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08 junho 2025

Um novo sistema de ajuda a Gaza: uma fachada humanitária e de núcleo militar

Jaber Jehad Badwan/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)


A "Gaza Humanitarian Foundation" (GHF), uma nova e controversa iniciativa apoiada pelos Estados Unidos da América (EUA), surgiu para controlar o fluxo de ajuda a Gaza, gerando preocupações de que ela possa servir como uma ferramenta para consolidar ainda mais a ocupação israelita.


Este desenvolvimento aconteceu após um cerco severo de mais de 70 dias que deixou o território em condições catastróficas, com o coordenador de segurança alimentar da Oxfam em Gaza a afirmar que as pessoas estão a morrer de fome.


A GHF está a ser apresentada como uma alternativa segura e eficiente aos canais de ajuda tradicionais, geridos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por outras organizações não governamentais (ONG), os quais têm sofrido ataques sistemáticos e tentativas de desmantelamento por parte de Israel. Com uma equipa formada por veteranos militares dos EUA, ex-funcionários e financiadores corporativos, a GHF tem como objetivo fornecer ajuda a 1,2 milhões de palestinianos através de centros de distribuição privados e seguros, com planos de expansão até mais de 2 milhões de pessoas.


No entanto, uma análise mais detalhada dos documentos de apresentação da fundação revela uma intenção diferente. A Equipa Humanitária para Território Palestiniano Ocupado ["Humanitarian Country Team" (HCT)], que é composto por um conjunto de organizações, cada uma trabalhando numa determinada área de especialização, incluindo autoridades locais, ONG e agências da ONU, divulgou uma posição em que adverte que a Gaza Humanitarian Foundation "contraria princípios humanitários fundamentais e parece ter sido criada para reforçar o controlo sobre itens essenciais à sobrevivência como tática de pressão — conforme parte de uma estratégia militar”. 


Além disso, a HCT deixou clara a sua posição, demarcando-se de qualquer plano que viole os princípios humanitários universais de humanidade, imparcialidade, independência e neutralidade.


Centros de ajuda blindados e controlo biométrico


O projeto da GHF propõe criar quatro centros de ajuda fortificados em Gaza, cada um deles concebido para atender cerca de 300 mil pessoas e a funcionar sob a supervisão de empresas privadas de segurança.


De acordo com o plano, os comboios de ajuda passarão por corredores rigorosamente controlados e monitorizados para entregar refeições pré-embaladas, água e mantimentos nos designados “Locais de Distribuição Segura”. Nesses centros, centenas de milhares de gazenses formarão filas para receber ajuda sob a vigilância de guardas armados.


O embaixador dos EUA em Israel Mike Huckabee afirmou que o único envolvimento das tropas israelitas seria garantir a segurança do perímetro desses centros, enquanto as empresas privadas seriam as responsáveis pela segurança dos trabalhadores que entram nessas instalações e pela entrega dos própriosalimentos. No entanto, o próprio documento da GHF indica que todos os movimentos serão coordenados com o exército israelita e com a unidade de Coordenação das Atividades Governamentais nos Territórios (COGAT) para “acesso e  resolução de conflitos”. 


Apesar da GHF afirmar, no documento apresentado, que a distribuição de ajuda dentro dos centros não terá “quaisquer requisitos de elegibilidade” e que será “baseada exclusivamente na necessidade”, foi noticiado de que o acesso a esses centros exigirá que os beneficiários da ajuda passem por um rastreio biométrico e tecnologia de reconhecimento faci, ambos efetuados por soldados israelitas para determinar quem pode passar.


Outros relatórios indicam que o plano mais amplo de Israel permitirá a entrada de apenas 60 camiões de ajuda por dia em Gaza, uma redução drástica em relação aos 600 camiões que entravam diariamente durante umo breve cessar-fogo no início deste ano. Jens Laerke, do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (ENUCAH), afirmou que as propostas de Israel “não cumprem o mínimo exigido para um apoio humanitário pautado em princípios”.


Uma estrutura estrangeira sem participação local


A GHF é liderada inteiramente por agentes estadunidenses e internacionais, incluindo vários oficiais militares e diplomáticos dos EUA, sem qualquer envolvimento palestiniano na liderança ou na supervisão do projeto, o que, basicamente, retira qualquer poder de ação das autoridades locais e da sociedade civil.


Formalmente registada em Genebra, a GHF foi constituída com um advogado suíço, um consultor jurídico sediado nos EUA e um financiador armnio no seu conselho de administração — nenhum deles aparenta ter experiência pública ou histórico em trabalho humanitário.


Logística, segurança e princípios humanitários 


A GHF afirma que o seu modelo foi desenvolvido para ser independente, auditável e livre de interferências de agentes armados ou de governos. A proposta do grupo enfatiza o compromisso rigoroso com os quatro pilares do trabalho humanitário - humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência — como base das operações da fundação, afirmando que sua única lealdade é para com “aqueles que sofrem e estão em necessidade, independentemente de sua identidade ou circunstância”.


Os mantimentos seriam transportados por meio de “corredores humanitários seguros” utilizando veículos blindados, com a segurança do perímetro garantida por profissionais que anteriormente atuaram na proteção do Corredor de Netzarim durante a breve cessar-fogo ocorrida em janeiro deste ano.


As três empresas privadas de segurança conhecidas por terem operado anteriormente no Corredor de Netzarim são a UG Solutions, a Safe Reach Solutions e a Sentinel Foundation. Jameson Gonolvini é sócio-gerente da UG Solutions e cofundador da Sentinel Foundation. Ele também é um ex-oficial das Operações Especiais do Exército dos EUA. Glenn Devitt é o outro fundador da Sentinel, tendo servido também no Exército dos EUA como oficial dos serviços secretos militares, com destacamentos tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Já a Safe Reach Solutions foi fundada por Philip Reilly, outro oficial reformados dos serviços secretos dos EUA e que desempenhou diversos cargos na CIA, incluindo o de oficial paramilitar sénior da agência no Afeganistão.


A proposta afirma que cada local de distribuição seguro pode tornar-se uma área de apoio para outras atividades de ONG e a GHF considera a possibilidade de oferecer “alojamento seguro, chuveiros, casas de banho e espaços operacionais” para organizações de ajuda que optem por se instalar nas proximidades. A longo prazo, eles preve-se que “líderes comunitários de confiança” sejam treinados para atuar dentro destes sistemas.


Controlo e exclusão


Apesar de se descrever como "neutra", a estrutura da GHF estabelece um regime logístico paralelo em Gaza. Toda a ajuda encaminhada através do seu sistema deve passar por corredores aprovados por Israel — Ashdod ou Kerem Shalom — e seguir os protocolos internos de controlo, segurança e auditoria da GHF. Esse sistema ignora a UNRWA, ONG palestinianas e redes de ajuda há muito estabelecidas e que antes serviam a população de Gaza.


A proposta da GHF inclui uma discriminação de custos de 1,31 dólares por refeição [cerca de 1,15 euros] : 0,58 dólares [cerca de 0,51 euros] para aquisições e 0,67 dólares [cerca de 0,59 euros] para logística, transporte blindado, segurança e administração.


Em termos de financiamento e supervisão, a GHF está inserida numa infraestrutura financeira ocidental de elite. Tem como bancos o Truist e o JP Morgan Chase, além de uma afiliada suíça apoiada pelo Goldman Sachs. A Deloitte também é mencionada como responsável pela auditoria.


Um projeto de governo sombra?


A GHF insiste que o seu único objetivo é salvar vidas e apresenta-se como uma solução pragmática diante de um sistema de ajuda em colapso. Contudo, a sua estrutura — composta por funcionários dos EUA, protegida por empresas privadas ligadas ao exército dos EUA, coordenada com o exército israelita e financiada por meio de redes financeiras ocidentais — representa uma mudança total sobre quem controla a ajuda em Gaza.


Não há supervisão de autoridades locais ou da ONU. A ajuda que esta iniciativa distribui passa por sistemas concebidos por e para atores estrangeiros — sob cerco, sob vigilância e sob ocupação.


O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu descreveu recentemente o objetivo das operações intensificadas em Gaza como a ocupação do território e o estabelecimento de uma presença duradoura. Nesse contexto, os centros de ajuda e o aparelho de segurança da GHF correm o risco de se tornar não numa infraestrutura emergencial, mas a plataforma de uma presença estrangeira de longo prazo disfarçada em linguagem humanitária.


06 junho 2025

TVI transmite jogos do Mundial de Clubes

TVI/DAZN/Divulgação


É mais um "assalto" do canal do grupo Media Capital aos conteúdos desportivos: a TVI vai transmitir doze jogos do Mundial de Clubes da FIFA. O anúncio oficial surgiu na tarde desta sexta-feira. 


Segundo a nota de imprensa, a Quatro estabeleceu um "acordo de parceria" com a DAZN, permitindo a transmissão de jogos em canal aberto. Recorde-se que o canal premium de desporto garantiu os direitos de exclusividade da competição da FIFA a nível mundial. 


Para o diretor-geral da TVI José Eduardo Moniz, a transmissão dos jogos representa um marco importante para a estação: "É com entusiasmo que vamos levar até aos nossos telespectadores a emoção desta competição de alcance global, que agrega os maiores clubes e estrelas do ‘desporto-rei’ de todo o mundo". 


Para já, está prevista a transmissão de seis jogos, sendo três encontros com as equipas portuguesas (Inter Miami - FC Porto, dia 19 às 20h; SL Benfica - Auckland City, dia 20 às 17h; e FC Porto - Al Ahly, dia 24 às 02h). A transmissão dos seis jogos seguintes será definida conforme as qualificações. A TVI também terá acesso aos resumos dos restantes jogos da competição.


Todos os jogos da competição poderão ser acompanhados de forma gratuita através da aplicação móvel da DAZN. 


O Mundial de Clubes da FIFA decorre nos Estados Unidos da América entre 14 de junho e 13 de julho. 

05 junho 2025

Simples Mente apresenta EP "Atropelei-me" em Braga

Biruta Records/Divulgação


É descrito como um "novo capítulo" da "identidade artística" de Simples Mente, o projeto do músico vianense Leo Amorim. Agora, o projeto sobe ao palco do "Café Concerto RUM by Mavy, em Braga. 


Segundo a editora Biruta Records, Amorim vai trazer àquele espaço o novo EP "Atropelei-me", "um grito de libertação emocional e criativa". Apresentando-se em formato banda, Simples Mente vai levar "o caos ordenado das suas ideias e a crueza lírica que o distingue na cena hip-hop nacional". 


Na bagagem, leva os singles "Ventoso", "Sem Saber Sentar", "Pintor" e "Quantos Queres", numa colaboração com Rosee: "O alinhamento de "Atropelei-me" reflete a tensão entre pensamento e expressão, entre o mundo e o eu", descreve a editora, acrescentando que o espetáculo vai demonstrar a "identidade artística" de Simples Mente, "entre o lo-fi, o pop e um hip-hop sem moldes". 


O concerto acontece este sábado, dia 07, a partir das 22h.

04 junho 2025

Morreu o fotojornalista Eduardo Gageiro

o largo.


O fotojornalista português Eduardo Gageiro morreu na madrugada desta quarta-feira em Lisboa. A informação foi avançada pela família e replicada em vários órgãos de comunicação social. 


Segundo o neto Afonso Gageiro, Eduardo Gageiro morreu no hospital dos Capuchos, vítima de doença prolongada. 


Nascido em 1935 em Sacavém, Gageiro deixou um arquivo de dezenas de fotografias que refletem uma parte importante da história de Portugal. São dele, aliás, diversas fotos captadas ao longo da Revolução do 25 de Abril. 


A sua carreira iniciou-se em 1957 no Diário Ilustrado. Contudo, a sua primeira foto publicada na imprensa foi no Diário de Notícias, quando o profissional só tinha 12 anos. Colaborou também com outras publicações como O Século Ilustrado, Match Magazine ou a Sábado. 


Eduardo Gageiro tinha 90 anos.

27 maio 2025

Glória ao Rock está de regresso para a 24.ª edição

 


Associação Febre Amarela/Divulgação


Glória do Ribatejo pode ter andado nas bocas do mundo com a série da Netflix "Glória", mas a vila é também conhecida pelo "Glória ao Rock". O festival decorre de 19 a 21 de junho e tem um cartaz com "foco na cena alternativa nacional". 


Segundo a associação Febre Amarela, organização do festival mais antigo da região, o festival quer manter a missão de "valorizar a nova música portuguesa, criando uma ligação direta entre artistas, comunidade e território". Nesta 24.ª edição, o evento muda de local, transferindo-se para o Jardim Público da vila, trazendo "um ambiente único para três dias de música, convívio e celebração da cultura alternativa". O primeiro dia do festival é mesmo de acesso gratuito. 


Ganso, MAQUINA, Yakuza, Benny Broker, Bad Tomato, Girls 96, Samuel Úria & Bunny O’Williams (dj set), Divã, Clauthewitch, Pato Bernardo, Cortada, Francisco Fontes, Proxy Fae, Africangroove e Gabzz são os artistas já confirmados num cartaz que a organização descreve como uma "combinação poderosa de nomes já firmados e projetos emergentes". 


Todo o cartaz pode ser consultado no site oficial do festival. Os bilhetes já estão à venda na BOL. 

Casa e Cozinha tem emissão especial no Dia de Portugal

DREAMIA/Divulgação


O canal Casa e Cozinha vai ter uma emissão especial dedicada a conteúdos portugueses ao longo de todo o feriado do Dia de Portugal, anunciou a estação. Marlene Vieira, Fátima Lopes, Joana Laranjinha ou João Kopke são algumas das caras que farão parte desta grelha especial que durará 24 horas. 


"Os programas “Personaliza a tua Casa”, “Os Amigos do Chef”, “Pastelaria para Todos”, “Cozinhamos Contigo”, “Raízes”, “Experiências.pt”, “Plantmania”, “Ó da Casa”, “A Nossa Cozinha”, “Aqui Há Mão” e “Cozinha de Chef” preenchem a grelha televisiva do Casa e Cozinha no Dia de Portugal, a partir das 00h00, com conteúdos pensados de raiz para agradar ao público português", descreve o canal em comunicado, acrescentando que a iniciativa serve para "assinalar o Dia de Portugal". 


Os vários episódios dos conteúdos serão exibidos ao longo de todo o dia, com especial enfoque na madrugada e no final da tarde, com o chef Chakall, Fátima Lopes e a chef Marlene Vieira em grande destaque. 


Toda a grelha pode ser consultada no site do canal.


Produzido pela Dremia, responsável pelos canais Panda e Hollywood, o Casa e Cozinha está disponível na DIGI/NOWO, MEO, NOS e Vodafone Portugal.


 

26 maio 2025

o largo. volta ao "Bairro" do SAPO

o largo.


Após mais de três anos em plataforma própria, o blogue informativo o largo. está de regresso à plataforma SAPO Blogs. O regresso consumou-se esta segunda-feira, 26 de maio.


A mudança, que está a ser feita de forma faseada, prevê a migração de todo acervo de conteúdos, bem como a reativação a longo prazo da versão em inglês do blogue informativo e dos projetos Informadouro e Emprego & Empreendedorismo. Para o diretor Bruno Micael Fernandes, a mudança trará uma nova dinâmica ao projeto: "Apesar do orgulho que temos na plataforma que desenvolvemos para todos os nossos projetos, a verdade é que precisavamos de recentrar a nossa atuação na escrita de conteúdos informativos, trazendo-os para a maior comunidade de blogues em língua portuguesa". 


Mantendo uma produção de conteúdos próprios, o blogue tem apostado na publicação de conteúdos de texto e áudio de outros órgãos de comunicação social, como a brasileira Agência Pública ou a Rádio França Internacional, ou de projetos como o "Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa" da APImprensa. Para Fernandes, estes conteúdos "acrescentam ainda mais valor à nossa missão de informar, trazendo pluralidade e visões diferentes do mundo para um pequeno "bairro" e dinamizando o debate em torno de questões tão complexas como o ambiente, a cultura ou a sexualidade e igualdade. Este é também o nosso propósito", reforça. 


O regresso do blogue à plataforma detida pelo maior portal português da internet está a ser acompanhado também de várias mudanças técnica internas e externas: "Vão melhorar o nosso fluxo de informação, mas também melhorar a forma como os leitores percecionam e consomem a informação que produzimos diariamente", sustenta Fernandes. 


O blogue mantém-se acessível em https://olargo.pt. 

16 maio 2025

Malária está mais difícil de tratar devido às suas múltiplas mutações

A recente pesquisa revela que a resistência a medicamento essencial no tratamento da doença se deve a alterações genéticas no seu parasita.

      Uma equipa científica internacional demonstrou que o parasita da malária está a resistir a tratamento devido às suas múltiplas alterações genéticas e não a uma única mutação, como se julgava até aqui. O estudo saiu na conhecida revista “Nature Communications” e reforça a teoria proposta em 2020 pela equipa de Pedro Ferreira e Isabel Veiga, do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da Universidade do Minho, que participaram no novo trabalho e defendiam a hipótese de alterações nos genes plasmepsin e mdr1.

      A recente pesquisa revela que a resistência à piperaquina (um medicamento essencial no tratamento da malária) deve-se a múltiplas alterações genéticas no parasita da malária. Em particular, variações no gene plasmepsin 3 estão associadas a uma eficácia reduzida do tratamento com di-hidroartemisinina-piperaquina e a um maior risco de recorrência da malária, sobretudo entre crianças em países africanos, onde a doença é mais prevalente.

      “Esta descoberta confirma o que sugerimos há cinco anos e tem implicações importantes na forma como controlamos e tratamos a malária”, afirma Pedro Ferreira. O estudo sublinha a urgência de métodos avançados para acompanhar e monitorizar a resistência a antimaláricos. As atuais estratégias de vigilância centradas em mutações genéticas individuais podem não ser suficientes.

      Tratamento repetido reduz eficácia

      A piperaquina permanece no organismo humano durante várias semanas e protege contra novas infeções. Já a di-hidroartemisinina só perdura algumas horas, deixando a piperaquina depois isolada. Ou seja, futuras combinações de medicamentos antimaláricos devem ter uma farmacocinética similar para retardar a resistência do parasita.

      Além disso, a vida semi-longa da piperaquina pode deixar de ser uma vantagem se o seu uso for repetido em escala, sobretudo em regiões com muitos casos de malária ou ao ser aplicada habitualmente por prevenção em crianças e grávidas. Isto é, o parasita tende a adaptar-se mais rapidamente e corre-se o risco de haver doentes novamente infetados após o tratamento. Os cientistas alertam que, se nada for feito, a piperaquina pode deixar de ser eficaz como medicamento preventivo em muitos países.

      O novo estudo foi coordenado pelo Instituto Karolinska (Suécia) e juntou vinte cientistas, incluindo das universidades do Minho, Lisboa, Nova de Lisboa, Exeter (Reino Unido), Tübingen, Heidelberg (ambas na Alemanha) e de Ciências e Tecnologias de Bamako (Mali), bem como do Centro de Investigações Médicas de Lambaréné (Gabão), do Centro Alemão de Investigação de Infeções e da Fundação Oswaldo Cruz (Brasil).

      Esta equipa prepara-se agora para testar alternativas antimaláricas em grávidas, como a sulfadoxina-pirimetamina e a sua eficácia profilática em alternância com a piperaquina, procurando assim formas de manter a proteção sem acelerar a resistência.

      Dia Mundial da Luta contra a Malária

      A 25 de abril assinalou-se o Dia Mundial da Luta contra a Malária, reconhecendo os esforços globais neste âmbito. Esta doença é transmitida pela picada dos mosquitos Anopheles, contaminados pelo parasita Plasmodium. Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2023 houve 263 milhões de casos de malária, incluindo 597 mil mortes em 83 países. A África está associada a 95% dos casos, 76% dos quais com crianças até 5 anos de idade. A Ásia, a América Latina e, em menor escala, o Médio Oriente e partes da Europa também têm sido afetados.

      Malária está mais difícil de tratar devido às suas múltiplas mutações

      nikitavas/Envato Elements


      Uma equipa científica internacional demonstrou que o parasita da malária está a resistir a tratamento devido às suas múltiplas alterações genéticas e não a uma única mutação, como se julgava até aqui. O estudo saiu na conhecida revista “Nature Communications” e reforça a teoria proposta em 2020 pela equipa de Pedro Ferreira e Isabel Veiga, do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da Universidade do Minho, que participaram no novo trabalho e defendiam a hipótese de alterações nos genes plasmepsin e mdr1.


      A recente pesquisa revela que a resistência à piperaquina (um medicamento essencial no tratamento da malária) deve-se a múltiplas alterações genéticas no parasita da malária. Em particular, variações no gene plasmepsin 3 estão associadas a uma eficácia reduzida do tratamento com di-hidroartemisinina-piperaquina e a um maior risco de recorrência da malária, sobretudo entre crianças em países africanos, onde a doença é mais prevalente.


      “Esta descoberta confirma o que sugerimos há cinco anos e tem implicações importantes na forma como controlamos e tratamos a malária”, afirma Pedro Ferreira. O estudo sublinha a urgência de métodos avançados para acompanhar e monitorizar a resistência a antimaláricos. As atuais estratégias de vigilância centradas em mutações genéticas individuais podem não ser suficientes.


      Tratamento repetido reduz eficácia


      A piperaquina permanece no organismo humano durante várias semanas e protege contra novas infeções. Já a di-hidroartemisinina só perdura algumas horas, deixando a piperaquina depois isolada. Ou seja, futuras combinações de medicamentos antimaláricos devem ter uma farmacocinética similar para retardar a resistência do parasita.


      Além disso, a vida semi-longa da piperaquina pode deixar de ser uma vantagem se o seu uso for repetido em escala, sobretudo em regiões com muitos casos de malária ou ao ser aplicada habitualmente por prevenção em crianças e grávidas. Isto é, o parasita tende a adaptar-se mais rapidamente e corre-se o risco de haver doentes novamente infetados após o tratamento. Os cientistas alertam que, se nada for feito, a piperaquina pode deixar de ser eficaz como medicamento preventivo em muitos países.


      O novo estudo foi coordenado pelo Instituto Karolinska (Suécia) e juntou vinte cientistas, incluindo das universidades do Minho, Lisboa, Nova de Lisboa, Exeter (Reino Unido), Tübingen, Heidelberg (ambas na Alemanha) e de Ciências e Tecnologias de Bamako (Mali), bem como do Centro de Investigações Médicas de Lambaréné (Gabão), do Centro Alemão de Investigação de Infeções e da Fundação Oswaldo Cruz (Brasil).


      Esta equipa prepara-se agora para testar alternativas antimaláricas em grávidas, como a sulfadoxina-pirimetamina e a sua eficácia profilática em alternância com a piperaquina, procurando assim formas de manter a proteção sem acelerar a resistência.


      Dia Mundial da Luta contra a Malária


      A 25 de abril assinalou-se o Dia Mundial da Luta contra a Malária, reconhecendo os esforços globais neste âmbito. Esta doença é transmitida pela picada dos mosquitos Anopheles, contaminados pelo parasita Plasmodium. Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2023 houve 263 milhões de casos de malária, incluindo 597 mil mortes em 83 países. A África está associada a 95% dos casos, 76% dos quais com crianças até 5 anos de idade. A Ásia, a América Latina e, em menor escala, o Médio Oriente e partes da Europa também têm sido afetados.


      13 maio 2025

      Festival Eurovisão da Canção 2025: revê a primeira semifinal na íntegra

      Sarah Louise Bennett/EBU
      Revê na íntegra a primeira semifinal
      https://www.youtube.com/watch?v=0HNXVB2UQwU
      YouTube Eurovision Song Contest

      Chegou o grande dia da Eurovisão. Revê a primeira semifinal na íntegra.

      Portugal é representado pela banda madeirense NAPA com o tema "Deslocado" e vai marcar presença na final que acontece já no próximo sábado.

      06 maio 2025

      Nininho Vaz Maia alvo de buscas da PJ e constituído arguido

      Site Nininho Vaz Maia
      Operação contra rede de tráfico de droga resultou na detenção de dois indivíduos. Cantor ficou em liberdade e diz-se inocente.

      A casa do cantor português Nininho Vaz Maia foi alvo de buscas pela Polícia Judiciária (PJ) na sequência de uma operação de combate ao tráfico de droga, avançam vários órgãos de comunicação social.

      A operação "SKYS4ALL" foi realizada pela Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes e visou uma rede internacional de tráfico de droga por via aérea, com alvos na zona da Grande Lisboa, com buscas domiciliárias e não domiciliárias, especialmente em oficinas de automóveis. Foram feitas duas detenções. "A operação teve em vista a recolha de prova, sobre as presumíveis atividades ilícitas, de um grupo criminoso, que se dedicava ao tráfico de estupefacientes por via aérea e branqueamento de capitais", refere a PJ em comunicado, acrescentando que "foram, ainda, apreendidas cinco viaturas, duas armas de fogo, uma elevada quantidade de dinheiro em numerário, diverso material de comunicações e documentação".

      Segundo avança a edição online do Correio da Manhã, o cantor não foi detido nem alvo de qualquer mandado de detenção, não sendo sequer o principal visado na investigação. A PJ não encontrou provas relevantes para os crimes em causa, mas Vaz Maia foi constituído arguido pelo seu alegado envolvimento na rede através de branqueamento de capitais através da sua atividade artística, tendo sido apreendido o seu telemóvel. A SIC Notícias avança também que o cantor é suspeito de ter transportado droga para Espanha.

      As buscas na casa do cantor iniciaram-se a partir das 07h. Na altura, os três filhos do cantor encontravam-se na habitação.

      "Importa deixar absolutamente claro que o Nininho está inocente" - Agência de Nininho Vaz Maia

      Entretanto, a agência do cantor emitiu um comunicado e enviou-o a alguns meios de comunicação social. Segundo cita o jornal digital Observador, Vaz Maia confirmou as buscas, "colaborando desde o primeiro momento com as autoridades". O comunicado frisa a inocência do artista: "Importa deixar absolutamente claro que o Nininho está inocente e que confiamos plenamente na Justiça e estamos certos de que tudo será esclarecido com brevidade", acrescenta.

      Agradecendo o "enorme carinho dos fãs" e o "respeito da imprensa", a agência remata o comunicado acrescentando haver "total disponibilidade" do artista para "colaborar com as autoridades em tudo o que for necessário", rejeitando, contudo, "qualquer associação precipitada" aos crimes.

      04 maio 2025

      Investigação explora a alteração das perceções da vida marinha, com impacto nos esforços de conservação

      wirestock/Envato Elements
      Nos últimos anos, as orcas têm dominado os títulos dos jornais devido às suas crescentes interações com barcos à vela ao largo das costas portuguesa e espanhola.

      Um conjunto de estudos realizados no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) revelam como as perceções humanas acerca dos animais marinhos moldam as atitudes, emoções e até os esforços de conservação. Os resultados desta investigação, da autoria de Sandra Godinho e Margarida Garrido, foram publicados nas revistas Environmental Communication e Anthrozoös.

      Nos últimos anos, as orcas têm dominado os títulos dos jornais devido às suas crescentes interações com barcos à vela ao largo das costas portuguesa e espanhola. Os relatos de orcas que embatem e danificam embarcações têm alimentado a cobertura sensacionalista dos media, enquadrando frequentemente os animais como ameaças. Sandra Godinho e Margarida Garrido, investigadoras do CIS-Iscte, analisaram a forma como esta imagem mediática molda a perceção que o público tem das orcas, e os resultados revelam uma mudança significativa.

      As investigadoras analisaram mais de 400 notícias online divulgadas no período de 3 anos antes e 3 anos depois de 2020, ano em que os encontros com orcas começaram a aumentar, tendo descoberto que as descrições se têm vindo a tornar mais negativas e abstratas. Palavras como “ataque” surgem agora frequentemente, reforçando narrativas orientadas para o conflito. “Quando os meios de comunicação social apresentam as orcas como vilãs e não como criaturas complexas e inteligentes a responderem às alterações ambientais, podem moldar as atitudes do público de forma a alimentar a hostilidade e os apelos à retaliação”, afirma Sandra Godinho. O objetivo desta investigação foi medir vieses linguísticos na cobertura mediática, mas também explorar as representações sociais das orcas. Assim, num segundo estudo, a equipa de investigação entrevistou cerca de 350 pessoas para examinar as suas representações acerca das orcas. Participantes com conhecimento dos incidentes tinham mais probabilidade de descrever as orcas com termos relacionados com conflitos, tais como “perigosas”, “predadoras” ou “assassinas”, enquanto os com menos conhecimento tenderam a manter uma imagem mais positiva.

      “A simplificação linguística do fenómeno, retratando as orcas como agressoras ou resumindo o fenómeno como um duelo entre humanos e orcas, parece contribuir para a difusão de representações sociais que favorecem comportamentos hostis, avessos à preservação da biodiversidade”, afirma Margarida Garrido. De acordo com a investigadora, esta descoberta ilustra a complexidade das representações sociais, sublinhando a necessidade de uma cobertura mediática responsável sobre a vida selvagem para promover relações positivas entre humanos e animais.

      Mas serão as orcas uma exceção, ou será que os humanos concetualizam outras espécies marinhas de forma semelhante?

      Esta questão levou as investigadoras a um segundo conjunto de estudos, que aplicou modelos cognitivos bem estabelecidos, originalmente desenvolvidos para estudar estereótipos face a grupos de pessoas, a animais marinhos. Os resultados sugerem que a forma como categorizamos pessoas também se estende ao restante reino de animais marinhos.

      “Os seres humanos classificam naturalmente os grupos sociais com base na sua sociabilidade (boas ou más intenções) e competência (capacidade para concretizar essas intenções)”, explica Sandra Godinho. “Pedimos aos participantes que aplicassem estas mesmas dimensões ao avaliarem os animais marinhos e analisámos a forma como essas classificações estavam associadas a diferentes emoções e comportamentos.” Os resultados mostraram que os golfinhos e as tartarugas marinhas eram vistos como calorosos e competentes, levando a emoções positivas e a um forte apoio à conservação. Em contraste, os tubarões e as orcas eram vistos como competentes, mas ameaçadores, o que pode desencadear medo e reações defensivas.

      Estas perceções podem ter implicações para os esforços de conservação de diferentes animais. As investigadoras afirmam que, embora as orcas possam estar atualmente num ciclo negativo dos meios de comunicação social, os dados mais alargados sugerem que as interações entre humanos e animais selvagens são moldadas por processos cognitivos bem consolidados. A compreensão destes mecanismos pode ajudar responsáveis políticos e conservacionistas a desenvolver estratégias para alterar a perceção do público e incentivar a coexistência em vez do conflito. Considerando que os ambientes marinhos enfrentam um crescente impacto humano, estes estudos realçam a necessidade urgente de repensar a forma como se comunica sobre a vida selvagem. Apelando a abordagens interdisciplinares, Sandra Godinho afirma que “se quisermos promover a conservação, temos de considerar não só a ciência sobre os próprios animais, mas também a psicologia das pessoas que interagem com eles”.

      02 maio 2025

      Com a verdade me enganas

      grafvision/ENvato Elements
      A honestidade foi sempre a única garantia de sobrevivência? Ou será que a evolução das espécies é mais complexa e mais interessante?

      O mito da natureza como entidade pura e perfeita teve início provavelmente com os nossos primeiros antepassados.

      Sob a abóbada estrelada e perante a dureza de cada dia, a Mãe Natureza ascendeu rapidamente ao divino.

      Depois dos contos e símbolos transmitidos de geração em geração ela foi celebrada mais tarde em prosa e em verso por variadíssimos escritores.

      A historiadora Anna Brownell Jameson (1794 – 1860) condensou esta ideia na célebre frase

      “A natureza e a verdade são uma só, imutável e inseparável como a beleza e o amor”.

      Mas será mesmo assim?

      A honestidade foi sempre a única garantia de sobrevivência?

      Ou será que a evolução das espécies é mais complexa e mais interessante?

      Estas e outras indagações são habilmente respondidas pelo académico Lixing Sun no livro de divulgação científica intitulado “Os mentirosos da natureza e a natureza dos mentirosos”.

      O professor do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de Central Washington ilustra a sua tese com exemplos concretos destes fascinantes “aldrabões” do mundo biológico que vão desde os vírus até aos grandes primatas.

      Há estratégias de dissimulação sofisticadas de variadas espécies.

      Olhemos com atenção para as trufas. Absolutamente inocentes, certo? Na verdade, até elas fazem batota: emitem um esteroide semelhante à feromona dos javalis. Assim que a fêmea detecta este aroma ela escava ansiosamente em busca do macho que, afinal, não está lá. O resultado desanimador para a “apaixonada” javali é por outro lado excelente para as trufas:  assim se espalham os seus esporos. A comunicação também é muito útil no reino animal e veículo para a desinformação que, portanto, não é exclusiva do Homo sapiens.

      O leitor certamente sabe que muitos animais (incluindo o cão do seu vizinho) avisam recorrendo a variados sons que um determinado predador ou invasor está perto. Mas nem sempre a mensagem é assim tão bem-intencionada. O corvo usa a vocalização de perigo para literalmente enganar os companheiros e concorrentes que assim se afastam assustados.

      Os macacos, ainda mais sofisticados, escondem objectos dos seus companheiros atrás das costas e ocultam suas intenções de “namoro” do macho dominante. Assim evitam lutas desnecessárias com o mais forte do grupo.

      A obra está, portanto, repleta de exemplos como estes que provam que afinal a dissimulação é uma estratégia comum no mundo vivo.

      Vencedor em 2024 do prémio PROSE da Associação de Editores Americanos, Lixing Sun não defende o uso de mentiras intencionalmente maliciosas.

      O que o autor gostaria de realçar é que o engano na biologia representa um poderoso catalisador de diversidade, sofisticação e até de beleza.

      Assim, se entendermos e reconhecermos os “mentirosos” da natureza no jardim da nossa cidade ou no campo da nossa aldeia ficamos, paradoxalmente, mais perto da verdade.

      24 abril 2025

      Comunicação científica: o que difere as ciências sociais das ciências naturais?

      Rawpixel/Envato Elements
      Essa separação entre os cientistas e o público em geral trouxe uma nova questão: quem fala sobre ciência para quem não é parte desse mundo?

      A ciência é algo presente no nosso cotidiano, estudamos sobre ela na escola e vemos notícias sobre os desenvolvimentos tecnológicos e médicos nos jornais. Apesar disso, o conceito de ciência ainda é abstrato, quando pensamos sobre o processo científico, imaginamos um grupo de pesquisadores em um laboratório operando máquinas complexas e falando em termos que não entendemos. Os cientistas parecem ser pessoas de fora da nossa realidade, que trabalham com coisas que não sonhamos em entender sem muitos anos de estudo e treinamento. Essa imagem não ocorre por acaso, a alta especialização do conhecimento científico separa os cientistas do resto da população desde o século XIX em um movimento que levou a ciência a desenvolver uma linguagem própria em textos que seriam lidos apenas por outros cientistas.

      Essa separação entre os cientistas e o público em geral trouxe uma nova questão: quem fala sobre ciência para quem não é parte desse mundo? Com o afastamento dos cientistas, esse papel foi assumido principalmente por jornalistas e, consequentemente, a ciência transmitida para o público ficou sujeita aos interesses deles. Temas como o descobrimento de galáxias e avanços médicos eram de interesse para esses jornalistas, pois eles trazem novidades e tendem a chamar a atenção de um leitor em potencial. Um exemplo recente é a pandemia do Covid-19, nesse período nós acompanhamos cada passo dos cientistas procurando por respostas à ação do vírus e o desenvolvimento da vacina que iria aliviar aquela aflição que assolava o mundo.

      No geral, a comunicação científica parece ocorrer no contexto das ciências naturais, como por exemplo a biologia, sendo que a mídia tem um interesse em particular em tópicos sobre a medicina e a saúde. Quando um jornal faz uma matéria sobre ciência, são esses os pesquisadores que ficam em evidência, muitas vezes ignorando outras temáticas de desenvolvimentos científicos como as ciências sociais. Os cientistas sociais também são figuras presentes nas notícias, mas de uma forma diferente dos cientistas naturais. Enquanto biólogos, médicos e físicos costumam aparecer na mídia relatando as suas descobertas, cientistas sociais normalmente são convidados como comentadores em notícias pré-existentes.

      Essa distinção entre cientistas naturais e sociais parece vir do próprio tema de pesquisa. Enquanto o público geral não tem conhecimentos profundos sobre temas das ciências naturais, ele tem muito conhecimento sobre as ciências sociais, pois o que os cientistas sociais estudam faz parte do dia a dia das pessoas e tratam de conhecimentos do senso comum. Por exemplo, todos temos uma noção da história do nosso país, estudamos sobre isso na escola, ouvimos as histórias dos nossos pais e avós e constantemente vemos as representações desse passado nos nomes das ruas da nossa cidade e em monumentos pelos quais passamos nas ruas.

      A familiaridade do público com os temas estudados pelas ciências sociais pode trazer dúvidas em relação a investigações desenvolvidas nessas áreas, por exemplo, resultados compatíveis com experiências prévias do público podem ser vistos como mais credíveis do que aqueles que contrariam o “senso comum”.  Além disso, as pesquisas nas áreas das ciências sociais parecem ser percebidas como menos absolutas do que as pesquisas das ciências naturais. Por outro lado, a natureza das ciências sociais permite que os seus estudiosos assumam o papel de comentadores na mídia em diversos contextos, essas são oportunidades que não ocorrem com a mesma frequência para cientistas naturais.

      16 abril 2025

      Prémio Nobel para IA

      Freepik
      O método científico será sempre a forma de identificarmos soluções com real benefício para a Humanidade.

      Os Prémios Nobel nasceram de um desejo de reconhecimento e contribuição para o progresso da humanidade, idealizado por Alfred Nobel.

      O inventor e filantropo sueco destinou sua fortuna para criar prémios anuais em diversas categorias, visando homenagear aqueles que, durante o ano, trouxessem os maiores benefícios à humanidade. Assim, desde 1901, os Prémios Nobel são entregues em seis áreas principais: Paz, Física, Química, Medicina, Literatura e Economia.

      Algumas temáticas do conhecimento ficaram excluídas. Destaque para a Matemática que é distinguida através da Medalha Fields e Prémio Abel.

      E as novas áreas do conhecimento? Como podem ser enaltecidas?

      Recentemente a academia sueca distinguiu a investigação em Inteligência Artificial através do Prémio Nobel da Física entregue no ano passado a Geoffrey Hinton e John J. Hopfield.
      John Hopfield desenvolveu uma rede que utiliza um método para armazenar e recriar padrões. Quando a rede Hopfield recebe uma imagem distorcida ou incompleta, ela examina meticulosamente os nós e ajusta seus valores, reduzindo, assim, a energia da rede. Dessa forma, o sistema busca, passo a passo, a imagem armazenada que mais se assemelha àquela que lhe foi apresentada.

      Geoffrey Hinton baseou-se na rede Hopfield para desenvolver um novo modelo conhecido como máquina de Boltzmann, que adota um método distinto. Essa máquina é capaz de aprender a reconhecer elementos característicos em um conjunto específico de dados. Hinton aplicou conceitos da física estatística. O treino da máquina consiste em alimentá-la com exemplos que têm alta probabilidade de ocorrer durante sua operação. A máquina de Boltzmann pode ser utilizada tanto para classificar imagens quanto para gerar novos exemplos do tipo de padrão para o qual foi treinada.

      O trabalho dos laureados foi essencial para o desenvolvimento da Inteligência Artificial.

      Seguem-se novas investigações e oportunidades. Os riscos, como referiu Hinton, serão também objecto de futuras investigações científicas.

      O método científico será sempre a forma de identificarmos soluções com real benefício para a Humanidade.

      15 abril 2025

      Geopolítica da UE: um Kit de Emergência, a Inteligência Artificial e a Reprogramação da Aceitação Pública

      Divulgação

      Na última semana foi noticiado que a Comissão Europeia apresentou a Estratégia de Preparação da UE . Nesta, foi recomendado às famílias dos Estados-membros que disponham de um kit de emergência que lhes possa assegurar uma autossuficiência de, pelo menos, 72 horas. Esta proposta foi inspirada em iniciativas de países como a Suécia, Alemanha e Finlândia (entre outros) e integra um pacote de 30 medidas cujas finalidades incluem o fortalecimento da resiliência civil perante uma vasta possibilidade de incidentes, crises, ameaças, onde se podem incluir desastres naturais, pandemias, ciberataques ou até eventuais agressões militares.

      A apresentação da estratégia por Hadja Lahbib (Comissária Europeia para a Igualdade, Preparação e Gestão de Crises), ganhou atenção pelo tom informal do seu vídeo promocional onde demonstrou alguns itens essenciais para um kit de sobrevivência. Para além dos elementos básicos como a água, a comida, ou medicamentos, a comissária belga incluiu objetos como um baralho de cartas “porque um pouco de distração nunca fez mal a ninguém”. Contudo, é impossível não sublinhar que a leveza desta abordagem contrasta, necessariamente, com a gravidade do subtexto: a UE está em preparação para cenários de crise prolongada e para o aumento das tensões geopolíticas como, aliás, destacou o The Guardian ao expor que esta estratégia terá sido publicada um dia após o Ministério da Defesa da Dinamarca ter anunciando que iriam adiantar os planos para introduzir o serviço militar para mulheres no espaço de dois anos.

      Mais uma vez, é imperativo fazer a questão: de que modo é que esta ‘retórica securitária’ se articula com o atual investimento da UE em inteligência artificial e tecnologia? Justamente na mesma semana em que anunciou a Estratégia de Preparação, a Comissão Europeia anunciou um reforço de 1,3 mil milhões de euros através do programa DIGITAL Europe – Work Programmes, com um foco estratégico e de consolidação face ao fortalecimento da IA, da cibersegurança e da infraestrutura digital europeia para o período de 2025-2027. O objetivo declarado foi o de acelerar a transição digital, reforçar a soberania tecnológica da Europa e garantir resiliência e adaptabilidade digital em setores críticos. Terá sido uma coincidência que estas iniciativas sejam promovidas em paralelo?

      A crescente militarização do espaço digital e a vulnerabilidade das infraestruturas críticas fazem com que a IA não seja apenas uma ferramenta de inovação, mas um ativo geoestratégico essencial para a resiliência da União Europeia. A convergência entre preparação civil e transformação tecnológica insere-se numa lógica amplificada de securitização da sociedade europeia. A partir da pandemia da Covid-19, a UE tem vindo a expandir a sua influência em políticas de resposta a crises que são altamente necessárias, mas assume um papel que era tradicionalmente reservado aos Estados-membros. Isto pode significar que, embora nos últimos anos a União Europeia tenha sido vista como um bloco fundamentalmente económico, hoje parece movimentar-se no sentido de consolidar uma identidade geopolítica e de defesa comum, ainda que sem consenso absoluto entre os países. Um reflexo disto diz respeito ao debate a propósito do plano de gastos militares da Comissão Europeia, renomeado de “Rearm Europe” para “Readiness 2030” (“White Paper on European Defence”) que, após as críticas de países como a Itália e Espanha, evidenciou mais uma vez que a própria linguagem, a seleção de termos específicos, é uma zona de disputa política dentro da própria UE.

      Este contexto também levanta questões sobre o impacto da IA na segurança e na tomada de decisões estratégicas. É aqui que surgem novamente os modelos preditivos baseados em inteligência artificial, pois são cada vez mais utilizados na gestão de crises, desde a previsão de desastres naturais até à própria deteção de ameaças cibernéticas e/ou militares. No entanto, nunca é demais sublinhar que a crescente dependência destas tecnologias comporta riscos significativos, pois os algoritmos não só podem reforçar vieses, como também é possível que ampliem as dinâmicas de desinformação, ou o desencadeamento de respostas automáticas desproporcionais a certos momentos de crise.

      Cabe-nos perguntar: será que estas medidas, ao enfatizarem a preparação para crises e ao impulsionarem novos gastos em defesa e tecnologia, podem influenciar a opinião pública, em vista a facilitar a aceitação de políticas securitárias mais robustas? A promoção de uma cultura de prevenção é essencial, mas deve ser acompanhada por um modelo de comunicação transparente que evite o alarmismo e promova, enquanto fortalece, a confiança pública.

      Talvez seja por este motivo que o alerta da Comissão Europeia para a necessidade de um “kit de emergência” esteja a ser interpretado para além da sua dimensão prática. Mais do que preparar a população para o inesperado, a UE está a reestruturar-se para uma conjuntura onde a inteligência artificial, a cibersegurança e a defesa digital se tornam eixos centrais da sua identidade geopolítica.  Assim, a questão central que se impõe para reflexão não é apenas saber se a população da UE está preparada para 72 horas de autossuficiência, mas sim se as suas instituições estão aptas para gerir, de forma eficaz, ética e estratégica, a interseção entre tecnologia, segurança e democracia.

      11 abril 2025

      Combate às notícias falsas através da proteção de imagens

      Rawpixel/Envato Elements
      O projeto pretende investigar a combinação de técnicas de criptografia com modelos de visão computacional

      A Universidade da Beira Interior (UBI) obteve a aprovação do projeto WATERMARK (Cryptographic Mechanisms for Robust Image Watermarking), que visa contribuir para o combate à proliferação de notícias falsas, através da proteção e autenticação de conteúdos visuais. A investigação foi aprovada no âmbito do concurso “Inteligência Artificial, Ciência dos Dados e Cibersegurança de relevância na Administração Pública”, promovido pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

      O projeto pretende investigar a combinação de técnicas de criptografia com modelos de visão computacional para permitir a incorporação de marcas d’água invisíveis em imagens, capazes de persistir perante alterações benignas frequentemente utilizadas na disseminação de conteúdos nas redes sociais (e.g., modificações da dimensão, ligeiros cortes, alteração de formato ou aplicação de filtros de cor), e que sejam destruídas em casos de manipulação maliciosa.

      Esta investigação permitirá o desenvolvimento de um sistema inovador, que se materializará através da criação de uma aplicação web aberta ao público, para proteção e verificação da autenticidade de conteúdos visuais, essencial para salvaguardar a integridade da informação divulgada por entidades da Administração Pública e, assim, mitigar a disseminação de desinformação.

      “A ideia é que a aplicação funcione em duas vertentes. Por um lado, na certificação, permitindo que o utilizador carregue uma imagem para a plataforma e a mesma devolva a imagem com a watermark incorporada, para ser usada como a pessoa quiser; por outro lado, para fazer verificação: o utilizador quer saber se uma imagem presente numa notícia ou ‘post’ é verdadeira e carrega-a para a plataforma, verificando se a mesma contém a watermark e qual foi a entidade que a incluiu”, explica João Neves, o docente do Departamento de Informática da UBI (DI-UBI), que lidera a equipa da investigação.

      A equipa de investigadores integra vários docentes do DI-UBI, contando ainda com o apoio do Centro Nacional de Cibersegurança.

      O projeto WATERMARK reforça a aposta da UBI na excelência científica e consolida a sua posição na vanguarda da investigação em Inteligência Artificial e Cibersegurança. Além de outros projetos de investigação a serem desenvolvidos na área, a UBI criou o curso de 1.º Ciclo/Licenciatura em “Inteligência Artificial e Ciência de Dados e desenvolve cursos não conferentes de grau como “Introdução ao ChatGPT na Administração Pública”, “Introdução à Ciência de Dados” e “Introdução à Aprendizagem Automática e Ciência de Dados com Python”

      10 abril 2025

      Eleições Legislativas e Inteligência Artificial: quem define a narrativa política?

      Divulgação
      "A IA não só está longe de corrigir as assimetrias existentes, como acentua as próprias desigualdades pré-existentes."

      E se o próximo primeiro-ministro fosse escolhido por algoritmos invisíveis?  Em maio de 2025, Portugal enfrenta mais do que uma eleição legislativa, a saber, enfrenta um teste à sua própria democracia no século XXI. Vivemos numa era de transformação digital acelerada, onde a adaptabilidade se tornou essencial, conforme destacado no A Guide for Electoral Practitioners.

      A crescente influência da IA, especialmente por meio de ferramentas como o ChatGPT da OpenAI e o Copilot da Microsoft, está a redefinir a forma como se processa o debate público. Se, por um lado, estas tecnologias prometem aumentar a participação eleitoral e a eficiência administrativa, por outro, levantam preocupações sérias sobre desinformação e manipulação – riscos que não são meramente teóricos, mas sim realidades documentadas. Por exemplo, nos Estados Unidos, um vídeo com recurso a IA prejudicou a campanha da (na altura) vice-presidente Kamala e levou a debates legais sobre a regulamentação de ‘deepfakes’ nas eleições. Na Alemanha, uma rede de sites ligados à Rússia utilizou conteúdo gerado por IA para influenciar negativamente a perceção pública de políticos pró-NATO e pró-Ucrânia, visando favorecer partidos nacionalistas.

      As redes sociais, hoje, são a principal arena para a comunicação política. No entanto, a forma como as mensagens são geradas e difundidas é célere e, por vezes, incontrolável. Isto significa que a IA permite a produção de conteúdos personalizados em larga escala, amplificando determinadas narrativas e moldando as perceções públicas. Este poder de direcionar mensagens específicas para segmentos do eleitorado não é neutro: tanto pode servir para esclarecer como para manipular. Assim, não será legítimo perguntar: como estão a ser utilizadas estas tecnologias no contexto eleitoral?

      Primeiro aspeto, a utilização de tecnologias modernas, como a IA, tem impacto na disseminação de mensagens políticas. Além disso, os debates televisivos, quando são editados ou apresentados de forma tendenciosa, as partilhas massivas em plataformas como WhatsApp e Facebook, e a proliferação de desinformação são fenómenos que também já foram observados em outros países. Isto é, a proliferação de “fake news”, vídeos manipulados no TikTok e conteúdos virais no Instagram são hoje elementos estruturais do ecossistema informativo. Segundo aspeto, a facilidade com que a IA pode gerar ‘deepfakes’ políticos e a dificuldade em detetá-los representam uma ameaça concreta à integridade eleitoral. Um outro exemplo que ocorreu em 2023 na Eslováquia através de vídeos com vozes de políticos geradas por IA e que foram disseminados nas redes sociais antes das eleições parlamentares.

      É preciso estar ciente que segundo o Artificial Intelligence Index Report 2024 do Stanford Institute for Human-Centered AI (HAI), a criação de conteúdos gerados por IA não só exige recursos financeiros substanciais, como também depende de elevados níveis de literacia digital. Ou seja, o discurso de que a IA democratiza as campanhas ignora a disparidade de meios entre candidatas/os. E mais: como sublinha o relatório da UNESCO, a escala digital não corresponde necessariamente à escala da realidade. O que circula em redes sociais não reflete, de forma fiel, a complexidade e a pluralidade do debate político. Podemos, então, chamar a isto uma democracia informada e consciente?

      Os riscos vão sempre muito além da desinformação. O estudo “AI guidelines for parliaments” da Fundação Westminster para a Democracia (WFD) também reconheceu que a IA pode facilitar o acesso ao governo e a criar novos canais de participação cívica. No entanto, este mesmo relatório adverte que a desinformação algorítmica, a concentração de poder e a vigilância aumentada exigem respostas regulatórias à altura dos desafios contemporâneos.

      A meu ver, a IA não só está longe de corrigir as assimetrias existentes, como acentua as próprias desigualdades pré-existentes. Ou seja, quem controlar as ferramentas mais avançadas controlará também a narrativa pública, tornando o processo eleitoral desigual desde o início. No fundo, esta realidade reflete muito bem a falácia da meritocracia, onde se presume que todos partem do mesmo ponto de partida, mas ignora as disparidades estruturais existentes. E, como se sabe, fazer política sem dados rigorosos pode distorcer a realidade e afastar-nos da verdadeira eficácia política.

      De modo que, a meu ver, ponto crucial é este: por que motivo se discute a utilização da IA em eleições sem antes garantir a salvaguarda da integridade do nosso sistema democrático? A WFD recomenda que os parlamentos assumam um papel ativo na supervisão do uso da IA, implementando legislações que mitiguem os riscos democráticos e criando órgãos especializados para monitorizar estas tecnologias.

      Além disso, são evidentes as semelhanças com o setor corporativo. No mundo empresarial, as questões éticas em torno da IA são frequentemente secundarizadas em nome da inovação e do lucro. Ora, em política, a mentalidade “tudo o que pode ser feito, deve ser feito” é igualmente perigosa, é antiética! Não podemos confundir inovação tecnológica com progresso democrático.

      Podemos redigir um programa eleitoral com recurso à IA? Sem dúvida. Devemos fazê-lo? Neste momento, enquanto damos os primeiros passos na implementação do AI ACT, eticamente, a resposta é um categórico não: a análise crítica de vieses e os aspetos essenciais da deliberação política humanizada (entre muitos outros fatores) são fundamentais para garantir a integridade e a autenticidade da democracia. Porque, em última análise, a tecnologia deve servir a cidadania – e não o contrário. A questão não é se a IA deve ser usada em eleições, mas como podemos garantir que essa utilização fortalece, e não fragiliza, a nossa democracia. Cabe às pessoas exigirem transparência e aos decisores assumirem a responsabilidade de proteger o que é, afinal, o alicerce de qualquer sociedade democrática: a confiança no processo eleitoral. Porque, sem essa confiança, o risco não é apenas tecnológico – é existencial para a própria democracia.

      09 abril 2025

      Emoções Coloniais: O Legado que Persistimos em Ignorar

      Zally/Pexels
      "A maneira como as sociedades recordam e interpretam o colonialismo ocidental influencia significativamente as suas relações sociais. Mas qual o papel das emoções nestas interpretações e como afetam as atitudes em relação ao passado colonial?"

      Uma das reflexões mais poderosas que poderão representar a ideologia e pós-colonial encontra-se nas palavras de James Baldwin, em Stranger in the Village (1955): “As pessoas estão presas à história, e a história está presa nelas.”, capturando a profundidade com que o passado colonial continua a moldar o presente, não só nas nossas relações intergrupais, mas também nas emoções que envolvem a memória deste passado.

      A maneira como as sociedades recordam e interpretam o colonialismo ocidental influencia significativamente as suas relações sociais. Mas qual o papel das emoções nestas interpretações e como as mesmas afetam as atitudes em relação ao passado colonial?

      Investigação em Psicologia Social realizada em países como Portugal e os Países Baixos mostra que emoções como a culpa e a vergonha em relação ao passado colonial estão associadas a uma visão mais crítica sobre os crimes cometidos. Por outro lado, a supressão ou minimização dessas emoções resulta numa visão mais benevolente e em relação à história. Esta dicotomia emocional revela algo profundo: as emoções moldam diretamente as nossas atitudes face aos outros, especialmente quando se trata de questões de justiça social. Reconhecer a responsabilidade histórica e emocional pode despertar um sentido de reparação e justiça. No entanto, a negação dessas emoções facilita a perpetuação das desigualdades e a manutenção do status quo. A apatia torna-se a norma, desumanizando os grupos historicamente marginalizados.

      Apesar destes avanços, a psicologia social ainda tem muito a explorar quando se trata de emoções associadas ao colonialismo. Este campo, ainda emergente, tende a ser dominado pelas vozes e perspetivas dos ex-colonizadores, deixando de fora as emoções daqueles que foram colonizados. As cicatrizes emocionais dos colonizados, bem como a sua luta contínua por reconhecimento e igualdade, raramente são alvo de análise, como se tivessem menos importância no esquema da organização social.

      Há, é verdade, estudos que comparam as perspetivas de ex-colonizadores e ex-colonizados, demonstrando que as memórias sobre o passado colonial variam significativamente conforme a experiência vivida. Contudo, a maioria desses estudos centra-se em perspetivas cognitivas, ignorando muitas vezes a dimensão emocional de quem sofreu e continua a sofrer as consequências da violência colonial.

      Este é um ponto morto na investigação, pois podemos entender que é justamente nas emoções que reside parte crucial do entendimento sobre a persistência das desigualdades contemporâneas. A negação das emoções dos colonizados reflete a negação das suas experiências. Se não reconhecemos a dor do outro, como podemos empatizar? E, se falhamos em sentir empatia, como poderemos defender os seus direitos? É certo que a apatia abre caminho à desumanização, e que o distanciamento emocional transforma a dor numa abstração e transforma a injustiça numa normalidade.

      Como podemos então reconhecer a importância das emoções dos grupos colonizados?

      O primeiro passo deve ser o reconhecimento da falta de representatividade nas investigações sobre colonialismo. A maior parte dos estudos ainda é desenvolvida a partir de centros ocidentais, pela lente do colonizador, e mesmo quando incluem participantes de países ex-colonizados, os quadros teóricos refletem perspetivas ocidentais. De que nos serve estudar o preconceito dos ex-colonizadores sem ouvir primeiro a vivência emocional e social dos ex-colonizados?

      Talvez seja também o momento de parar de replicar as mesmas hipóteses em contextos ex-coloniais e reorientar as nossas perguntas para incluir as vozes daqueles que foram historicamente silenciados. A ciência deve ser mais do que uma acumulação de dados, deve servir como plataforma de transformação social, questionando o status-quo.

      Finalmente, é crucial que a ciência se torne mais acessível ao público — especialmente àqueles que são alvo dos preconceitos e discriminações que nasceram de um legado colonial. Tornar a ciência acessível é, acima de tudo, um ato de coragem, pois convida à crítica e desafia as pressuposições dos investigadores.

      Como afirmou a poetisa e ativista Maya Angelou, “Acho que todos temos empatia. Talvez não tenhamos coragem suficiente para mostrá-la.” Se quisermos, verdadeiramente, compreender o impacto do colonialismo nas emoções e na sociedade, está na altura de demonstrarmos essa coragem.

      07 abril 2025

      Vodafone avança com mudança na grelha digital das TV sem box

      Vodafone Group
      Informação já começou a ser divulgada aos clientes

      São mais canais e sem ser necessário uma box. A Vodafone Portugal anunciou no final da passada semana que, a partir de maio, os clientes com televisões que recebem o sinal por via RF vão passar a ter uma grelha que passa a contemplar 140 canais. 

      Segundo a informação disponibilizada pela operadora, a alteração acontecerá no dia 06 de maio, fazendo com que a grelha passe a incluir "todos os canais do pacote de 140 canais da TV Box com qualidade digital".

      Para os utilizadores que fazem o acesso a este serviço através de televisores mais antigos, ou seja, por via analógica, as notícias não são animadoras: o número de canais passa dos 45 para apenas 32, desaparecendo da grelha analógica canais como o Porto Canal ou a SIC Radical. "O diferencial de 13 canais continua disponível em formato digital", garante a operadora. Já nas chamadas "zonas rurais", que abrangem os concelhos de Arcos de Valdevez, Arouca, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Bastos, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Ponte de Sor, Resende, Salvaterra de Magos e Vila Nova de Cerveira, a grelha de canais analógicos mantém-se nos 24 canais, saindo da grelha a SIC Caras, Cinemundo e STAR Comedy, que se mantêm apenas na versão digital. Para substituir, são introduzidos os canais 11, NOW e STAR Crime. 

      São mais canais e sem ser necessário uma box. A Vodafone Portugal anunciou no final da passada semana que, a partir de maio, os clientes com televisões que recebem o sinal por via RF vão passar a ter uma grelha que passa a contemplar 140 canais. 

      Segundo a informação disponibilizada pela operadora, a alteração acontecerá no dia 06 de maio, fazendo com que a grelha passe a incluir "todos os canais do pacote de 140 canais da TV Box com qualidade digital".

      Para os utilizadores que fazem o acesso a este serviço através de televisores mais antigos, ou seja, por via analógica, as notícias não são animadoras: o número de canais passa dos 45 para apenas 32, desaparecendo da grelha analógica canais como o Porto Canal ou a SIC Radical. "O diferencial de 13 canais continua disponível em formato digital", garante a operadora. Já nas chamadas "zonas rurais", que abrangem os concelhos de Arcos de Valdevez, Arouca, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Bastos, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Ponte de Sor, Resende, Salvaterra de Magos e Vila Nova de Cerveira, a grelha de canais analógicos mantém-se nos 24 canais, saindo da grelha a SIC Caras, Cinemundo e STAR Comedy, que se mantêm apenas na versão digital. Para substituir, são introduzidos os canais 11, NOW e STAR Crime. 

      O acesso à grelha acontecerá automaticamente para todos os clientes, sendo que poderá ser necessária uma sintonização em alguns equipamentos. 

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