"o largo. tentou ser demasiadas coisas ao mesmo tempo: gastronomia, moda, sustentabilidade, entretenimento. Perdeu-se na tentativa de agradar a todos e acabou por não ser reconhecível para ninguém."
Em 2010, criei a rádio kapa. Não havia plano, não havia orçamento, não havia audiência garantida. Havia música — muita música — e a vontade de a partilhar com quem quisesse ouvir.
Seis anos depois, quando fui despedido injustamente, a resposta natural foi criar. Não por terapia, não por impulso — mas porque sempre acreditei que era possível fazer jornalismo independente, sério e factual, sem pedir autorização a ninguém. O Largo do Beco nasceu assim, em agosto de 2017, numa plataforma de blogues que entretanto está para encerrar. Mais tarde passou a chamar-se o largo.. O ponto final era intencional.
Quinze anos depois, o projeto ainda existe. Isso não é pouco.
Nesse tempo, atravessei plataformas que encerraram, migrações forçadas, períodos de silêncio e de dúvida. Acumulei custos do meu próprio bolso, sem retorno financeiro. Mantive uma rádio a emitir 24 horas por dia com uma grelha de programação que inclui nomes como Robin Schulz, DJ Chus e Ori Uplift — e que todas as semanas leva aos ouvintes o Airplay40, o top 40 europeu apresentado pelo locutor britânico Spencer James. Estabeleci parcerias formais.
Fiz tudo com diversas pessoas sensacionais que se foram cruzando no meu caminho e fizeram dos vários projetos uma experiência única e intensa. Mas muito do trabalho foi solitário, com noites mal dormidas ou com um trabalho permanente e dedicado a resolver problemas que surgiam, enquanto o tempo que tinha se foi esvaindo para outras necessidades.
Não escrevo isto para impressionar. Escrevo porque só recentemente percebi que o problema nunca foi o projeto — foi a clareza. o largo. tentou ser demasiadas coisas ao mesmo tempo: gastronomia, moda, sustentabilidade, entretenimento. Perdeu-se na tentativa de agradar a todos e acabou por não ser reconhecível para ninguém.
Em janeiro de 2026, o SAPO Blogs anunciou o encerramento. o largo. regressou à sua plataforma própria — o endereço mantém-se: olargo.pt. E dessa vez, em vez de apenas migrar o conteúdo, decidi migrar também o foco.
A partir de agora, o largo. organiza-se em torno do que sempre foi o seu coração: música, media e cultura portuguesa. O menu está a ser simplificado. As categorias que não faziam sentido estão a ser removidas. A rádio passa a ter mais destaque — porque é o elemento que mais nos distingue de qualquer outro projeto independente português.
Não faço promessas sobre o que vai ser o largo. amanhã. Quinze anos ensinaram-me que os projetos não se constroem com declarações — constroem-se com consistência. Com a honestidade de dizer o que somos e o que não somos.
O que somos: uma publicação digital independente com foco em música, media e cultura portuguesa, com uma rádio que emite 24 horas por dia.
O que não somos: um meio de comunicação generalista, uma redação com recursos ou um projeto que cresce depressa.
O que queremos ser: uma voz reconhecida. Com tempo.
Mas mantenho uma certeza: queremos continuar a ter o mundo num blogue.
Arquivo Pessoal/Agência PúblicaEm entrevista à Agência Pública, a ativista iraniana Parvin Ardalan, exilada na Suécia, fala sobre as camadas de conflitos internos e externos e avalia desafios para redefinir futuro do Irão. Lê aqui um excerto e escuta a entrevista na íntegra.
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Andrea DiP, Sofia Amaral, Recardo Terto, Stela Diogo e Thaís Santana e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
No último 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram um ataque militar contra o Irã, na chamada “Operação Fúria Épica”. O ataque deixou centenas de mortos e ampliou o risco de uma escalada regional e até de uma nova corrida nuclear. Em meio aos ataques militares, as narrativas também entraram em disputa. Enquanto parte da imprensa e da população global acredita no objetivo de “libertar” o povo iraniano, dentro do país o conflito envolve disputas mais amplas e interesses que vão além da retórica de liberdade.
Para falar sobre os conflitos internos e avaliar os desafios para redefinir o futuro do país, o Pauta Pública conversou com Parvin Ardalan, jornalista, escritora e ativista feminista. Cofundadora do Centro Cultural das Mulheres Iranianas e da Campanha “Um Milhão de Assinaturas”, Parvin vive hoje exilada na Suécia. Ela fala sobre sua trajetória pessoal, perseguições enfrentadas dentro do regime e como os Estados Unidos e aliados representam apenas mais uma forma de dominação, mas destaca que “nessa situação de fragmentação social, algumas pessoas passaram a concordar até com a guerra, porque pensavam que essa seria a única maneira de provocar uma mudança de regime”.
Ardalan ainda destaca que o discurso dos Estados Unidos e Israel, de liberar o povo iraniano, não corresponde ao que acontece na realidade: “A guerra continua, muitas pessoas foram mortas e outras se espalharam pela região. […] A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os países usarem o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito tempo oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil. Mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados.”
Confira os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo:
Com ataques dos EUA e de Israel, mudança de regime, massacres. Temos visto muita desinformação na imprensa e nas redes sociais, inclusive entre pessoas da diáspora. Você poderia contextualizar para o público brasileiro o que realmente está acontecendo?
Não é fácil nem para nós. Primeiro, é importante dizer que olhar os acontecimentos à distância, da diáspora, sempre envolve riscos e possíveis mal-entendidos. Isso significa que estou olhando de fora para dentro. E tentando analisar o que está acontecendo. Para entender o que acontece hoje no Irã, precisamos ver isso como parte de um ciclo mais longo de protestos que vem se desenvolvendo há anos. Desde 2009, tivemos muitas manifestações populares. E com o tempo a distância entre elas foi ficando menor. Por exemplo, protestos de 2017 a 2020. Também houve protestos de professores, aposentados e trabalhadores. Todos relacionados a crises econômicas, ambientais e à perda de legitimidade da República Islâmica. Um dos maiores foi em setembro de 2022. Depois do assassinato de Gina Mahsa Amini,uma jovem curda morta por causa do hijab, que é obrigatório por lei. Depois que a polícia moral a atacou e ela morreu no hospital, começaram grandes protestos. Foi quando também criamos a rede “Feminists for Gina”. As mulheres passaram a tirar o hijab nas ruas. Isso não significa que a lei mudou. Mas mostra que as mulheres estão tentando mostrar autonomia e agência sobre como elas querem se vestir e como querem ocupar o espaço público. Nós temos essa história do passado no Irã, e a mais recente onda de protesto, desta vez, começou em dezembro de 2025. Foi no fim de dezembro de 2025 que parte de Teerã protestou na rua. E foi por causa do aumento de preços de tudo. Os protestos começaram nos bazares de uma das áreas importantes de Teerã e se espalharam para centenas de cidades, envolveram grupos sociais diferentes, especialmente jovens, e a escala de participação parece ter sido maior do que muitos protestos anteriores que tivemos durante a última década. E, ao mesmo tempo, este protesto também revelou novas dinâmicas políticas e tensões dentro da oposição. Então, a situação no Irã hoje é formada por várias realidades que se sobrepõem. Uma sociedade que tem tido um ciclo contínuo de protestos, um Estado que responde principalmente com repressão e a oposição fragmentada, com diferentes visões para o futuro do país. E, ao mesmo tempo, o Irã estava entrando em outro movimento sensível internacionalmente, com a renovação da tensão e as negociações em torno do programa nuclear do país. E, no meio da situação, com a internet já frágil, os ataques militares pelos Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro, adicionaram uma nova e muito perigosa dimensão para a crise e complicaram a situação.
Apesar das diferenças locais claras, as ações de Trump no Irã são muito semelhantes às que ele tomou na Venezuela. Em nome de libertar o povo, ele invade, ataca, sequestra, derruba governos e já não esconde seus interesses, como o petróleo. Agora ele está dizendo que precisa participar da escolha de um novo líder. Como você escuta essa narrativa de Trump de se posicionar como um salvador que vem de fora para resolver os problemas do país? E o que deve acontecer agora no Irã?
Na verdade, a narrativa de que um poder externo pode salvar o país por meio de intervenção militar é algo que vimos muitas vezes em nossa história. Ela costuma aparecer na linguagem da libertação ou da democracia. Mas, na realidade, geralmente está profundamente conectada a interesses geopolíticos e econômicos. Por isso, muitos iranianos escutam essa narrativa com grande ceticismo. Ao mesmo tempo, também precisamos entender o nível de frustração e exaustão dentro da sociedade iraniana. Na última década, as pessoas foram repetidamente às ruas. Cada vez que esses movimentos surgiram, foram respondidos com repressão e violência, sem qualquer mudança política significativa. Essa longa experiência de repressão criou um sentimento de desespero em muitas pessoas. Nesse contexto, algumas começam a acreditar que qualquer força externa poderia ajudá-las a mudar o sistema atual. Às vezes se ouve dentro do Irã a frase: “qualquer coisa seria melhor do que isso”. Mas esse tipo de pensamento geralmente vem de um lugar de exaustão, e não de uma visão política clara para o futuro. Ao mesmo tempo, a própria oposição permanece profundamente fragmentada. Por exemplo, alguns grupos apoiam a monarquia em torno de Reza Pahlavi, enquanto outros, incluindo muitos grupos democráticos, republicanos e da sociedade civil, além de movimentos de mulheres e feministas, defendem mudanças que venham de baixo para cima, e não impostas de cima. Durante as manifestações de 2025, quando Reza Pahlavi convocou as pessoas, e mais de um milhão foram às ruas, tivemos uma situação ambígua. Por um lado, foi a primeira vez que mais de um milhão de pessoas participaram de uma manifestação desse tipo. Naquele período, a internet estava completamente desligada e não podíamos fazer quase nada. Nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026 houve um massacre, quase um genocídio, contra manifestantes. Mais de mil pessoas foram mortas pelo governo em apenas dois dias. Esse sentimento de exaustão aumentou ainda mais. Quando Reza Pahlavi convocou as pessoas, muitas estavam pensando que não havia outro caminho. Para muitos, parecia que um “salvador” estava chegando, porque os Estados Unidos diziam que queriam negociar sobre o programa nuclear com o governo iraniano e estavam enviando forças militares para a região. Israel também dizia que estava tentando salvar o povo. Ao mesmo tempo, existe um grupo monarquista cujo apoio tem aumentado. Nessa situação de fragmentação social, algumas pessoas ficaram tão revoltadas que passaram a concordar até com a guerra, porque pensavam que essa seria a única maneira de provocar uma mudança de regime. Assim, a ideia de mudança de regime tornou-se mais presente e mais forte do que outros debates, especialmente entre pessoas dentro do Irã. Essa situação tornou-se ainda mais paradoxal quando Ali Khamenei, líder do Irã, foi morto em um ataque israelense. Em 28 de fevereiro houve ataques ao Irã e muitos membros do aparato militar foram mortos, especialmente da Guarda Revolucionária (IRGC), além do próprio Khamenei. Esse clima fortaleceu ainda mais a ideia de que talvez os Estados Unidos pudessem intervir e mudar o regime. Mas, infelizmente, isso não corresponde ao que acontece na realidade. A guerra continua, muitas pessoas foram mortas e outras se espalharam pela região. Os Estados Unidos não estão pensando nas pessoas, nem no bem-estar do país. Há muitos fatores que ainda vão aparecer gradualmente. No dia 8 de março foi anunciado que Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo Ali Khamenei, se tornou o novo líder. Ou seja, eles estão tentando reproduzir algo semelhante ao que ocorre no debate monarquista em torno de Reza Pahlavi, o filho do antigo xá assumindo o poder. Agora querem colocar Mojtaba, o filho do líder supremo, no lugar do pai. Isso significa uma espécie de nova forma de monarquia, mas em forma clerical. Estamos vivendo um momento muito incerto. O Irã enfrenta agitação social interna, pressão militar externa e profunda fragmentação política. A verdadeira questão é se uma transição democrática pode surgir de dentro da sociedade iraniana, por meio de alianças amplas e resistência civil, ou se o futuro será moldado por grupos militares, pela guerra ou por interesses geopolíticos de diferentes potências. Nada disso está claro para nenhum de nós. No debate feminista, especialmente na rede Feminists for Jina, sempre afirmamos que não concordamos com a guerra. Somos contra a guerra. Não queremos a volta da monarquia nem outra forma de ditadura. A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel, que tentam usar o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito tempo oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil. Mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados.
As autoridades passaram anos a testar ferramentas, a desenvolver aplicações e a tentar restringir a forma como os russos utilizam a Internet. As falhas generalizadas na rede e a confusão em torno das aplicações de mensagens estão a testar a paciência da população.
Este artigo é uma tradução para português de Portugal de um artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).
O WhatsApp está a sofrer fortes limitações de velocidade. O Telegram está prestes a ser bloqueado. Os soldados estão furiosos. O Max, uma aplicação de mensagens com o apoio do Estado, está a ser imposto a todos. Os comandantes alertam que o Max não é seguro. O cidadão russo comum tenta evitá-lo.
Ah! E, como se não bastasse, a Internet móvel está a ser desligada em todo o lado, pelo que, na moderna Moscovo do século XXI, não é possível chamar um táxi, encomendar entrega de comida ou sequer consultar um mapa online.
Na capital russa, uma cidade hiperconectada e dependente das redes móveis — para não falar de muitas outras vilas e cidades pelo país fora —, a Internet, juntamente com as aplicações de que os russos dependem para o seu quotidiano, está a colapsar.
Se perguntarmos ao Kremlin como está a lidar com a situação:
"Estamos a usar telefones fixos", afirmou o porta-voz Dmitry Peskov.
Mas se perguntarmos ao cidadão russo comum:
"Eles têm todos carros com luzes prioritárias da polícia e nós nem sequer conseguimos chamar um táxi ou reservar um veículo partilhado", desabafou Maksim, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, referindo-se aos pirilampos intermitentes, amplamente detestados pela população, que os governantes utilizam para contornar o infame trânsito de Moscovo.
No início deste mês, contou Maksim, chegou atrasado ao trabalho na sua deslocação desde o subúrbio de Zelenograd, devido aos cortes de Internet no centro de Moscovo.
"Não havia absolutamente qualquer rede. Por isso, apanhei um comboio suburbano, depois o metro, e ainda tive de andar quase dois quilómetros a pé até ao nosso armazém", relatou à RFE/RL Siberia.Realities. "Nem sequer consegui pagar o aluguer de uma trotineta elétrica."
O mundo digital russo está a ser agitado por uma série de tensões cruzadas, na sua maioria resultantes da tentativa dos reguladores governamentais e das principais agências de segurança do país em impor um controlo mais apertado sobre os cidadãos comuns: o que leem, o que veem, o que partilham, o que encomendam, como pagam.
Basicamente, tudo o que fazem online.
"Uma parte significativa dos moscovitas está habituada a uma experiência de Internet muito confortável, habituada a viver em canais acolhedores do Telegram e a comunicar através de uma aplicação de mensagens muito prática. Agora, os moscovitas estão a ser expulsos desse ambiente bastante confortável", explicou Igor Yakovenko, sociólogo russo, ao Serviço Russo da RFE/RL.
"O Kremlin está a tentar transformar a Internet russa num ecossistema fechado, em que todos os serviços importantes são controlados e acessíveis" ao Serviço Federal de Segurança (FSB), escreveu a comentadora russa Maria Kolymchenko num artigo para o Carnegie Russia Eurasia Center, com sede em Berlim. "Se existem plataformas estrangeiras que ainda não foram bloqueadas, é apenas porque ainda não há uma alternativa nacional viável."
O que se passa?
Estas convulsões derivam de uma série de medidas políticas lideradas pelo regulador estatal de tecnologia, o Roskomnadzor, com o apoio do Kremlin.
A primeira está relacionada com as aplicações de mensagens.
Há vários anos que os reguladores têm vindo a trabalhar com líderes da indústria tecnológica russa para desenvolver alternativas às duas aplicações de mensagens mais populares entre os russos: o WhatsApp, detido pela empresa-mãe do Facebook, e o Telegram, propriedade de Pavel Durov, empresário tecnológico exilado.
O Roskomnadzor tem vindo a estrangular gradualmente as duas aplicações, reduzindo a sua velocidade para as tornar inutilizáveis. A agência tem adotado medidas semelhantes com o YouTube, o serviço de transmissão de vídeo mais popular no país, detido pela empresa-mãe da Google.
A imprensa russa avança que o Telegram poderá ser totalmente bloqueado no país a partir de 1 de abril.
Paralelamente, as autoridades têm promovido uma aplicação de mensagens alternativa desenvolvida pela VK, a gigante das redes sociais cujos quadros superiores incluem figuras ligadas ao Kremlin.
Essa aplicação, batizada de Messenger Max, foi lançada no ano passado com o apoio público do presidente Vladimir Putin. Desde então, os órgãos de comunicação estatais e alinhados com o Estado têm feito uma promoção agressiva da mesma.
As autoridades locais também têm exercido uma forte pressão sobre os russos para fazerem a transição. A partir de setembro, os novos dispositivos móveis adquiridos na Rússia terão de trazer o Max pré-instalado. Na semana passada, uma universidade de Moscovo anunciou que não entregaria os diplomas aos alunos finalistas a menos que estes instalassem o Max.
"A Rússia está a restringir o acesso ao Telegram para forçar os seus cidadãos a aderirem a uma aplicação controlada pelo Estado, criada para a vigilância e censura política", acusou Durov numa publicação na rede social X no mês passado.
Porém, os russos estão a resistir à mudança e a procurar formas criativas de evitar a sua instalação nos telemóveis.
Por seu turno, o Telegram é amplamente utilizado não só pelos civis russos, mas também pelos soldados destacados para a Ucrânia, bem como pelos chamados Z Bloggers, que utilizam o Telegram para amplificar a propaganda de guerra e angariar fundos para si próprios e para as unidades militares.
O estrangulamento do Telegram — agravado pelas notícias de que os comandantes ordenaram a sua eliminação total dos telemóveis dos soldados — provocou um descontentamento aberto entre as tropas e os seus apoiantes públicos.
"Quem é que está a abrandar o Telegram?", questionou Sergei Mironov, um proeminente deputado, num discurso indignado no mês passado. "Vão para a frente de batalha, para a [guerra]. Os rapazes que estão a derramar sangue — a única ligação que têm com as suas famílias e amigos é através do Telegram. O que é que estão a fazer, idiotas? Eu chamo os bois pelos nomes. Idiotas! O que é que estão a fazer?"
Aumentando ainda mais a frustração, os comandantes russos proibiram a utilização do Max nos telemóveis dos soldados, invocando preocupações de segurança com a aplicação, de acordo com vários canais pró-guerra proeminentes do Telegram.
"Toda esta cacofonia em torno do Telegram é ridícula. Ridícula. Estamos simplesmente a trabalhar contra o nosso próprio povo, a piorar-lhes a vida", afirmou Andrei Bezrukov, um conhecido ex-agente "adormecido" das secretas russas que agora leciona numa universidade de Moscovo.
"Durante um período bastante difícil para o país, estamos a tentar — como poderei dizer? — aborrecer uma grande percentagem da nossa população, que naturalmente está a favor da vitória [na guerra da Ucrânia] e só quer o melhor", considerou numa entrevista em vídeo.
Em fevereiro, os legisladores aprovaram nova legislação que confere ao FSB e a outras agências policiais e de segurança o poder de ordenar aos operadores móveis o corte do serviço a qualquer cliente, caso seja necessário.
"Eu nem sequer consigo contactar os meus entes queridos" - utilizador russo
Para agravar todo este cenário, somam-se as falhas na internet móvel, que começaram a causar transtornos a milhões de moscovitas por volta de 6 de março.
Noutras regiões fronteiriças, as autoridades justificaram os cortes temporários como medidas necessárias para travar os drones ucranianos, que frequentemente dependem das redes móveis locais para se orientarem. Vários dias após o início das perturbações em Moscovo, Peskov afirmou que as medidas foram tomadas "no interesse da segurança", sem adiantar detalhes.
Alguns russos desabafaram a sua indignação com os cortes no Dia Internacional da Mulher, publicando diretamente na página da VK do Roskomnadzor, abaixo das felicitações da agência para o feriado que é amplamente celebrado na Rússia.
"Obrigado por desligarem a Internet no dia 8 de março — que belo presente! Nem sequer consigo contactar os meus entes queridos para os felicitar", escreveu um utilizador.
O impacto económico das falhas foi considerável, de acordo com o jornal Kommersant, que estimou perdas para as empresas de Moscovo entre os 3 e os 5 mil milhões de rublos (cerca de 32 a 53 milhões de euros) durante os primeiros cinco dias de cortes. Os mais afetados foram os retalhistas, os serviços de entrega de comida e estafetas e as empresas de carsharing.
Noutras grandes cidades, os russos já sofrem cortes nas redes móveis há meses. Em Petropavlovsk-Kamchatsky, uma cidade numa península da costa do Pacífico que fica a mais de 7 200 quilómetros da Ucrânia, registaram-se falhas em junho passado, tal como em Irkutsk, na Sibéria, onde os habitantes locais demonstraram pouca simpatia para com os moscovitas.
"Bem, agora vão sentir a nossa dor", atirou uma mulher de Irkutsk que se identificou apenas pelo primeiro nome, Natalya.
"Em junho, começaram a abrandar a nossa Internet, no final do ano houve um bloqueio total, e agora a situação é tal que pode ser bloqueada a qualquer momento, durante vários dias ou semanas", disse à RFE/RL Siberia.Realities. "Mesmo quando a rede está a funcionar, a velocidade é muito lenta — não conseguimos enviar vídeo ou áudio."
A confusão e a frustração suscitaram reações irónicas por parte da Ucrânia, onde o Telegram, o I e a Internet não sofrem restrições.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, antigo ator de comédia na sua carreira anterior, provocou Putin por causa dos apagões na Internet.
"Isto é, sabem, um passo atrás, um recuo de 100 anos", disse aos jornalistas na semana passada. "Qualquer dia, mais vale passarem para o correio em papel, telegramas e cavalos. É este o tipo de civilização que eles têm. Talvez o Putin até goste. Talvez seja assim que ele se volta a sentir jovem."
Mehaniq41/Envato ElementsResidentes deparam-se com constrangimentos no acesso a serviços essenciais, como pagamentos eletrónicos, aplicações de transporte e ferramentas de navegação.
Este artigo é uma tradução para português de Portugal de um artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).
Uma vaga de cortes na internet móvel atinge Moscovo há mais de uma semana, causando fortes constrangimentos no dia a dia da cidade e avolumando receios sobre até que ponto o governo de Vladimir Putin estará disposto a ir para reforçar o controlo sobre a atividade online.
Habitantes e empresas desta cidade com mais de 12 milhões de pessoas enfrentam dificuldades no acesso a um vasto leque de serviços, desde pagamentos digitais a aplicações de táxis e sistemas de navegação. Numa cidade tecnologicamente avançada e que concentra grande parte da riqueza da Rússia, as vendas de artigos analógicos, como pagers e mapas em papel, dispararam.
Desde o início de grande parte dos cortes, a 7 de março, a situação tem vindo a agravar-se. Até mesmo as páginas incluídas na "lista branca" do governo — plataformas alinhadas com o Estado que, em teoria, estariam isentas destas restrições — ficaram inacessíveis.
Oficialmente, o Kremlin atribui estas falhas a um reforço das medidas de segurança, sem, no entanto, adiantar grandes pormenores.
"Kiev está a utilizar métodos de ataque cada vez mais sofisticados, pelo que a Rússia necessita de medidas de proteção com uma exigência tecnológica crescente", justificou o porta-voz da presidência russa Dmitry Peskov a 12 de março. A declaração surge no contexto das retaliações ucranianas à invasão russa em grande escala, um conflito que entrou agora no seu quinto ano.
Os críticos do regime alertam que as autoridades estatais invocam frequentemente questões de segurança como pretexto para restringir a vida e as liberdades dos cidadãos.
"A liderança da Rússia é, pura e simplesmente, muito cobarde. Tão cobarde que as liberdades civis, a economia ou o bem-estar das pessoas lhe são indiferentes. Não se importa absolutamente nada com isso", acusa Mikhail Klimarev, ativista e diretor da organização Internet Protection Society.
Embora outras regiões do país já sofram interrupções há vários meses, os bloqueios na capital estão a gerar maior repercussão.
"A internet móvel tem sido cortada na Rússia desde junho de 2025. E só agora é que tudo isto chegou a Moscovo", explicou Klimarev à Current Time.
De acordo com os residentes, a rede móvel tem estado inoperacional em praticamente toda a cidade de Moscovo, afetando tanto as zonas centrais como os bairros periféricos.
"Trabalho como freelancer e preciso de uma boa ligação à internet. Tive de fazer um desconto a um cliente porque não consegui cumprir o prazo de entrega", relatou Alina, habitante de Moscovo, à RFE/RL Siberia.Realities.
Há anos que o governo de Putin procura controlar e limitar o acesso dos russos à internet. As autoridades têm visado gigantes ocidentais como o Facebook, a Google, a Apple e a Amazon, impulsionando simultaneamente alternativas nacionais, sobre as quais exercem maior controlo.
Ativistas e outros observadores suspeitam que o bloqueio da rede em Moscovo esteja a servir como balão de ensaio para o sistema de "listas brancas" de páginas autorizadas.
Este diretório restrito de recursos, disponível durante os apagões digitais, começou a ser testado no verão passado. A lista inclui sites de operadoras de telecomunicações, órgãos de comunicação social pró-Kremlin, agências governamentais, plataformas de comércio eletrónico e redes sociais como a Odnoklassniki e a VK (ex-VKontakte).
O Telegram, a aplicação de mensagens mais popular na Rússia, também tem registado problemas de acesso, à semelhança do que acontece com o WhatsApp.
"A acessibilidade ao Telegram caiu 80%", escreveu Klimarev a 16 de março, numa comparação com o dia anterior.
No ano passado, a Rússia lançou o Max, a sua própria aplicação de mensagens com o apoio do Estado, mas a iniciativa enfrenta forte contestação por parte dos críticos, que a encaram como uma ferramenta de vigilância estatal. A imprensa oficial desvaloriza estas preocupações, garantindo que se trata de uma plataforma segura e independente.
A 20 de fevereiro, Putin assinou uma lei que obriga as operadoras de telecomunicações a suspenderem os serviços a pedido do Serviço Federal de Segurança (FSB). Paralelamente, as autoridades isentaram as empresas de qualquer responsabilidade perante os clientes caso a interrupção decorra do cumprimento das exigências dos serviços de informações.
A censura de conteúdos online para reprimir a oposição, a monitorização do tráfego na internet em nome da segurança e o controlo apertado sobre os meios de comunicação social são práticas antigas do governo russo. A repressão estatal sobre a liberdade de expressão, de reunião e outras garantias fundamentais ganhou força com o regresso de Putin à presidência em 2012, e sofreu um novo agravamento desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022.
Município de Vila do CondePrograma de celebração da vida e obra do "Poeta Carpinteiro" prolonga-se ao longo de todo o ano.
Joaquim Moreira da Silva foi um figura ímpar da poesia portuguesa. Agora, o município de Vila do Conde vai homenagear o também conhecido "Poeta Carpinteiro". E as primeiras celebrações arrancam já este fim de semana.
Em nota enviada às redações, o município vila-condense indica que o programa arranca na cidade e na União de Freguesias de Vilar e Mosteiró: "As comemorações iniciam-se com um conjunto de iniciativas culturais e pedagógicas entre os dias 13 e 15 de março, envolvendo escolas, instituições locais e a comunidade", esclarece a autarquia, acrescentando, contudo que o programa se vai prolongar "ao longo de todo o ano de 2026, com exposições, espetáculos, performances educativas, tertúlias e a estreia do filme “O Carpinteiro da Palavra”, de Jaime Neves, prevista para dezembro".
Do programa, consta o espetáculo de marionetas "O Home que Lavra a Palavra", pela Companhia Teatro e Marionetas de Madrágora. O espetáculo será apresentado no dia 13 de março aos utentes do Centro de Convívio da Associação de Solidariedade Social de Mosteiró. O mesmo espetáculo será também apresentado na sede da Associação Cultural e Recreativa Honra e Dever no dia 15 de março.
No dia 14, será inaugurada a exposição "Joaquim Moreira da Silva: Exposição Biobibligráfica". A mostra estará patente até dia 21 de abril e será de entrada livre. Ainda no sábado, será promovido um Colóquio de História sobre o contexto histórico e cultural em que Moreira da Silva viveu e contará com intervenções da historiadora Raquel Varela e do investigador Maciel Santos.
Por fim, no dia 15 de março, data de nascimento do "Poeta Carpinteiro", haverá um Percurso Poético em Vilar, com leituras de poesia por Sandra Salomé e Isaque Ferreira e participação do Coral Honra e Dever.
"Com este programa diversificado, Vila do Conde pretende homenagear uma das figuras mais originais da sua história cultural, reforçando a ligação entre a memória, a literatura popular e a identidade local", frisa a autarquia.
Todo o programa detalhado pode ser consultado no site do município.