microgen/Envato ElementsMomento aconteceu durante um direto após o encontro entre o SL Benfica e o Real Madrid CF.
Dois profissionais da CMTV foram alvo de ameaças e insultos junto ao Estádio da Luz, em Lisboa, após o jogo desta terça-feira entre o SL Benfica e o Real Madrid CF, a contar para a primeira mão do playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões.
Os dois profissionais estariam a preparar-se para entrar em direto quando adeptos do SL Benfica abordaram o jornalista Pedro Neves de Sousa.A altercação foi transmitida em direto na emissão do canal de cabo e rapidamente partilhada nos sites do grupo medialivre, dona da CMTV e do jornal Correio da Manhã.
Em antena, a pivô Mariana Águas informou que quer Sousa quer o repórter de imagem "estão bem". Contudo, antes, garantiu que "as pessoas estavam a ser identificadas pelas autoridades" pois trata-se de "um crime público": "Vamos dar todo o seguimento que se impõe", garantiu a jornalista.
A situação aconteceu após o fim do jogo em que o SL Benfica perdeu frente ao Real Madrid CF por 0-1, com um golo de Vinícius Júnior. O jogo teve também um caso polémico, com um alegado episódio de racismo entre Vinícius e Prestianni. O jogador da formação encarnada terá chamado de "mono" ("macaco" em espanhol) ao avançando da equipa madrilena, tendo levado à interrupação da partida durante dez minutos.
ignis/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)Enquanto as imagens sexuais estão por todo o lado, as escolas japonesas continuam a tratar o sexo apenas como uma questão de biologia reprodutiva.
Imagens sexualizadas de corpos femininos inundam os espaços públicos no Japão, desde as capas de revistas nas lojas de conveniência aos cartazes publicitários nas ruas das cidades. Isto tornou-se algo tão comum que já é visto como perfeitamente normal.
Em outubro de 2025, uma petição no Change.org, intitulada “Protejam o Futuro das Nossas Crianças — Diga Não às Revistas Sexualmente Explícitas nas Lojas de Conveniência”, reuniu mais de 5 mil assinaturas. O objetivo era pressionar as lojas a retirarem as revistas para adultos das prateleiras, protegendo assim os menores. O argumento era de que este conteúdo explícito não passa de uma forma de assédio sexual e que prejudica as crianças na fase em que estão a construir a sua própria identidade.
Por essa altura, a escritora Emi S. partilhou uma reflexão no seu blogue no seu blogue no Medium:
Quando era criança, lembro-me de ver cartazes com rostos de mulheres e preços ao lado. No entanto, não me recordo de sentir qualquer desconforto na altura. Estava lá, simplesmente — era tratado como algo normal.
Emi S.
A Emi S. tocou num ponto essencial: a normalização da objetificação das mulheres na cultura popular japonesa. Muitas mulheres aceitam estas imagens sexualizadas como parte do dia a dia, ao ponto de nem as questionarem. E quando decidem demonstrar desconforto, as suas vozes são muitas vezes desvalorizadas como sendo um "exagero".
Imagens sexuais e a cultura popular japonesa
De onde vem este padrão? O boom dos media e da cultura popular no Japão pós-guerra criou um ecossistema visual onde o manga, o anime e as revistas impressas floresceram. O modelo das lojas de conveniência, que se espalhou nas décadas de 80 e 90, tornou as revistas — incluindo as pornográficas — acessíveis na rotina diária de qualquer pessoa.
De acordo com um estudo de 1989 citado pelo portal Nippon.com, 92,3% das lojas de conveniência vendiam revistas pornográficas. Mais tarde, a ascensão da estética moe[nota]A estética Moe foca-se em criar personagens de anime e manga que despertam no público um forte sentimento de afeto, ternura e um instinto quase paternal de proteção. Visualmente, define-se por traços suaves e "fofos", como olhos grandes e expressões de inocência, realçando uma vulnerabilidade que cativa emocionalmente o espectador.[/nota] no anime e no manga veio esbater ainda mais a linha entre o entretenimento e o erotismo. Isto é particularmente visível no crescimento do conteúdo "lolicon"[nota]O termo lolicon é uma abreviatura de "Lolita complex" e designa um género de manga, anime e videojogos focado na atração por raparigas pré-púberes ou personagens com traços marcadamente infantis. É uma das áreas mais polémicas da subcultura japonesa, sendo frequentemente criticada por normalizar a erotização de menores e por desafiar os limites éticos da liberdade de expressão.[/nota], onde personagens femininas jovens (ou com aparência infantil) são sexualizadas.
O lucro tem sido o grande motor deste mercado erótico, já que as revistas para adultos garantiam uma receita estável para muitos lojistas. No entanto, antes dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio 2020, as principais cadeias de lojas de conveniência — 7-Eleven, Lawson e FamilyMart — anunciaram que iriam deixar de vender estas revistas em todo o país. A decisão foi apresentada como um esforço para tornar as lojas "mais confortáveis para mulheres e crianças" e para "evitar manchar a imagem do Japão perante os turistas", o que marcou uma mudança simbólica importante.
Na internet, a medida dividiu opiniões. Os apoiantes viram nisto um progresso há muito esperado em termos de sensibilidade de género nos espaços públicos. Já os críticos consideraram a medida meramente teatral, argumentando que o Japão só agiu por causa da pressão estrangeira. No X (antigo Twitter), em 2019, a utilizadora Hoshikawa Shinya (@asitafukukazen) escreveu:
As mulheres queixam-se há anos e nada mudou até chegarem os Jogos Olímpicos. Isso mostra o quão pouco este país valoriza a voz das mulheres.
Hoshikawa Shinya (@asitafukukazen)
Embora estas imagens sejam agora menos visíveis nas grandes lojas, continuam a ser um elemento central da cultura pop e dos espaços públicos japoneses. Recentemente, surgiu também o alerta para anúncios sexualmente sugestivos em sites não pornográficos, bem como para a exposição de crianças a conteúdos sexualizados em jogos, manga e outros meios da subcultura.
Ainda assim, os pedidos para que existam mais restrições, como a criação de zonas específicas ou controlo de idade para aceder a conteúdos sexuais, tanto online como offline, acabam quase sempre por gerar controvérsia, com os críticos a defenderem que tais intervenções equivalem a censura.
O sexo continua a ser um tabu na escola e na sociedade
O debate sobre a liberdade de expressão vs. o direito a não ser objetificado (pela exposição pública de imagens eróticas) arrasta-se há anos sem que se chegue a um consenso.
Contudo, enquanto a sexualização continua a ser banal, a discussão educativa sobre sexualidade e consentimento é escassa no sistema de ensino japonês. Atualmente, as escolas ainda encaram o sexo apenas como uma questão de biologia reprodutiva. As aulas de educação sexual são frequentemente separadas por género: as raparigas aprendem sobre a menstruação enquanto os rapazes têm aulas de saúde geral ou desporto. Praticamente não se fala de sexualidade no sentido de consentimento, sexo seguro, relações saudáveis ou orientações sexuais.
Este currículo dividido por géneros reforça a ideia de que o conhecimento sexual é algo privado, vergonhoso ou até desnecessário. Como explicou o blogger Musashi, na plataforma Medium:
"A educação sexual japonesa tende a reforçar velhas normas e estereótipos de género. [...] A narrativa foca-se muito nas diferenças entre sexos e sublinha que homens e mulheres devem cumprir papéis distintos."
Como resultado, ainda hoje alguns japoneses veem a menstruação como um embaraço privado e não como uma questão de saúde pública, algo que já foi levantado pela deputada Ayaka Yoshida.
No entanto, os organizadores da campanha exigem que estas regras sejam substituídas por uma postura clara: todas as crianças devem ter acesso a uma educação sexual rigorosa e abrangente. Até agora, mais de 41 500 pessoas já assinaram a petição.
Na verdade, uma sociedade onde as imagens sexuais fazem parte do quotidiano exige uma educação sexual muito mais completa para combater estereótipos de género. Como indicam vários estudos de psicologia dos media, a exposição repetida a conteúdos que objetificam o corpo pode moldar a forma como os espectadores veem os papéis de género e os relacionamentos.
No Japão, piadas sexuais casuais, comentários sobre a aparência e pressupostos sobre o comportamento das mulheres são comuns em ambientes de trabalho e em escolas. Nos adolescentes, o contacto frequente com conteúdo erotizado em espaços públicos pode acabar por "anestesiar" a sensibilidade em relação ao que é um comportamento respeitoso ou inapropriado, normalizando o assédio sexual e o body shaming desde cedo.
E os danos são visíveis. Por exemplo, uma jovem de 14 anos queixou-se num fórum para adolescentes que os rapazes comentavam frequentemente sobre o seu peito, perguntando: "Não tens vergonha de ter as mamas tão grandes?". Disse ainda que até os professores pareciam olhar para o peito dela antes de olharem para o seu rosto. O seu desabafo teve eco em muitas colegas, mas também gerou várias piadas sexuais por parte de rapazes.
Neste tipo de ambiente, é muito mais provável que as mulheres acabem por se "auto-objetificar", vendo a atratividade sexual como a principal medida do seu valor.
O desafio do Japão passa por conciliar o desejo de preservar a liberdade criativa e erótica com a necessidade de garantir que os espaços públicos respeitam a dignidade humana. O primeiro passo pode muito bem começar pela introdução de um currículo de educação sexual mais aberto, abrangente e diversificado.
Este artigo, escrito por Jo Carter, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.
KYNASTUDIO/Envato ElementsEm plataformas como o Discord, os jovens envolvem-se em desafios violentos. Animais e raparigas estão entre as vítimas mais frequentes.
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Amanda Audi, com edição de Bruno Fonseca, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
Uma menina de 13 anos faz uma transmissão ao vivo em um grupo da rede social Discord. Ela ateia fogo em um gato enquanto mostra em tempo real aos outros usuários. O animal corre pela casa, alastrando as chamas. Depois, ela posta no grupo: “Botei fogo na casa, daora”.
Essa foi uma das cenas chocantes que as pesquisadoras independentes Tatiana Azevedo e Letícia Oliveira tiveram acesso enquanto monitoravam grupos extremistas no Discord entre 2023 e 2024. “São coisas que eu nunca vou esquecer, mudaram a minha vida”, afirma Azevedo.
Elas publicaram ano passado um relatório sobre situações brutais que ocorrem nos grupos da rede social, chamados de panelas. Crianças e adolescentes estão entre os principais envolvidos em crimes que também incluem incentivo à automutilação, suicídio e estupros virtuais coletivos (em que as vítimas são forçadas a praticar atos sexuais ou se exporem na rede social).
Os atos são chamados de “lulz”, termo usado para designar uma “brincadeira” ou desafio que muitas vezes envolve violência. “Começa com pequenas transgressões, como pichar ou escrever no próprio corpo o nome do grupo, e muitas vezes descamba para atos extremos. Eles fazem isso para ganhar status e serem aceitos”, diz Azevedo.
Agressões contra animais são comuns porque eles oferecem pouca ou nenhuma resistência. Muitas vezes os autores cobram um valor (como uma assinatura) das pessoas que queiram assistir ao espetáculo macabro.
O caso de Orelha, cachorro comunitário que foi espancado em um bairro nobre de Florianópolis (Santa Catarina) e teve que passar por eutanásia no início de janeiro devido à gravidade dos ferimentos, reacendeu o debate sobre o risco de jovens serem expostos a ideias extremistas em ambientes virtuais sem moderação.
Nesta terça-feira (3 de janeiro), a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu as investigações sobre a morte de Orelha e pediu a internação de um adolescente que teria sido o autor das agressões. Além disso, quatro adolescentes foram apontados como autores de uma tentativa de afogamento de outro cão comunitário do mesmo local, chamado Caramelo.
Os nomes e idades dos adolescentes não foram revelados em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê sigilo total em casos envolvendo menores de 18 anos. Dois pais e um tio dos jovens também foram indiciados por tentar coagir um vigilante que teria testemunhado o crime.
Até o momento, não há indícios de que os adolescentes faziam parte de grupos extremistas online. Porém, especialistas apontam que situações como as de Orelha e Caramelo são sintomáticas de um processo de radicalização.
“O zoosadismo é um grande indicador de radicalização e um passo grande para a mobilização à violência. A gente tem visto a violência como uma moeda social. Quanto mais sádico e perverso, maior estatuto interno dentro da minha rede, da minha panela, eu tenho”, disse o procurador Fábio Costa Pereira, que integra o Projeto Sinais, de prevenção a violência extrema praticada por jovens e adolescentes, nas redes sociais do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Para o procurador, as famílias precisam ter cuidado com a maneira que os jovens usam a internet. “Esses adolescentes têm acesso ilimitado a telas porque as famílias permitem”, ele continua. “Muitas das nossas crianças e adolescentes passaram a viver no mundo digital sem a percepção das consequências catastróficas que elas têm no mundo real.”
Animais e jovens raparigas são as principais vítimas de grupos violentos nas redes
Um dos indícios de que os jovens são os mais afetados é que episódios violentos monitorados pelas pesquisadoras no Discord aumentaram durante a pandemia e, depois, em períodos de férias escolares. “São momentos em que os adolescentes ficam em casa e podem usar a internet livremente. Por isso o ECA Digital (medidas que visam proteger menores de 16 anos nas redes sociais, que começam a valer em março) é tão importante”, afirma Oliveira.
Segundo as autoras, as maiores vítimas de violência nos grupos são meninas e animais. “As vítimas são predominantemente do gênero feminino. Animais como gatos, cachorros, pássaros, sapos e outros animais de pequeno porte são frequentemente violentados em sessões de tortura animal. Os agressores são, majoritariamente, do sexo masculino”, diz um trecho do relatório.
Entre os episódios narrados no relatório, está o de um adolescente de 17 anos do Rio Grande do Sul que furtou, torturou e matou um cachorro e transmitiu ao vivo pelo Discord. Outro de Goiás fez uma live enquanto maltratava e enforcava um cão.
Azevedo ainda conta ter presenciado o momento em que uma menina foi obrigada pelos outros participantes a praticar atos de zoofilia com um cachorro. Ela explica que líderes dos grupos, principalmente meninos, coagem meninas a fazerem o que eles querem ameaçando expor vídeos íntimos ou as expondo aos pais. “Elas vão ficar traumatizadas para o resto da vida”, acredita.
Quem maltrata animais, também pode agredir pessoas
No ano passado, o Brasil teve 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia – quase 5 mil no total. Houve um aumento de 20% em relação a 2024. Santa Catarina, terra de Orelha e Caramelo, foi o segundo estado com mais notificações em 2025, atrás apenas do Rio Grande do Sul.
ONGs de proteção de direitos dos animais pontuam que os casos de violência quase nunca são isolados. “Dois pesquisadores norte-americanos no começo da década de 1980 entenderam que a violência é uma só. As pessoas que abusam e violentam animais podem violentar pessoas ou vice-versa”, afirma Rosangela Gebara, diretora de relações institucionais da ONG Ampara Animal.
Os pesquisadores citados, Phil Arkow e Frank Ascione, criaram a Teoria do Elo, que identifica uma conexão próxima entre a crueldade animal e a violência doméstica contra mulheres, crianças e idosos, alvos considerados vulneráveis. Estudos sobre serial killers apontam que quase todos eles tiveram episódios de maus-tratos a animais – como o Maníaco do Parque ou Jeffrey Dahmer.
“Se você tem criança ou adolescente muito violento contra animais, isso tem que ser investigado do ponto de vista psiquiátrico. Não se pode dizer que é coisa de criança. Pode ser um fator preditivo, precoce, de pessoas desajustadas que poderiam cometer crimes piores”, diz Gebara.
No Brasil, frequentemente as punições a pessoas acusadas de maus-tratos a animais são brandas ou substituídas por penas alternativas – com exceção dos casos que mobilizaram a opinião pública.
A primeira pessoa condenada por crueldade animal no país é Dalva Lina da Silva, presa em 2018. Ela se apresentava como protetora de animais, mas ONGs desconfiavam que os cachorros e gatos entregues a ela eram adotados muito rapidamente. Um detetive particular a acompanhou por quase um mês e identificou mais de 30 corpos de animais mortos em sacos de lixo que ela deixava na rua de sua casa. Segundo as investigações, eles recebiam injeções letais de uma substância controlada. A mulher recebeu pena de 12 anos de prisão, posteriormente ampliados para 17 anos.
Os casos de maior repercussão foram responsáveis pelas mudanças na legislação penal nos últimos anos. Entre os episódios mais emblemáticos está o da cadela Manchinha, em 2018, atacada e envenenada por um segurança na frente de uma unidade do Carrefour em Osasco (São Paulo). A violência gerou protestos nas ruas e redes sociais, contribuindo para consolidar no Congresso um projeto de lei que revisou as penas por maus-tratos a animais domésticos.
Em julho de 2020, o caso do pit bull Sansão – mutilado com a remoção das patas traseiras em Confins (Minas Gerais) – ensejou a aprovação da chamada Lei Sansão, em 2020, que aumentou a pena para quem cometer abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar cães e gatos.
O episódio de Orelha deslanchou debates sobre possíveis alterações legislativas, inclusive propostas recentes para aumentar ainda mais as penas ou vedar a substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos para crimes de maus-tratos.
Um dos projetos de lei apresentados recentemente trata da proteção de animais comunitários, como Orelha e Caramelo. Se aprovado, o texto reconhece a existência de milhares de animais sem lar fixo e prevê programas de incentivo para pessoas e comunidades responsáveis pelos cuidados com eles. Ainda não há previsão de quando será votado.
Conteúdo extremista espalha-se nas redes quase sem controle
Segundo estudo do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP), entre 2001 e 2024, houve 49 ataques a escolas no Brasil. Entre eles, há um padrão de comportamento: os autores frequentemente estavam vinculados a comunidades digitais, como Discord, X, Telegram e TikTok, e eram, em sua maioria, jovens, brancos e do sexo masculino.
Apesar do conteúdo extremista estar presente em quase todas as redes, o Discord parece ser o ambiente preferido pelo seu modo de funcionamento. A rede é formada de grupos fechados, cujo conteúdo veiculado internamente não é acessível para quem está fora e sofre pouco controle de moderação. Para entrar, é necessário ter um convite e muitas vezes passar por uma entrevista. Além disso, boa parte do conteúdo é transmitida ao vivo, e não fica gravada após ser encerrada.
Em 2023, a rede foi associada a ataques armados em escolas no Brasil. Representantes da empresa, junto com outras big techs, como X (antigo Twitter) e TikTok, foram chamados a tomar providências pelo então ministro da Justiça, Flávio Dino. De lá para cá, porém, pouca coisa mudou.
Para Tatiana Azevedo, que em seu período infiltrada observou como as redes sociais são permissivas com o acesso de menores de idade a discurso de ódio, nada realmente deve mudar se não houver responsabilização das grandes empresas de tecnologia.
“Algumas têm iniciativas incipientes de controle, outras simplesmente lavam as mãos”, afirma. “Tem que haver um investimento muito grande das big techs em dinheiro e em ações que busquem mudanças reais, não só pra tampar buraco, senão ação policial nenhuma vai ser suficiente.” Ela cita como exemplo a iniciativa do Roblox de vedar a conversa entre menores, que, em vez de resolver o problema, também criou um mercado de venda de contas verificadas.
YuriArcursPeopleimages/Envato ElementsVários estudos já demonstraram "desigualdades sociais estão profundamente associadas a pior saúde e bem-estar em idades mais avançadas". Resultados da investigação vão ter impactos na definição de políticas mais inclusivas.
Uma equipa de investigação do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) e da Universidade de Saragoça, explorou como o estatuto social subjetivo de pessoas mais de 70 anos modera os efeitos positivos no bem-estar associados à participação em atividades de voluntariado para este grupo demográfico. Os resultados têm implicações na definição de políticas e práticas inclusivas que possam maximizar os efeitos positivos do voluntariado na terceira idade.
A psicóloga social e investigadora do CIS-Iscte, Luísa Lima, explica que “estudos anteriores têm demonstrado consistentemente que as desigualdades sociais estão profundamente associadas a pior saúde e bem-estar em idades mais avançadas”. Segundo a investigadora, o voluntariado tem sido identificado como um recurso poderoso para as pessoas mais velhas, pois pode melhorar o bem-estar psicológico, fortalecer a autoestima e reduzir os sintomas depressivos. Apesar desses benefícios, “as pessoas com mais de 70 anos fazem voluntariado significativamente menos do que aquelas, digamos, na casa dos 50 ou 60 anos”. Então, por que razão as pessoas mais velhas se envolvem menos em voluntariado? De acordo com Luísa Lima, existem inúmeros fatores que podem afetar a vontade de participar nessas atividades, desde limitações físicas e cognitivas que podem restringir o envolvimento das pessoas, até à perceção que outras pessoas têm da sua capacidade para o fazer. “Os padrões de voluntariado variam consoante o tipo de atividade e o país em que as pessoas vivem, sugerindo um papel importante dos contextos sociais e culturais”, esclarece a investigadora. Nas sociedades ocidentais, as pessoas mais velhas são frequentemente vistas como tendo menos poder, estatuto e valor social do que adultos de meia-idade, o que pode moldar tanto as suas oportunidades de se envolverem em voluntariado como o seu bem-estar.
Investigações anteriores têm-se focado principalmente em como fatores objetivos, como o rendimento e a educação, influenciam a relação entre o voluntariado e o bem-estar subjetivo. Neste estudo, publicado em 2025, a equipa de investigação composta por cientistas do CIS-Iscte e da Universidade de Saragoça analisou como o estatuto social subjetivo – a forma como as pessoas percebem a sua posição na hierarquia social – pode influenciar essa relação em pessoas com 70 anos ou mais, em diferentes sistemas de segurança social europeus.
Com base em dados do European Social Survey (ESS) recolhidos entre 2008 e 2010, a equipa de investigação realizou análises sobre dados de 8331 pessoas com mais de 70 anos, de 29 países europeus. A equipa examinou diferentes aspetos da vida das pessoas, nomeadamente: se faziam voluntariado ou não, como se sentiam em relação às suas vidas (saúde, felicidade, satisfação geral), género, educação, rendimento e estado civil. Mais importante, a equipa de investigação calculou um indicador ao nível nacional sobre o grau de respeito geralmente demonstrado pelas pessoas idosas nesse país (ou seja, o seu estatuto social subjetivo), com base na forma como os inquiridos do ESS consideram que a maioria das pessoas no seu país percebe o estatuto das pessoas mais velhas. A equipa de investigação utilizou modelos multiníveis para analisar os dados a nível individual e nacional, considerando diferentes sistemas de segurança social, o que ajudou a compreender não só se o voluntariado tem efeitos positivos, mas também em que condições sociais pode ser mais ou menos benéfico.
Os resultados do estudo mostraram que as pessoas mais velhas que fazem voluntariado relatam melhores resultados em termos de saúde, felicidade e satisfação com a vida do que aquelas que não participam nesse tipo de atividades. Este padrão foi observado de forma clara e consistente nos vários países europeus. “Este estudo revela um mecanismo psicológico crítico: o efeito moderador das perceções sociais sobre o envelhecimento nos benefícios do voluntariado segue um padrão consistente com a teoria da identidade social, em que o estatuto social percebido amplifica ou atenua a autoestima e o propósito que derivam de comportamentos pró-sociais em idade avançada”, explica Julia Sánchez-García, da Universidade de Saragoça, autora principal do estudo. Especificamente, a equipa de investigação verificou que a relação positiva entre o voluntariado e o bem-estar era significativamente mais forte nos países onde as pessoas mais velhas são vistas como tendo um estatuto social mais elevado e são tratadas com maior respeito. De acordo com o estudo, nesses contextos, o voluntariado está associado a uma melhor autoavaliação da saúde, maior felicidade e melhor qualidade de vida em geral para as pessoas com mais de 70 anos. Em contrapartida, essa relação era mais fraca nos países onde as pessoas mais velhas são vistas de forma mais negativa ou enfrentam atitudes mais discriminatórias em relação à idade. Sibila Marques (CIS-Iscte), também autora deste estudo, explica que “as perceções sociais do envelhecimento desempenham um papel crucial na definição do benefício que as pessoas mais velhas retiram do envolvimento social e das atividades de voluntariado”. Acrescenta que “as nossas análises também indicaram que viver numa sociedade que atribui um estatuto social mais elevado às pessoas mais velhas estava diretamente associado a uma melhor saúde e bem-estar em idade avançada”. A investigadora sugere que a redução do idadismo (preconceito com base na idade) e o reforço do respeito pelas pessoas mais velhas podem potencialmente melhorar a participação em voluntariado e os seus efeitos positivos no bem-estar.
A equipa de investigação conclui que melhorar o estatuto social de pessoas mais vellhas através de políticas inclusivas e intergeracionais poderia reforçar os benefícios do voluntariado no bem-estar e apoiar a conquista de um envelhecimento saudável, ativo e equitativo, alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A equipa desta investigação publicada no Journal of Applied Social Psychology é composta por Julia Sánchez-García (Universidade de Saragoça), Maria Luísa Lima (CIS-Iscte), Sibila Marques (CIS-Iscte), Ana Isabel Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça) e Marta Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça).