BOOMFITAção decorre nas redes sociais com o mote "Escolhe Viver"
Coincidindo com o dia mundial de Combate à Depressão, a marca online de fitness BOOMFIT lançou uma nova campanha nas suas redes sociais: "Escolhe Viver" é o mote de um vídeo que pretende apelar à importância da prevenção do suicídio.
A nova campanha insere-se na estratégia da marca de promoção de estilos de vida mais ativos que impactam o bem-estar emocional: "É essencial abordar a prevenção e o combate à depressão, destacando a importância de cuidar da saúde mental de forma integral”, diz o CEO da BOOMFIT Vítor Brandão. A marca recorre mesmo a dados da Organização Mundial de Saúde para dizer que a doença "afeta 300 milhões de pessoas em todo o mundo e é a principal causa de incapacidade global. A cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo devido a sintomas causadas por esta doença", frisa a marca.
O vídeo, que está disponível nas redes sociais da marca, traz "a história de um jovem que enfrenta momentos depressivos, equacionando o suicídio, mas que, afinal escolhe viver, sendo o exercício físico o seu verdadeiro aliado". "Todas as ações e todo o "barulho" que se faça em prol deste tema são essenciais", acrescenta Brandão.
Esta não é a primeira vez que a marca aposta em campanhas de grande impacto social. Ainda em dezembro passado, lançou a campanha "Autodefesa não é violência", inserindo-se numa estratégia de ser "uma voz ativa na promoção de estilos de vida saudáveis"."Muito mais do que um simples vídeo que apela ao estilo de vida saudável ou ao exercício físico, a BOOMFIT pretende passar uma mensagem encorajadora e de apelo ao pedido de ajuda profissional", conclui a marca em nota enviada à imprensa.
O jornalista português Daniel Ribeiro morreu esta sexta-feira em Lisboa. A informação foi avançada pela Rádio Alfa na manhã deste sábado.
O profissional colaborou com a edição em português da Radio França Internacional (RFI) e Antena 1, tendo desempenhado funções de diretor de antena na Rádio Alfa, em Paris. Atualmente, era correspondente da estação lusófona de rádio em Portugal e jornalista no Expresso.
No seu site, a Alfa recorda Ribeiro como "um profissional que sempre dignificou a profissão, respeitando sempre a isenção e a objectividade e um grande respeito pelos ouvintes e leitores nos orgãos de informação onde trabalhou". Ao longo da sua carreira, o jornalista publicou reportagens sobre situações de guerra, de crise e até sobre a emigração portuguesa.
A morte de Ribeiro mereceu uma reação por parte do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que fez publicar uma nota no site da Presidência em que lembra o "jornalismo sério e competente" do profissional
O funeral acontece esta terça-feira, a partir das 16h, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.
Milton Martínez/Secretaría de Cultura de la Ciudad de México (CC BY 2.0 DEED)Quatro das 14 investigadoras que fazem parte do grupo que acusa o docente de assédio sexuais e morais tornaram-se arguidas
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Mariama Correia e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
Quase dois anos depois de divulgarem a primeira carta anônima com denúncias de assédio sexual e moral contra o professor e sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, as pesquisadoras do coletivo internacional de vítimas do acadêmico estão sob julgamento. Quatro das 14 mulheres que fazem parte do grupo foram processadas pelo próprio Boaventura em uma ação de defesa da honra chamada de pedido de tutela de personalidade, que corre no Juízo Local Cível de Coimbra, em Portugal.
A primeira audiência aconteceu nesta quarta-feira, 8 de janeiro. Na ação, Boaventura pede retratação pública nos principais jornais de Portugal, com o reconhecimento de sua excelência como professor e demonstração de profundo arrependimento. Também que a Justiça estabeleça multa contra as vítimas para forçar a retratação. As pesquisadoras que estão sendo julgadas são Sara Araújo, Carla Paiva, Maria Teresa Martins e Gabriela Freitas Figueiredo Rocha. Três delas foram ouvidas com exclusividade pela Agência Pública, em maio de 2024, quando decidiram sair do anonimato pela primeira vez e falar sobre os assédios sofridos enquanto estudaram ou trabalharam com Boaventura.
Os relatos delas envolvem denúncias de assédio sexual e moral, abuso de poder, violência verbal e extrativismo intelectual, que é quando o trabalho de outra pessoa é utilizado sem reconhecimento devido de autoria nem remuneração.
O coletivo de vítimas classifica a ação judicial como uma nova forma de assédio e de censura, e denunciam que as redes sociais das mulheres processadas estariam sofrendo monitoramento por Boaventura. Elas lançaram a página Academia Sem Assédio e uma campanha de arrecadação de fundos para pagar os gastos com o processo. A pesquisadora portuguesa Sara Araújo, que está entre as rés, escreveu no Facebook: “Fizemos tudo o que nos cabia e as únicas pessoas sob julgamento somos nós, as vítimas”.
Sara Araújo contou à Públicaque sofreu assédios morais e sexuais quando trabalhou com Boaventura no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, que era coordenado por ele. Em uma das reuniões, o professor teria dito a ela: “O problema que existe entre nós é que tu és a única mulher com quem eu tenho uma relação tão próxima que não tem caráter sexual”. Boaventura nega as acusações feitas por ela e pelas outras pesquisadoras. Ele se diz vítima de “perseguição” e “vingança”.
A advogada das rés, Lara Roque Figueiredo, informou que duas pesquisadoras foram ouvidas neste dia 8 e que outras seis audiências já estão marcadas para janeiro. Ela disse que a “ação busca constranger a liberdade e os direitos” dessas mulheres. “É um ataque para tentar silenciá-las. Consideramos inadmissível que alguém seja obrigado a desmentir a história da sua vida”, disse à Pública.
Segundo Élida Lauris, pesquisadora brasileira que faz parte do coletivo de vítimas de Boaventura, o professor solicitou à Justiça que outras nove pesquisadoras que assinaram uma carta de denúncias contra ele sejam incluídas no julgamento. “Esse processo é um exemplo do assédio que sempre sofremos. É um processo feudal em que Boaventura de Sousa Santos espera que a Justiça lhe dê razão com base na ideia de que é uma autoridade, não importam os procedimentos, regras ou direitos fundamentais”, comentou.
Para ela, a discussão que está sendo feita no tribunal em Portugal é central para os direitos das vítimas de assédio. “Pode se criar um precedente de defesa absurda dos agressores ou de afirmação do direito à denúncia. Se o tribunal afirmar que denunciar não é ofensa à honra abre um precedente para reforçar as denúncias e atacar a estratégia de defesa dos agressores, que querem tentar reverter as denúncias esperando que o conservadorismo dos tribunais os favoreça”, considera.
A reportagem procurou Boaventura por e-mail, mas não recebeu respostas dele até a publicação. O espaço segue aberto.
Inquérito sobre denúncias de assédio foi encerrado
O professor, que tinha sido suspenso de suas atividades em 2023, demitiu-se em novembro passado alegando que o CES tinha conduzido o inquérito de forma parcial e sem direito à defesa. O CES encerrou o inquérito interno para apuração das denúncias sem que as conclusões do processo tenham se tornado públicas. A direção pediu desculpas públicas às vítimas de assédio e abuso, mas não citou Boaventura nominalmente.
A advogada Lara Roque informou que, ainda em janeiro, representantes do Coletivo Internacional de Vítimas de Boaventura esperam se reunir com a direção do CES para entender o que aconteceu. “As pesquisadoras foram ouvidas mas não sabemos se chegaram a concluir a investigação”, disse. O processo do Ministério Público de Portugal que apura as denúncias de assédio sexual e moral contra o professor continua correndo em segredo de justiça.
Boaventura de Sousa Santos é um sociólogo de renome internacional, com livros publicados em vários idiomas e países. As primeiras acusações de assédio contra ele surgiram em março de 2023, no capítulo de um livro assinado por pesquisadoras de Coimbra. O texto protegia a identidade das denunciantes e não citava nominalmente Boaventura, chamado apenas de “professor-estrela”. Ele mesmo assumiu ser o “professor-estrela”.
Em abril de 2023, a Públicarevelou com exclusividade as denúncias da deputada federal Bella Gonçalves (PSOL-MG), que contou ter sofrido assédio sexual do professor quando foi orientanda de doutorado.
GaudiLab/Envato ElementsCinco deles são de autores portugueses
Esta é a minha escolha dos doze melhores livros de ciência publicados em Portugal em 2024. Cinco deles são de autores portugueses. A ordem é a alfabética do apelido do primeiro autor.
Acemoglu, Daron e Johnson, Simon. Poder e Progresso. A nossa luta milenar pela tecnologia e prosperidade. Temas & Debates. Os dois autores, professores de Economia no MIT, receberam o Prémio Nobel da Economia em 2024. O primeiro autor já tinha sido autor, com James Robinson, de O Equilíbrio do Poder e do best-seller Porque Falham as Nações, ambos publicados pela Temas e Debates. O tema do livro é a evolução da ciência e tecnologia e o seu impacto na economia e na vida.
Alves, Miriam e Kono, Yara. As Peças Mais Pequenas. Tudo o que vemos é feito do que não vemos. Planeta Tangerina. Uma jornalista portuguesa e uma ilustradora brasileira fizeram um belo livro para crianças que explica que «tudo o que vemos é feito do que não vemos». Na ciência, o essencial é invisível aos olhos: os átomos formam tudo à nossa volta e dentro de nós. Mas, mais do que descrever a ciência, a primeira autora fala do processo de descoberta. E a segunda ilustra o texto esplendidamente.
Cardoso, Vítor. O Eclipse do Tempo. Guia para entrar em buracos negros. Oficina do Livro. Um astrofísico português com grande currículo no estudo de buracos negros, professor no Instituto Superior Técnico e no Instituto Niels Bohr em Copenhaga, escreveu uma obra de divulgação sobre o tempo e esses «monstros cósmicos» que engolem tudo. O prefácio é do Nobel da Física Reinhard Genzel, o astrofísico alemão que ajudou a determinar a massa do superburaco negro que está no centro da nossa galáxia, e o posfácio de Emanuele Berti, presidente da Sociedade Internacional de Relatividade Geral e Gravitação.
Carvalho, António Galopim de. Ao Romper da Aurora. Âncora. O professor jubilado de Ciências da Terra da Universidade de Lisboa, autor de muitos outros livros, reúne aqui muitos dos textos, à volta da sua vida, que escreveu para as redes sociais. O título explica-se porque o professor gosta de escrever de madrugada. O resultado é um longo depoimento pessoal de um dos nossos maires divulgadores de ciência. No final do ano, Galopim de Carvalho publicou ainda, na mesma editora, Aprender a Gostar de Saber.
Conway, Ed. Mundo Material. Uma história substancial do nosso passado e futuro. Temas e Debates. Um premiado jornalista de economia inglês realizou uma viagem pelo mundo para nos contar os materiais que se extraem dom interior do nosso planeta e o modo como são transformados para formarem os objetos de que precisamos. Por exemplo, de onde vem o silício dos nossos chips de computadores? Vem da areia…
Kissinger, Henry; Mundie, Craige; e Schmidt, Eric. Génesis. Inteligência artificial, esperança e o espírito humano. Dom Quixote. Um ensaio que fornece uma ampla matéria de reflexão sobre os prementes desafios da Inteligência Artificial, da autoria do político e estadista norte-americano falecido em 2023 com cem anos, de um ex-diretor da Microsot e de um ex-CEO da Google. O primeiro e o terceiro autores já tinham analisado o assunto no seu livro, com Daniel Huttenlocher, A Era da Inteligência Artificial e o Nosso Futuro Humano (também na Dom Quixote).
Levitt, Dan. De Que Somos Feitos? A história dos átomos do seu corpo, desde o Big Bang até ao jantar de ontem, Lua de Papel. Este livro de um realizador norte-americano de documentários científicos conta-nos como temos dentro de nós quer partículas do Big Bang quer átomos cozinhadios nas estrelas. Somos essencialmente água e, na molécula de água, o hidrogénio veio do Big Bang e o oxigénio das estrelas. Escrevi o prefácio.
Marçal, David. Como Perder Amigos Rapidamente e Aborrecer Pessoas com Factos e Ciência. Gradiva. O bioquímico e comunicador de ciência que escreve regularmente no Público disseca o mundo de hoje, largamente irracional, numa perspectiva racional, baseada em factos e na ciência, neste livro com um título irónico. No mundo polarizado em que vivemos, é natural que alguns dos seus textos, bem escritos e documentados, sejam polémicos. E escrevi o prefácio.
Osório, Luís. A Última Lição de Manuel Sobrinho Simões. Contraponto. O conhecido jornalista e escritor fez uma longa entrevista a um dos dois cientistas portugueses mais conhecidos, Manuel Sobrinho Simões, médico patologista da Universidade do Porto, especialista em cancro da tiroide e fundador do IPATIMUP.
Reich, David. Quem Somos e Como Chegámos até Aqui. O ADN antigo e os novos avanços científicos acerca do passado. Gradiva. Um especialista norte-americano em genoma antigo conta como a decifração do genoma está a revelar a nossa ancestralidade. As diferenças biológicas entre as populações actuais pode ser compreendida pode ser mais bem compreendida à luz dos mais recentes desenvolvimentos.
Rovelli, Carlo. Há lugares no mundo onde a gentileza é mais importante do que as regras. Objectiva.O físico italiano Rovelli é um dos nomes cimeiros da divulgação da Física. Este livro, que surge na sequência de outros sucessos do mesmo autor, contém um conjunto de crónicas originalmente saídas na imprensa italiana. Na sua diversidade, exibem os dotes de escrita do autor, para além claro do seu conhecimento da ciência e da história e da sua sensibilidade para ligar a ciência à arte.
Tyson, Neil de Grasse e Walker, Lindsay. Para o Infinito e Mais Além. Uma viagem de descoberta cósmica. Gradiva. O norte-americano Tyson, autor de Astrofísica para Gente com Pressa (também na Gradiva), é um dos divulgadores de ciência mais brilhantes da era pós Carl Sagan, com quem aliás se encointrou em jovem. Walker, por sua vez, é uma comunicadora de ciência na área do audiovisual. Juntos fizeram um belo volume ilustrado que nos conduz aos mistérios do cosmos, dos quais os maiores estão bem longe da Terra. A tradução é minha.
Ficaria mal comigo se não juntasse em nota final os meus dois livros deste ano, o primeiro para pré-adultos e adultos e o segundo para os mais pequenos: Toda a Física Divertida, Gradiva, com desenhos de José Bandeira, e, com Luísa Ducla Soares e Daniel Completo, No Mundo dos Porquês. A ciência cantada e contada, Canto das Cores, com desenhos de Cristina Completo.
Muntaka Chasant/Wikimedia CommonsDiante de impactos, mais de 170 países discutem a produção e descarte de materiais plásticos
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigoda autoria de Isabel Seta e edição de Mariama Correia e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
Resíduo mais abundante no oceano, que forma “sopas” de lixo no Pacífico Norte e, até 2050, pode superar, em peso, a quantidade de peixes nos mares, o plástico está em todos os lugares. Chegou a cantos remotos do planeta e polui também o ar. Em suas formas microscópicas, já foi detectado em órgãos humanos e até no sangue e no leite materno.
É um material que leva entre centenas e milhares de anos para se decompor. Assim, a maior parte do plástico que a humanidade já produziu ainda está entre nós. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep), dos mais de 9,2 bilhões de toneladas geradas desde a década de 1950, sete bilhões viraram lixo.
Diante desse cenário, dezenas de países querem chegar a um acordo global inédito para conter a poluição por plásticos. A partir deste dia 25 de novembro, representantes de 175 nações, incluindo o Brasil, estarão reunidos em Busan, na Coreia do Sul, para a quinta e última rodada de negociações.
O objetivo é finalizar um tratado internacional, com poder de lei, que aborde todo o ciclo de vida dos plásticos – da produção e design ao descarte.
Diminuir a quantidade de plásticos de uso único (como copos descartáveis), estabelecer critérios para o design que facilitem a reciclagem, reduzir o uso de substâncias químicas tóxicas e definir recursos para a implementação das medidas são alguns dos assuntos a serem resolvidos.
A principal questão na mesa de negociação é se haverá limites estabelecidos para a produção de plástico, levando a uma redução progressiva, ou se só serão definidas medidas para melhorar o descarte e a gestão dos resíduos.
Por que isso importa?
A cada ano, mais de 430 milhões de toneladas de plástico são produzidas no planeta, mas apenas 9% são reciclados. Para diminuir essa conta, representantes de 175 nações, incluindo o Brasil, se reúnem em Busan, na Coreia do Sul, com o objetivo de assinar um tratado internacional inédito capaz de conter a poluição por plásticos.
A cada ano, produzimos mais de 430 milhões de toneladas – das quais dois terços são produtos de vida curta, rapidamente descartados. A perspectiva é que a produção triplique até 2060. Hoje, apenas 9% do plástico é reciclado, conforme a OCDE. No Brasil, o material representa 17% de todos os resíduos processados por cooperativas e associações de catadores, segundo a Fundação Heinrich Boll Brasil.
“O foco na reciclagem para solucionar o problema não é o caminho. Temos que reduzir a produção de plástico, porque não conseguimos processar a quantidade de plástico via gestão de resíduos”, diz Ecimara dos Santos Silva, do Comitê Gestor da Aliança Resíduo Zero Brasil.
A produção plástica é um problema também para o clima, já que a imensa maioria das resinas é gerada por meio de combustíveis fósseis. Uma análise do laboratório federal americano Berkeley estimou que, em um cenário conservador de aumento da produção, as emissões de gases do efeito estufa da produção de plásticos primários podem dobrar até 2050, respondendo por 21% a 26% do orçamento mundial de emissões de carbono necessário para conter o aquecimento global em 1,5 ºC.
Reprodução/UNEP
No debate internacional, a Coalizão de Alta Ambição, grupo de 67 países (entre eles Peru, Chile, Reino Unido, França, Ruanda e Nigéria), quer construir um tratado para acabar com a poluição plástica até 2040, reduzindo a produção e estabelecendo medidas de responsabilidade para os produtores.
Já países líderes na geração de resíduos – como Estados Unidos, China e Índia –, além dos grandes produtores de petróleo e gás – caso da Arábia Saudita –, são contra a definição de limites.
Para o Brasil, a implementação de restrições de produção precisaria vir acompanhada de transições justas, inclusive para catadores e outros trabalhadores do ramo, e apoio para a implementação de medidas. O financiamento, como costuma acontecer nesse tipo de acordo, é outro ponto delicado da negociação. Trata-se do dinheiro a ser mobilizado para que os países possam implementar as medidas, como recursos para melhorar a gestão de resíduos em países em desenvolvimento ou para estabelecer medidas de controle e monitoramento do uso de substâncias químicas.
“Um acordo ambicioso na área de plásticos precisa ser igualmente ambicioso nos meios de implementação”, afirmou Maria Angélica Ikeda, diretora do departamento de Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores e chefe da delegação brasileira nas negociações do tratado.
À Agência Pública, já em Busan para o início das reuniões, Ikeda lembrou que o financiamento foi o grande tema das duas últimas conferências da ONU sobre o Clima (a COP29), realizada nas últimas semanas no Azerbaijão, e sobre a conferência da Biodiversidade, que ocorreu na Colômbia no final de outubro. Na COP29, os países concordaram em 300 bilhões de dólares anuais para enfrentar a mudança do clima, muito aquém da meta de1,3 trilhão, como pleiteado pelos países em desenvolvimento. Já na COP da Biodiversidade, a impossibilidade de chegar a um acordo sobre financiamento postergou as discussões para uma rodada adicional no ano que vem.
“Esse tema [do financiamento] é muito importante. E, no caso dos plásticos principalmente, porque os países em desenvolvimento nem têm ainda as legislações e políticas necessárias para implementar o acordo. Há uma grande lacuna institucional e legal para os países em desenvolvimento e isso precisa ser apoiado pelos meios de implementação”, disse Ikeda.
Os países discutem também o banimento ou a diminuição progressiva do uso de substâncias químicas tóxicas em plásticos, associadas a riscos reprodutivos, de câncer, entre outros problemas para a saúde.
Um grande levantamento, publicado neste ano, apontou para a existência de 16 mil químicos em plásticos, 4,2 mil deles “altamente perigosos” para a saúde humana e para o meio ambiente – menos de mil deles, no entanto, são regulamentados pelas agências de controle ao redor do mundo.
O problema é que nem todos os países dizem ter condições ou estruturas administrativas para acabar com o uso dessas substâncias da mesma forma. A ideia então, apresentada pelo presidente do comitê internacional estabelecido para negociar o tratado, é formar listas iniciais com produtos a serem controlados, possivelmente com algumas exceções, além de critérios para que os países possam identificar outros produtos plásticos e químicos de preocupação.
O trio formado por Noruega, Ilhas Cook e Ruanda elaborou uma sugestão inicial de duas listas, uma de substâncias a serem banidas e outra daquelas a serem evitadas ou minimizadas. São mais de 1,3 mil – entre bisfenóis [composto usado para fazer resinas epóxi], retardantes de chamas, plastificantes e ftalatos [substâncias que deixam o plástico mais maleável e são tidas como cancerígenas]. Destas, pouco mais de 50 são regulamentadas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como mostra um cruzamento feito pelo órgão. A partir de decisões do Mercosul, o Brasil trabalha com “listas positivas”, que determinam limites e condições para que substâncias sejam consideradas seguras para entrar em contato com alimentos.
Outra questão é como conter o proliferamento de micros e nanoplásticos – partículas minúsculas que vão se soltando dos plásticos conforme o uso e até na reciclagem. Segundo uma coalizão de cientistas independentes, elas respondem por cerca de um quarto da poluição atual e não podem ser removidas do ambiente. Por isso, defendem uma abordagem que diminua a geração dessas partículas durante todo o ciclo de vida dos produtos.
São tantos problemas que o acordo precisa resolver que algumas organizações já defendem que nem todas as decisões sejam tomadas por consenso entre os países, como de praxe em tratados internacionais.
“Um tratado com medidas vinculativas apoiadas pela maioria dos governos será muito mais eficaz do que um tratado voluntário apoiado por todos os governos”, afirmou Eirik Lindebjerg, chefe da delegação da organização sem fins lucrativos WWF (Fundo Mundial da Natureza, na sigla em inglês).
Resta, ainda, a preocupação de que o lobby da indústria do petróleo e do gás atrapalhe as negociações. Na rodada anterior, um levantamento do Centro para Direito Ambiental Internacional (CIEL) mostrou que os 195 lobistas da indústria petroleira e química superaram toda a delegação da União Europeia, com 180 integrantes. O número foi, ainda, sete vezes maior que o de representantes de povos indígenas e cinco vezes o de cientistas independentes.
MegiasD/Envato ElementsJovens enfrentam adversidades que podem afetar a sua saúde mental e emocional.
Investigação realizada no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) explorou os fatores que protegem o bem-estar psicológico de adolescentes em acolhimento residencial. Os dados obtidos podem contribuir para melhorar as estratégias de intervenção neste contexto, informando a prática e as políticas referentes ao acolhimento residencial.
O objetivo desta investigação foi “identificar as perspetivas de adolescentes em acolhimento residencial sobre o conceito de resiliência, bem como sobre fatores que contribuem para o seu bem-estar psicológico”, explica a investigadora Micaela Pinheiro, doutoranda em Psicologia no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa. De acordo com a investigadora, jovens em acolhimento residencial enfrentam, muitas vezes, adversidades que podem afetar a sua saúde mental e emocional, como o estigma social, relações familiares disruptivas ou de negligência e, ainda, situações de trauma e abuso. Apesar disso, alguns e algumas jovens apresentam resultados adaptativos de saúde mental. Portanto, importava perceber, acrescenta a investigadora, “que fatores contribuem para o bem-estar psicológico destes/as adolescentes?”
Para responder a esta questão, a equipa de investigação, que inclui as investigadoras do CIS-Iscte Eunice Magalhães e Joana Baptista, entrevistou 19 jovens de três casas de acolhimento portuguesas. De acordo com os dados obtidos, a maioria dos/as jovens desconhecia o conceito de resiliência e os/as que o conheciam, tiveram dificuldades em defini-lo. Através da análise do conteúdo das entrevistas, foi ainda possível identificar diversos fatores que estes e estas adolescentes consideraram importantes para a sua resiliência.
“O suporte social, dos pares e do staff da casa de acolhimento, foi um dos fatores mais mencionado pelos jovens entrevistados”, afirma Eunice Magalhães. “A maioria dos adolescentes salientou, aliás, a importância do apoio emocional”, acrescenta. Ainda no contexto da casa de acolhimento, o apoio financeiro como promotor de autonomia, a abertura para o envolvimento da família e a estabilidade foram também identificados como importantes. Para além disso, foram identificados fatores externos à casa de acolhimento, como a participação em atividades extracurriculares, que parecem fomentar sensações de empoderamento e segurança e, mais uma vez, o suporte social, nomeadamente, da família; mas também fatores individuais relacionados com os próprios jovens, como as estratégias de "coping" (os processos cognitivos utilizados pelas pessoas para lidar com situações de stress e gerir problemas no dia-a-dia), as competências de regulação emocional e o otimismo. Contudo, a equipa de investigação alerta para as limitações do estudo, realizado a partir de uma amostra de conveniência numa única cidade e que, por isso, não permite uma generalização para a diversidade de contextos a nível nacional.
A investigadora Joana Baptista fala sobre o potencial impacto desta investigação: “Estes dados salientam a importância do envolvimento da família e dos cuidados individualizados, o que pode orientar as intervenções nestes contextos e contribuir, em última análise, para um maior bem-estar psicológico nestes jovens”. No artigo, a equipa de investigação deixa quatro prioridades de intervenção bem claras para a promoção da resiliência destes/as adolescentes:
Garantir contacto familiar de qualidade para apoiar a resiliência dos/as adolescentes e facilitar processos de reunificação bem-sucedidos;
Melhorar a qualidade da relação entre jovem e o staff em acolhimento residencial, assegurando formação adequada para a prestação de suporte emocional, instrumental e financeiro;
Envolver a comunidade escolar e os seus recursos (e.g., professores)
As características individuais dos adolescentes como a auto-regulação e as estratégias de "coping" devem ser consideradas no âmbito das intervenções em acolhimento residencial.
“Esperamos, com estas recomendações, poder informar não só a prática direta nos contextos de acolhimento residencial, mas também as políticas do próprio sistema de acolhimento”, conclui a investigadora Micaela Pinheiro. Este estudo foi realizado no âmbito do seu projeto de doutoramento, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (Ref. 2021.06556.BD).
MargJohnsonVA/Envato ElementsA capacidade de modelar e prever estruturas proteicas permitirá novas abordagens na pesquisa médica.
O Prémio Nobel da Química de 2024 foi concedido a três cientistas cujas inovações transformaram o campo da biologia molecular e expandiram os horizontes da pesquisa sobre as proteínas, elementos essenciais para a vida. David Baker, Demis Hassabis e John Jumper foram laureados pelas suas contribuições significativas ao entendimento, criação e previsão das estruturas proteicas.
As proteínas são conhecidas como as ferramentas químicas da vida, controlando e conduzindo reações bioquímicas que sustentam todos os organismos vivos. Elas atuam como hormonas, anticorpos e blocos de construção dos tecidos do corpo.
David Baker destacou-se ao projetar proteínas completamente novas, utilizando aminoácidos para criar estruturas que não existem na natureza. A sua pesquisa, iniciada em 2003, resultou em novas proteínas aplicáveis em produtos farmacêuticos, vacinas, nanomateriais e sensores biológicos.
Demis Hassabis e John Jumper foram reconhecidos pelo desenvolvimento do AlphaFold2, um modelo de inteligência artificial que resolveu o enigma da previsão precisa das estruturas tridimensionais das proteínas a partir de suas sequências de aminoácidos. Este marco de 2020 abriu inúmeras possibilidades científicas, desde o combate à resistência aos antibióticos até a criação de enzimas para decompor plásticos. AlphaFold2 já foi adotado por mais de dois milhões de investigadores globalmente.
Heiner Linke, presidente do Comité do Nobel de Química, realçou que essas descobertas têm um impacto profundo: “Uma delas diz respeito à construção de proteínas espetaculares. A outra realizou um sonho de 50 anos: prever estruturas proteicas a partir das suas sequências de aminoácidos.”
Com este contexto, a interseção entre a Inteligência Artificial e os avanços em biologia molecular reflete uma revolução no campo da química. A capacidade de modelar e prever estruturas proteicas permitirá novas abordagens na pesquisa médica, criando oportunidades inexploradas para o desenvolvimento de tratamentos inovadores e soluções para desafios globais, como a poluição plástica.
A verdadeira revolução científica está em andamento, e a combinação de IA e química promete não apenas acelerar a pesquisa, mas também ampliar nosso entendimento sobre a vida molecular.
Estes prémios Nobel não são apenas uma celebração de conquistas passadas; eles representam uma promessa para o futuro da ciência e da saúde.
Será mais uma viagem para as personagens criadas por Goscinny e Uderzo: Astérix e Obélix têm um novo livro de banda desenhada previsto para 2025. A Les Édtions Albert René, editora original da coleção, divulgou a data na manhã desta segunda-feira.
Num comunicado de imprensa, a editora francesa garantiu que o novo livro, ainda sem título definido, contará com Fabcaro no argumento pela segunda vez, mantendo a parceria com Didier Conrad e prometendo "gargalhadas e peripécias", além de "grandes encontros e descobertas gastronómicas": "Os nossos dois comparsas não vão ficar tranquilamente na aldeia, a gozar o brilho dos seus bigodes, e tencionam ir ver se o sol brilha noutro lugar", indica a editora. Esta, contudo, não é a primeira vez que os dois amigos gauleses partem em viagem, tendo outros livros já saído das fronteiras da Gália como em "Astérix e Cleopátra" ou em "Astérix entre os Bretões": "Astérix e Obélix são verdadeiros viajantes da antiguidade, tendo percorrido toda a Gália, sem parar em nenhuma fronteira", acrescenta a editora.
O novo livro será lançado a 23 de outubro de 2025, mas a editora já lançou uma página terminada do novo livro.
Les Éditions Albert René/Divulgação
Também haverá série na Netflix
O lançamento do novo livro em 2025 coincidirá com um ano em que haverá uma exposição na Suíça sobre o irredutível gaulês. Mas o grande destaque é mesmo o lançamento da série de animação "Astérix e Obélix - O Combate dos Chefes" na Netflix.
A série chegará à plataforma de streaming na primavera de 2025 e é uma "criação original" para a gigante, estreando em simultâneo em 190 países e dobragem em 39 idiomas: "Esta série, ansiosamente aguardada pelos fãs gauleses e não só, será também uma oportunidade para elevar ainda mais a visibilidade da pequena Gália na cena internacional", acrescenta a editora.
As histórias de Astérix surgiram em 1959 na revista francesa "Pilote", sendo primeiro livro publicado em 1961. Atualmente, é publicado em 83 idiomas, incluindo o português e o mirandês.
CreativeNature_nl/Envato ElementsO trabalho surge para dar ênfase a uma linha de investigação sobre a qual existem poucos estudos publicados.
O investigador da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Fábio Figueiras, acaba de publicar, na prestigiada revista Applied Materials Today, um artigo de revisão que mostra o potencial dos materiais ferroelétricos para utilização nas tecnologias solares da próxima geração.
Estes materiais, como por exemplo, as manganites de lutécio, foram caracterizados e estudados nos laboratórios do Instituto de Física de Materiais Avançados, Nanotecnologia e Fotónica (IFIMUP) na FCUP e os investigadores verificaram que há uma série de características promissoras que os colocam como candidatos à utilização em células solares no futuro.
“A revisão investiga o efeito fotovoltaico “maciço” (BPVE), uma propriedade fascinante dos materiais ferroelétricos que potencialmente permitem ultrapassar os limites de eficiência das células solares convencionais à base de silício. Com efeito, ao contrário dos semicondutores, os os materiais ferroelétricos aguentam grandes diferenças de potencial e não precisam de junções p-n, pelo que possibilita alcançar outros patamares de eficiência energética”, explica o investigador do IFIMUP.
O trabalho agora publicado surge para dar ênfase a uma linha de investigação pouco explorada e sobre a qual existem poucos estudos publicados.
No artigo, Fábio Figueiras descreve, de forma abrangente, as “propriedades excecionais dos ferroelétricos que abrem novas possibilidades empolgantes para as tecnologias solares de próxima geração”. O investigador está a coorientar o trabalho de doutoramento de Abderrazzak Ait Bassou, do Centro de Química – Vila Real da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em conjunto com os professores Pedro Bandeira Tavares e José Ramiro Afonso Fernandes.
O artigo de revisão apresenta um importante contributo para a comunidade científica, ao explorar os mecanismos por detrás do BPVE, analisar a síntese e modificações de óxidos ferroelétricos de baixo band-gap e também a apresentar os desafios que se seguem para aprimorar estes materiais de forma a poderem ser aplicados na prática, por exemplo, em células solares.
Próximos passos
“São materiais óxidos “desenhados” com propriedades ferroelétricas e hiato de banda baixo inócuos e inertes, ao contrário, das perovskitas híbridas orgânicas/inorgânicas, atualmente exploradas para as células solares, aguentam temperaturas muito elevadas na ordem dos 700 graus sem perder as propriedades.”, detalha Fábio Figueiras.
“Estamos já a trabalhar na publicação de mais um artigo, pois conseguimos fazer filmes finos de manganites de lutécio e já os testamos: estamos em condições de provar que funciona e que dará resultados”, acrescenta o investigador.
O próximo passo da equipa será integrar estes materiais em protótipos de células solares para serem testados.
O trabalho “Photo-ferroelectric oxides for photovoltaic applications: Insights, challenges and opportunities” representa mais uma contribuição a juntar aos esforços contínuos no desenvolvimento de soluções de energia solar altamente eficientes.
A investigação que deu origem a esta publicação já decorre há cerca de quatro anos, numa proposta e projeto liderados pelo investigador da FCUP, Fábio Figueiras.
idealistaOs dois portais vão manter as suas operações independentes
O portal imobiliário idealista comprou o portal concorrente britânico Kyero, anunciaram as duas plataformas esta quinta-feira.
Numa nota enviada à imprensa, o idealista diz que a compra, por um valor não divulgado, insere-se numa "estratégia de crescimento do idealista e com o seu compromisso em expandir a sua presença tecnológica no mercado internacional, com o objetivo de proporcionar a melhor experiência possível aos compradores internacionais".
O portal, que atua no mercado português, espanhol e italiano, considera que a nova parceria dará frutos: "Estou convicto de que o futuro de ambas as empresas, ao trabalharem em conjunto, trará melhores resultados, uma excelente experiência aos utilizadores e novas oportunidades de negócio para todos os nossos clientes", frisa o fundador e CEO do idealista Jesús Encinar. Já para os fundadores do Kyero Louise e Martin Dell, "Esta parceria é uma grande oportunidade para nós e para a nossa equipa".
Fundado em 2003 no Reino Unido, o Kyero integra uma equipa de 33 pessoas e tem uma carteira de mais de 7 mil agentes e imobiliárias. Contudo, a aquisição não vai impactar o funcionamento do portal britânico, que manterá as suas operações e compromissos independentes da operação do idealista: "Os fundadores da Kyero vão continuar a liderar a Kyero após a conclusão da aquisição e vão integrar a equipa de administração do idealista, contribuindo com a sua experiência para as operações do idealista em todos os mercados em que está presente", reforça.
A compra está apenas pendente de autorizações regulatórias.
Recorde-se que 70% das ações do idealista foram adquiridas no passado mês de junho pelo fundo britânico Cinven por um valor de 2 900 milhões de euros, sendo que o negócio acabou por ser aprovado pela Comissão Europeia no passado mês de outubro. O portal imobiliário é um dos mais visitados em Portugal e Espanha, com mais de 38 milhões de visitantes mensais no sul da Europa.
Altice PortugalPlataforma pretende dar uma experiência "mais personalizada e intuitiva".
O MEO tem uma nova página na internet. A marca para o mercado residencial e empresarial da Altice Portugal(também detentora do SAPO) introduziu várias funcionalidades que garantem uma personalização para cada cliente.
Numa nota enviada às redações esta quinta-feira, a Altice Portugal refere que "a nova plataforma eleva os padrões de qualidade de serviço e reforça o compromisso com uma experiência do cliente diferenciada", utilizando "tecnologias avançadas" e "inteligência artificial (IA) generativa (Gen AI)".
O website da operadora foi redesenhado para oferecer "links rápidos, promoções personalizadas e conteúdos adaptados aos interesses de cada utilizador, sejam novos clientes ou já registados", alémdo sistema de pesquisa ter recebido "melhorias significativas", do site ter uma versão em em inglês, através de tradução automática por IA, e acessibilidades para utilizadores com necessidades especiais. O chatbot do portal foi também alvo de intervenção, integrando IA e "permitindo respostas mais naturais, precisas e contextualizadas. Esta evolução melhora a eficiência no atendimento, fortalecendo a relação entre a marca e o cliente", acrescenta.
O lançamento do novo site insere-se num objetivo de construir um "futuro digital mais inclusivo e disruptivo": "O MEO reafirma a sua posição de liderança tecnológica, investindo na melhoria contínua da sua presença digital", refere a operadora, acrescentando que o site "é uma experiência que combina design disruptivo, qualidade de serviço e foco na experiência do cliente".
BOOMFIT/DivulgaçãoMarca de fitness quer ser "uma voz ativa na promoção de estilos de vida saudáveis"
Não está associado a nenhuma ocasião especial, mas a BOOMFIT decidiu lançar um novo vídeo: a campanha "Autodefesa não é violência" já está disponível online.
"A autodefesa não é sobre força: é sobre estratégia, inteligência e preparação", considera o CEO da BOOMFIT Vítor Brandão, que esclarece que a campanha tem como objetivo "reforçar a importância da Autodefesa", algo que "é sempre atual e necessário”.
O vídeo retrata "uma jovem que, ao longo da sua vida, enfrenta situações de risco": "Os episódios de risco podem surgir sem aviso e estar prevenido é, muitas vezes, a nossa melhor resposta", considera Brandão", que acrescenta que a autodefesa é um conjunto de "ferramentas para protegeres a tua integridade sem necessidade de agredir ou criar conflitos desnecessários".
A campanha insere-se na estratégia de ser "uma voz ativa na promoção de estilos de vida saudáveis", algo já seguido noutros vídeos institucionais já criados pela marca dedicados aos Bombeiros, à Mulher ou do Dia de São Valentim: "Acreditamos que estar dotado de ferramentas para agir com inteligência e confiança é essencial para enfrentarmos os desafios do dia a dia com segurança e serenidade", diz o CEO.
O vídeo está disponível nas redes sociais da marca.
José Goulão/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)Ex-primeiro-ministro enviou carta ao órgão judicial
O Conselho Superior de Magistratura (CSM) colocou-se "publicamente ao serviço do jornal Observador". A acusação é do ex-primeiro-ministro português José Sócrates, numa carta que enviou ao presidente daquele órgão judicial.
Segundo noticia o próprio jornal digital Observador, a missiva vem na sequência de de uma notícia publicada esta terça-feira no órgão de comunicação social, em que é referido que o CSM vai criar um grupo de trabalho para acompanhar o processo "Operação Marquês".
A notícia não foi bem recebida do lado do antigo primeiro-ministro e líder do Partido Socialista, com este a questionar o "fundamento" de tal decisão e qual seria a "missão" do grupo de trabalho, algo que não aconteceu noutros processos, e exigindo uma resposta do próprio presidente: "Este é o meu direito que, pelos vistos, foi esquecido — o de ser informado das deliberações do Conselho que me dizem respeito", cita o jornal digital.
Sócrates vai mais longe e diz mesmo que o Conselho de se colocar "publicamente ao serviço do jornal Observador", não tendo já "qualquer preocupação de disfarce": "Chegámos portanto a este ponto — o Conselho não informa os interessados, informa o Observador".
"O jornalismo divulgou, o jornalismo justificou, o jornalismo branqueou" - José Sócrates
Esta não foi, contudo, a primeira vez que José Sócrates se referiu à imprensa. Numa crónica publicada no Diário de Notícias no passado dia 21 de novembro, o ex-primeiro-ministro dizia estar a ser alvo de uma "guerra de extermínio" há "10 anos": "A operação de lawfare segue à risca os procedimentos: manipularam a escolha do juiz, fabricaram acusações falsas e estapafúrdias, incumpriram todos os prazos e violaram o segredo de justiça, por forma a alimentar o jornalismo e fazer dele o seu principal aliado".
Na crónica, que passa em revista os dez anos do processo "Operação Marquês", o ex-político diz que não teve "presunção de inocência, nem direito de defesa, nem igualdade de armas" e que o jornalismo não deu voz a essa injustiça: "Para o jornalismo português há sempre um qualquer fim social que justifica a selvajaria do Estado e a quebra das mais elementares garantias individuais. Para o jornalismo, o Estado nunca demora, só a defesa, só o advogado , só o cidadão tem interesse no atraso", acrescenta.
E vai mais longe: "O adiamento dos prazos de inquérito, o adiamento dos prazos de instrução, o incumprimento de qualquer tipo de prazo pelo Estado é visto, pelo jornalismo, como a procura da “verdade material” ou como resposta à chamada “dificuldade em provar”, ou ainda como forma de ultrapassar a costumeira “falta de meios”", frisa, acrescentando que o facto do Ministério Público ter "decidido apagar" [sic] o artigo relacionado com os prazos de inquérito do Código de Processo Penal é uma "ameaça à separação de poderes". "No entretanto, o jornalismo cumpriu o seu papel. O jornalismo divulgou, o jornalismo justificou, o jornalismo branqueou - manobras dilatórias são as dos advogados, não existem manobras dilatórias do Estado", frisa.
José Sócrates foi acusado há dez anos de vários crimes de branqueamento de capitais e falsificação de documentos. O ex-primeiro-ministro é apenas um dos vários arguidos do processo "Operação Marquês".
CIS-Iscte"Jovens universitários enfrentam desafios que podem afetar a sua saúde mental", diz investigadora.
Um estudo realizado no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa testou a eficácia de um workshop de arte-terapia em grupo desenvolvido para promover o bem-estar de estudantes na universidade. Os resultados indicaram um aumento do bem-estar subjetivo, caracterizado por emoções positivas (com destaque para gratidão, inspiração e relaxamento), satisfação com a vida e a redução de sentimentos negativos.
“Os jovens universitários e as jovens universitárias enfrentam desafios únicos que podem afetar a sua saúde mental” – quem o afirma é a psicóloga e investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) Patrícia Arriaga, primeira autora deste estudo. Considerando fatores como a pressão para o bom desempenho académico, mas também sentimentos de solidão, que podem causar ansiedade e sintomas depressivos, “a promoção da saúde mental em estudantes universitários é essencial para o sucesso académico e social, e também para prevenir o desenvolvimento ou o agravamento de perturbações psicológicas”, afirma Patrícia Arriaga.
Uma das formas de promover o bem-estar que tem recebido atenção na investigação é a arte-terapia. Neste sentido, em colaboração com o CIS-Iscte, o Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (CIES-Iscte) e arte terapeutas da Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT), foi desenvolvido um Workshop de arte-terapia para realizar em contexto de grupo dirigido a estudantes universitários e avaliado o seu impacto em 89 estudantes que aderiram à iniciativa. Em workshops de três horas, realizados por arte-terapeutas certificadas, os/as participantes exploraram diversos recursos artísticos, como som e música, imagética guiada, artes visuais, e ainda escrita criativa e encenação dramática. Para avaliar o impacto destas sessões, foi pedido a estudantes que preenchessem questionários acerca de bem-estar, estados de ansiedade e solidão, e autoconsciência antes e após o workshop. Tendo o workshop sido desenvolvido para realizar em grupo, foi ainda avaliada a perceção de coesão no grupo, em termos de sentimentos de ligação, união e sincronismo entre os/as estudantes em cada grupo. Duas a três semanas após o workshop foi avaliada novamente a solidão e a satisfação com a vida.
“De uma forma geral, após o workshop, houve um aumento significativo do bem-estar subjetivo relatado pelas pessoas participantes”, afirma a investigadora Sibila Marques (CIS-Iscte). Estes resultados foram ainda acompanhados pela redução de estados de ansiedade, sugerindo que o envolvimento nas atividades ajudou a reduzir sensações imediatas de stress e tensão. A investigadora e arte-terapeuta Raquel Freitas (CIES-Iscte, SPAT) acrescenta que “o workshop facilitou o aumento da consciência dos próprios pensamentos e sentimentos, mas também acerca do ambiente circundante e reduziu preocupações com julgamentos sociais”. Para além disso, foi registada uma redução temporária dos sentimentos de solidão, que as autoras do estudo atribuem às ligações interpessoais proporcionadas durante a atividade de grupo, atendendo ainda à elevada coesão de grupo que foi expressa pelo/as estudantes.
Porém, de acordo com a equipa de investigação, duas a três semanas após o workshop, as perceções de satisfação com a vida e de solidão regrediram aos níveis reportados antes do workshop, indicando a ausência de um efeito duradouro. “Apesar de os/as participantes terem avaliado positivamente a sua experiência e a coesão no grupo facilitada pelas terapeutas, uma única intervenção é insuficiente para o desenvolvimento pleno dos grupos e para gerar efeitos duradouros. Ainda assim, os resultados temporários positivos no bem-estar e o interesse manifestado em continuar as atividades são indicativos da relevância de prosseguir com estas intervenções em estudantes universitários”, conclui a investigadora Patrícia Arriaga. A investigadora salientou ainda a necessidade de maior investimento na saúde mental neste contexto, acompanhado de investigação que analise a eficácia destas intervenções e produzir recomendações baseadas em evidências.
Numa época em que a preocupação com a saúde mental ganha ênfase na nossa sociedade, com diferentes estratégias a serem adotadas – como é o caso dos cheques-psicólogos para estudantes universitários/as distribuídos pelo Governo – o recurso a intervenções através da arte-terpia pode ser uma das vias de promoção de bem-estar. A equipa de investigação é composta por Patrícia Arriaga, Madga P. Simões, Sibila Marques, Raquel Freitas, Helena D. Pinto, Maria Paula Prior, Sílvia Candeias e Margarida Rodrigues. O trabalho foi publicado na revista The Arts in Psychotherapy e inclui material suplementar a especificar e explicar os objetivos de cada atividade realizada no Workshop, permitido a sua replicabilidade.
The Presidential Press and Information Office of Azerbaijan/Wikimedia CommonsAPública falou com ativista Nargiz Mukhtarova: o seu marido foi levado com um saco na cabeça pela polícia
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Isabel Seta e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
“É uma boa oportunidade para as autoridades encobrirem esses problemas de liberdade de expressão e liberdades políticas.” Foi assim que a jornalista Leyla Mustafayeva definiu a 29ª Conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP29), que começou na nesta segunda-feira (11 de outubro) para o governo do Azerbaijão.
Enquanto diplomatas e organizações ambientalistas veem o evento como a data mais importante do calendário global sobre o clima, para a mídia independente e ativistas do Azerbaijão, a COP29 é um problema.
Mustafayeva se referia à onda de prisões de jornalistas, ativistas, pesquisadores e lideranças políticas no país, já denunciadas como arbitrárias pela organização internacional Human Rights Watch (HRW) e condenadas, no final de outubro, pelo Parlamento Europeu.
“É como se esses problemas não existissem e como se o Azerbaijão fosse muito aberto a resolver as questões ambientais e climáticas. Eles [as autoridades do governo] estão se escondendo e escondendo suas atividades ilegais com a Conferência do Clima”, disse a jornalista em setembro, ao receber um prêmio em nome da Abzas Media, organização que ela dirige do exílio, em Berlim, por seu trabalho pela liberdade de imprensa.
Desde o ano passado, pelo menos 15 jornalistas já foram presos no país e podem ser condenados a longas sentenças, segundo o Comitê para Proteção dos Jornalistas (CPJ). Muitos deles trabalhavam para a Abzas Media, que também enfrenta acusações criminais. Além deles, vários defensores de direitos humanos e ativistas políticos foram encarcerados. Em setembro, Mustafayeva falou em um total de mais de 300 presos políticos.
Por que isso importa?
O governo do Azerbaijão, país que sedia a 29ª Conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP), está sendo acusado de prender ilegalmente ativistas, pesquisadores e jornalistas que criticam a relação do estado com combustíveis fosseis.
“Os detidos arbitrariamente incluem um ativista anticorrupção crítico do setor de petróleo e gás do país e um defensor dos direitos humanos que cofundou uma iniciativa para advogar liberdades cívicas e justiça ambiental no Azerbaijão antes da COP29”, afirmou a Human Rights Watch.
Segundo organizações de direitos humanos, as autoridades do país têm um longo histórico de retaliação contra críticos do governo, comandado há 21 anos pelo presidente Ilham Aliyev – em 2003, ele sucedeu o pai, que presidiu o Azerbaijão por uma década.
Agora, essas organizações denunciam uma nova onda de detenções mal fundamentadas antes da COP29. “A repressão e o ambiente legal altamente restritivo para as operações de organizações sociais independentes ameaçam erradicar todas as formas de dissenso e o trabalho legítimo de direitos humanos”, afirmaram mais de 20 organizações em um comunicado emitido em setembro.
Em uma resolução aprovada em outubro, o Parlamento Europeu declarou que os abusos contra os direitos humanos no país são incompatíveis com a realização da conferência sobre o clima.
The Presidential Press and Information Office of Azerbaijan/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)
A crítica à onda de repressão se soma às preocupações ambientais com a realização do evento em um país altamente dependente de petróleo, que, junto com o gás natural, respondem por mais de 90% das exportações do Azerbaijão. O país, localizado nas montanhas do Cáucaso, é o 11º maior exportador de combustíveis fósseis do mundo (atrás do Brasil, que é o nono).
Segundo uma pesquisa da organização sem fins lucrativos Oil Change International, a estimativa é que a produção azerbaijana de gás e petróleo aumente 14% até 2035 – apesar de o país ter se comprometido a reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 35% nos próximos seis anos na comparação com 1990.
Em abril, o presidente chegou a dizer que o petróleo é um “presente dos deuses” e que defendia o direito do seu e de outros países de continuarem investindo na produção de combustíveis fósseis.
Economista preso criticava a dependência das energias fósseis
Entre as detenções denunciadas está a do economista Farid Mehralizada, conhecido por analisar indicadores econômicos do governo em canais da TV e colaborar como pesquisador para a organização europeia Radio Liberty. O economista publicava textos sobre temas como o impacto da pandemia na educação nacional, as reformas econômicas do governo, a migração interna e as privatizações.
Mehralizada falava abertamente sobre o problema econômico representado pelo setor petroleiro e sobre o desperdício de água nos sistemas de irrigação do país, castigado por secas severas.
“Eu acredito que a detenção dele foi motivada por vários fatores, um deles é a crítica pública que ele fazia sobre as políticas econômicas do Azerbaijão. Ele sempre alertou que a forte dependência de combustíveis fósseis representa sérios riscos para as pessoas e para o meio ambiente”, afirmou a esposa dele, Nargiz Mukhtarova.
O Comitê para Proteção dos Jornalistas e a Radio Liberty já se manifestaram pedindo a soltura do economista.
Acervo pessoal
Em entrevista exclusiva à Agência Pública, Mukhtarova, que atua como ativista e pesquisadora dos direitos das mulheres no país, falou sobre a prisão do marido, o histórico de repressão no Azerbaijão e os impactos socioambientais do modelo econômico baseado em combustíveis fósseis.
A Pública questionou o governo do Azerbaijão sobre as detenções. A embaixada do país ainda não respondeu à reportagem – o texto será atualizado caso haja posicionamento. Em resposta à imprensa dos Estados Unidos, a embaixada azerbaijana em Washington contestou o relatório da Human Rights Watch e afirmou que todos os casos estão sendo analisados de forma apropriada. Disse, ainda, que o país é vítima de uma “campanha orquestrada de desinformação”.
Agência Pública: Você escreveu um artigo sobre a prisão do seu marido, em maio. Pode contar o que aconteceu naquele dia e desde então?
Nargiz Mukhtarova: No dia 30 de maio, meu marido, Farid, foi violentamente detido no centro de Baku [capital do país] por policiais à paisana. Eles colocaram um saco na cabeça dele e, mais tarde naquele dia, um grupo de policiais fez uma busca no nosso apartamento, confiscando o equipamento dele. Farid foi levado para o principal departamento de polícia da cidade, onde foi interrogado por dois dias antes de o tribunal sentenciá-lo a quatro meses de prisão preventiva. Ele foi acusado de contrabando, em conexão com o caso da Abzas Media, mas não apresentaram evidências para essa acusação [a Abzas Media já declarou que Farid não tinha qualquer conexão com a organização]. Farid me contou, depois, que a prisão foi violenta, com ameaças e intimidações. Na época, eu estava grávida de cinco meses, e o estresse daquele dia foi insuportável. Desde então, a prisão dele foi estendida para seis meses, e nossas vidas mudaram totalmente. Nós tivemos nossa filha durante esse período, mas Farid ainda não teve a chance de conhecê-la, perdendo esses primeiros meses preciosos da vida dela. Em agosto de 2024, adicionaram mais acusações, incluindo empreendimento ilegal, evasão fiscal, falsificação de documentos, o que estendeu a prisão até dezembro.
Acervo pessoal
Agência Pública: Você já falou sobre o trabalho crítico do Farid e os comentários públicos dele sobre a dependência do Azerbaijão de combustíveis fósseis. Você acredita que isso estaria por trás da prisão dele?
Nargiz Mukhtarova: Eu acredito que a detenção dele foi motivada por vários fatores, um deles é a crítica pública que ele fazia sobre as políticas econômicas do Azerbaijão. Ele sempre alertou que a forte dependência de combustíveis fósseis representa sérios riscos para as pessoas e para o meio ambiente. Farid dizia que essa abordagem é insustentável, não só porque contribui para a degradação ambiental, mas porque torna a população mais vulnerável à pobreza. Ele falava das secas crescentes impactando a nossa região, enfatizando como elas ameaçam a agricultura, reduzem a produtividade, aumentam a insegurança alimentar. As críticas dele questionam os fundamentos da abordagem do governo, fazendo com o que o trabalho dele seja inerentemente arriscado no clima político atual.
Agência Pública: O caso dele não é isolado. Como era a relação do governo com o jornalismo independente e com o ativismo climático e de direitos humanos há alguns anos atrás, antes do Azerbaijão ser anunciado como anfitrião da COP29? E como você vê a influência da conferência nessa relação?
Nargiz Mukhtarova: A restrição de vozes independentes não é nova. Desde 2013, o governo do Azerbaijão mantém uma postura dura contra o jornalismo independente e o ativismo. Ao longo da última década, muitos veículos de comunicação foram forçados a fechar suas redações em Baku, enfrentando ações na Justiça e outras formas de intimidação. A Radio Liberty, organização com a qual o Farid colabora, agora opera no exílio. Jornalistas e ativistas que falam de questões críticas – principalmente aquelas relacionadas a preocupações ambientais ou direitos humanos – são muito pressionados. O caso do Farid é emblemático de uma repressão maior contra vozes independentes.
Agência Pública:Você pesquisa direitos das mulheres no Azerbaijão. Eu assisti a uma entrevista sua de quatro anos atrás sobre uma série de feminicídios e abusos contra mulheres no país. Alguma coisa mudou nesses últimos anos? Qual a situação hoje?
Nargiz Mukhtarova: Existe uma dinâmica similar no caso dos direitos das mulheres, e, infelizmente, pouca coisa mudou nos últimos anos. As autoridades no Azerbaijão demonstram pouca preocupação com a segurança das mulheres, e o nosso sistema jurídico não é estruturado para apoiar as vítimas de forma efetiva. Ainda existem lacunas significativas na legislação que deixam as mulheres vulneráveis. Por exemplo, feminicídio não é reconhecido como um crime distinto [diferente de homicídio], as autoridades não reconhecem sua natureza de gênero, o que obscurece a escala e o impacto do problema. Assim, o número de vítimas continua alto, mas medidas de proteção não são implementadas. A falta de ação do governo sobre o assunto reflete um padrão mais amplo de desrespeito aos direitos humanos e à segurança.
Agência Pública: Você escreveu que o Azerbaijão é comumente descrito como um “Estado rentista”. Em que aspectos?
Nargiz Mukhtarova: A dependência estrutural do Azerbaijão de recursos naturais, particularmente petróleo e gás, é um traço distintivo da economia e da governança. A economia do Azerbaijão depende da receita da venda externa de recursos, e não de atividades produtivas dentro do país. Essa dependência molda a economia de várias maneiras. Primeiro, a estabilidade econômica é vulnerável às flutuações nos mercados de energia, já que a maior parte da nossa receita se deve às exportações de petróleo e gás. A diversificação econômica é limitada, o que faz com que o país seja muito suscetível a crises quando os preços desses mercados caem. E há muitas consequências ambientais e sociais desse modelo. A extração de recursos já levou a uma degradação ambiental significativa, incluindo poluição do ar e da água, com impactos negativos para a saúde e agricultura. Ao focar na riqueza dos combustíveis fósseis, o governo tem desviado a atenção de necessidades sociais, como educação, saúde e infraestrutura. É nesse sentido que o Azerbaijão exemplifica as características de um Estado rentista, em que os sistemas político e econômico são moldados principalmente pela riqueza de recursos em vez de pelo crescimento sustentável e inclusivo.
Bruno Girin/Wikimedia Commons
Agência Pública: Os países que vão participar da COP29 se manifestaram pouco sobre a repressão no Azerbaijão, com exceção do Parlamento Europeu, que aprovou uma resolução em outubro condenando as violações de direitos humanos. É o suficiente?
Nargiz Mukhtarova: Só isso não é o suficiente. A comunidade internacional precisa fazer mais para garantir que os direitos humanos sejam priorizados junto com os objetivos ambientais. Direitos humanos não são apenas uma questão periférica – eles são fundamentais para alcançarmos uma resposta significativa e justa para a crise climática. Esforços internacionais mais fortes e coordenados são necessários para tornar esse alinhamento uma realidade, principalmente com o Azerbaijão sediando a COP29.