O cineasta português Manuel Paula Dias morreu este sábado, informou em comunicado o Cine Clube de Avanca, Estarreja. O realizador aveirense notabilizou-se pela realização de vários filmes documentais sobre a vida da cidade de onde era natural.
Caracterizado como uma "figura ímpar da memória cultural de Aveiro", Dias filmou durante as décadas de 60 e 70 do século XX "a vida da cidade, da região e da ria de Aveiro, criando um vasto e valioso arquivo audiovisual que preserva tradições, paisagens e modos de vida hoje desaparecidos", refere o Cine Clube, acrescentando que o realizador "deixa um legado maior no cinema documental português e uma memória artística profundamente entrelaçada com a história de Aveiro e da sua gente".
O documentário "Sal, Duro Sal" é uma das obras mais reconhecidas do cineasta, tendo integrado vários festivais de cinema como o Mar Film Festival ou o RIOS - Festival Internacional de Cinema Documental e Transmedia. "Nos últimos anos, dedicava-se à escrita de um livro sobre a história da sua família e o início da indústria de fundição em Aveiro", acrescenta o Cine Clube.
Armanda Claro/Media CapitalQueixas denunciam favorecimento de homens homossexuais para determinadas funções
A notícia é do jornal digital Observador. O diretor executivo da CNN Portugal Frederico Roque de Pinho está a ser alvo de uma investigação interna por denúncias por alegado favorecimento de funcionários e colaboradores do canal de notícias em função da sua orientação sexual.
Segundo o mesmo jornal, foram apresentadas várias queixas contra o gestor, alegando que Roque de Pinho escolhe profissionais homens homossexuais para cargos e tarefas de maior destaque, em detrimento de outros profissionais da estação. As denúncias vão mais longe, falando de critérios discriminatórios para essa seleção quando aqueles profissionais são favorecidos para dar a cara pelo canal.
Os relatos foram considerados sólidos e fez com que avançasse uma investigação interna mais aprofundada, com o Observador a indicar que foram ouvidos vários jornalistas, elementos de chefias da redação da CNN Portugal e da TVI, assim como vários outros funcionários. O diretor de informação da TVI e diretor da CNN Portugal Nuno Santos também foi ouvido.
As conclusões da investigação foram dadas a conhecer ao gestor na noite da passada quarta-feira, quando se deslocou às instalações do canal de Queluz de Baixo depois de estar de férias no Brasil. No dia seguinte, administração e Roque de Pinho estiveram reunidos para decidir o próximo passo, tendo sido discutida uma eventual suspensão do gestor ou, até, uma desvinculação da empresa. Contudo, o jornal não avança qual o resultado desse encontro.
"Da minha parte, não há processo nenhum" - Roque de Pinho
Quando confrontado pelo jornal digital, Frederico Roque de Pinho referiu que o processo... não existe. Recusando a ser "julgado na imprensa", o diretor no canal de notícias do grupo Media Capital é perentório: "Da minha parte, não há processo nenhum".
O gestor diz mesmo não ter conhecimento do processo e para "perguntar à empresa se houve ou não algum", até porque diz que é do seu "entendimento" que continua em funções. Quanto às suas férias, elas foram apenas estendidas: "Alarguei o meu período de férias pelo tempo que for necessário".
Também Nuno Santos foi contactado pelo jornal digital, assim como o acionista maioritário da Media Capital Mário Ferreira, o CEO Pedro Morais Leitão e do diretor-geral da TVI e da CNN Portugal José Eduardo Moniz, mas ou recusaram comentar o caso ou não responderam às solicitações do jornal.
Yasmin Velloso/Agência PúblicaMulheres são as principais vítimas. Lei brasileira endurece penas, mas criadores contam com impunidade.
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Guilherme Cavacanti, e editado por Ed Wanderley, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
“Ruivinha”, “Novinha”, “Safada”. As tags buscadas por Rafaela Bomfim em um site internacional, para seu desespero, revelavam ela mesma, mas sem roupas. Nos comentários, usuários discutiam sua identidade e faziam discursos que a deixaram em estado de paranoia por semanas. As imagens, falsas, foram recriadas com auxílio de inteligência artificial (IA) a partir de suas publicações pessoais no Instagram.
“E a minha paranoia é: e se dessa [numa próxima] vez ninguém ver? E se ficar por aí? Eu entrei no perfil do cara que postou e tinha milhares de meninas. Muitas provavelmente nem sonham que isso está sendo feito com elas”, contou a estudante de design de 21 anos que vive em Brasília. A criação de deep nudes, imagens falsas que usam o rosto de pessoas reais em corpos criados com IA, já é alvo de uma lei específica deste ano que eleva a punição de violência psicológica com o uso de tecnologia, mas que, segundo especialistas ouvidas pela Agência Pública, não acompanham a dimensão e velocidade do problema.
O problema é mais recorrente do que se pensa. Em junho deste ano, estudantes de uma escola de Belo Horizonte venderam montagens pornográficas de alunas, entre 12 e 17 anos, em aplicativos de mensagens, como mostrouO Tempo. Dois anos antes, em 2023, jovens de um colégio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, também usaram IA para criar imagens íntimas falsas de mais de 20 colegas, como reportou a CNN.
A líder de projetos em inteligência artificial no Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (Ip.Rec), Clarissa Mendes, explica que a violência dos deep nudes não se reduz ao caráter “irreal” das imagens. “Existe a tendência de achar que porque não é verdade, porque não são imagens reais, não há consequências práticas. Só que o que a gente encontra de pesquisa em relação aos efeitos diz o contrário: vítimas de abuso digital têm danos duradouros, complexos e abrangentes”, explica a pesquisadora.
Impactos na saúde mental de mulheres de todas as idades vítimas desse tipo de crime foram relatados na tese de doutorado da socióloga Laís Patrocínio, professora da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Depressão, automutilação, transtornos alimentares, ideações suicidas e dificuldades de convívio social estão entre as sequelas e a pesquisadora destaca que a culpa se torna central em “qualquer tipo de violência de gênero”: “Culpa e vergonha. A culpa é uma grande vilã, porque se você [acha] que é a culpada, por que você pediria ajuda?”, diz Patrocínio.
“Talvez, no fim das contas, faça muito pouca diferença se aquela bunda é daquela mulher ou não, porque o rosto dela tá ali. Por mais que seja falso, a pessoa está exposta de uma forma íntima, descontextualizada”, destaca Patrocínio. “A exposição, em si, uma hora passa, porque as pessoas esquecem. Mas os danos para vida pessoal e profissional são muito mais difíceis de reverter”, completou.
A estudante universitária Rafaela Bomfim foi vítima de uma deep nude criada com Inteligência Artificial | Yasmin Velloso/Agência Pública
“Vês que tem uma foto tua, nua, na casa de banho da tua casa”
Era um dia frio e Rafaela Bomfim estava em uma viagem na Europa quando recebeu a ligação do então namorado. “Ele me ligou e falou: ‘eu preciso te contar uma coisa, mas eu preciso que você fique calma’”, relembra. Do outro lado da linha, veio a notícia: fotos suas, publicadas recentemente no feed e stories do Instagram, haviam sido transformadas em pornografia exposta em um site adulto e já somava milhares de visualizações.
A plataforma atendia a pedidos de usuários para criar nudes com uso de IA. As fotos originais, lembra a estudante, eram imagens despretensiosas, tirada de costas, fazendo pose, até serem adulteradas. “Minha reação foi ficar muito assustada […] A sensação que me deixou foi que eu fui abusada. A partir do momento que parece muito [real], sabe? Era uma foto no cenário que eu tinha tirado. Era no banheiro da minha casa. E você bate o olho naquilo e você vê que tem uma foto sua, nua, no banheiro da sua casa…”, contou, emocionada.
“O pior de tudo isso é o sentimento de você como mulher, de saber que tem gente por ai que se sente titular do seu corpo”, afirmou Bomfim. O medo então não foi apenas da exposição, mas da insegurança constante que se instalou. Em um dos comentários, um usuário perguntou quem era a mulher da imagem; outro sugeriu chamá-lo na DM, insinuando saber sua identidade. Então, a estudante passou a desconfiar de colegas de faculdade, desfez conexões nas redes e passou a viver em estado de alerta.
A estudante universitária Rafaela Bomfim foi vítima de uma deep nude criada com Inteligência Artificial | Yasmin Velloso/Agência Pública
“Criei uma paranoia muito grande. Eu pensava: ‘todo dia eu pego o mesmo ônibus, vejo pessoas que não conheço, e se alguém ali sabe da minha rotina?’ […] Poderia ser alguém que estudou comigo, alguém próximo ou um desconhecido que sabe da minha rotina. Se uma pessoa tem a capacidade de fazer algo assim, o que ela não faria comigo na vida real?”, lembrou.
“Eu me arrependo, tipo, se eu tivesse corrido atrás dessa parada […] tivesse contratado alguém que sabe rastrear IP [identificação digital do criador das imagens]. […] Mas essa oportunidade eu perdi. E isso que faz a gente se sentir culpado, porque foi um momento muito difícil e eu não tava com a cabeça no lugar pra correr atrás”, confessa.
Segundo Rafaela, após acionar a plataforma, a remoção das imagens foi rápida – a postagem foi excluída no mesmo dia. Se livrar do impacto da experiência, no entanto, não ocorreu na mesma velocidade, o que ela descreve como uma sensação de trauma e “muito humilhante”: “Como é que a gente se protege disso? Você se isola do resto da sociedade? Para de postar foto sua? Não existe isso”.
Muito além da lei: o desafio de prevenir a violência
Desde abril, está em vigor no Brasil a Lei 15.123/25, de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que aumenta a pena de violência psicológica contra a mulher quando praticada com o uso de IA. Nesses casos, a punição, que varia de seis meses a dois anos de prisão, é agravada em 50%. Apesar do avanço, especialistas ouvidos pela Pública apontam que a legislação não acompanha a rapidez das novas formas de agressão.
A advogada e pesquisadora Lucimara Plaza Tena explica que as vítimas podem recorrer a instrumentos já previstos no ordenamento jurídico, como o Código Penal e o Marco Civil da Internet. Ainda assim, há lacunas importantes, como a ausência de responsabilização efetiva das plataformas que lucram com esse conteúdo e a dificuldade de identificar os autores.
“Não existe uma regulamentação hoje suficiente que responsabiliza o provedor […] Ele monetiza por conta disso. Então, ele tem que ter alguma responsabilidade também”, afirma Tena, que pesquisa as conexões entre direito e IA.
Foi nesse cenário que a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher realizou uma audiência pública para discutir os impactos da tecnologia na violência de gênero, em setembro. “A que não estão sujeitas as crianças e os adolescentes navegando nas redes sociais sem nenhum tipo de controle, de fiscalização e de legislação específica que nos proteja?”, questionou a deputada Erika Hilton (Psol – SP), que presidiu o início da sessão.
Entre as participantes, estava a diretora de pesquisa do InternetLab, Clarice Tavares, que destacou a insuficiência do arcabouço legal e a necessidade de novas formas de regulação. Para ela, o debate brasileiro ainda está excessivamente focado na criminalização. “Quando a gente pensa no uso do direito penal para esses casos, a gente está falando de uma resposta que vem depois que a violência já aconteceu. Não existe uma camada preventiva”, disse Tavares à Pública.
De acordo com a SaferNet, canais no Telegram têm sido usados para comercializar conteúdos ilícitos, inclusive mídias artificiais de celebridades brasileiras em contextos sexuais, com transações feitas via PIX. Além disso, o relatório aponta que, entre janeiro e julho de 2025, 64% das denúncias recebidas pelo Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos envolveram abuso sexual de crianças e adolescentes, número que inclui casos de imagens manipuladas e deepfakes gerados por inteligência artificial.
Já uma pesquisa do Instituto de Internet de Oxford (Oxford Internet Institute, em inglês), em 2024, identificou cerca de 35 mil modelos de deepfake públicos, baixados 15 milhões de vezes ao redor do mundo — 96% deles voltados para retratar mulheres.
Outro desafio, segundo Tavares, é enfrentar um problema que não se resume a indivíduos isolados, mas a um sistema inteiro que lucra e se organiza em torno da misoginia digital. “Essas plataformas, as redes masculinistas que se criam com essas novas tecnologias, é algo que se fortalece, que vão criando cada vez mais novos capítulos, ferramentas e aprofundamentos da misoginia, de formas de violência contra a mulher”, conclui.
halfpointComissão está a pedir o envolvimento da comunidade no projeto de tradução
A Comissão Coordenadora de tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disponibilizou a nova versão do chamado “Livro de Joel”, incluído no Antigo Testamento. A nova tradução foi disponibilizada online este sábado, dia 01.
Numa nota enviada à Agência ECCLESIA, a Comissão da CEP considera que o livro é uma reflexão poética sobre a realidade do povo de Israel: "Com bons rasgos de lirismo, devemos admitir que Joel escreveu uma obra-prima de poesia vigorosa e possante, construída com rigor literário, na qual são habilmente utilizados alguns motivos proféticos tradicionais", refere a apresentação do texto bíblico, acrescentando que o profeta, cujo nome poderia ser "Yo'el", visto que é o nome que surge em epígrafe no texto, "usa um vocabulário quase clássico, mas em estilo exuberante, com recurso a imagens, a metáforas e a paralelismos". Não é possível datar com precisão a data em que o "Livro de Joel" foi redigido, mas os especialistas concordam que o texto terá sido escrito entre 515 e 332 a.C., uma época posterior ao "exílio de Israel".
CEP quer participação da comunidade
Tal como já fez com as traduções dos outros livros da Bíblia, que têm vindo a ser publicados desde 2021, a Comissão quer envolver todos no processo de tradução para português.
O processo, iniciado em 2019, envolve 34 investigadores e tem feito a tradução dos livros da Bíblia a partir dos idiomas originais. Na altura do lançamento, o coordenador da Comissão da Tradução da Bíblia Padre Mário de Sousa dizia que o desafio estava em manter a fidelidade às línguas originais e, ao mesmo tempo, ser “compreensível para os leitores de hoje“.
Com o "Livro de Joel", a Comissão quer continuar a "acolher o contributo dos leitores, em ordem ao melhoramento da compreensibilidade do texto", sendo possível descarregar a tradução provisória no site da CEP.
O "Livro de Joel" é um dos livros do Antigo Testamento, sendo um dos mais pequenos de toda a Bíblia, sendo composto apenas por três capítulos.
Kit Suman/Unsplash"O consumismo tornou-se mais do que um mero hábito — é um palco de afirmação social."
Estou no meio do centro comercial, cercada por vitrines reluzentes, gente apressada, música animada e aquele cheiro de novidade misturado com desejo. Os meus olhos percorrem os logótipos das marcas, as camisolas no expositor, as sapatilhas na montra e os perfumes que prometem adoçar a minha imagem. Sinto que não lhes pertenço, que há um muro invisível entre mim e tudo isto.
No bolso, o dinheiro não chega. Sei disso, mas cá dentro cresce uma vontade: quero ser vista, reconhecida, valorizada. Pergunto-me se, ao comprar algo de marca, vou conseguir esse objetivo, sentir aquela confiança que vejo nos anúncios ou nos amigos que as exibem. O preço pisca, desafia, e a minha cabeça começa a negociar comigo própria: será que vale a pena? Talvez consiga se poupar este mês? Talvez escolha uma só peça?
Cresce um nó na garganta — o medo de ficar de fora, de parecer menos, de não acompanhar os demais. A razão diz que é só um objeto, uma marca, mas a emoção grita que é mais do que isso: é aceitação, é identidade. Penso, repenso, hesito. Não quero estar sempre à margem. Comprar, só um pouco, talvez me faça sentir parte do grupo e elevar o meu valor, mesmo que por uns instantes.
No fundo, no meio das luzes do centro comercial, procuro alguma coisa que me faça sentir especial.
Num mundo onde a publicidade nos envolve por todos os lados, o consumismo tornou-se mais do que um mero hábito — é um palco de afirmação social, aspiração e identidade. No coração deste fenómeno late uma obsessão: a procura incessante por produtos de marca. Mas porquê este fascínio? O que nos leva a medir o nosso valor através do que compramos?
Desde as primeiras civilizações até à sociedade globalizada de hoje, a relação do ser humano com os objetos que possui sempre foi muito mais do que utilitária. Se antes um objeto era símbolo de sobrevivência ou ferramenta de trabalho, a modernidade atribuiu-lhes um papel novo — o de símbolos. Com a Revolução Industrial, a avalanche de bens acessíveis gerou novos desejos e, com eles, nasceu o branding: um passaporte para o reconhecimento e a pertença.
As marcas deixaram de ser assinaturas de garantia e passaram a ser bandeiras de estilos de vida. São elas que nos dão entrada para certos grupos, que nos posicionam socialmente, que alimentam sonhos e imaginários. Comprar um produto de marca, nos dias de hoje, é um ato carregado de significado: uma declaração pública de quem somos, de quem ambicionamos ser. Somos, também, cutucados constantemente por campanhas de marketing engenhosas, criadoras de desejos por vezes utópicos, de modas passageiras e de necessidades construídas.
A antropologia lança luz sobre esta dinâmica: nós, seres sociais, procuramos pertença e reconhecimento. A teoria da identidade social explica que nos vemos refletidos nos grupos a que aspiramos pertencer, e para isso seguimos os códigos — um deles é o consumo visível. Não surpreende, por isso, que o valor pessoal seja frequentemente confundido com a posse de bens, reflexo de uma cultura mediática que associa sucesso à imagem.
Contudo, esta corrida frenética ao consumo tem consequências profundas. O planeta ressente-se da exploração de recursos, trabalhadores veem-se esmagados por lógicas produtivas implacáveis — e nós próprios ficamos reféns de uma constante inquietação: será que tenho o suficiente? Será que sou aquilo que pareço?
É, pois, urgente repensar o consumo. Mais do que nunca, precisamos de um olhar crítico, de abraçar a compra consciente, de valorizar a durabilidade sobre a moda, a necessidade real sobre o impulso. Ser humano é mais do que possuir; é saber escolher o que importa. O futuro, sustentável, agradece.