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26 setembro 2025

Morreu o ator Luís Alberto

o largo.


O ator português Luís Alberto morreu esta sexta-feira. A informação foi avançada pela Casa do Artista nas redes sociais. 


Com uma longa carreira em teatro, televisão e cinema, o ator estreou-se em palco em 1962. Em televisão, integrou as novelas "Todo o Tempo do Mundo", "Jardins Proíbidos" ou "Sangue Oculto". Em 2003, ganhou o Globo de Ouro de melhor ator de teatro pela sua participação na peça "Copenhaga". 


Luís Alberto tinha 91 anos. 

24 setembro 2025

idealista desiste de comprar Kyero

idealista/Divulgação


O portal imobiliário idealista deixou cair a compra do britânico Kyero, acusando a Autoridade da Concorrência (AdC) de ter prejudicado os interesses da empresa. 


No comunicado enviado às redações ao início da tarde desta quarta-feira, o portal imobiliário considera que "a decisão da Autoridade da Concorrência portuguesa de levar a operação, notificada 'ad cautelam', a uma segunda fase apesar da escassa presença do portal Kyero nesse mercado, provocou um atraso material no fecho da operação, o que prejudicou os interesses do idealista, tendo levado a empresa a renunciar a esta aquisição". O mesmo comunicado acrescenta que "o escrutínio da AdC" tornou a operação "inviável". 


A compra tinha sido anunciada em dezembro passado. Tal como o largo. noticiou na altura, não foram divulgados os valores envolvidos. Contudo, a operação era vista como bastante positiva para as duas empresas, com o CEO do idealista Jesús Encinar a frisar que o futuro traria "melhores resultados, uma excelente experiência aos utilizadores e novas oportunidades de negócio". 


Mas a operação não foi avante e o portal imobiliário chega mesmo a dizer que a posição da AdC pode ter outros objetivos: "Não descartamos que a AdC possa ter querido aproveitar a compra de um portal mais pequeno para pronunciar-se sobre a atividade do idealista no futuro", acrescenta um porta-voz do portal. 


Em Espanha, a situação foi similar à portuguesa. Num comunicado em espanhol (mas muito similar ao português) publicado esta terça-feira no seu blogue oficial, o portal diz que "esteve a negociar com as autoridades espanholas durante vários meses para tentar encontrar uma solução razoável que acomodasse as exigências da CNMC ("Comissão Nacional de Mercado e Concorrência", a entidade em Espanha


equivalente à AdC)". Contudo, no entender do idealista, estas exigências "excediam o contexto da operação e limitavam de forma desproporcionada a atividade comercial do idealista, impedindo-o de operar normalmente no mercado". 


"A atuação decorre da lei" - AdC


Do outro lado da barricada, a resposta veio ao final da tarde, com a AdC a dizer que o único responsável pelo fim do negócio é o próprio portal. Ao jornal digital ECO, a entidade portuguesa diz que foi o idealista que não apresentou os remédios para acautelar as "sérias preocupações concorrenciais" que a compra da Portal47 (gestora do Kyero) poderia levantar. 


Contrariamente àquilo que diz o idealista, a AdC considera o Kyero um "concorrente relevante no mercado" imobiliário e, por isso, a "absorção" do portal britânico foi considerado um "reforço do poder de mercado", algo que não era bem visto pela entidade: "A atuação da AdC decorre exclusivamente da lei e tem como objetivo proteger a concorrência em benefício dos consumidores e das empresas", frisa,  acrescentando que foram identificados "indícios" de que o negocio "poderia levantar sérias preocupações concorrenciais". 


Por sua vez, os indícios foram comunicados à empresa, mas a AdC diz que nada foi feito: o "idealista não apresentou compromissos destinados a remediar as preocupações jusconcorrenciais", sucinta. 


Fundado em 2003 no Reino Unido, o Kyero integra uma equipa de 33 pessoas e tem uma carteira de mais de 7 mil agentes e imobiliárias. Já o idealista é um dos portais imobiliários mais visitados em Portugal e Espanha, com mais de 38 milhões de visitantes mensais no sul da Europa.

18 setembro 2025

Passado colonial de Portugal ainda hoje contribui para microagressões contra mulheres imigrantes

LightFieldStudios/Envato Elements


Um estudo do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) e do ICS-ULisboa revela a forma subtil, mas generalizada, de discriminação que as mulheres migrantes enfrentam em Portugal. O estudo evidencia como as microagressões – atos subtis de preconceito no quotidiano – se relacionam com narrativas pós-coloniais que reforçam estereótipos, podendo levar à exclusão social.


Elena Piccinelli, doutorada em Psicologia pelo Iscte, explica que as microagressões são comumente definidas como “pequenos comentários ou ações subtis que invalidam, ofendem, ou ou excluem pessoas com base em quem elas são”. Exemplos incluem perguntar “de onde és realmente?” ou presumir que uma pessoa é menos capaz com base na sua etnia ou o seu género. Embora muitas vezes sejam descartadas como incidentes irrelevantes, Elena esclarece que “as microagressões têm impactos psicológicos significativos, contribuindo para o stress, sentimentos de exclusão e perceções de não pertença”, especialmente porque se repetem ao longo do tempo.


As microagressões têm sido maioritariamente estudadas no contexto dos EUA, pelo que compreendê-las num contexto pós-colonial e cultural diferente pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes e específicas para as combater. O estudo fez parte do doutoramento de Elena Piccinelli, supervisionado pela investigadora do CIS-Iscte Christin-Melanie Vauclair, e resultou de uma colaboração com a investigadora Filipa Madeira (ICS-ULisboa). O seu objetivo era compreender como as microagressões afetam as mulheres da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que vivem em Portugal.


Recorrendo a grupos focais, a equipa de investigação entrevistou mais de 50 mulheres imigrantes dos países da CPLP, todas elas residentes em Portugal por períodos que variavam entre 5 meses e 30 anos. Estas mulheres partilharam as suas experiências pessoais com este tipo de discriminação subtil. A análise das entrevistas revelou mais de 300 incidentes de microagressão, que as investigadoras organizaram em nove temas principais. Alguns desses temas, como pressupostos de inferioridade, criminalidade e generalizações culturais, estão alinhados com padrões anteriormente documentados em investigações realizadas nos Estados Unidos. No entanto, o estudo também revelou dois temas específicos do contexto colonial de Portugal: estereótipos relacionados com a língua e a comunicação (por exemplo, considerar o português falado nos países da CPLP inferior ou incorreto) e o mito do “bom colonizador”. Estes temas evidenciam como certas crenças sobre o passado colonial, como a ideia de Portugal enquanto exemplo de um colonialismo benevolente, continuam a moldar, ainda hoje, as interações sociais e as perceções em Portugal.


“Utilizámos uma abordagem de dupla análise, integrando perspetivas psicológicas e socioculturais, o que revelou que as microagressões não são apenas atos individuais, mas estão enraizadas em narrativas sociais mais amplas”, esclarece Melanie Vauclair. De acordo com o estudo, muitas microagressões reproduzem crenças nocivas que retratam as mulheres imigrantes oriundas de países colonizados por Portugal, como o Brasil e vários países africanos, como inferiores, primitivas ou hipersexualizadas. “Estas são um reflexo dos estereótipos raciais herdados do período colonial, e que ainda hoje persistem”, explica Filipa Madeira.


No universo de imigrantes da CPLP, as mulheres constituem frequentemente mais de metade da população, mas recebem salários inferiores aos dos homens imigrantes e dos portugueses nativos. Neste contexto, os impactos psicológicos adicionais das microagressões exigem medidas urgentes, incluindo programas educativos que desafiem os estereótipos da era colonial e serviços de apoio para ajudar as mulheres imigrantes a lidar com estas formas subtis de discriminação. “O nosso trabalho destaca a importância de abordar estas crenças sociais latentes para promover a empatia e a sensibilidade cultural”, conclui Elena Piccinelli.


04 setembro 2025

Com música inspirada na Guerra, uma orquestra mostra que "não se pode silenciar os ucranianos"

Ministério da Cultura e Comunicações Estratégicas da Ucrânia (CC BY 4.0)



Quando a Rússia lançou a sua invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022, a maestrina Keri-Lynn Wilson sentiu que tinha de responder.


"Quis transformar o meu horror em ação", disse a maestrina, que se descreve como uma orgulhosa canadiana-ucraniana, à RFE/RL. "Então, pensei em criar uma orquestra com os melhores músicos da Ucrânia para representar a sua força, a sua arte, e para mostrar a Putin que não se pode silenciar os ucranianos. Não se pode matar a sua cultura."


O grupo fundado por Wilson, a Orquestra da Liberdade Ucraniana ("Ukrainian Freedom Orchestra") reúne músicos clássicos ucranianos de todo o país, onde a guerra devastou um cenário musical vibrante.


A oquestra encerrou a sua temporada de verão com uma atuação em Londres a 29 de agosto. Isto sucede-se a paragens em festivais de música e salas de concerto por toda a Europa, no que o grupo chama de digressão "Resilience Tour 2025".


"A nossa missão é lutar na frente cultural", disse Wilson.


Em Bucareste, a orquestra atuou no Festival Internacional George Enescu, onde Wilson falou ao Serviço em Romeno da RFE/RL sobre os desafios enfrentados por este grupo invulgar.


Dos 70 músicos, diz, "cinquenta por cento da orquestra ainda vive na Ucrânia, de Kiev a Lviv [e] Odessa. Por isso, temos de obter uma autorização especial para que os homens possam sair, porque todos estão a ser recrutados agora."


O projeto recebeu o apoio da primeira-dama da Ucrânia Olena Zelenska que ajudou a conseguir o adiamento do serviço militar e a autorização para viajar para o estrangeiro para os músicos do sexo masculino da orquestra.


O Presidente Volodymyr Zelenskyy também reconheceu o trabalho de Wilson, concedendo-lhe a Ordem da Princesa Olga, uma condecoração civil atribuída a mulheres pelas suas contribuições para a cultura ucraniana.


"Da Tragédia à Esperança"


Juntamente com composições clássicas já consagradas de Beethoven, Wagner e Dvorak, a orquestra está a interpretar novas obras de compositores ucranianos que se inspiram nos acontecimentos da guerra como tema.


"The Mothers of Kherson", uma ópera de Maksim Kolomiyets, conta a história de duas mulheres que partem para resgatar os seus filhos que foram raptados pelas forças russas.


Outra obra, intitulada "Bucha Lacrimosa", foi composta por Victoria Poleva em resposta aos massacres de civis na cidade ucraniana de Bucha no início da invasão.


Wilson explicou que Poleva atravessou Bucha enquanto fugia da sua casa em Kyiv e testemunhou os horrores do massacre: "Ela colocou toda essa emoção nesta bela obra, que é, simultaneamente, poderosa e nos dá uma sensação de luz — da tragédia à esperança", diz Wilson.


Wilson também deu as suas próprias contribuições para o repertório da orquestra. Na sua interpretação da "Ode à Alegria", de Beethoven, a palavra "alegria" é trocada por "slava", que em ucraniano significa "glória" e é um popular grito de guerra pela vitória.


A maestrina vê um futuro para a Orquestra da Liberdade Ucraniana que se estende até ao momento em que os músicos possam retomar as suas carreiras no seu país de origem.


"Depois da guerra, planeamos uma digressão da vitória, em primeiro lugar, e fazer uma digressão pela Ucrânia", acrescenta. Contudo, planeia continuar a levar a música ucraniana a um público mais vasto: "Continuaremos para sempre como um símbolo, como um símbolo da grandeza e [do triunfo] do bem sobre o mal", diz. 


02 setembro 2025

Como reagimos às alterações climáticas nas redes sociais?

Imagem gerada por Inteligência Artificial/Envato Elements


Um estudo internacional publicado na revista científica Scientific Reports, do reputado Grupo Nature, revelou padrões emocionais marcantes sobre o modo como os cidadãos da Península Ibérica falam sobre alterações climáticas nas redes sociais. O trabalho está inserido no doutoramento de Ana Sofia Cardoso, estudante do Programa Doutoral em Biodiversidade, Genética e Evolução, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e primeira autora do estudo.


“O tema das alterações climáticas foi escolhido pela sua enorme relevância global e pela forma como gera discussão pública, especialmente nas redes sociais. O meu trabalho tinha como principal objetivo perceber como os cidadãos de Portugal e Espanha percecionam as alterações climáticas nas redes sociais”, conta a estudante, que tem como orientadores o docente da FCUP e investigador do INESC TEC, Alípio Jorge e e a investigadora Ana Sofia Vaz, colaboradora no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO) da Universidade do Porto. 


O estudo recorreu a modelos de inteligência artificial para analisar mais de 1,7 milhões de publicações no X/Twitter, ao longo de 12 anos (2010–2022), em português, espanhol e inglês, através de técnicas avançadas de deep learning e processamento de linguagem natural (NLP).


Entre as emoções mais identificadas estão a raiva, a surpresa e, em menor grau, a alegria. A frequência de publicações associadas a raiva aumentou nos últimos quatro anos, refletindo uma maior inquietação pública com os impactos e respostas (ou ausência delas) à crise climática.


Os resultados revelam ainda uma predominância de sentimentos negativos (39%) e neutros (35%), frequentemente associados a fenómenos extremos como incêndios, secas e tempestades. “Um dado interessante foi a elevada presença de ironia, onde cerca de um quarto das publicações continha sarcasmo digital, uma forma de expressão comum nas culturas portuguesa e espanhola”, detalha Ana Sofia Cardoso, que é também investigadora no BIOPOLIS-CIBIO. 


“Analisámos especificamente publicações do Twitter (atualmente a rede social X), por ser uma rede particularmente propícia à discussão de temas da atualidade, como as alterações climáticas, e também pelo facto de as publicações serem curtas (com um limite reduzido de caracteres), o que facilita a análise linguística em larga escala. No entanto, teríamos todo o interesse em alargar o estudo a outras redes sociais no futuro, como o Reddit, para explorar outras dinâmicas discursivas e demográficas”, explica a estudante da FCUP.


O trabalho agora publicado é um dos primeiros a aplicar uma abordagem combinada de análise de sentimentos, emoções e ironia em três línguas e numa escala regional europeia. Segundo os autores, a metodologia desenvolvida é escalável e replicável, oferecendo uma ferramenta robusta para monitorização social contínua, com possíveis aplicações em políticas públicas, campanhas de sensibilização e planeamento climático.


Incêndios, tempestades e calor extremo desencadeiam picos emocionais


O estudo detetou ainda picos de atividade emocional nas redes sociais em momentos de elevado impacto climático como os incêndios de Pedrógão Grande (junho 2017), a Tempestade tropical Ophelia (outubro 2019), contribuindo para centenas de incêndios em Portugal e Espanha, bem como a onda de calor de 2022 conduzindo à destruição de 57.000 hectares e evacuação de milhares de pessoas. Nestes momentos, os conteúdos partilhados tornaram-se mais intensos e emotivos, funcionando como termómetro social da ansiedade coletiva.


As instituições envolvidas diretamente na tese de doutoramento de Ana Sofia Cardoso, que será apresentada ainda este ano, são o BIOPOLIS-CIBIO, o INESC TEC e a UTAD, através do CITAB. Participam ainda neste estudo internacional investigadores da Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), da Universidad de Extremadura (Espanha), da Czech Academy of Sciences (Chéquia) e da Université Paris-Saclay (França).


O estudo contou ainda com o contributo da NBI – Natural Business Intelligence, da consultora portuguesa que tem vindo a integrar ciência, dados e território no apoio à transição ecológica através da inovação e digitalização, responsável pela ideação e supervisão da análise de dados e visualização focada na perceção social.


Como próximos passos do seu trabalho, a estudante da FCUP revela que estão a ser utilizados os mesmos dados “para investigar discrepâncias temáticas e geográficas entre a literatura científica sobre alterações climáticas e os debates públicos no X (para Portugal e Espanha)”. Para Ana Sofia Cardoso, é fundamental “identificar estas discrepâncias para melhorar as estratégias de comunicação científica, e, ao mesmo tempo, ajudar a ajustar as políticas públicas às realidades e perceções locais”.


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