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28 junho 2024

Universidade do Minho em projeto europeu para revitalizar comunidades de montanha

Universidade do Minho
A rede viária romana, o deslocamento sazonal de gado ou o ciclo do pão são alguns aspetos a explorar com as comunidades locais.

A Universidade do Minho (UMinho) participa num projeto que valoriza a paisagem e o património cultural de comunidades de montanha do sudoeste europeu, com o fim de combater o despovoamento e criar oportunidades de desenvolvimento. O projeto designa-se Cultur-Monts, junta dez entidades de três países e tem fundos do programa Interreg SUDOE até 2027. Em Portugal, vai incidir no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG).

“Queremos converter elementos da paisagem e do património em recursos culturais que valorizem ofícios e formas tradicionais de viver e, por outro lado, que melhorem a qualidade de vida dos habitantes, reforcem a coesão territorial e diversifiquem serviços e opções de emprego, fomentando também a autoestima dos cidadãos e a capacidade de órgãos públicos na atração de visitantes e na captação e fixação de jovens naqueles territórios”, resume a pivô do projeto na UMinho, Helena Paula Carvalho.

A rede viária romana (Geira), o deslocamento sazonal de gado ou o ciclo do pão são alguns aspetos a explorar com comunidades locais do PNPG, aliando a transferência de conhecimento e a inovação social. O projeto envolve ainda outros níveis, como o desenvolvimento económico, as políticas das autarquias e a ligação a escolas e aos seus conteúdos programáticos, realça a professora do Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais da UMinho e também investigadora do Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2PT/IN2PAST). A sua equipa do Lab2PT inclui igualmente os arqueólogos Rebeca Blanco-Rotea e Jorge Ribeiro, o historiador Francisco Mendes e o especialista de sistemas e tecnologias de informação Paulo Bernardes, também ligado à Unidade de Arqueologia da UMinho.

Arranque foi em Portugal

O Cultur-Monts tem como áreas-piloto de intervenção o PNPG, o Maciço Central (Auvérnia, França), os Pirenéus (Rippolès/Cerdanha, Espanha) e a Cordilheira Cantábrica (Babia e Belmonte, Espanha). Em Portugal, conta com a parceria dos municípios de Terras de Bouro e Arcos de Valdevez, da Adere Peneda-Gerês, da CIM Alto Minho e da Gerês Viver Turismo. Nos outros países, participam o Instituto Catalão de Arqueologia Clássica (ICAC), líder do consórcio, as universidades de Oviedo e de Clermont Auvergne, o Instituto de Ciências do Património (INCIPT-CSIC), a Reserva da Biosfera de Babia, o Instituto de Auvergne-Rhône-Alpes e diversos municípios. O projeto conta com 1.7 milhões de euros, sendo 75% comparticipados.

O encontro inicial deste consórcio foi precisamente no PNPG. As reuniões decorreram estes dias no Museu da Geira, em Campo do Gerês, e no Posto de Turismo de Arcos de Valdevez. Além disso, houve visitas técnicas à Geira romana, em Terras de Bouro (Mata de Albergaria), que conserva a maior concentração de miliários do mundo romano, e a vestígios de três pontes, à paisagem cultural de Sistelo e à paisagem fortificada de Extremo, na qual se destaca o forte de Bragandelo, em Arcos de Valdevez.

O Cultur-Monts assume-se assim como uma rede de cooperação internacional para definir estratégias no âmbito das paisagens culturais de montanha. A arqueologia tem mostrado que as regiões de montanha do sudoeste europeu não são apenas espaços naturais e de biodiversidade. Ou seja, têm um rico legado cultural fruto de uma intensa atividade humana, que é mal conhecido e subvalorizado como ferramenta de dinamização, inovação e transformação sustentável.

26 junho 2024

Universidade de Coimbra integra projeto europeu pioneiro na área da Economia Circular

Universidade de Coimbra
Projeto "pretende identificar fatores fundamentais na formação e exploração de um “Circular Hub” num contexto regional específico", refere a equipa.

A Universidade de Coimbra (UC) participa no projeto CHEERS4EU, focado na criação de “Circular Hubs” e na promoção de economia circular, através da colaboração inter-regional e inovação, visando vários setores de atividade.

Os “Circular Hubs” servem como motor para as regiões Europeias promoverem uma economia circular baseada em valores de sustentabilidade. O CHEERS4EU, que decorrerá até 2028, é o primeiro projeto INTERREG EUROPE centrado nesta temática, contando com a presença de vários parceiros europeus e associados de sete países diferentes.

O consórcio é coordenado pela Province of Limburg (NL), contando como parceiros com a Skive Municipality (DK), Standortagentur Tirol (AT), Pardubice Business Incubator (CZ), Universidade de Coimbra (PT), SEKUENS – Science, Business Competitiveness and Innovation Agency of Asturias (ES), Helsinki Region Environmental Services Authority (FI), e como parceiros associados a Province of Tyrol (AT), The Pardubice region – Regional Authority of the Pardubice Region (CZ) e a CCDRC – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (PT).

De acordo com a equipa da UC, «este projeto pretende identificar fatores fundamentais na formação e exploração de um “Circular Hub” num contexto regional específico, a fim de influenciar instrumentos políticos para garantir o apoio regional. A aposta incidirá sobre o intercâmbio de boas práticas no que respeita à colaboração Multi-Hélice, às cadeias de valor circulares, aos modelos de negócio e ao impacto social».

Assim, os investigadores pretendem contribuir para a criação de condições propícias para o estabelecimento de um primeiro “Circular Hub” na Região Centro de Portugal, focado no setor agroindustrial.

Na UC, o projeto é coordenado por Susana Garrido, da Faculdade de Economia (FEUC), e conta com a participação de diversos docentes e investigadores, designadamente, Alexandra Aragão, Faculdade de Direito (FDUC), António Alberto (Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências (FCTUC), Carmina Nunes (FEUC), Dulce Lopes (FDUC), Luis Ferreira (Departamento de Engenharia Mecânica da FCTUC), Margarida Quina (Departamento de Engenharia Química da FCTUC), Paula Morais (Departamento de Ciências da Vida da FCTUC) e Vanessa Magalhães ( Departamento de Engenharia Mecânica da FCTUC).

A equipa é amplamente multidisciplinar envolvendo investigadores de quatro centros de investigação, nomeadamente Centre for Business and Economics Research (CeBER), Centro de Direito Público e Regulação (CEDIPRE), Centro de Engenharia Química e Recursos Renováveis para a Sustentabilidade (CERES) e Centro de Engenharia Mecânica, Materiais e Processos (CEMMPRE).

25 junho 2024

Rússia bloqueia quatro meios de comunicação social portugueses no seu território

rfaizal707/Envato Elements
Medida inclui outros meios de comunicação europeus e é uma retaliação contra o bloqueio de meios russos na UE.

São "medida de retaliação contra as restrições da União Europeia (UE) contra os media Russos". É desta forma que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros Seguei Lavrov descreve os bloqueios de diversos meios de comunicação social europeus, colocado em prática em território russo esta terça-feira, e que inclui quatro meios de comunicação social portugueses.

Os sites da RTP, Público, Expresso e Observador estão assim bloqueados em território russo, assim como o de mais 77 órgãos de comunicação europeus, incluindo órgãos de serviço público de rádio e televisão.

Segundo a nota de imprensa publicada ao início desta tarde, o bloqueio é uma resposta à decisão do Conselho Europeu em bloquear os meios de comunicação social russos. Na nota, Lavrov considera que os meios agora bloqueados "divulgam sistematicamente informaçoes falsas sobre a operação militar especial", termo usado pelas autoridades russas para descrever a guerra que o país trava contra a Ucrânia, e acusa os países da UE de escalar a situação: "Ao imporem mais uma proibição ilegítima, obrigaram Moscovo a introduzir contramedidas simétricas e proporcionais. A responsabilidade por estes desenvolvimentos cabe exclusivamente à direção da UE e aos países desta associação que apoiaram esta decisão", acrescenta. Lavrov acrescenta que a medida segue-se a um aviso repetido "a vários níveis" de que "a perseguição politicamente motivada de jornalistas russos e as proibições injustificadas de meios de comunicação social russos na UE não ficariam sem resposta", mas que o bloqueio seria "revisto", se as restrições impostas aos meios de comunicação social forem levantados.

O bloqueio dos 81 órgãos de comunicação social estende-se aos seus sites e acesso às respetivas edições online e emissões, incluindo às emissões via satélite, e teve como alvo todos os meios de comunicação públicos a nível da UE.TVE, RAI, NOS ou Radio France são alguns dos meios de comunicação também alvo do bloqueio.

A medida russa surge depois da UE ter proibido a atividade de meios de comunicação ligados ao KremlinVoz da Europa, sediada nos Países Baixos, a agência de notícias RIA Novosti e os jornais Izvestia e Rossiyskaya Gazeta, por estarem "sob o controlo permanente, direto e indireto" do estado russo.

Desde fevereiro de 2022 que a Federação Russa tem proibido vários meios de comunicação nacionais e estrangeiros de operar ou emitir no país, acusando-os de "propaganda" e espalharem informações falsas.

Amazon Prime Video aposta em documentário sobre a vida de Maria Cerqueira Gomes

Amazon Prime Video/YouTube/Divulgação
"Maria" estreia em setembro na plataforma de streaming.

Vai mostrar "o lado mais pessoal e desconhecido da vida da apresentadora, assim como a sua grande família de oito irmãos, a avó Dulce, por quem sente um carinho muito especial, as amigas de infância, a relação com Francisca, a filha mais velha, dando também a conhecer o filho mais novo, João".

É desta forma que a Amazon Prime Video descreve a sua nova aposta em conteúdos portugueses: "Maria" é um documentário sobre a apresentadora portuguesa Maria Cerqueira Gomes e que chega à plataforma em setembro.

Produzido pela produtora espanhola ¡HOLA! Media, detido pelo mesmo grupo de media da revista ¡HOLA!, o documentário vai debruçar-se sobre a carreira da apresentadora da TVI, contando com testemunhos de Cláudio Ramos, Cristina Ferreira, Manuel Luís Goucha e Rúben Rua, além de se focar no lado mais pessoal, revelando como Cerqueira Gomes começou a relação com o toureiro espanhol Cayetano Rivera, "o que mais gosta no toureiro e se gostaria de ser mãe novamente", refere a plataforma.

"Maria" vai estar disponível na plataforma de streaming "como parte da subscrição Prime", estando também prevista a sua transmissão numa das plataformas da TVI.

O documentário junta-se ao portfólio de produções portuguesa da plataforma, como as novas temporadas de "Morangos Com Açúcar", "A Lista", "Operação Maré Negra" ou "Senhor Presidente - O Campeonato de Uma Vida".

https://www.youtube.com/watch?v=FhfTbUYwO4Q

24 junho 2024

Extrema-direita sabe capturar insatisfação global com o sistema político, diz docente universitário

Photo by Element5 Digital on Unsplash
Investigador David Magalhães fala sobre a ascensão da extrema-direita nas eleições europeias em entrevista à Agência Pública.

Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Andrea Dip, Clarissa Levy, Ricardo Terto e Stela Diogo e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

O crescimento da extrema direita no Parlamento Europeu após as eleições deste ano, com partidos extremistas como o espanhol Vox, o alemão AfD e o português Chega!, indica uma insatisfação dos europeus com a política, analisa o professor David Magalhães [nota]David Magalhães é professor de Relações Internacionais na Pontífica Universidade Católica de São Paulo, no Brasil[/nota]. Doutor em relações internacionais, Magalhães tem concentrado suas pesquisas no tema da transnacionalização da direita radical e na política externa de governos ultradireitistas. 

Em entrevista ao podcast Pauta Pública, Magalhães discute a capacidade da direita de conseguir capturar o sentimento de insatisfação com o sistema, não só na Europa, mas também no Brasil e nos Estados Unidos. Para ele, apesar das diferenças nas plataformas eleitorais em cada país, as eleições europeias “impactam e dão uma certa revitalidade aos grupos de extrema direita brasileira que comemoraram a vitória dos europeus no Parlamento”. 

Na discussão, Magalhães ressalta que, do ponto de vista das “direitas”, a Europa é historicamente muito distante do Brasil. Por isso, desde a redemocratização, o movimento brasileiro tem se espelhado na direita americana. Atualmente, essa tendência continua, com o alinhamento a Donald Trump e ao movimento nacional populista, buscando replicar a sua forma e conteúdo. 

Leia os principais pontos da entrevista e ouça o podcast completo abaixo.

https://apublica.org/podcast/2024/06/podcast-pauta-publica/extrema-direita-em-ascensao-na-europa-e-a-influencia-no-brasil-com-david-magalhaes

[Andrea Dip] Aqui, na Alemanha, percebemos nitidamente como a questão migratória tem sido significativa para o avanço da extrema direita. Ao menos desde 2014, essa xenofobia foi intensificada e deu mais poder para a extrema direita. Nas minhas investigações, eu tenho percebido como esses discursos xenófobos têm se tornado cada vez mais violentos. Como, por exemplo, os discursos do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. Como esse aumento do discurso violento e anti-imigração interfere nessas eleições? 

No caso da Alemanha, a AfD foi fundada em 2013 por ex-membros do partido da ex-primeira-ministra Angela Merkel, a União Democrata Cristã (CDU). Esse momento, segundo o cientista político holandês Cas Mudde, é chamado de “quarta onda”, onde houve uma normalização das ideias e práticas da ultradireita. Tudo aquilo que era visto como marginal foi trazido para o centro, moldando o comportamento dos partidos tradicionais de direita. Já na Espanha, o partido Vox foi fundado por ex-membros do Partido Popular (PP), que é historicamente de centro-direita. Esse partido é conservador, mas tradicional, assim como a CDU alemã. 

Em um primeiro momento, o AfD tinha pautas mais econômicas, com um perfil mais tecnocrático, porque seus membros eram economistas de carreira. Esses membros tinham discursos fundamentalmente contra a zona do euro e contra a ajuda que a Alemanha vinha dando para países que foram abalados pela crise econômica financeira, como a Grécia e a Espanha. Com a crise migratória de 2014 e 2015, quando houve um influxo significativo da população vinda do Oriente Médio (especificamente sírios e afegãos), houve um impacto grande na mudança da agenda dessas organizações. 

Não digo que a AfD já tinha uma agenda nativista [política de favorecer os habitantes nativos de algum país], xenófoba e anti-imigração, mas o fluxo migratório potencializou e redirecionou a agenda para um aspecto que tornou-se a principal ênfase da AfD de 2014 em diante. A partir disso, surgiu o Der Flügel, ala mais próxima à extrema direita neonazista alemã, que tem muita força na região da Turíngia, na Alemanha Oriental. 

A mesma coisa aconteceu na Hungria. A plataforma eleitoral de Viktor Orbán em 2010, ano em que foi eleito, era basicamente o discurso contra o Partido Social Democrático que havia ficado por oito anos no poder. A corrupção do Partido Social Democrático é vinculada à crise econômica de 2009, que foi muito impactante para o país. À época, ainda não havia a questão da imigração no discurso de Orbán. 

Isso muda de maneira substancial após seu segundo mandato, quando a Hungria vira um dos corredores de imigração porque alguns refugiados acabaram ficando (ainda que de maneira provisória) quando passaram pela fronteira com a Sérvia. O país tinha menos de 1% de população imigrante, ou seja, boa parte da população do país não sabia exatamente o que era imigração. 

Orbán começou a mudar a sua agenda do ponto de vista do nativismo e xenofobia, da política de imigração. Ele aprofundou essas conexões entre a ideia de uma identidade húngara tradicionalista e católica, ameaçada pelos imigrantes. Ele passa a culpar as forças internacionais por apoiar o processo migratório. A figura do filantropo George Soros, um judeu húngaro, aparece justamente como “bode expiatório” da destruição da identidade húngara. A partir disso, houve uma campanha muito forte contra as ONGs que protegem refugiados. 

No Brasil, a direita radical não tem agenda nativista e xenofóbica porque a imigração não é uma questão de relevância. No país também temos taxas de imigração abaixo de 1%, em termos de refugiados e imigrantes. Temos muito mais a agenda xenofóbica inter-regional, que seria o preconceito contra pessoas de origem nordestina. O preconceito no Brasil com imigrantes já aconteceu na região Norte do país com refugiados venezuelanos. Mas aqui o nativismo e xenofobia não fazem parte da pauta porque realmente a imigração não é um tema da conjuntura brasileira. 

[Andrea Dip] Sabemos que existem diferenças entre a extrema direita na Europa e no Brasil, como, por exemplo, a agenda da xenofobia posto por você. Mas também existem as semelhanças. Quais conexões você vê entre a extrema direita europeia e a brasileira?

Primeiro, eu queria tentar distinguir o que é a extrema direita europeia, porque podemos compreender nessa extrema direita qual parte mais se aproxima da brasileira. Por exemplo, eu vejo uma diferença muito grande ao comparar Holanda e França, porque são dois países que têm uma cultura secular, laica, com tradição liberal iluminista muito forte. De maneira que o discurso de um nacionalismo de identidade religiosa pega muito pouco nesses países. 

Eu estou acompanhando bastante a campanha do Jordan Bardella, estrela da direita radical francesa, que pode se tornar o primeiro-ministro francês durante as Olimpíadas. O candidato francês praticamente não comenta questões como ideologia de gênero, destruição da família tradicional etc. Não há discurso anti-LGBTQIA+ e antiaborto (aprovado como direito constitucional na França). O mesmo acontece na Holanda. Geert Wilders, do Partido da Liberdade (PVV), que agora está formando o governo, em momento algum usa discurso religioso ou cristão. 

Mas, se pegarmos países que têm um contexto histórico religioso e cristão, como o caso da Hungria, Polônia, Espanha e Itália, conseguimos encontrar alguns traços muito parecidos com a direita radical brasileira. A direita do nosso país fez algo no contexto do bolsonarismo, falar de cristianismo e não falar de catolicismo nem de protestantismo. Ou seja, foi uma aliança de conveniência que aconteceu às vésperas da ascensão do Bolsonaro como força política. 

Antes de Bolsonaro surgir como candidato à unificação dos dois grupos, o Olavo de Carvalho vivia atacando o Edir Macedo e os grupos neopentecostais e os pentecostais no Brasil, houve uma aliança para viabilizar essa candidatura religiosa cristã brasileira. Esse é um traço muito comum que possibilita a interlocução global desses grupos. 

Eduardo Bolsonaro tornou-se, de certa forma, o elemento de internacionalização da direita brasileira. Foi ele quem se aproximou do Steve Bannon junto com Filipe Martins, que está preso agora, mas foi assessor de relações internacionais da Presidência. As duas figuras transnacionalizaram as relações do bolsonarismo com grupos e organizações de ultradireita. Eduardo Bolsonaro se aproximou do partido português Chega!, de André Aventura, e também do partido espanhol Vox, de Santiago Abascal. 

Inclusive, o Brasil faz parte de uma organização conhecida como Fórum de Madri. Essa organização teria sido criada para ser uma oposição ao Foro de São Paulo – suposta organização de esquerda de teor conspiracionista – porém o Fórum de Madri é uma organização de direita conservadora, claramente radical. 

A reivindicação de uma identidade mobiliza um senso de cristianismo e tradição de família católica ou protestante. O caso brasileiro oscila de um lado para o outro, mas de certa forma reivindica a mesma tradição cristã. Ou seja, a ideia de identidade não é nacional secular, como é observado na França ou Holanda, é uma identidade que quer recuperar uma tradição cristã. Como é visto na discussão em torno do aborto no país, esse elemento vem de uma reivindicação identitária cristã muito importante nesses grupos. 

[Andrea Dip] David, você trouxe alguns elementos muito importantes. Eu gostaria de saber como as eleições europeias refletem no Brasil? 

Eu ouvi alguma militância digital de grupos bolsonaristas celebrando a vitória da direita radical, embora eles não entendam exatamente essas diferenças relatadas. No momento que souberem que o partido de Marine Le Pen, a Rassemblement National, é em massa a favor do aborto, vão começar a chamá-la de esquerdista. A visão que eles têm é de um grupo conservador crescendo. Independente de essa percepção ser verdadeira ou não, ela impacta e dá uma certa revitalidade a esses grupos, como se houvesse uma janela de oportunidades de crescimento.  

Não estamos diante de uma direita conservadora normal, mas de grupos verdadeiramente extremistas e hostis à democracia. Eu acredito que existem alguns elementos que fortalecem os movimentos com um discurso geralmente contra o sistema. A direita populista radical na Europa adota uma postura que é, em certa medida, contra o sistema, envolvendo tanto a centro-esquerda quanto a centro-direita. As eleições europeias têm mostrado isso: há um cansaço com o pêndulo centro-esquerda e centro-direita. 

Os problemas também advém da democracia liberal, que se mostrou bastante incapaz de resolver problemas fundamentais de origem social, econômica e de desigualdade. Há uma sensação de insatisfação. Houve, por mais de uma década, uma coalizão na Alemanha entre centro-esquerda e centro-direita com o Partido Social-Democrata (SPD) e a União Democrata Cristã (CDU), que governaram juntos desde a época da Alemanha Ocidental. 

Na Espanha, com o Partido Socialista Obrero (PSOE), há a mesma alternância entre os dois grupos. Existe uma sensação de desgaste geral em relação ao sistema, o consenso liberal que une centro-direita e centro-esquerda está sendo questionado. A esquerda não conseguiu capturar essa energia. Já a direita consegue capturar esse sentimento na Europa, Estados Unidos e também aqui no Brasil. Esse é um ponto que tende a reforçar o discurso antissistema. 

Porém nada se compara com a possibilidade de Donald Trump vencer as eleições americanas. O cenário eleitoral nos Estados Unidos tende a ser muito mais impactante para a direita brasileira do que o cenário europeu. A Europa, do ponto de vista “das direitas” é muito distante historicamente, por isso a direita brasileira tem mimetizado a direita norte-americana. Desde o processo de redemocratização, o principal farol das nossas direitas radicais tem sido os EUA. 

Desde o período do neoconservadorismo, com o ex-presidente americano George W. Bush e a Guerra do Iraque, até quando a direita começa a virar uma direita nacional populista com o também ex-presidente Donald Trump. Inclusive, a extrema direita tenta copiar a forma e o conteúdo da alt-right que ascende com o supremacista branco Richard Spencer. Em termos de pacto, temos que prestar muito mais atenção no que vai acontecer nas eleições dos Estados Unidos agora no final do ano do que nas eleições europeias. A Europa é vista como algo muito distante da direita radical brasileira.

UTAD lança licenciatura em Cidades Sustentáveis e Inteligentes

liufuyu/Envato elements
Estudantes serão "capazes de analisar o conceito de sustentabilidade à escala urbana", diz a instituição.

É uma nova licenciatura que pretende ajudar na luta contra as alterações climáticas e na transformação das cidades. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) vai apostar na licenciatura em Cidades Sustentáveis e Inteligentes já no próximo concurso de acesso ao ensino superior, anunciou a instituição transmontana.

Numa nota enviada às redações, a universidade refere que o curso terá um "plano de estudos multidisciplinar" com uma "componente prática que permitirá contactar com a investigação mais recente nesta área da sustentabilidade urbana e usufruir de protocolos com diversas instituições públicas e privadas", dando aos estudantes a capacidade de "analisar o conceito de sustentabilidade à escala urbana": "Os futuros licenciados poderão ingressar em empresas de estudos e projetos com responsabilidades no planeamento, conceção e gestão sustentável, administração central e regional, associações de municípios, autarquias e empresas municipais, agências governamentais, de Ambiente ou de Desenvolvimento Local", acrescenta.

A nova licenciatura insere-se na estratégia da UTAD de se tornar uma universidade mais sustentável: "Esta nova oferta formativa vai ao encontro da missão da UTAD em responder às exigências de um mundo em constante mutação e onde os processos de inovação e tecnologia são cada vez mais focados no desenvolvimento sustentável", refere Emídio Gomes, reitor da UTAD, acrescentando que a instituição tem em marcha "estratégias para fazer do nosso campus um laboratório vivo" algo que "permite a estudantes, docentes e não docentes contribuir para o desenvolvimento sustentável de um espaço com mais de 130 hectares, 20 edifícios e cerca de 10 quilómetros de vias".

O ciclo de estudos da licenciatura em Cidades Sustentáveis e Inteligentes tem a duração de três anos e será uma das 38 opções que a instituição terá disponíveis para o concurso nacional de acesso, que decorre entre 22 de julho e 05 de agosto.

Todas as informações sobre o novo curso estão disponíveis no site da instituição.

23 junho 2024

Um novo enquadramento teórico para compreender como as pessoas concebem o futuro

biasciolialessandro/Envato Elements
Artigo pretende apelar a uma "reflexão sistemática sobre a relação entre representação e ação, ao mesmo tempo que enfatizamos a agência das pessoas na formação e transformação das representações sociais através da comunicação e do discurso".

Um estudo teórico realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) apresenta uma análise comparativa de duas teorias do comportamento social para explorar a forma como as pessoas se relacionam com o futuro e as implicações daí decorrentes. O estudo informa sobre as perspetivas únicas de cada teoria e o potencial de integração interdisciplinar relativamente a fenómenos com importantes impactos sociais, como a crise climática e a transição para as energias renováveis.

Com este estudo, Ross Wallace, estudante do Doutoramento em Psicologia no Iscte- Instituto Universitário de Lisboa, e Susana Batel, investigadora no CIS-Iscte, abrem caminho para uma conceptualização mais matizada e sistemática da forma como as pessoas representam o futuro e com que consequências. “As atuais questões sociais, como a crise provocada pelas alterações climáticas e a necessidade de descarbonizar os sistemas energéticos, são muito complexas e exigem uma conceptualização que considere como as pessoas se envolvem com o futuro” Ross Wallace começa por explicar. De acordo com o investigador, as consequências destes problemas frequentemente não são imediatas e podem acontecer apenas num futuro distante, o que pode representar um desafio para os comportamentos sociais.

No artigo, a equipa de investigação centrou-se em duas principais teorias: a teoria sócio-psicológica das representações sociais e a teoria francesa da sociologia pragmática do envolvimento e da crítica (também conhecida como teoria das convenções). Susana Batel esclarece que a primeira “realça a natureza social da construção de significados e as formas reflexivas e intencionais de como os indivíduos representam o futuro”, enquanto a segunda “oferece uma conceptualização mais elaborada do modo como as pessoas se envolvem de forma prática com o mundo, incluindo as suas interações com o futuro e as dimensões que influenciam a construção de futuros coletivos”.

Ao comparar e sintetizar a teoria das representações sociais e a teoria das convenções, a equipa de investigação sublinha a importância de analisar as representações do futuro no contexto das dinâmicas de poder da sociedade, entre os sistemas político-especializados e o público, e das necessidades de mudança disruptiva para resolver queixas e injustiças coletivas. Especificamente, os autores argumentam que, integrando os conhecimentos de ambas as teorias, a comunidade de investigação pode compreender melhor a forma como as pessoas negoceiam e co-criam o futuro, particularmente no contexto de questões sociais prementes como as alterações climáticas e a descarbonização das sociedades.

Por exemplo, considere-se a questão ambiental da subida do nível do mar e a ameaça que pode representar para as pessoas no futuro. A teoria das representações sociais analisaria a forma como os indivíduos e as comunidades constroem representações da subida do nível do mar, mas também a forma como as pessoas comunicam e negoceiam significados relacionados com esta questão ambiental, considerando fatores como a influência dos meios de comunicação social, as crenças culturais e as interações sociais na formação das perceções da ameaça. Em alternativa, a teoria das convenções centrar-se-ia na forma como os diferentes atores sociais se envolvem, na prática, com o problema da subida do nível do mar, nomeadamente examinando as implicações materiais desta questão para as comunidades, as orientações morais que guiam as respostas à subida do nível do mar e as temporalidades envolvidas no planeamento e na adaptação às paisagens costeiras em mudança. “Pensamos que, ao combinar os pontos de vista de ambas as teorias, os investigadores e as investigadoras serão mais capazes de compreender e abordar a forma como as pessoas lidam com questões sociais futuras, e de uma forma normativamente orientada para o bem comum”, afirma Susana Batel.

“Com este artigo, apelamos a uma reflexão sistemática sobre a relação entre representação e ação, ao mesmo tempo que enfatizamos a agência das pessoas na formação e transformação das representações sociais através da comunicação e do discurso”, conclui Ross Wallace.

22 junho 2024

Apartheid digital e o uso de algoritmos de redes sociais em crises humanitárias

Ian Hutchinson/Unsplash
Censura tecnológica em Gaza expõe discriminação e violações de direitos

"Apartheid digital" é um dos muitos novos termos que vemos atualmente e que aborda as limitações da internet e de como as grandes plataformas tecnológicas têm o poder de escolher o conteúdo que vemos nos nossos feeds, por vezes levando a um sufocamento e à censura de vozes políticas que se opõem à dissidência e ao esquecimento.

Nos últimos tempos, os utilizadores tornaram-se mais conscientes da onda de censura que tem sido reforçada pelas plataformas através de "shadow banning", uma forma de censura que restringe a visibilidade de determinados conteúdos sem informar os utilizadores, e de acusações de "violação das diretrizes da comunidade". Estes são apenas alguns dos muitos termos usados para silenciar as vozes que falam sobre o genocídio em curso na Palestina desde 9 de outubro.

A história tem testemunhado como as crises humanitárias se agravaram em situações de guerra. No entanto, a diferença nas guerras que testemunhamos nesta época é o poder da internet e o papel das grandes plataformas tecnológicas. Depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia, pudemos ver o papel que as redes sociais desempenharam, amplificando as vozes das pessoas que sobreviveram à guerra. Houve um aumento no ativismo de guerra digital, no qual as plataformas de redes sociais escolheram um lado e forneceram os seus serviços de uma maneira que ajudasse os cidadãos ucranianos.

Embora esta medida tenha ajudado a elevar as vozes e destacado potenciais crimes de guerra, que ocorreram durante este período, vale a pena questionar se os mesmos padrões estão a ser aplicados a países que não fazem parte do norte global. A mais recente eclosão do conflito Palestina-Israel trouxe à tona uma série de questões sobre as grandes plataformas tecnológicas que optam por amplificar determinadas vozes em determinadas crises humanitárias, enquanto optam convenientemente por ignorar outras.

De acordo com um relatório de 2017 da Amnistia Internacional, os modelos algorítmicos e os interesses lucrativos da Meta levaram a que as atrocidades durante a crise dos muçulmanos Rohingya, em Mianmar (outubro de 2016–janeiro de 2017), fossem amplificadas. As forças de segurança em Mianmar realizaram uma ampla campanha de limpeza étnica no Facebook, plataforma da Meta, o que levou a graves violações dos direitos humanos e incitou ainda mais o ódio, a violência e a discriminação contra a comunidade. Os conteúdos de ódio aumentaram no Facebook e, em 2018, a empresa admitiu não ter feito o suficiente para evitar a escalada deste conteúdo nas suas plataformas. Isso levou a que a plataforma a fosse processada no Reino Unido e nos EUA. O caso ainda está em curso.

Mais recentemente, de acordo com a ONG palestiniana 7amleh (Centro Árabe para o Avanço das Redes Sociais), entre 7 de outubro e 14 de novembro, foram verificadas 1447 violações dos direitos digitais palestinianos. Este número inclui 573 casos de restrições de conta ou remoção de conteúdo dos utilizadores e apoiantes palestininianos. Foram também verificados de forma manual 904 casos de discurso de ódio, incitação à violência e outras formas de violência on-line facilitada pela tecnologia.

A 7amleh desenvolveu um modelo de linguagem baseado em inteligência artificial que monitoriza a propagação do discurso de ódio em hebraico contra palestinianos e ativistas pró-Palestina em plataformas digitais. O indicador de violência documentou mais de um milhão de casos de discursos de ódio em todas as plataformas, a maioria dos quais foi encontrada no X (antigo Twitter). De acordo com a 7amleh, 68% dos casos documentados de discurso e incitamento ao ódio baseavam-se em filiações políticas e/ou sentimentos nacionalistas, 29% em preconceitos raciais e os restantes incluíam violência sexual e violência religiosa, entre outros.

Recentemente, utilizadores de todo o mundo notaram que as grandes plataformas tecnológicas foram minimizando o seu alcance orgânico, com os utilizadores a relatar que seu conteúdo, particularmente relacionado com o genocídio e a guerra que acontecem em Gaza, foi distribuído para menos pessoas. Várias pessoas e ativistas que publicam conteúdo pró-Palestina relataram que estão a sofrer de shadow banning nas grandes plataformas tecnológicas como o Facebook, Instagram, X, YouTube e TikTok.

O Instagram também tem sido acusado de remover contas pró-Palestina, que são uma fonte de notícias para inúmeras pessoas on-line, como a @eye.on.palestine, que foi removida anteriormente e recentemente reintegrada na plataforma, com 8,8 milhões de seguidores. O Instagram também tem sido criticado por adicionar a palavra “terrorista” às biografias de usuários que se descrevem como palestinianos na plataforma. A crise já está sendo chamada de "nevoeiro de guerra impulsionada por algoritmos”, com o uso crescente da inteligência artificial e da IA ​​generativa para espalhar desinformação contra vozes pró-Palestinianas.

Grupos internacionais de defesa dos direitos humanos, como a Amnistia Internacional e o Access Now, também emitiram declarações sobre o racismo e o discurso de ódio que os palestinianos enfrentam on-line e a necessidade das plataformas fazerem mais em tempos de crise, em vez de censurarem e proibirem cidadãos que já testemunham uma guerra em curso no terreno.

Para travar este bloqueio específico das plataformas de redes sociais, alguns utilizadores têm feito "pausas de algoritmo” e “enganado os algoritmos” publicando histórias normais e, no meio, adicionando histórias da guerra em curso.

Os utilizadores também adicionaram sons de bipes para ocultar narrações, alteraram a grafia de palavras comuns em inglês e árabe como “Palestina”, “genocídio” e “Hamas” para evitar a deteção e colocaram mensagens entre as publicações regulares e reels com imagens e vídeos de Gaza sobre o genocídio em curso para espalhar a palavra. Alguns usuários estão a adotar o "algospeak", onde criam novas palavras no lugar de palavras-chave para que não sejam detetados por algoritmos e removidos das plataformas, uma tática de evasão usada para combater a moderação automática nas redes sociais.

A Global Voices conversou via LinkedIn com Mona Shtaya, uma ativista dos direitos digitais radicada na Palestina, sobre o apartheid digital que os cidadãos palestinianos têm vivido e a importância das grandes plataformas tecnológicas durante este período. Ela disse

Dada a cobertura inadequada e tendenciosa dos principais meios de comunicação internacionais e a perseguição de jornalistas, as plataformas de redes sociais deveriam servir como um meio para os palestinianos partilharem a sua narrativa. No entanto, a realidade é completamente diferente.
Estas plataformas censuram fortemente as vozes palestinianas, proíbem os palestinianosos e os seus apoiantes e violam os seus direitos à liberdade de expressão, reunião, acesso à informação, participação política e proteção contra a discriminação. Estas violações assemelham-se muito às testemunhadas em 2021 (na Palestina), representando uma supressão sistemática e deliberada das vozes palestinianas, conforme confirmado pelo relatório da Sustainable Business Network and Consultancy (BSR). Este facto evidencia o fracasso das plataformas em defender os princípios fundamentais dos direitos humanos.

Mona Shtaya, ativista dos direitos digitais radicada na Palestina

Shtaya acrescentou que as falhas algorítmicas e o "shadowbanning" de conteúdo pró-Palestina estão a causar problemas para as pessoas que tentam partilhar suas histórias com o mundo, apelando um cessar-fogo imediato.

Ela acrescenta: “A censura nas redes sociais está a sufocar-nos, a agravar o nosso sofrimento e a luta contra a discriminação sistémica, além de amplificar a autocensura e a criar um efeito assustador, agravando a opressão enfrentada pelas comunidades marginalizadas”.

Sobre o que o público pode fazer para ajudar, Shtaya diz:

As pessoas devem estar conscientes de que podem ser vítimas de desinformação e de narrativas unilaterais. A censura das redes sociais impede os palestinianos de partilhar as suas perspetivas. Portanto, o público em geral deve verificar proativamente a veracidade das notícias que recebe sobre os acontecimentos no terreno e garantir que se envolve e ouve a narrativa palestinianaa. Além disso, os indivíduos devem apoiar as vozes palestinianas, seguindo contas palestinianas e partilhando os seus conteúdos.

Mona Shtaya, ativista dos direitos digitais radicada na Palestina

Em tempos de crise humanitária, as redes sociais provaram ser o único meio de documentar acontecimentos e educar as pessoas em todo o mundo sobre os abusos e o sofrimento no terreno. O facto de as plataformas optarem por discriminar certas identidades constitui uma grave violação dos direitos humanos e criam um apartheid digital que apenas agrava as crises.

Seerat Khan é a responsável pelos programas da Digital Rights Foundation no Paquistão e tem realizado um extenso trabalho sobre género e tecnologia nos últimos sete anos. Trabalha sobretudo com mulheres defensoras dos direitos humanos e mulheres jornalistas em temas-chave como a proteção de dados, a segurança online, género, a privacidade e a desinformação.

Licença Creative Commons

Este artigo, escrito por Seerat Khan e traduzido por Hani Hassan, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.

Media Capital pode comprar A Bola TV

Divulgação
Segundo o Correio da Manhã, aind anão foi apresentada nenhuma propsota formal.

O grupo Media Capital pode estar prestes a fazer uma nova aquisição. Quem avança com a informação é o jornal Correio da Manhã.

Segundo a edição digital do matutino, o grupo que detém a TVI e a CNN Portugal estará em negociações com o grupo suíço Ringier Sports Media, que é dono do jornal desportivo A Bola, para entrar no capital do canal de televisão A Bola TV.

Ainda não está definido se a Media Capital ficará ou não com a maioria do capital do canal, mas o CM sempre vai adiantando que ainda não foi apresentada nenhuma proposta formal.

Quando contactados pelo jornal, os dois grupos de media não comentaram a notícia. Já a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) diz que "não houve até ao momento qualquer comunicação" sobre o negócio.

Comprada em 2023 pelo Ringier Sports Media Group num negócio que envolveu também o jornal A Bola e a revista AutoFoco, A Bola TV começou as emissões em 2012. Atualmente, está disponível na MEO, NOWO e Vodafone Portugal.

10 junho 2024

A credibilidade em notícias falsas é influenciada pelo interesse e surpresa que suscitam

Obi - @pixel8propix/Unsplash
Resultados do estudo mostram que identificar as notícias como falsas não impediu os participantes de as partilhar, o que parece contradizer o senso comum.

Um estudo realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) explorou a complexa interação entre emoções, perceções de credibilidade e crenças prévias na suscetibilidade das pessoas a notícias falsas. O estudo clarifica processos psicológicos subjacentes à forma como as pessoas interagem com notícias na era digital.

Angela Rijo, atualmente aluna do Doutoramento em Psicologia no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, e Sven Waldzus, investigador no CIS-Iscte, quiseram compreender o que leva as pessoas a acreditar e partilhar notícias falsas e verdadeiras. Neste estudo, os investigadores exploraram em que medida as crenças políticas prévias das pessoas influenciam os seus julgamentos sobre o interesse e a surpresa que as notícias lhes despertam, bem como os seus julgamentos sobre a sua credibilidade. Além disso, analisaram a forma como essas respostas emocionais e perceções de credibilidade influenciam a probabilidade de acreditar e/ou partilhar essas notícias.

Porquê interesse e surpresa? De acordo com a equipa de investigação, “as emoções epistémicas diferem das restantes emoções porque estão ligadas a processos cognitivos relacionados com a avaliação da informação e a formação de crenças. Elas moldam a forma como respondemos a novas informações, avaliando a sua relevância, novidade e significado”. Angela Rijo explica que, de acordo com a investigação, “o interesse e a surpresa estão normalmente envolvidos na promoção da exploração do conhecimento e na prossecução de objetivos epistémicos”. Acrescenta ainda que o interesse, embora nem sempre considerado uma emoção, está relacionado com esforços atencionais no processamento da informação e pode desempenhar um papel na tendência para acreditar e partilhar uma determinada notícia. Já a surpresa consiste no espanto e admiração sentidos perante o inesperado, estando ligada à forma como as pessoas fazem previsões sobre a realidade, e podendo aumentar o valor acrescentado de uma notícia que, assim, justifica a sua partilha.

Outro conceito importante neste estudo é a credibilidade, um atributo multidimensional que engloba a confiança (perceção de fiabilidade e honestidade da fonte de informação), a imparcialidade (a neutralidade e a ausência de enviesamentos na apresentação da informação) e o rigor (minúcia e exatidão da informação fornecida). A credibilidade percebida desempenha um papel significativo na forma como a informação é processada, acreditada e partilhada. A equipa de investigação salienta a importância deste conceito para o estudo, afirmando que “as perceções de credibilidade podem também elas ser influenciadas por fatores como crenças prévias ou o facto de a informação se alinhar com os pontos de vista de cada pessoa”.

Às pessoas que participaram no estudo, foram apresentadas publicações do Facebook que partilhavam notícias falsas e notícias verdadeiras, em igual número. Após cada publicação, era pedido aos participantes que indicassem se a notícia era verdadeira ou falsa, e que classificassem o seu nível de interesse e surpresa, avaliassem a credibilidade da fonte de notícias em termos de fiabilidade, imparcialidade e rigor e indicassem a probabilidade de a partilhar.

Embora as notícias verdadeiras fossem consideradas ligeiramente mais precisas e mais suscetíveis de serem partilhadas do que as notícias falsas, os participantes tiveram ainda assim problemas em detetar as falsas. A equipa de investigação atribui este facto a um processo emocional. “As notícias falsas foram, paradoxalmente, consideradas mais credíveis, o que pode ser explicado pelo facto de a resposta emocional às notícias falsas ser mais forte”, explica Angela Rijo. Os resultados mostraram que emoções epistémicas mais fortes, nomeadamente o interesse e a surpresa, estavam associados a uma maior perceção de credibilidade das notícias. “Os participantes tendiam a confiar mais nas notícias se estas suscitassem níveis mais elevados de surpresa e interesse, independentemente de as notícias serem verdadeiras ou falsas”, acrescenta. As notícias mais credíveis tinham então mais probabilidades de serem consideradas verdadeiras e de serem partilhadas.

Participantes com opiniões mais negativas sobre o sistema político democrático consideraram as notícias apresentadas como mais credíveis e foram mais propensos a partilhá-las, em particular as notícias falsas, o que não é surpreendente, uma vez que as mesmas tratavam de imperfeições ou críticas ao sistema político (por exemplo, corrupção). De acordo com Sven Waldzus, “este comportamento pode ser motivado por questões ideológicas ou identitárias”. O que surpreendeu os investigadores foi o facto de também estas notícias terem sido consideradas não só como mais surpreendentes e interessantes, como de as suas perceções de credibilidade acrescida serem totalmente explicadas por estas emoções epistémicas.

Os resultados do estudo também mostram que identificar as notícias como falsas não impediu necessariamente os participantes de as partilharem, o que parece contradizer o senso comum, mas apoia investigações anteriores. De acordo com a equipa de investigação, as intervenções destinadas a aumentar a sensibilização para as notícias falsas podem resultar numa diminuição da crença geral, mas não necessariamente na diminuição das intenções de as partilhar.

“Embora o nosso estudo informe acerca dos processos psicológicos subjacentes à crença em notícias falsas, é essencial reconhecer algumas limitações”, alerta Angela. Nenhum dos preditores foi manipulado experimentalmente, o que dá azo a várias explicações alternativas para o padrão encontrado nos resultados. A investigação foi realizada com uma amostra específica de participantes portugueses, centrou-se em conteúdos de notícias políticas extraídos do Facebook e analisou apenas a surpresa e o interesse como emoções epistémicas. “A generalização dos resultados a populações e fontes de notícias mais amplas, bem como a exploração de outros fatores emocionais requerem mais investigação”, explica a investigadora. “Independentemente disso, os nossos resultados realçam a importância de considerarmos as respostas emocionais e as avaliações de credibilidade no combate à disseminação da desinformação e na promoção da literacia mediática na sociedade”, conclui Sven Waldzus.

03 junho 2024

Dezenas de milhares de comentários e tweets analisados para compreender o discurso de ódio online em Portugal

LightFieldStudios/Envato Elements
Resultados sugerem a existência de múltiplos “discursos de ódio” com características psicossociais e linguísticas diferenciadas, variando consoante as comunidades visadas

O projeto kNOwHATE, coordenado por Rita Guerra, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), divulgou resultados preliminares de uma análise detalhada sobre o discurso de ódio em plataformas digitais em Portugal. Com base em 24.739 comentários relativos a 88 vídeos no YouTube e 29.846 tweets extraídos a partir de 2.775 conversações extraídas do Twitter/X, os dados revelam padrões consistentes com outros estudos nacionais e internacionais.

Através de uma abordagem participativa, as entidades parceiras do projeto sugeriram vídeos do YT para análise que foram posteriormente utilizados para procurar conteúdos semelhantes através do sistema de recomendação do YouTube. Entre os critérios de seleção, a equipa do kNOwHATE salienta o facto de serem conteúdos de autores portugueses com potencial para gerar discurso de ódio contra comunidades-alvo, com pelo menos 100 comentários e 1.000 visualizações. Quanto ao X (antigo Twitter), foi utilizada uma abordagem lexical para procurar conteúdo potencialmente relevante e adotados alguns critérios de seleção (ex., o primeiro tweet estava geo-localizado em Portugal, publicação ocorrida entre 2021 e 2022).

Numa primeira fase, as análises dos milhares de comentários analisados e codificados por uma equipa de anotadores focaram-se em identificar a prevalência de discurso de ódio, direto e indireto, discurso ofensivo, e contradiscurso. Rita Guerra, coordenadora do projeto, explica as diferenças entre estes tipos de discurso: “O discurso de ódio direto difunde, incita, promove ou justifica explicitamente o ódio, a exclusão e/ou a violência/agressão contra um grupo social ou uma pessoa devido à sua pertença grupal; é um discurso explicitamente preconceituoso e inflamatório, que normalmente contém linguagem ofensiva, abusiva ou depreciativa. O discurso de ódio indireto faz exatamente a mesma coisa, mas neste caso a mensagem não é explícita, podendo ser velada ou mascarada através de uma diversidade de estratégias, como o humor, ironia, ou até elogios estereotípicos. Por estas razões, o seu significado tem de ser inferido. O contra-discurso é uma resposta direta ao discurso de ódio com o objetivo de o combater”.

Os dados preliminares do projeto indicam que, em ambas as redes, o discurso de ódio indireto foi mais prevalente do que o discurso de ódio direto nas diferentes comunidades analisadas. Tal como esperado, o discurso de ódio direto e indireto apresentaram características e expressões diferentes, por exemplo o discurso de ódio direto foi mais frequentemente expresso através da mobilização da ameaça e da desumanização das comunidades alvo, enquanto o discurso de ódio indireto mobilizou mais frequentemente estratégias de negação do ódio e de inversão de papéis. Foram ainda analisadas as emoções presentes nos diferentes tipos de discurso de ódio: no discurso de ódio direto o ódio foi a emoção mais frequente, seguido da raiva; já no discurso de ódio indireto o padrão foi o inverso, sendo a raiva a emoção mais prevalente, seguida do ódio.

De acordo com a equipa de investigação, estes resultados sugerem a existência de múltiplos “discursos de ódio” com características psicossociais e linguísticas diferenciadas, variando consoante as comunidades visadas. Por exemplo, a raiva foi mais prevalente no discurso de ódio contra as comunidades LGBTI+, e o ódio foi mais prevalente no discurso contra as comunidades Ciganas/Roma e Migrantes. Apesar destas nuances, há elementos comuns nos discursos de ódio contra todas estas comunidades, como por exemplo a utilização de estereótipos e a desumanização.

Numa nota mais positiva, nem tudo parece estar perdido. Em ambas as redes foi ainda analisado o contra-discurso, tendo este sido pouco frequente no Youtube mas destacando-se como o discurso mais prevalente no Twitter/X.  No geral, os resultados mostram um padrão semelhante em ambas as redes, sendo o contradiscurso caracterizado maioritariamente pelo recurso a contra-estereótipos (ex., “Olá já procuraste alguma vez te informar com factos verídicos acerca dos subsídios declarados para a comunidade cigana? Penso que não mas tens vários sites que o podem provar a tua gigantesca burrice disfarçada de preconceito étnico. Se precisares até eu posso te mandar alguns”, à empatia (“Geralmente em vez de tentar explicar o q é o género ou sexo, prefiro ir só pelo argumento, deixem as pessoas ser o que lhes faz feliz, se não estiverem a magoar ninguém” e à referência a identidades inclusivas (“Somos a raça humana e temos de saber viver juntos neste mundo. Em vez de nos focarmos nas nossas diferenças, vamo-nos focar no que temos em Comum”).

No geral, os resultados obtidos com a anotação de dezenas de milhares de comentários e tweets sugerem claramente que a compreensão do discurso de ódio obriga a abordagens contextuais, culturalmente sensíveis, que considerem as nuances contextuais e linguísticas que por agora ainda escapam aos algoritmos. Por isso mesmo, estes dados são úteis para informar o desenvolvimento de algoritmos mais sensíveis a estas pistas contextuais e culturais. Parte da equipa do projeto trabalhou efetivamente em modelos computacionais que possam melhorar os algoritmos de deteção atuais. Rita Guerra está confiante que este projeto servirá como primeiro passo para melhorar a compreensão deste fenómeno complexo, que por sua vez poderá contribuir para uma melhoria na deteção automática do discurso de ódio online em Portugal, bem como para uma maior sensibilização sobre este fenómeno e as formas de o combater.

“Estes resultados preliminares destacam a complexidade e a variedade do discurso de ódio online. É crucial entender estas dinâmicas para desenvolver estratégias eficazes de combate ao ódio e promoção de um ambiente digital mais seguro e inclusivo.”, explica a coordenadora do projeto. Para além de oferecerem uma visão integrada e culturalmente sensível sobre a prevalência e a natureza do discurso de ódio nas redes sociais, estes resultados do projeto kNOwHATE sublinham a importância de iniciativas de contradiscurso para mitigar os impactos negativos sobre as comunidades afetadas.

Os resultados globais do projeto, bem como o seu impacto, serão apresentados e discutidos a 9 de julho de 2024 numa conferência que decorrerá no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa sob o título “Discurso de Ódio Online em Portugal: Que Presente e Que Futuro?”. O projeto kNOwHATE (kNOwing online HATE speech: knowledge + awareness = TacklingHate) é um consórcio financiado pela União Europeia (CERV-2021-EQUAL 101049306) composto por quatro unidades de investigação do Iscte (BRU, CIS, CIES e ISTAR), o Interactive Technologies Institute (LARSyS, Instituto Superior Técnico), o INESC-ID Lisboa, a Casa do Brasil de Lisboa, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, a Associação ILGA Portugal, e SOS Racismo.

22 novembro 2023

Universidade do Minho lidera nas patentes em Portugal

Este documento revela também que a maioria dos pedidos de patentes nacionais foi realizada por instituições de ensino superior e nas regiões Norte, Centro e Lisboa.
Este artigo foi publicado há, pelo menos, 10 meses, pelo que o seu conteúdo pode estar desatualizado

A Universidade do Minho é a instituição nacional com mais pedidos de “famílias de patentes”, segundo o “Barómetro Inventa 2023 – Patentes Made in Portugal”.

Os 69 registos desta academia incluem inovações médicas, biotecnológicas, de condução autónoma, de fabrico, de produção e de construção, entre outras. Os resultados reforçam o papel da UMinho como um dos motores de inovação do país e na sua ligação ao tecido económico-social.

Neste ranking anual elaborado pela consultora Inventa International segue-se a Bosch Portugal (55 patentes), que na última década tem tido intensa atividade conjunta de I&D com a UMinho. O top 5 da lista inclui ainda as universidades do Porto (25), de Aveiro (25) e de Lisboa (23).

O Barómetro Inventa agrega os registos que deram entrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, no Instituto Europeu de Patentes, na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, no Instituto Norte-Americano de Marcas e Patentes, no Instituto Chinês de Patentes, no Instituto de Propriedade Intelectual do Canadá e no INPI do Brasil. O ranking adota nesta quarta edição uma metodologia assente nos pedidos depositados (e já não em pedidos publicados), pois um pedido de patente fica em sigilo durante 18 meses, logo o ano 2021 é o mais recente para consulta pública nesse âmbito.

Este documento revela também que a maioria dos pedidos de patentes nacionais foi realizada por instituições de ensino superior e nas regiões Norte, Centro e Lisboa. Quanto a Portugal, apesar do notável desenvolvimento recente, apresenta um desempenho baixo em termos absolutos (18.353 patentes de 2010 a 2021) quando comparado por exemplo com França, Países Baixos ou Espanha, que tiveram respetivamente 45, 23 e 7 vezes mais pedidos de patentes nesse período.


Este texto é publicado n‘o largo. no âmbito do projeto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovida pela Associação Portuguesa de Imprensa. 

Estudo internacional desenvolve equações que preveem e podem ajudar no diagnóstico mais precoce da diabetes

A investigação internacional envolveu cerca de 400 investigadores.
Este artigo foi publicado há, pelo menos, 10 meses, pelo que o seu conteúdo pode estar desatualizado

Um estudo internacional, em que participa Aristides Machado-Rodrigues, investigador do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e Luísa Macieira, docente da Faculdade de Medicina da UC (FMUC), publicado na Nature Medicine, desenvolveu equações que preveem e podem ajudar no diagnóstico precoce e mais preciso da diabetes.

Este artigo científico vem mostrar ainda que a utilização de um único bio marcador no rastreio da diabetes, a glicose em jejum, subestima o seu impacto na saúde das nossas populações.

A diabetes, sendo uma doença crónica, pode causar inúmeras complicações de natureza cardio-metabólica, tanto ao nível das complicações microvasculares como macrovasculares. O diagnóstico precoce pode permitir um tratamento menos invasivo e capaz de evitar o seu desenvolvimento ou agravamento.

Segundo Aristides Machado-Rodrigues, também docente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEF-UC), atendendo a que ambos os marcadores de rastreio, glicose em jejum e a hemoglobina glicada (HbA1c), são preditores do risco de diversas complicações de saúde e da mortalidade, «a confiança em apenas um bio marcador pode subestimar ou atrasar o diagnóstico da diabetes em algumas populações e, consequentemente, aumentar o risco das complicações de natureza metabólica e cardiovascular».

«Os dados da presente investigação mostram que este assunto é especialmente relevante em países de estatuto socioeconómico baixo e médio, onde as dificuldades de recursos tornam a glicose em jejum como a metodologia mais comum de diagnóstico, possivelmente porque a avaliação da hemoglobina glicada nos remete para equipamentos e reagentes mais dispendiosos e, até, porque a normalização do processo laboratorial da HbA1c requer técnicos especializados e nem sempre estão amplamente disponíveis», revela Aristides Machado-Rodrigues, coautor do estudo.

Luísa Macieira, chama a atenção para o facto de «cerca de 12% dos participantes terem diagnóstico prévio de diabetes ou este ter ocorrido durante os estudos, demonstrando assim a dimensão do problema à escala global com impacto aos mais diversos níveis, desde o individual, ao familiar, social, político e económico entre outros». Adicionalmente, constatou-se, uma vez mais, que «um índice de massa corporal (IMC) aumentado está ligado ao diagnóstico prévio de diabetes e àqueles que foram diagnosticados com diabetes durante os estudos», refere a docente da FMUC.

Os investigadores que representam a UC neste estudo dão ainda enfoque à necessidade de rastreios com início ainda em idade pediátrica, sobretudo aos indivíduos de risco (IMC e perímetro da cintura aumentados, bem como a massa gorda aumentada), o que possibilitaria a deteção precoce do problema que é a diabetes e o qual pode estar presente no individuo durante longo período antes de ser diagnosticado.

A investigação, realizada por um consórcio liderado pelo Imperial College London e que envolveu cerca de 400 investigadores, analisou dados de 2000 a 2021 relativos ao diagnóstico da diabetes de 117 estudos internacionais, correspondendo a 601.307 adultos (56% mulheres), com uma idade média de 50 anos, dos quais 327.554 possuíam dados completos da glicose em jejum e da HbA1c.


Este texto é publicado n‘o largo. no âmbito do projeto “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovida pela Associação Portuguesa de Imprensa. 

Morreu o ator Carlos Avilez

Rob Laughter/Unsplash
Tinha 88 anos.

O ator e encenador português Carlos Avilez morreu esta quarta-feira em Cascais. A notícia foi avançada pela Agência Lusa e, entretanto, confirmada por outros órgãos de comunicação social junto de fontes do Teatro Experimental de Cascais.

Avilez deu entrada esta terça-feira no hospital devido a uma indisposição, tendo morrido durante a madrugada após uma paragem cardiorrespiratória.

Nascido em 1935, estreou-se como ator profissional em 1956. Em 1965, torna-se um dos fundadores do Teatro Experimental de Cascais, uma das principais escolas de teatro e formação de atores do país. Além disso, foi diretor do Teatro Nacional D. Maria II, e presidente do Instituto de Artes Cénicas. Atualmente, ainda estava a trabalhar, tendo encenado a peça "Electra", que estreou no passado dia 18 de novembro.

Carlos Avilez tinha 88 anos.

21 novembro 2023

DW Alemão sai da MEO

MEO
Mudança está prevista para final de dezembro.

Há mais uma alteração a caminho na grelha da MEO. A marca para consumo doméstico da Altice Portugal anunciou a saída do canal Deutsche Welle na sua edição em alemão. A informação está a ser comunicada aos clientes através da fatura mensal de novembro.

Na nota, a operadora esclarece que o canal "deixará de estar disponível na oferta de canais da MEO a partir de 31-12-2023", não adiantando, no entanto, quaisquer motivos para essa decisão.

O canal mantém-se, no entanto, disponível em Portugal através da grelha da NOS.

20 novembro 2023

Eurovisão Júnior: Já se sabe em que lugar atua Portugal

Pedro Pina/RTP/EBU
O nosso país é representado por Júlia Machado com o tema "Where I Belong".

A cerimónia de abertura da edição 2023 do Festival Eurovisão Junior da Canção decorreu na tarde desta segunda-feira em Nice, França.

A cerimónia serviu para dar as boas-vindas oficiais às comitivas dos 16 países em competição.

Portugal estará representado no festival por Júlia Machado com o tema "Where I Belong". A representante portuguesa será a 11.ª a subir a palco, antes da anfitriã, a França, e depois da Geórgia. O sorteio, que decorreu durante a cerimónia, determinou que a Espanha abrirá a competição e os Países Baixos encerram as atuações em 16.º.

A final decorre este domingo, dia 26, a partir das 15h, e terá transmissão nos canais RTP, assim como através da emissão internacional no YouTube.

  1. Espanha
    Sandra Valero - "Loviu"
  2. Malta
    Yulan - "Stronger"
  3. Ucrânia
    Anastasia Dymyd - "Kvitka"
  4. Irlanda
    Jessica McKean - "Aisling"
  5. Reino Unido
    STAND UNIQU3 - "Back To Life"
  6. Macedónia do Norte
    Tamara Grujeska - "Kaži Mi, Kaži Mi Koj"
  7. Estónia
    ARHANNA - "Hoiame Kokku"
  8. Arménia
    Yan Girls - "Do It My Way"
  9. Polónia
    Maja Krzyżewska - "I Just Need A Friend"
  10. Geórgia
    Anastasia & Ranina - "Over The Sky"
  11. Portugal
    Júlia Machado - "Where I Belong"
  12. França
    Zoé Clauzure - "Cœur"
  13. Albânia
    Viola Gjyzeli - "Bota Ime"
  14. Itália
    Melissa & Ranya - "Un Mondo Giesto"
  15. Alemanha
    FIA - "Ohne Worte"
  16. Países Baixos
    Sep & Jasmijn - "Holding On To You"
https://www.youtube.com/watch?v=h4Ry3o_ksUE

20h38: atualizado com a ordem das atuações.

Ministério da Administração Interna russo coloca cantora ucraniana Jamala na lista dos mais procurados

Sarah Louise Bennett/EBU
Artista de origem tártara da Crimeia venceu a Eurovisão em 2016.

Este artigo é uma tradução para português de Portugal de dois artigos, um em russo e outro em inglês, da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).


O Ministério da Administração Interna da Rússia colocou Jamala (Susanaa Jamaladinova), cantora ucraniana nascida na Crimeia, na lista dos mais procurados, noticia o site Mediazona.

Segundo a publicação, a cantora tártara crimeana foi colocada na lista em meados de outurbo de 2023 acusada de divulgar "mentiras" sobre o exército russo envolvido na invasão em curso à Ucrânia por parte de Moscovo.

No início deste mês, um tribunal russo emitiu um mandado para a prisão de Jamala, diz o site.

Em 2016, Jamala venceu o Festival Eurovisão da Canção com uma balada que descrevia a deportação brutal dos tártaros crimeanos para a Ásia Central por parte dos Soviéticos em 1944.

19 novembro 2023

Morreu a cantora Sara Tavares

Facebook Sara Tavares/Divulgação
Tinha 45 anos.

A cantora portuguesa Sara Taves morreu este domingo, em Lisboa. A notícia está a ser avançada pela edição online da SIC Notícias.

A artista estava esta internada na unidade de cuidados paliativos do Hospital da Luz. Há mais de dez anos que lhe foi diagnosticado um tumor cerebral.

Nascida em 1978 em Lisboa, Tavares foi representante de Portugal na edição de 1994 do Festival Eurovisão da Canção com o tema "Chamar A Música", alcançando o oitavo lugar. Antes, participou no programa "Chuva de Estrelas", da SIC, com uma interpretação de um tema de Whitney Houston. Em 2009, fez uma pausa na carreira, regressando em 2018, tendo mesmo sido nomeada para um Grammy Latino.

Em setembro, lançou o single "KURTIDU".

Sara Tavares tinha 45 anos.

Em harmonia com a natureza

_Tempus_/Envato Elements
"Face à eternidade do tempo que falta cumprir a este nosso planeta, estimado em cinco a seis milhares de milhões de anos, a presença do Homem na Natureza é ainda extraordinariamente curta e insignificante à escala da evolução biológica".

O nosso Planeta, velho de cerca de quatro mil quinhentos e quarenta milhões de anos, lar da biodiversidade, incluindo a humanidade inteira, não foi sempre como hoje o conhecemos. Esta nossa Terra, um ponto azul na imensidade do espaço cósmico, é o resultado de uma longa e complexa evolução, e o Homem é o fruto mais jovem dessa mesma evolução, numa cadeia imensa de inter-relações em que participaram as rochas, os solos, a água, o ar e os seres vivos. Assim, interessa ao cidadão em geral, como criatura consciente que é no quadro da Natureza, conhecê-la melhor, a fim de bem avaliar os problemas que se lhe põem no seu relacionamento com o ambiente natural.

Na evolução da matéria, segundo Teilhard de Chardin (1881-1955), o grau de complexidade que esta assumiu foi crescente desde o início do tempo deste nosso Universo, isto é, nos treze mil e oitocentos milhões (13 800 000) de anos da sua existência. Das partículas subatómicas primordiais passou-se aos átomos e, só depois, às moléculas, cada vez mais complexas. A partir destas, a evolução caminhou no sentido das células mais primitivas que fizeram a sua aparição na Terra há mais de três mil e oitocentos milhões de anos (3 800 000 000 anos), pensa-se que através de uma cadeia abiótica de estádios progressivamente mais elaborados, onde o ensaio e erro e o sucesso ou insucesso das soluções encontradas, isto é, os produtos sucessivamente sintetizados, tiveram a seu favor tal imensidade de tempo, da ordem de 75% ou mais da idade do Universo. Dos seres unicelulares, rudimentares, aos primeiros organismos pluricelulares, surgidos há setecentos a oitocentos milhões de anos, foi consumido apenas cerca de 20% desse mesmo tempo. Restou, pois, pouco mais de 5% para que, numa nova cadeia de complexidade, sempre crescente e a ritmo cada vez mais acelerado, se caminhasse dos invertebrados primitivos ao Homem. Do nosso aparecimento na Natureza, há cerca de 2,3 a 2,5 milhões de anos, como Homo habilis, onde representamos o passo mais recente da escala evolutiva, aos dias de hoje, foi um passo de apenas 0,0001% do tempo universal da criação.

Face à eternidade do tempo que falta cumprir a este nosso planeta, estimado em cinco a seis milhares de milhões de anos, a presença do Homem na Natureza é ainda extraordinariamente curta e insignificante à escala da evolução biológica e, portanto, passível de erro, como aconteceu com inúmeras espécies no decurso dessa mesma evolução.

O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Ele é o estado mais avançado de combinação dessa mesma matéria, capaz de fazer aquilo a que chamamos Ciência, isto é, observar, descrever, relacionar, explicar, induzir, prever. O Homem, na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do universo. Assim, a Ciência, através do Homem, pode ser entendida também como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria. Pode dizer-se que a Natureza “pensa” através do cérebro humano e, com igual razão, pode aceitar-se que o Homem deu voz à Natureza. Tais capacidades colocam-nos a nós, humanos, numa posição de grande vantagem entre os nossos pares no todo natural. Mas teremos nós o direito de gerir a Natureza apenas em nosso proveito, agredindo-a como tem sido regra, sobretudo, a partir da Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, e em crescimento exponencial nos tempos que se seguiram?

A Terra, no quadro em que se nos apresenta hoje, é o resultado de um sem número de agressões sofridas ao longo da sua velhíssima história. Contudo, e em consonância com James Lovelock (1919-2022), na sua hipótese “Gaia”, a Terra é um corpo que se autorregula e, como tal, sempre soube encontrar resposta a todas essas agressões e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. Os danos que lhe podemos causar, no mau uso que dela fizermos, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras, ainda desconhecidas, que nos poderão ser altamente adversas. Assim, ao atentar contra a Natureza, o Homem está, certamente, a atentar também contra si próprio, contra a humanidade. Acaso deixou de existir mundo natural aquando das grandes extinções em massa, como a que se verificou há cerca de 65 milhões de anos que, entre muitíssimos outros grupos biológicos, levou ao desaparecimento dos dinossáurios não avianos?

Numa ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial incontrolada pode desencadear uma nova extinção em massa que, certamente, a vitimará a ela também. Porém, o planeta – e os geólogos têm consciência disso – irá prosseguir, mesmo sem a inteligência do Homem, e acabará por encontrar novos caminhos, em obediência apenas às leis da física, incluindo as do acaso, podendo voltar a ensaiar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna do Homo sapiens, que somos nós. Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar, uma vez que como se disse atrás, estimamos em mais cinco a seis mil milhões de anos a sua existência como planeta, até que o Sol, na sua evolução como estrela, o envolva num imenso brasido.

Perante quem deve o Homem prestar contas da maneira como decide articular-se com a Natureza? É, sem dúvida, aos outros Homens, ou seja, à Sociedade, que cada um de nós tem de responder pelo poder de decisão e pela liberdade de acção que as nossas imensas capacidades nos conferem. Se o Homem deu voz à Natureza, a Sociedade deu-lhe ética e assume-se no direito de estabelecer regras entre os seus pares no usufruto deste vasto condomínio. Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente desta mesma Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe o acesso aos conhecimentos que, desde sempre, a Ciência nos vem revelando.

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