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31 julho 2025

Equipa liderada pela Universidade de Coimbra cria instrumento para melhorar a qualidade do apoio durante o luto

Pressmaster/Envato Elements


Uma equipa de investigação, liderada pela Universidade de Coimbra (UC), desenvolveu e testou em Portugal um inquérito que permite avaliar a qualidade do apoio prestado por serviços de saúde durante o luto. Com os resultados positivos deste estudo-piloto, as investigadoras acreditam que este instrumento pode contribuir para melhorar a prestação deste acompanhamento, e, assim, ajudar as pessoas a lidar com a perda.


A equipa da UC conduziu esta investigação com o objetivo central de “compreender a experiências dos familiares de quem faleceu em relação ao apoio prestado, incluindo dificuldades que tenham tido em aceder e receber apoio, tanto pelo próprio serviço de saúde, como por outros recursos disponíveis na comunidade”, revela a investigadora da Faculdade de Medicina da UC (FMUC), Maja de Brito.


Por norma, “os inquéritos habitualmente utilizados nos serviços de saúde centram-se na avaliação da satisfação com o serviço, mas este inquérito que desenvolvemos propõe uma abordagem diferente, ao focar-se em múltiplas dimensões da qualidade do apoio no luto”, contextualiza a também psicóloga clínica.


Neste âmbito, o instrumento desenvolvido “abrange todos os níveis de apoio, desde os cuidados especializados até ao apoio informal, oferecendo uma imagem completa do ecossistema de apoio ao luto ao qual as pessoas enlutadas recorrem”, avança a investigadora da Universidade de Coimbra. “Este mapeamento ajuda a identificar quem são os agentes de apoio numa determinada comunidade e, com isso, favorece a criação de redes de colaboração mais eficazes entre hospitais, cuidados primários, serviços especializados e comunidade. Deste modo, o inquérito contribui para melhorar a continuidade dos cuidados, uma das principais fragilidades apontadas no apoio ao luto a nível global”, acrescenta.


Em concreto, como revela Maja de Brito, “a utilidade do apoio recebido (ou seja, até que ponto a pessoa sentiu que o apoio ajudou ou mudou algo para melhor), as preferências de apoio (os tipos de apoio que a pessoa gostaria de ter recebido, mas que não estavam disponíveis, seja por razões práticas/logísticas ou porque não existem atualmente), o acesso ao apoio (como foi procurado, como se acedeu, e se existiram obstáculos), e as barreiras ao apoio (porque é que, mesmo havendo necessidade e vontade de receber apoio, algumas pessoas não conseguem obtê-lo)” são alguns dos pontos-chave deste inquérito que criado e testado pela equipa liderada pela UC.


O inquérito foi implementado junto de familiares de pessoas diagnosticadas com cancro que receberam cuidados no Serviço de Medicina Paliativa da Unidade Local de Saúde de Santa Maria. Participaram 20 pessoas, que tinham perdido um dos progenitores, filho, parceiro ou irmão há mais de um ano.


A equipa de investigação revela que, para os familiares, “responder ao inquérito foi vivido como uma oportunidade valiosa de: 1) contribuir para a produção de novo conhecimento e, assim, ajudar outras pessoas; 2) ter as suas experiências ouvidas e reconhecidas, com o objetivo de melhorar os serviços de apoio no futuro; 3) ajudar a quebrar um tabu social, a dificuldade em falar abertamente sobre a morte e o luto; 4) prestar homenagem ao familiar falecido”.


Maja de Brito sublinha o papel dos serviços de saúde no acompanhamento durante um processo de luto: “esses serviços devem, pelo menos, realizar uma avaliação inicial das necessidades de apoio no luto e fornecer informação básica sobre o luto e os recursos disponíveis”.


Sobre as mais-valias deste inquérito para os serviços de apoio, a cientista explica que “quando utilizado de forma sistemática, pode ajudar os serviços a escutar e a aprender com o testemunho das pessoas enlutadas, melhorando a sua capacidade de resposta. Ao mesmo tempo, quando as pessoas sentem que a sua dor é reconhecida e que as suas experiências são levadas a sério, isso pode representar um passo essencial no seu processo de integração da perda”.


Quanto a melhorias que podem ser originadas por esta escuta dos familiares, a investigadora adianta que “ao compreendermos melhor as necessidades e preferências de cada pessoa, podemos avançar para um modelo de apoio que não se limite à gestão da perda, mas que promova a criação de sentido, a resiliência e a ligação humana para que ninguém tenha de sofrer em silêncio”. Por exemplo, podem ser implementadas melhorias como “adaptação das vias de comunicação às preferências dos enlutados, para que a informação básica sobre o luto e apoios existentes possa chegar a todos; expandir a oferta de apoios – apoio em grupo, apoio baseado em atividades (caminhadas, expressão artística, entre outras atividades); disponibilidade dos serviços de apoio (horários, disponibilidade de apoio telefónico, por vídeochamada, reforço de recursos nas equipas psicossociais, entre outros)”, partilha.


“Este estudo parte da convicção de que o apoio ao luto é uma responsabilidade partilhada entre profissionais, serviços, comunidades e redes de proximidade para que os prestadores de apoio de diferentes setores se articulem melhor no acompanhamento de quem vive com uma perda”, sublinha Maja de Brito.


O inquérito pode ser aplicado em outros serviços de saúde, estando disponível em língua inglesa no artigo científico Surveying the quality of bereavement support within a service setting: A pilot study using cognitive interviewing with bereaved people, publicado na revista Palliative Medicine: https://doi.org/10.1177/02692163251353012. Para acesso à versão em língua portuguesa, as entidades interessadas devem contactar a equipa de investigação da UC, através do endereço de e-mailmaja.furlan@uc.pt.


O estudo contou também com a participação de investigadoras do King’s College London, da Universidade de Bristol, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e do ISPA – Instituto Universitário. Foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pela Fundação Calouste Gulbenkian, através do projeto DINAMO – Dinamizar formação avançada e investigação para otimizar os cuidados paliativos domiciliários em Portugal, liderado pela investigadora coordenadora da FMUC, Bárbara Gomes.


27 julho 2025

Morreu o arquiteto Nuno Portas

Rosa Pomar/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)


O arquiteto português Nuno Portas morreu este domingo em Lisboa. A informação foi confirmada pela família a vários órgãos de comunicação social. Estava internado no hospital do Mar, na Bobadela.


Nascido em Vila Viçosa em 1934, Portas foi o dinamizador do programa estatal SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) nos governos pós-25 de Abril. Além disso, recebeu vários prémios ao longo da sua carreira como é o caso do prémio Sir Patrick Abercrombie de Urbanismo, atribuído pela União Internacional de Arquitetos em 2005, e escreveu para várias revistas portuguesa e estrangeiras, sendo também consultor da Organização das Nações Unidas e da União Europeia. 


Nuno Portas era também pai de Miguel Portas (dirigente do partido Bloco de Esquerda, já falecido), Paulo Portas (antigo lider do partido CDS-PP e atual comentador televisivo) e Catarina Portas (jornalista).


Numa nota publicada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa classificou Portas como "uma das personalidades mais visionárias e brilhantes da vida académica, cultural, política e social da resistência de inspiração católica dos anos 50, 60 e 70 do século passado": "Sendo uma personalidade visceralmente solitária, dedicou-se à comunidade e deixou discípulos muito diversificados em todos os domínios em que foi excecional", acrescenta. 


Nuno Portas tinha 90 anos. 

26 julho 2025

“O meu corpo está fraco, não consigo mais”: jornalistas da AFP também passam fome em Gaza

Jaber Jehad Badwan/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)



Em meio ao genocídio imposto por Israel à Faixa de Gaza, os últimos jornalistas da Agência France-Presse (AFP) ainda presentes no território alertam: “vamos morrer de fome”. A declaração dramática foi feita pela equipe local da agência, que enfrenta não apenas os perigos da guerra desproporcional, mas também o colapso total das condições de sobrevivência na região. Sem acesso a comida, água potável, assistência médica ou possibilidade de saída segura, os profissionais relatam estar à beira de uma catástrofe humanitária pessoal.


Desde o ataque de um grupo do Hamas em 7 de outubro de 2023, Gaza tornou-se o cenário de um genocídio que já deixou cerca de 60 mil mortos, segundo autoridades de saúde locais. Nesta semana, a ONU denunciou um ‘show de horrores’ e disparada de desnutrição em Gaza. Além disso, mais de 100 ONGs denunciam ‘fome em massa’. Israel disse não ter identificado fome extrema em Gaza e nega acusações. No entanto, admitiu que pouca ajuda chega aos palestinos, e culpou a ONU por isso.


O chefe da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos, Unrwa, chegou a ressaltar que Gaza é agora “um inferno” para mais de 2 milhões de pessoas e observou que as crianças continuam morrendo de desnutrição e desidratação.


Essa escalada da crise alimentar é confirmada por Médicos Sem Fronteiras (MSF), que relatou em julho níveis sem precedentes de desnutrição aguda em duas clínicas mantidas na região, uma em Cidade de Gaza, no norte, e outra em Al-Mawasi, no sul do país. Mais de 700 mulheres grávidas e lactantes e quase 500 crianças estão em situação de desnutrição moderada ou grave. Em uma das unidades, o número de crianças desnutridas entre 6 e 23 meses triplicou entre maio e julho, atingindo 326 casos, o maior registrado pela organização no território até hoje.


Para Mohammed Abu Mughaisib, coordenador clínico da MSF, a situação é inédita: “É a primeira vez que testemunhamos uma prevalência tão grave de casos de desnutrição em Gaza. A fome poderia acabar amanhã se as autoridades israelenses permitissem a entrada suficiente de alimentos”, disse o coordenador em um texto publicado no site da organização. 


A médica Joanne Perry reforça o alerta: “Mães me pedem comida para seus filhos. Mulheres grávidas de seis meses muitas vezes não pesam mais do que 40 quilos”. Além disso, a organização denuncia o colapso do saneamento e a superlotação de abrigos, com bloqueio de alimentos, medicamentos e combustível, agravando o quadro de colapso total da saúde pública.


Nesse cenário de devastação, os jornalistas locais tornaram-se tanto testemunhas quanto vítimas. Em carta assinada pela Sociedade de Jornalistas da AFP (SDJ), publicada em 21 de julho de 2025, a agência alerta que seus últimos repórteres em Gaza estão prestes a morrer de fome: “Vemos a situação deles piorar. São jovens, estão perdendo peso e muitos já não têm mais forças físicas para trabalhar. Pedir ajuda virou parte da rotina diária”, afirma a nota, enfatizando que “se nada for feito imediatamente, os últimos jornalistas em Gaza vão morrer”.


Um dos casos mais emblemáticos é o de Bashar, fotógrafo freelancer da AFP desde 2010. Vivendo entre os escombros da casa do irmão em Cidade de Gaza, ele publicou nas redes: “Não tenho mais forças para continuar trabalhando para a imprensa. Meu corpo está fraco e não consigo mais.” Ele relatou que seu irmão mais velho havia morrido de fome. A família enfrenta extrema precariedade e casos de infecção intestinal, sem sequer conseguir usar transporte motorizado devido ao alto risco de bombardeio.


Mesmo recebendo salário mensal simbólico da AFP, os jornalistas não conseguem comprar alimentos. O sistema bancário colapsou e taxas de até 40% encarecem qualquer transação. A AFP diz não conseguir abastecer veículos; os deslocamentos só ocorrem a pé ou em carroças de tração animal.


Crimes de guerra


Para Cilene Victor, jornalista e professora da Universidade Metodista de São Paulo, o bloqueio da ajuda humanitária em Gaza configura uma grave violação das normas internacionais. “Provocar a morte por inanição é uma forma horrenda de crime de guerra. Israel conseguiu atualizar todas as formas de violação de direitos humanos, e isso inclui jornalistas sendo colocados sob risco real de morrer de fome”, afirma Cilene, que também é líder do grupo de pesquisa Jornalismo Humanitário e Media Interventions, da universidade. 


A pesquisadora denuncia o apagamento da importância dos jornalistas locais. “Parece que esses jornalistas valem menos para a sociedade internacional, como se fossem só mais um palestino entre os outros deixados para trás. Mas são eles que conhecem cada curva daquele território, são eles que garantem que a informação continue saindo mesmo quando o mundo se cala”, pontua.


O testemunho da jornalista Ahlam reforça o cenário de abandono: “Toda vez que saio para uma entrevista, não sei se voltarei viva.” Para ela, “o maior problema é a falta de comida e água.”


A FDJ destaca: “Desde que a AFP foi fundada, em agosto de 1944, alguns de nossos jornalistas foram mortos em conflitos, feridos ou feitos reféns. Mas nunca houve registro de que tivéssemos de assistir colegas morrerem de fome.”


Cilene conclui que “é urgente que Israel permita a entrada da imprensa internacional. Gaza virou um lugar onde o jornalismo praticamente desapareceu.”


Em 2024, mais de 60 veículos internacionais assinaram uma carta conjunta pedindo a proteção dos jornalistas que ainda atuam na região. O documento cobra a criação de corredores humanitários seguros e acesso à ajuda internacional para trabalhadores da imprensa, que seguem expostos a bombardeios, fome e doenças. Porém, a realidade piorou. “Gaza inteira hoje é uma cena de tamanha afronta moral e humanitária. É o inaceitável se tornando cotidiano”, resume Cilene Victor.


20 julho 2025

Investigação apresenta novo modelo para compreender os impactos individuais da prevenção da cultura de cancelamento

iLixe48/Envato Elements


Um estudo recente realizado no Centro de Investigação e de Intervenção Social do Iscte-Instituto Universitário de Lisboa (CIS-Iscte) introduz o modelo de Pressão para uma Conduta Perfeita (PPC, do inglês Pressure for a Perfect Conduct), concebido para explicar a forma como os indivíduos experimentam e respondem à cultura do cancelamento.


Com o rápido crescimento da Internet e das redes sociais, as pessoas podem hoje comunicar entre si mais facilmente do que nunca. Neste contexto, as plataformas digitais podem imortalizar a informação, tendo-se tornado cada vez mais locais de escrutínio da nossa atividade passada. Com esta possibilidade, surgiu também a sensação de vigilância constante dos discursos, com a consequente autovigilância e autocensura para evitar ser-se alvo de cancelamento. A cultura de cancelamento (cancel culture) pode ser definida como a prática generalizada, em grande parte impulsionada pelas redes sociais, em que indivíduos ou grupos retiram coletivamente o apoio a uma pessoa, empresa ou organização que se considera ter agido de forma ofensiva ou imoral. De acordo com os autores, esta cultura de cancelamento “funciona como uma forma moderna de vergonha pública ou de responsabilização, muitas vezes descrita como um ‘tribunal de opinião pública’ digital”.


Os autores desta investigação – Tiago Rôxo Aguiar (CIS-Iscte & BRU-Iscte), Diniz Lopes (CIS-Iscte) e Thomas R. Brooks (New Mexico Highlands University) – consideram que, nestas condições, as pessoas são impulsionadas a procurar a perfeição para evitar o escrutínio e o cancelamento online. Assim, propõem um novo conceito – a Pressão para uma Conduta Perfeita (PPC) – e um novo modelo teórico para explorar os efeitos individuais que surgem da prevenção do cancelamento.


No artigo publicado, a PPC é descrita como “a pressão que uma pessoa sente para se comportar de forma perfeita sob a ameaça de ser cancelada”. Esta pressão está fortemente enraizada no conceito de perfecionismo, no sentido em que as pessoas estabelecem padrões pessoais excessivamente elevados e se envolvem em autoavaliações demasiado críticas para evitar erros a todo o custo. É frequente observarmos pessoas que se retratam como tendo um corpo perfeito ou um estilo de vida perfeito, que constituem exemplos de como o perfecionismo está intrinsecamente ligado às redes sociais. Os autores explicam que “como ser cancelado pode resultar em desaprovação social, danos à reputação ou outras consequências negativas” (por exemplo, J.K. Rowling), a ameaça de ser cancelado motivará as pessoas a manter uma persona online altamente cuidada e polida para evitar repercussões.


Com base em investigação desenvolvida em vários subcampos da Psicologia Social, os investigadores explicam que a cultura do cancelamento pode servir como um mecanismo de controlo para reforçar um leque de valores e/ou comportamentos, levando a uma mais elevada autovigilância e a autoapresentação perfeita. A adoção destes comportamentos seria uma estratégia adaptativa para evitar o cancelamento através da variável psicológica mediadora aqui apresentada (a pressão para uma conduta perfeita). “O modelo teórico que propomos considera cinco variáveis que predizem esta pressão para uma conduta perfeita: a auto-pressão percebida e o estatuto percebido, que se relacionam com aspirações perfecionistas; e as repercussões do cancelamento percebidas, a identidade de grupo e o nível de concordância com a opinião pública, que se relacionam com preocupações perfecionistas”, esclarece Tiago Rôxo Aguiar, doutorando em Psicologia no Iscte e primeiro autor deste artigo científico.


No estudo, a equipa de investigação avaliou empiricamente a validade externa do modelo proposto, realizando entrevistas exaustivas com 20 utilizadores e utilizadoras de redes sociais em Portugal. Através da análise de conteúdo das transcrições das entrevistas, a equipa explorou a forma como a cultura de cancelamento influencia o comportamento online e offline, a saúde mental e as opiniões das pessoas. Os e as participantes relataram sentir uma pressão considerável para se comportarem de forma a reduzir as possibilidades de virem a ser canceladas. Impulsionadas pela constante monitorização e julgamento dos outros, esta pressão levaria então a um sentido elevado de autovigilância e comportamentos ligados à autocensura.


Embora investigação prévia não seja consensual quanto à existência ou à valência da cultura de cancelamento, os dados deste estudo sugerem que pessoas leigas reconhecem o fenómeno e consideram que o cancelamento pode ser realizado a qualquer pessoa, e não apenas por figuras poderosas. Além disso, participantes afirmaram que esta pressão para uma conduta perfeita pode ter impacto na saúde mental das pessoas e nas suas interações sociais, tanto para quem é cancelado como para quem cancela. “Os resultados globais, embora obtidos com uma amostra limitada, apoiam o potencial do modelo enquanto ferramenta de investigação futura para quantificar e prever como a cultura de cancelamento afeta as pessoas em diferentes contextos”, concluem os autores.


Ao propor uma abordagem estruturada para avaliar os efeitos psicológicos da cultura de cancelamento, esta investigação abre novas possibilidades para a investigação psicossocial. Também leva a sociedade a considerar as implicações do vigilantismo online na saúde mental e a necessidade de intervenções para atenuar os seus efeitos adversos. Em termos gerais, o estudo oferece um enquadramento fundamental para a compreensão e a abordagem dos efeitos pessoais da cultura de cancelamento na era digital, com a clara necessidade de desenvolver mais investigação sobre o tópico.


15 julho 2025

"O Verão em que Me Apaixonei" regressa para última temporada

 


Amazon Prime Video/Divulgação


São os últimos 11 episódios de "O Verão Em Que Me Apaixonei". A terceira temporada série original da plataforma de streaming Amazon Prime Video estreia esta quarta-feira. 


Depois de se ter tornado um fenómeno de audiências, a nova temporada da versão televisiva do sucesso de Jenny Han, o "drama multigeracional" chega agora ao fim: "Gira em torno de um triângulo amoroso entre uma jovem e dois irmãos, a relação em mudança entre mães e filhos e o poder de uma forte amizade feminina", descreve a plataforma, acrescentando que a série "é uma história de amadurecimento sobre o primeiro amor, o primeiro desgosto e a magia de um verão perfeito". Os romances de Han foram, aliás, publicados em mais de 30 idiomas e foram adaptados a televisão para a Amazon Prime Video. A escritora é também produtora executiva da série "XO, Kitty" e de três filmes da triologia "All The Boys", da Netflix. 


Nesta terceira temporada, Belly está no final do terceiro ano da universidade e aguarda por mais um verão junto de Jeremiah, a sua "alma gémea". Tudo parece estar a seguir o curso normal, "até que alguns acontecimentos emocionantes trazem o seu primeiro amor, Conrad, de volta. Agora, quase a chegar à vida adulta, Belly encontra-se num dilema e tem de decidir que irmão tem o seu coração". 


A série ficará disponível para todos os subscritores da plataforma em mais de 240 países e territórios. 



 

09 julho 2025

Lisboa e Porto são das cidades mais "LGBTI+ friendly" do mundo

andreonegin/Envato Elements


Segurança, vida noturna e políticas inclusivas. Estes foram os três fatores que fizeram com Lisboa e o Porto fossem eleitas como as cidades mais "LGBTI+ friendly" pela plataforma Big 7 Travel. 


Numa nota enviada às redações esta quarta-feira, a Plataforma Portugal Pride indica que o ranking foi lançado em junho passado e que a capital portuguesa e a cidade "Invicta" ultrapassaram cidades como Madrid, Londres ou Amesterdão: "Este reconhecimento internacional é visto como fruto de uma aposta estratégica de longo prazo de Portugal no turismo LGBTI+, iniciada em 2017", frisa a entidade. 


Para o coordenador da Portugal Pride Diogo Vieira da Silva, o progresso português deve-se em grande parte a privados e à sociedade civil, "que preencheram uma lacuna nas entidades oficiais. Até hoje, as agências nacionais e regionais de promoção turística não têm equipas dedicadas ao segmento LGBTI+, ao contrário de outros mercados", critica. 


Apesar destes entraves, a verdade é que o país é o único a figurar no top 10 da Big 7 Travel com duas cidades. A "Invicta" ocupa o terceiro lugar do top e é descrita como tendo "uma sensação de inclusão e aceitação, independentemente on se vá", destacando a rua das Galerias de Paris como um dos pontos LGBTI+ principais. Já Lisboa é a líder e é descrita como "pioneira no desenvolvimento de uma comunidade segura, solidária e divertida para pessoas queer". A Big 7 Travel diz mesmo que todo o país é "LGBTI+ friendly", quando reforça que Portugal "despenalizou a homossexualidade em 1982 e foi o oitavo país do mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010". 


Para Silva, esta visão sobre o país é fruto da estratégia de aposta na promoção de Portugal como um destino inclusivo, algo que deve continuar com a nova Estratégia de Turismo 2035, um documento que deverá ser apresentado ainda este ano, lembrando que o país "foi dos primeiros países do mundo a promover-se internacionalmente como destino LGBTI+". Caso a promoção não continue com a nova Estratégia, para o consultor,  será algo "preocupante": "Os retornos económicos deste segmento são evidentes e a sua ausência numa estratégia só se explicaria por motivos ideológicos, não por falta de valor económico".


A perspetiva de Silva é sustentada por dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (ou "World Travel & Tourism Council", em inglês), que indica que o turismo LGBTI+ já representa mais de 200 mil milhões de dólares (cerca de 170,6 mil milhões de euros). Por seu turno, a Organização Mundial de Turismo estima mesmo que entre 5 a 10% de todos os turistas a nível mundial são do segmento LGBTI+, sendo que são consumidores que viajam com maior frequência e gastem mais que outros segmentos. 


Além de Lisboa (1.º lugar) e Porto (3.º), Dublin, na Irelanda, ocupa a segunda posição do top. Londres (Reino Unido), Madrid (Espanha), Berlim (Alemanha), Amesterdão (Países Baixos), São Francisco (Estados Unidos da América), Toronto (Canadá) e Sidney (Austrália) completam o top 10. 

Planeamento de ruas verdes em Portugal não se alinha com o envelhecimento ativo

Alexandros Giannakakis/Unsplash


Apesar dos impactos ambientais positivos que se têm observado com o desenvolvimento das ruas verdes, estudo realizado no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa alerta para o facto de frequentemente não incluírem elementos essenciais para as pessoas mais velhas, como pavimentos acessíveis, zonas de descanso ou medidas de segurança, levantando preocupações sobre inclusão social.


Um pouco por todo o mundo, têm vindo a ser desenvolvidas políticas de mobilidade ativa com o objetivo de reduzir a emissão de gases com efeito de estufa para mitigar o impacto das alterações climáticas. A criação de mais espaços verdes e de ciclovias são algumas dessas medidas. Contudo, um estudo realizado no Iscte alerta para a necessidade de o planeamento urbano considerar as políticas públicas de envelhecimento ativo.


Neste estudo, a equipa de investigação explorou a intersecção entre o planeamento urbano e a inclusão, focando-se em como as ruas verdes, fundamentalmente as que integram vegetação e mobilidade suave, podem apoiar a mobilidade e o bem-estar de adultos mais velhos. “O planeamento do desenho urbano das ruas verdes tem tido como premissa a mitigação das alterações climáticas e a promoção do bem-estar, vindo, por isso, a englobar o incremento em espaços verdes e de exercício físico, e a criação de ciclovias”, explica André Samora-Arvela, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador integrado do Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetura (ISTAR-Iscte), primeiro autor do estudo. “Neste estudo avaliámos o grau de alinhamento das políticas públicas de mobilidade ativa e de envelhecimento ativo a nível internacional, nacional e local que, neste caso, se refere à cidade de Lisboa”, esclarece o investigador. O objetivo foi diagnosticar em que medida as políticas de mobilidade ativa consagram o respeito pelas diretrizes das estratégicas de envelhecimento ativo.


Os resultados do estudo sugerem que embora as políticas internacionais e municipais enfatizem atualmente ambientes urbanos amigos das pessoas idosas e, as estratégias de envelhecimento ativo em Portugal permanecem desligadas das políticas de mobilidade ativa. “Em linha com o panorama internacional, os nossos resultados indicam que Portugal tem avançado na definição de políticas de mobilidade sustentável impulsionadas pelas metas climáticas” afirma Sara Eloy, arquiteta, professora na Universidade de Antuérpia e investigadora associada do ISTAR-Iscte. De acordo com esta análise, a mobilidade ativa (pedonal e ciclável) em Portugal parece ter resultado essencialmente da experiência e do estudo das políticas implementadas em Lisboa, exemplificando como a prática municipal pode influenciar a prática nacional. Contudo, em contraste com as políticas internacionais, as políticas de envelhecimento em Portugal afiguram ainda como desarticuladas das de mobilidade ativa.


Por que é importante considerar o envelhecimento ativo nas políticas de mobilidade e no planeamento urbano?


De acordo com Sibila Marques, psicóloga social, professora do Iscte e investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), “incluir estratégias de envelhecimento ativo nas políticas de mobilidade é fundamental para promover cidades mais acessíveis, seguras e inclusivas para todas as pessoas”. Se o desenvolvimento de ruas não considera o ponto de vista das pessoas mais velhas, “corremos o risco de aumentar o seu isolamento social, diminuir a sua autonomia, reforçando desigualdades sociais e o idadismo”, alerta a investigadora. Mariana Montalvão, bolseira de investigação no CIS-Iscte, relembra ainda que um mau desenho de ruas pode “colocar em risco a segurança das pessoas mais velhas” dando como exemplo a calçada portuguesa, que, devido à falta de manutenção, constitui, muitas vezes, um perigo para pessoas de qualquer idade. Representando uma questão de justiça social e inclusão, estes e outros riscos podem comprometer a qualidade de vida dos idosos com potencial de aumento da pressão sobre os sistemas de saúde e de cuidados.


Para esta equipa de investigação, a análise realizada permite concluir que as ruas verdes e iniciativas relacionadas com a transição climática têm sido desenvolvidas principalmente ao nível municipal, mas frequentemente sem uma consistente abordagem participativa ou inclusiva. “Para criar cidades verdadeiramente inclusivas é essencial considerar também o ponto de vista das pessoas mais velhas através de, por exemplo, projetos participativos”, sugere e enfatiza Sibila Marques.


“Para serem bem-sucedidas, as políticas devem ser implementadas com todos e para todos”, pode ler-se na conclusão do artigo publicado. Este estudo foi realizado no âmbito do projeto GreenCity4Aging (REF. 2022.03478.PTDC), financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e coordenado por Sibila Marques e Sara Eloy.


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