril 2025

Geopolítica da UE: um Kit de Emergência, a Inteligência Artificial e a Reprogramação da Aceitação Pública

Divulgação

Na última semana foi noticiado que a Comissão Europeia apresentou a Estratégia de Preparação da UE . Nesta, foi recomendado às famílias dos Estados-membros que disponham de um kit de emergência que lhes possa assegurar uma autossuficiência de, pelo menos, 72 horas. Esta proposta foi inspirada em iniciativas de países como a Suécia, Alemanha e Finlândia (entre outros) e integra um pacote de 30 medidas cujas finalidades incluem o fortalecimento da resiliência civil perante uma vasta possibilidade de incidentes, crises, ameaças, onde se podem incluir desastres naturais, pandemias, ciberataques ou até eventuais agressões militares.

A apresentação da estratégia por Hadja Lahbib (Comissária Europeia para a Igualdade, Preparação e Gestão de Crises), ganhou atenção pelo tom informal do seu vídeo promocional onde demonstrou alguns itens essenciais para um kit de sobrevivência. Para além dos elementos básicos como a água, a comida, ou medicamentos, a comissária belga incluiu objetos como um baralho de cartas “porque um pouco de distração nunca fez mal a ninguém”. Contudo, é impossível não sublinhar que a leveza desta abordagem contrasta, necessariamente, com a gravidade do subtexto: a UE está em preparação para cenários de crise prolongada e para o aumento das tensões geopolíticas como, aliás, destacou o The Guardian ao expor que esta estratégia terá sido publicada um dia após o Ministério da Defesa da Dinamarca ter anunciando que iriam adiantar os planos para introduzir o serviço militar para mulheres no espaço de dois anos.

Mais uma vez, é imperativo fazer a questão: de que modo é que esta ‘retórica securitária’ se articula com o atual investimento da UE em inteligência artificial e tecnologia? Justamente na mesma semana em que anunciou a Estratégia de Preparação, a Comissão Europeia anunciou um reforço de 1,3 mil milhões de euros através do programa DIGITAL Europe – Work Programmes, com um foco estratégico e de consolidação face ao fortalecimento da IA, da cibersegurança e da infraestrutura digital europeia para o período de 2025-2027. O objetivo declarado foi o de acelerar a transição digital, reforçar a soberania tecnológica da Europa e garantir resiliência e adaptabilidade digital em setores críticos. Terá sido uma coincidência que estas iniciativas sejam promovidas em paralelo?

A crescente militarização do espaço digital e a vulnerabilidade das infraestruturas críticas fazem com que a IA não seja apenas uma ferramenta de inovação, mas um ativo geoestratégico essencial para a resiliência da União Europeia. A convergência entre preparação civil e transformação tecnológica insere-se numa lógica amplificada de securitização da sociedade europeia. A partir da pandemia da Covid-19, a UE tem vindo a expandir a sua influência em políticas de resposta a crises que são altamente necessárias, mas assume um papel que era tradicionalmente reservado aos Estados-membros. Isto pode significar que, embora nos últimos anos a União Europeia tenha sido vista como um bloco fundamentalmente económico, hoje parece movimentar-se no sentido de consolidar uma identidade geopolítica e de defesa comum, ainda que sem consenso absoluto entre os países. Um reflexo disto diz respeito ao debate a propósito do plano de gastos militares da Comissão Europeia, renomeado de “Rearm Europe” para “Readiness 2030” (“White Paper on European Defence”) que, após as críticas de países como a Itália e Espanha, evidenciou mais uma vez que a própria linguagem, a seleção de termos específicos, é uma zona de disputa política dentro da própria UE.

Este contexto também levanta questões sobre o impacto da IA na segurança e na tomada de decisões estratégicas. É aqui que surgem novamente os modelos preditivos baseados em inteligência artificial, pois são cada vez mais utilizados na gestão de crises, desde a previsão de desastres naturais até à própria deteção de ameaças cibernéticas e/ou militares. No entanto, nunca é demais sublinhar que a crescente dependência destas tecnologias comporta riscos significativos, pois os algoritmos não só podem reforçar vieses, como também é possível que ampliem as dinâmicas de desinformação, ou o desencadeamento de respostas automáticas desproporcionais a certos momentos de crise.

Cabe-nos perguntar: será que estas medidas, ao enfatizarem a preparação para crises e ao impulsionarem novos gastos em defesa e tecnologia, podem influenciar a opinião pública, em vista a facilitar a aceitação de políticas securitárias mais robustas? A promoção de uma cultura de prevenção é essencial, mas deve ser acompanhada por um modelo de comunicação transparente que evite o alarmismo e promova, enquanto fortalece, a confiança pública.

Talvez seja por este motivo que o alerta da Comissão Europeia para a necessidade de um “kit de emergência” esteja a ser interpretado para além da sua dimensão prática. Mais do que preparar a população para o inesperado, a UE está a reestruturar-se para uma conjuntura onde a inteligência artificial, a cibersegurança e a defesa digital se tornam eixos centrais da sua identidade geopolítica.  Assim, a questão central que se impõe para reflexão não é apenas saber se a população da UE está preparada para 72 horas de autossuficiência, mas sim se as suas instituições estão aptas para gerir, de forma eficaz, ética e estratégica, a interseção entre tecnologia, segurança e democracia.

11 abril 2025

Combate às notícias falsas através da proteção de imagens

Rawpixel/Envato Elements
O projeto pretende investigar a combinação de técnicas de criptografia com modelos de visão computacional

A Universidade da Beira Interior (UBI) obteve a aprovação do projeto WATERMARK (Cryptographic Mechanisms for Robust Image Watermarking), que visa contribuir para o combate à proliferação de notícias falsas, através da proteção e autenticação de conteúdos visuais. A investigação foi aprovada no âmbito do concurso “Inteligência Artificial, Ciência dos Dados e Cibersegurança de relevância na Administração Pública”, promovido pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

O projeto pretende investigar a combinação de técnicas de criptografia com modelos de visão computacional para permitir a incorporação de marcas d’água invisíveis em imagens, capazes de persistir perante alterações benignas frequentemente utilizadas na disseminação de conteúdos nas redes sociais (e.g., modificações da dimensão, ligeiros cortes, alteração de formato ou aplicação de filtros de cor), e que sejam destruídas em casos de manipulação maliciosa.

Esta investigação permitirá o desenvolvimento de um sistema inovador, que se materializará através da criação de uma aplicação web aberta ao público, para proteção e verificação da autenticidade de conteúdos visuais, essencial para salvaguardar a integridade da informação divulgada por entidades da Administração Pública e, assim, mitigar a disseminação de desinformação.

“A ideia é que a aplicação funcione em duas vertentes. Por um lado, na certificação, permitindo que o utilizador carregue uma imagem para a plataforma e a mesma devolva a imagem com a watermark incorporada, para ser usada como a pessoa quiser; por outro lado, para fazer verificação: o utilizador quer saber se uma imagem presente numa notícia ou ‘post’ é verdadeira e carrega-a para a plataforma, verificando se a mesma contém a watermark e qual foi a entidade que a incluiu”, explica João Neves, o docente do Departamento de Informática da UBI (DI-UBI), que lidera a equipa da investigação.

A equipa de investigadores integra vários docentes do DI-UBI, contando ainda com o apoio do Centro Nacional de Cibersegurança.

O projeto WATERMARK reforça a aposta da UBI na excelência científica e consolida a sua posição na vanguarda da investigação em Inteligência Artificial e Cibersegurança. Além de outros projetos de investigação a serem desenvolvidos na área, a UBI criou o curso de 1.º Ciclo/Licenciatura em “Inteligência Artificial e Ciência de Dados e desenvolve cursos não conferentes de grau como “Introdução ao ChatGPT na Administração Pública”, “Introdução à Ciência de Dados” e “Introdução à Aprendizagem Automática e Ciência de Dados com Python”

10 abril 2025

Eleições Legislativas e Inteligência Artificial: quem define a narrativa política?

Divulgação
"A IA não só está longe de corrigir as assimetrias existentes, como acentua as próprias desigualdades pré-existentes."

E se o próximo primeiro-ministro fosse escolhido por algoritmos invisíveis?  Em maio de 2025, Portugal enfrenta mais do que uma eleição legislativa, a saber, enfrenta um teste à sua própria democracia no século XXI. Vivemos numa era de transformação digital acelerada, onde a adaptabilidade se tornou essencial, conforme destacado no A Guide for Electoral Practitioners.

A crescente influência da IA, especialmente por meio de ferramentas como o ChatGPT da OpenAI e o Copilot da Microsoft, está a redefinir a forma como se processa o debate público. Se, por um lado, estas tecnologias prometem aumentar a participação eleitoral e a eficiência administrativa, por outro, levantam preocupações sérias sobre desinformação e manipulação – riscos que não são meramente teóricos, mas sim realidades documentadas. Por exemplo, nos Estados Unidos, um vídeo com recurso a IA prejudicou a campanha da (na altura) vice-presidente Kamala e levou a debates legais sobre a regulamentação de ‘deepfakes’ nas eleições. Na Alemanha, uma rede de sites ligados à Rússia utilizou conteúdo gerado por IA para influenciar negativamente a perceção pública de políticos pró-NATO e pró-Ucrânia, visando favorecer partidos nacionalistas.

As redes sociais, hoje, são a principal arena para a comunicação política. No entanto, a forma como as mensagens são geradas e difundidas é célere e, por vezes, incontrolável. Isto significa que a IA permite a produção de conteúdos personalizados em larga escala, amplificando determinadas narrativas e moldando as perceções públicas. Este poder de direcionar mensagens específicas para segmentos do eleitorado não é neutro: tanto pode servir para esclarecer como para manipular. Assim, não será legítimo perguntar: como estão a ser utilizadas estas tecnologias no contexto eleitoral?

Primeiro aspeto, a utilização de tecnologias modernas, como a IA, tem impacto na disseminação de mensagens políticas. Além disso, os debates televisivos, quando são editados ou apresentados de forma tendenciosa, as partilhas massivas em plataformas como WhatsApp e Facebook, e a proliferação de desinformação são fenómenos que também já foram observados em outros países. Isto é, a proliferação de “fake news”, vídeos manipulados no TikTok e conteúdos virais no Instagram são hoje elementos estruturais do ecossistema informativo. Segundo aspeto, a facilidade com que a IA pode gerar ‘deepfakes’ políticos e a dificuldade em detetá-los representam uma ameaça concreta à integridade eleitoral. Um outro exemplo que ocorreu em 2023 na Eslováquia através de vídeos com vozes de políticos geradas por IA e que foram disseminados nas redes sociais antes das eleições parlamentares.

É preciso estar ciente que segundo o Artificial Intelligence Index Report 2024 do Stanford Institute for Human-Centered AI (HAI), a criação de conteúdos gerados por IA não só exige recursos financeiros substanciais, como também depende de elevados níveis de literacia digital. Ou seja, o discurso de que a IA democratiza as campanhas ignora a disparidade de meios entre candidatas/os. E mais: como sublinha o relatório da UNESCO, a escala digital não corresponde necessariamente à escala da realidade. O que circula em redes sociais não reflete, de forma fiel, a complexidade e a pluralidade do debate político. Podemos, então, chamar a isto uma democracia informada e consciente?

Os riscos vão sempre muito além da desinformação. O estudo “AI guidelines for parliaments” da Fundação Westminster para a Democracia (WFD) também reconheceu que a IA pode facilitar o acesso ao governo e a criar novos canais de participação cívica. No entanto, este mesmo relatório adverte que a desinformação algorítmica, a concentração de poder e a vigilância aumentada exigem respostas regulatórias à altura dos desafios contemporâneos.

A meu ver, a IA não só está longe de corrigir as assimetrias existentes, como acentua as próprias desigualdades pré-existentes. Ou seja, quem controlar as ferramentas mais avançadas controlará também a narrativa pública, tornando o processo eleitoral desigual desde o início. No fundo, esta realidade reflete muito bem a falácia da meritocracia, onde se presume que todos partem do mesmo ponto de partida, mas ignora as disparidades estruturais existentes. E, como se sabe, fazer política sem dados rigorosos pode distorcer a realidade e afastar-nos da verdadeira eficácia política.

De modo que, a meu ver, ponto crucial é este: por que motivo se discute a utilização da IA em eleições sem antes garantir a salvaguarda da integridade do nosso sistema democrático? A WFD recomenda que os parlamentos assumam um papel ativo na supervisão do uso da IA, implementando legislações que mitiguem os riscos democráticos e criando órgãos especializados para monitorizar estas tecnologias.

Além disso, são evidentes as semelhanças com o setor corporativo. No mundo empresarial, as questões éticas em torno da IA são frequentemente secundarizadas em nome da inovação e do lucro. Ora, em política, a mentalidade “tudo o que pode ser feito, deve ser feito” é igualmente perigosa, é antiética! Não podemos confundir inovação tecnológica com progresso democrático.

Podemos redigir um programa eleitoral com recurso à IA? Sem dúvida. Devemos fazê-lo? Neste momento, enquanto damos os primeiros passos na implementação do AI ACT, eticamente, a resposta é um categórico não: a análise crítica de vieses e os aspetos essenciais da deliberação política humanizada (entre muitos outros fatores) são fundamentais para garantir a integridade e a autenticidade da democracia. Porque, em última análise, a tecnologia deve servir a cidadania – e não o contrário. A questão não é se a IA deve ser usada em eleições, mas como podemos garantir que essa utilização fortalece, e não fragiliza, a nossa democracia. Cabe às pessoas exigirem transparência e aos decisores assumirem a responsabilidade de proteger o que é, afinal, o alicerce de qualquer sociedade democrática: a confiança no processo eleitoral. Porque, sem essa confiança, o risco não é apenas tecnológico – é existencial para a própria democracia.

09 abril 2025

Emoções Coloniais: O Legado que Persistimos em Ignorar

Zally/Pexels
"A maneira como as sociedades recordam e interpretam o colonialismo ocidental influencia significativamente as suas relações sociais. Mas qual o papel das emoções nestas interpretações e como afetam as atitudes em relação ao passado colonial?"

Uma das reflexões mais poderosas que poderão representar a ideologia e pós-colonial encontra-se nas palavras de James Baldwin, em Stranger in the Village (1955): “As pessoas estão presas à história, e a história está presa nelas.”, capturando a profundidade com que o passado colonial continua a moldar o presente, não só nas nossas relações intergrupais, mas também nas emoções que envolvem a memória deste passado.

A maneira como as sociedades recordam e interpretam o colonialismo ocidental influencia significativamente as suas relações sociais. Mas qual o papel das emoções nestas interpretações e como as mesmas afetam as atitudes em relação ao passado colonial?

Investigação em Psicologia Social realizada em países como Portugal e os Países Baixos mostra que emoções como a culpa e a vergonha em relação ao passado colonial estão associadas a uma visão mais crítica sobre os crimes cometidos. Por outro lado, a supressão ou minimização dessas emoções resulta numa visão mais benevolente e em relação à história. Esta dicotomia emocional revela algo profundo: as emoções moldam diretamente as nossas atitudes face aos outros, especialmente quando se trata de questões de justiça social. Reconhecer a responsabilidade histórica e emocional pode despertar um sentido de reparação e justiça. No entanto, a negação dessas emoções facilita a perpetuação das desigualdades e a manutenção do status quo. A apatia torna-se a norma, desumanizando os grupos historicamente marginalizados.

Apesar destes avanços, a psicologia social ainda tem muito a explorar quando se trata de emoções associadas ao colonialismo. Este campo, ainda emergente, tende a ser dominado pelas vozes e perspetivas dos ex-colonizadores, deixando de fora as emoções daqueles que foram colonizados. As cicatrizes emocionais dos colonizados, bem como a sua luta contínua por reconhecimento e igualdade, raramente são alvo de análise, como se tivessem menos importância no esquema da organização social.

Há, é verdade, estudos que comparam as perspetivas de ex-colonizadores e ex-colonizados, demonstrando que as memórias sobre o passado colonial variam significativamente conforme a experiência vivida. Contudo, a maioria desses estudos centra-se em perspetivas cognitivas, ignorando muitas vezes a dimensão emocional de quem sofreu e continua a sofrer as consequências da violência colonial.

Este é um ponto morto na investigação, pois podemos entender que é justamente nas emoções que reside parte crucial do entendimento sobre a persistência das desigualdades contemporâneas. A negação das emoções dos colonizados reflete a negação das suas experiências. Se não reconhecemos a dor do outro, como podemos empatizar? E, se falhamos em sentir empatia, como poderemos defender os seus direitos? É certo que a apatia abre caminho à desumanização, e que o distanciamento emocional transforma a dor numa abstração e transforma a injustiça numa normalidade.

Como podemos então reconhecer a importância das emoções dos grupos colonizados?

O primeiro passo deve ser o reconhecimento da falta de representatividade nas investigações sobre colonialismo. A maior parte dos estudos ainda é desenvolvida a partir de centros ocidentais, pela lente do colonizador, e mesmo quando incluem participantes de países ex-colonizados, os quadros teóricos refletem perspetivas ocidentais. De que nos serve estudar o preconceito dos ex-colonizadores sem ouvir primeiro a vivência emocional e social dos ex-colonizados?

Talvez seja também o momento de parar de replicar as mesmas hipóteses em contextos ex-coloniais e reorientar as nossas perguntas para incluir as vozes daqueles que foram historicamente silenciados. A ciência deve ser mais do que uma acumulação de dados, deve servir como plataforma de transformação social, questionando o status-quo.

Finalmente, é crucial que a ciência se torne mais acessível ao público — especialmente àqueles que são alvo dos preconceitos e discriminações que nasceram de um legado colonial. Tornar a ciência acessível é, acima de tudo, um ato de coragem, pois convida à crítica e desafia as pressuposições dos investigadores.

Como afirmou a poetisa e ativista Maya Angelou, “Acho que todos temos empatia. Talvez não tenhamos coragem suficiente para mostrá-la.” Se quisermos, verdadeiramente, compreender o impacto do colonialismo nas emoções e na sociedade, está na altura de demonstrarmos essa coragem.

07 abril 2025

Vodafone avança com mudança na grelha digital das TV sem box

Vodafone Group
Informação já começou a ser divulgada aos clientes

São mais canais e sem ser necessário uma box. A Vodafone Portugal anunciou no final da passada semana que, a partir de maio, os clientes com televisões que recebem o sinal por via RF vão passar a ter uma grelha que passa a contemplar 140 canais. 

Segundo a informação disponibilizada pela operadora, a alteração acontecerá no dia 06 de maio, fazendo com que a grelha passe a incluir "todos os canais do pacote de 140 canais da TV Box com qualidade digital".

Para os utilizadores que fazem o acesso a este serviço através de televisores mais antigos, ou seja, por via analógica, as notícias não são animadoras: o número de canais passa dos 45 para apenas 32, desaparecendo da grelha analógica canais como o Porto Canal ou a SIC Radical. "O diferencial de 13 canais continua disponível em formato digital", garante a operadora. Já nas chamadas "zonas rurais", que abrangem os concelhos de Arcos de Valdevez, Arouca, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Bastos, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Ponte de Sor, Resende, Salvaterra de Magos e Vila Nova de Cerveira, a grelha de canais analógicos mantém-se nos 24 canais, saindo da grelha a SIC Caras, Cinemundo e STAR Comedy, que se mantêm apenas na versão digital. Para substituir, são introduzidos os canais 11, NOW e STAR Crime. 

São mais canais e sem ser necessário uma box. A Vodafone Portugal anunciou no final da passada semana que, a partir de maio, os clientes com televisões que recebem o sinal por via RF vão passar a ter uma grelha que passa a contemplar 140 canais. 

Segundo a informação disponibilizada pela operadora, a alteração acontecerá no dia 06 de maio, fazendo com que a grelha passe a incluir "todos os canais do pacote de 140 canais da TV Box com qualidade digital".

Para os utilizadores que fazem o acesso a este serviço através de televisores mais antigos, ou seja, por via analógica, as notícias não são animadoras: o número de canais passa dos 45 para apenas 32, desaparecendo da grelha analógica canais como o Porto Canal ou a SIC Radical. "O diferencial de 13 canais continua disponível em formato digital", garante a operadora. Já nas chamadas "zonas rurais", que abrangem os concelhos de Arcos de Valdevez, Arouca, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Bastos, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Ponte de Sor, Resende, Salvaterra de Magos e Vila Nova de Cerveira, a grelha de canais analógicos mantém-se nos 24 canais, saindo da grelha a SIC Caras, Cinemundo e STAR Comedy, que se mantêm apenas na versão digital. Para substituir, são introduzidos os canais 11, NOW e STAR Crime. 

O acesso à grelha acontecerá automaticamente para todos os clientes, sendo que poderá ser necessária uma sintonização em alguns equipamentos. 

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