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26 fevereiro 2025

Cientistas desenvolvem filmes de nanocelulose para conservação e restauro de documentos históricos

Universidade de Coimbra
Películas oferecem vantagens significativas em comparação aos materiais convencionais.

Uma equipa de investigadores do Departamento de Engenharia Química (DEQ) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) está a desenvolver biofilmes de nanocelulose, com o objetivo de criar soluções eficazes e sustentáveis para a conservação e restauro de documentos históricos em papel.

Estes filmes, feitos de materiais renováveis, são semelhantes à película aderente de cozinha, mas mais resistentes, apresentando-se como uma alternativa inovadora aos métodos tradicionais, como o uso de papel japonês, amplamente utilizado nesta área.

«Durante séculos, a tinta ferrogálica foi bastante usada em manuscritos devido à sua nitidez e permanência. No entanto, certas características químicas que possui, como acidez e o elevado teor de ferro, causam, com o tempo, degradação no papel, resultando em fissuras, perda de resistência e até formação de furos no documento, para além do desvanecimento da própria tinta resultando em perda de legibilidade», explica José Gamelas, investigador do Centro de Engenharia Química e Recursos Renováveis para a Sustentabilidade (CERES).

De acordo com o líder do projeto “NANOCELIRONGAL – Nanocellulose films for the repair of old documents containing iron gall ink”, os filmes de nanocelulose oferecem vantagens significativas em comparação com os materiais convencionais. Entre as principais caraterísticas destacam-se a elevada resistência mecânica que possuem, garantindo uma maior durabilidade e estabilidade estrutural do papel tratado, a barreira protetora superior, que impede a entrada de oxigénio e humidade, principais causas de degradação, e a transparência, que permite uma aplicação quase impercetível do filme. Para além disso, à semelhança do papel japonês, contribui para práticas de conservação mais verdes.

Durante a investigação, a equipa testou diferentes técnicas de aplicação, incluindo a colagem do filme ao papel com adesivos específicos. «Aplicamos os filmes em papel de trapos (usado para simular papel antigo) escrito com tinta ferrogálica (recriada em laboratório). Posteriormente, são feitos testes de envelhecimento acelerado em condições controladas de temperatura e humidade, entre outras, para avaliar a durabilidade e eficácia dos filmes», conta Ana Marques, membro do projeto.

«Os resultados obtidos são bastante promissores e indicam que os filmes de nanocelulose superam o papel japonês em termos de resistência mecânica e capacidade de proteção, posicionando-se como uma alternativa mais eficaz», afirmam os investigadores.

Em março, José Gamelas irá liderar um novo projeto, financiado pela Comissão Europeia no valor de 2,2 milhões de euros, que dará continuidade à investigação que tem vindo a ser feita nesta área. «Este novo capítulo visa consolidar uma linha de investigação de ponta na criação de materiais bio baseados por abordagens sustentáveis e explorar o seu potencial na conservação de património histórico e cultural», conclui o professor da FCTUC.

25 fevereiro 2025

Extrema direita cresce na Alemanha impulsionada por Elon Musk

vinnikava/Envato Elements
Nas vésperas da eleição, o AfD ganha tração no Parlamento com o apoio do multimilionário da tecnologia.

Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo em inglês da autoria de Matt Fitzpatrick na publicação The Conversation, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

Este artigo foi originalmente publicado a 22 de fevereiro de 2025.

Poucas semanas antes das eleições na Alemanha, marcadas para 23 de fevereiro, Elon Musk declarou de forma inequívoca seu apoio ao partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Em um vídeo exibido durante um comício do partido, no dia 25 de janeiro, ele incentivou os alemães a “seguir em frente” em relação a qualquer “culpa do passado” relacionada ao Holocausto: “É bom ter orgulho da cultura alemã, dos valores alemães, e não perder isso em um tipo de multiculturalismo que dilui tudo.”

De forma preocupante, a AfD agora está solidamente estabelecida como o segundo partido mais popular da Alemanha, atrás apenas da União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita. No entanto, como todos os partidos nas eleições alemãs, a AfD não pode conquistar uma maioria absoluta. Também é improvável que seja convidada a integrar qualquer coalizão governista que surja após as eleições de 23 de fevereiro.

Por que isso importa?

A Alemanha é a terceira maior economia do mundo, atrás dos EUA e China. Além disso, ela tem papel importante nas decisões da União Europeia, onde partidos de extrema direita têm avançado.

Mas o discurso anti-imigrantes e antigoverno da AfD já distorceu significativamente o debate público e a cultura democrática na Alemanha, levando muitos a questionar se o partido precisa vencer eleições para ver suas políticas implementadas.

Isso ficou evidente após uma semana dramática em janeiro no Bundestag, o Parlamento alemão.

O primeiro sinal foi uma ruptura radical com as normas políticas da Alemanha: o líder da oposição, Friedrich Merz (CDU), contou deliberadamente com os votos da AfD para aprovar à força uma moção radical que promovia o endurecimento das fronteiras e restringia os pedidos de asilo no país.

Foi a primeira vez na história do Bundestag que uma maioria parlamentar foi alcançada com a ajuda da extrema direita. A ação de Merz foi amplamente condenada como uma violação de tabus e um passo em direção à legitimação da AfD.

Dias depois, Merz tentou ir ainda mais longe, com um projeto de lei abrangente para endurecer os controles de imigração. Embora o projeto tenha sido derrotado por uma margem estreita, toda a AfD votou com Merz. Doze membros de seu próprio partido, a CDU, se recusaram a apoiá-lo.

A aproximação de Merz com a extrema direita é amplamente vista como politicamente desnecessária, já que sua CDU conservadora já lidera as pesquisas nacionais, tornando-o o favorito para suceder Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata (SPD), como chanceler.

Isso levanta algumas questões cruciais antes da eleição. São os insiders ou os outsiders que estão desempenhando o maior papel na normalização da extrema direita? E qual será o papel da AfD após as eleições?

X/Divulgação

O efeito Musk

O apoio de Musk à AfD não deveria ser uma surpresa, dado o papel essencial que ele desempenhou na vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. No contexto alemão, no entanto, seu comportamento e declarações assumiram tons ainda mais sombrios.

Os alemães sabem muito bem o que está em jogo quando a democracia é corroída por aqueles que abusam de suas liberdades para atacá-la. Se as saudações nazistas de Musk após a posse de Trump tivessem sido feitas em Berlim, por exemplo, ele poderia ter enfrentado até três anos de prisão.

O lema “nunca mais” tem sido um princípio fundamental da política alemã desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, a resposta às recentes provocações de Musk foi estranhamente contida em algumas partes da mídia alemã.

O tabloide alemão Bild minimizou de forma constrangedora a saudação hitleriana de Musk, enquanto outros veículos falaram de forma vaga de um “gesto questionável”.

Com algumas exceções notáveis, coube a ativistas lembrar aos alemães a gravidade desse gesto – projetando a imagem da saudação de Musk em uma fábrica da Tesla na Alemanha, ao lado da palavra “heil”.

Dado o rigor com que a Alemanha fiscaliza representações de seu passado nazista, foi surpreendente ver tão poucos jornalistas dispostos a afirmar sem rodeios que “uma saudação de Hitler é uma saudação de Hitler”.

A aproximação de Merz com a extrema direita

Inicialmente, houve alguns sinais de que os principais líderes políticos da Alemanha condenariam as tentativas de Musk de normalizar a política de extrema direita no país.

Quando Musk chamou a AfD de “a última centelha de esperança” em dezembro, tanto Scholz quanto Merz rapidamente condenaram sua interferência.

Scholz continuou a classificar as tentativas descaradas de Musk de influenciar a política alemã como “inaceitáveis” e “repugnantes”.

Embora Merz afirme manter distância de Musk, sua estratégia para vencer as eleições não parece muito diferente do que o bilionário sugere —– Merz tem imitado as políticas da AfD e colaborado com o partido em votações anti-imigração.

Steffen Prößdorf/Wikimedia Commons

Na ruptura mais radical com o centrismo que caracterizou a CDU sob o governo da ex-chanceler Angela Merkel, Merz derrubou os obstáculos ao trabalho com a extrema direita. Sabendo exatamente o que isso significava, ele usou o apoio da AfD para aprovar no Parlamento a moção nacionalista sobre a proteção de fronteiras.

A AfD celebrou publicamente, chamando o episódio de “um dia histórico para a Alemanha”.

Enquanto isso, líderes de partidos democráticos manifestaram choque e indignação. A própria Merkel se pronunciou contra Merz, dizendo que era “errado” colaborar conscientemente com a AfD.

A intervenção da ex-chanceler parece ter sido crucial para a rejeição do projeto de lei sobre imigração, já que muitos dos ex-apoiadores de Merkel na CDU se recusaram a votar a favor da proposta.

O que a ascensão da AfD pode significar

Dadas essas duas votações e a intervenção de Musk, muitos na Alemanha agora temem que uma vitória da CDU nas eleições possa sinalizar uma colaboração maior com a AfD.  

O partido de Esquerda chamou Merz de fantoche da AfD e exigiu que Musk fosse proibido de entrar na Alemanha.  

Steffen Prößdorf/Wikimedia Commons

Robert Habeck, vice-chanceler da Alemanha e membro do Partido Verde, afirmou que a coalizão nacionalista de Merz “destruiria a Europa”. Ele alertou Musk para manter as “mãos longe de nossa democracia”, o que levou o bilionário a chamá-lo de “traidor do povo alemão”.  

Musk não é, de forma alguma, a causa da popularidade da AfD, mas seu apoio ao partido extremista deu a ele um perfil global e credibilidade em círculos que talvez nunca o considerassem antes.  

Musk tem sido uma figura controversa na Alemanha desde a chegada da “gigafábrica” da Tesla no estado de Brandemburgo, perto de Berlim, que foi imediatamente acusada de derrubar 500 mil árvores e causar danos irreparáveis a valiosas reservas de água subterrânea. Acusações de que a Tesla violou leis trabalhistas alemãs e até realizou verificações-surpresa em trabalhadores de licença médica também não ajudaram a imagem da empresa entre os alemães progressistas.  

Como alguns comentaristas sugeriram, provavelmente não é coincidência que os planos da AfD para a economia alemã beneficiariam os interesses comerciais de Musk. No entanto, o interesse econômico por si só parece insuficiente para explicar por que Musk se aproximou tanto da extrema direita.  

O mesmo pode ser dito de Merz. Os cálculos eleitorais por si sós não explicam seu perigoso flerte com a extrema direita. Ele já era o favorito para vencer as próximas eleições há muito tempo. Aproximar-se da AfD apenas dificultará uma coalizão com o Partido Social-Democrata, do chanceler Scholz, ou com o Partido Verde.  

Se esses dois partidos se recusarem a negociar com Merz, o único bloco grande o suficiente para garantir o controle do governo à CDU seria a AfD. Ele chegaria a esse ponto?  

Seja parte formal do próximo governo ou não, a AfD e seus aliados (como Musk) podem estar prestes a ter uma influência muito maior na política alemã. Como isso mudará a Alemanha a longo prazo ainda é uma incógnita.


Reportagem publicada originalmente em inglês no site The Conversation.

24 fevereiro 2025

Podemos ter bifes de vaca sem (muitos) danos no clima?

karandaev/Envato Elements
"Com a procura global por carne bovina a aumentar, otimizar os sistemas produtivos para reduzir as emissões sem comprometer a produtividade é fundamental", dizem investigadores.

    Criar bovinos em sistema de pastoreio, com suplementação nutricional adequada e escolher bem a raça. Esta é a receita que desafia a ideia de a carne bovina ser o alimento com maiores emissões de gases com efeito de estufa (GEE) na sua produção. Da autoria de investigadores do Instituto Superior Técnico e da Faculdade de Ciências, ambas da Universidade de Lisboa, o estudo publicado na revista ‘Environmental Impact Assessment Review’ demonstra que as emissões de GEE da produção de carne bovina podem variar entre 124 kg e apenas 15 kg de dióxido de carbono (CO₂) e por 100 g de proteína, dependendo do sistema de produção adotado. A investigação aponta, no entanto, que os sistemas baseados em pastoreio tendem a ter menores emissões do que os sistemas de confinamento apenas quando os animais recebem suplementação nutricional adequada. Se os animais em pastoreio não forem devidamente alimentados, o confinamento pode ser a opção com menor pegada de carbono, desafiando a ideia generalizada de que a produção em pastoreio é sempre mais sustentável. O estudo também destaca a importância da escolha da raça, uma vez que algumas têm naturalmente uma menor pegada ambiental.

    “Nem sempre é compreendido é que este impacto ambiental tem uma enorme variabilidade. Diferentes raças de bovinos crescem a ritmos distintos e podem ser alimentadas com cereais próprios para consumo humano ou com fontes alternativas, como erva ou subprodutos da indústria agroalimentar. Além disso, os animais podem ser criados em pastagens ou em confinamento. Até agora, era difícil perceber como estas diferentes práticas afetam a pegada de carbono da carne bovina”, explica o principal autor do estudo, Ricardo Teixeira, investigador do Técnico e do Centro de Ambiente e Tecnologia Marítimos – MARETEC.

    O estudo com o título “Grazing or Confining — Decoding Beef’s Environmental Footprint” lnaça novos ângulos sobre a sustentabilidade da criação de bovinos e fornece informações essenciais para decisores políticos, agricultores e indústria da carne, orientando o desenvolvimento de estratégias para uma produção pecuária mais sustentável.

    “Com a procura global por carne bovina a aumentar, otimizar os sistemas produtivos para reduzir as emissões sem comprometer a produtividade é fundamental. O estudo reforça que não existe uma solução única para a produção sustentável de carne — factores como as práticas de maneio, a escolha da raça e a qualidade das pastagens desempenham um papel crucial. Embora algumas das dificuldades na redução da pegada de carbono da carne bovina estejam além do controlo dos produtores, outras podem ser mitigadas através de práticas ambientalmente mais responsáveis”, conclui Ricardo Teixeira.

    Assinam o estudo o investigadores Ricardo Teixeira, Tiago G. Morais, Manuel P. dos Santos, todos do Técnico / MARETEC, Tiago Domingos (Técnico / MARETEC e Terraprima) e Lúcia Barão (Faculidade de Ciências da Universidade de Lisboa).

    Nova temporada de "The Challenge" chega à MTV Portugal

    Laura Barisonzi/MTV ENTERTAINMENT/Paramount+
    Terceira temporada conta com "veteranos" do formato e traz "twists" que vão alterar todo o programa.

    São 22 concorrentes "icónicos e ousados" que vão "competir pelo prémio de campeão e provar que são os melhores dos melhores". Este é o mote da terceira temporada de "The Challenge: All Stars", que estreia no próximo dia 05 de março na MTV Portugal.

    Segundo o canal de música, a terceira temporada traz novos "twists": "Esta nova temporada exige que os participantes tenham conseguido a qualificação ou vencido uma final do "The Challenge", o que resulta num line-up com os concorrentes mais ferozes e competitivos de todas as eras do programa, que agora têm uma segunda chance de combater pelo prémio final de meio milhão de dólares e pelo título de campeão".

    Além disso, a nova temporada traz também duas novas vantagens que vão alterar toda a mecânica do programa: "a Sabotagem, uma vantagem dada aos vencedores dos desafios diários para penalizar outros concorrentes; e as Estrelas, um sistema de “pontos” acumulados através de vitórias, especialmente na Arena – e que podem fazer toda a diferença no Desafio Final", acrescenta a estação.

    Brad Fiorenza, Darrell Taylor, Derrick Kosinski, Veronica Portillo ou Wes Bergmann são alguns dos concorrentes que fazem parte do elenco de 22 concorrentes.

    "The Challenge: All Stars" vai para o ar a partir das 22h.

    21 fevereiro 2025

    Projeto alerta para o impacto da mineração do mar profundo

    EwaStudio/Envato Elements
    No contexto da União Europeia, Portugal, é considerado um dos locais com recursos minerais, muitos dos quais ocorrem na proximidade de áreas protegidas com elevado valor ecológico.

    Nos últimos quatro anos, um projeto liderado pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) dedicou-se ao estudo e à caracterização dos riscos e impacto das atividades de mineração em mar profundo e desenvolveu ferramentas inovadoras, cujo propósito é servir de base à implementação de medidas de mitigação e gestão que minimizem os efeitos negativos nos ecossistemas.

    A investigação, que contou também com investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR-UP), do Instituto Português do Mar e da Atmosfera e do Instituto de Investigação em Ciências do Mar Okeanos, da Universidade dos Açores, realizou-se no âmbito do Deep-Risk.

    O trabalho surge numa altura em que há uma pressão cada vez maior para se avançar com estas atividades, em resultado do aumento da procura e do custo de metais para uso industrial, considerados essenciais para a transição energética.

    No contexto da União Europeia, Portugal, e em particular a região dos Açores, é considerado um dos locais com recursos minerais, muitos dos quais ocorrem na proximidade de áreas protegidas com elevado valor ecológico, como campos hidrotermais, jardins de corais e agregações de esponjas associados a montes submarinos.

    “Com este projeto inovador, quisemos contribuir para colmatar algumas das lacunas mais importantes associadas com a avaliação de risco ambiental da mineração em mar profundo, em particular o risco das plumas de sedimentos que serão produzidas durante a atividade de mineração”, destaca o coordenador do projeto, Miguel Santos, docente da FCUP e investigador do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR-UP).

    Efeitos nocivos e /ou letais em todos os grupos estudados

    A dispersão de sedimentos durante o processo de mineração é a consequência mais imediata e esperada da mineração de mar profundo. Os investigadores descobriram, no entanto, que a mineração também liberta quantidades elevadas de metais dissolvidos para a coluna de água.

    Estas plumas podem espalhar-se por grandes distâncias, conduzidas pelas correntes, afetando, potencialmente, organismos a vários quilómetros do local de mineração.

    No início do projeto, em laboratório, os cientistas avaliaram os efeitos de plumas de sedimentos em diversos grupos de organismos tais como esponjas, bivalves e corais de profundidade de água fria, recorrendo a câmaras hiperbáricas que simulam as condições do oceano profundo.

    Os resultados que obtiveram apontam para efeitos negativos em todos os grupos estudados. Verificaram, por exemplo, que a existência de pequenas concentrações de partículas de sulfuretos polimetálicos em plumas de sedimentos provenientes de uma potencial exploração mineira em águas profundas provoca efeitos letais nos corais de águas frias.

    Linhas orientadoras para as atividades de mineração em mar profundo

    No âmbito do Deep-Risk, que terminou recentemente, desenvolveram-se também novos modelos hidrodinâmicos e ecológicos para avaliar o comportamento e efeitos das plumas de sedimentos e antecipar a evolução destes ecossistemas na presença de fatores de stress, como os sedimentos resultantes da mineração. Trata-se de modelos numéricos que permitem descrever, com elevada fiabilidade, a dinâmica oceânica nestas regiões, sendo, destacam os investigadores, “fundamentais como ferramenta de suporte à sua exploração sustentável”.

    As previsões dos modelos hidrodinâmicos acoplados a modelos ecológicos complementam a avaliação in situ das condições do mar profundo e a consequente caracterização da sua variabilidade, que é “muito difícil e dispendiosa”. A equipa alerta ainda para um dos resultados na sequência destes modelos: “os ecossistemas hidrotermais impactados pelas plumas poderão entrar em colapso, indicando que têm pouca resiliência para ultrapassarem esse impacto”.

    Os resultados destas ferramentas inovadoras poderão contribuir para o estabelecimento de linhas orientadoras para as atividades de mineração em mar profundo.

    Impacto dos resultados e investigação futura

    Os principais resultados do Deep-Risk foram discutidos no âmbito do workshop final que decorreu em dezembro de 2024, nas instalações do IPMA em Lisboa, e espera-se que possam contribuir para a implementação de diretrizes ambientais.

    A investigação do Mar Profundo, incluindo o impacto de potenciais fatores de stress, foi identificada na “Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030”, como uma área de investigação prioritária em Portugal para o período 2020-2030.

    Sendo a Plataforma Continental uma área-chave para futuras atividades, prospeção e exploração, em conformidade com as Diretivas Marinhas da UE para a proteção ambiental e a submissão portuguesa para extensão da plataforma continental, os resultados deste projeto contribuirão para o estabelecimento de instrumentos legais para a gestão sustentável e conservação dos ecossistemas marinhos, incluindo os recursos naturais não vivos de mar profundo.

    A equipa do projeto destaca ainda a importância de se continuar a estudar e caracterizar os ecossistemas de mar profundo, em aspetos como a longevidade das espécies, a sua reprodução e dispersão e também os efeitos das plumas de mineração nestes organismos, nomeadamente, no seu metabolismo e no desenvolvimento de ovos e larvas. “Essa incerteza tem de ser diminuída, para que os modelos sejam cada vez mais precisos, e se consigam estabelecer limites e metas ambientais”, destacam os investigadores.

    O DEEPRISK – Mineração do mar profundo e alterações climáticas: novas ferramentas de modelação no suporte à gestão de risco ambiental (PTDC/CTA-AMB/7948/2020) contou com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

    20 fevereiro 2025

    Novo estudo revela o impacto de música “doce” nas experiências alimentares

    cottonbro studio/Pexels
    A equipa de investigação do CIS-Iscte teve como objetivo investigar os efeitos da música de fundo na avaliação do sabor de alimentos e bebida.

    Um estudo realizado no Centro de Investigação e de Intervenção Social (CIS-Iscte) desvenda como estímulos auditivos podem melhorar as nossas experiências sensoriais, nomeadamente no que diz respeito ao paladar. O estudo teve como objetivo explorar a interação entre a música e a perceção do paladar, informando a forma como o som pode influenciar a nossa satisfação com alimentos e bebidas.

    A equipa de investigação do CIS-Iscte, composta pelo investigador David Guedes e as investigadoras Marília Prada e Margarida Garrido, teve como objetivo investigar os efeitos da música de fundo na avaliação do sabor de alimentos e bebidas, particularmente quando as pistas visuais estão menos acessíveis. “Com o crescente interesse em experiências multissensoriais na restauração e no consumo de alimentos, o nosso estudo testou se a música poderia funcionar como um intensificador da perceção do sabor, mesmo quando os aspetos visuais da comida ou bebida estão escondidos”, explica David Guedes.

    No estudo, participantes provavam um conjunto de bebidas com diferentes cores e sabores. Para metade dos participantes, as bebidas estavam visíveis, enquanto para a outra metade, estavam escondidas num copo fechado. A equipa de investigação utilizou excertos musicais, previamente testados como estando associados à doçura ou aos sabores amargo e ácido, para avaliar o seu impacto na perceção destes sabores nas bebidas.

    Os resultados da experiência revelaram que a música “doce” aumentou significativamente a perceção da doçura das bebidas, enquanto a música não doce amplificou a sua acidez. “Prevíamos que os participantes se baseassem mais em pistas auditivas quando não pudessem ver o que estavam a provar. No entanto, não foi isso que aconteceu”, afirma Marília Prada. “As pessoas classificaram as bebidas visíveis como mais agradáveis, o que sugere que as pistas visuais continuam a desempenhar um papel crucial na experiência global de degustação”, acrescenta.

    Segundo Margarida Garrido, “estes resultados indicam que as pistas auditivas podem modular eficazmente a perceção do sabor, reforçando a ideia de que as nossas experiências sensoriais estão interligadas”, o que pode ter uma potencial aplicação para estratégias de marketing de alimentos e bebidas.

    Embora reconhecendo que é necessária mais investigação, nomeadamente com diferentes alimentos e bebidas, a equipa de investigação destaca os contributos deste estudo para a nossa compreensão das interações sensoriais no consumo de alimentos. Portanto, as implicações desta investigação vão para além do laboratório, especialmente em termos de estratégias de marketing e da melhoria das experiências de consumo na indústria alimentar. David Guedes afirma que “a música pode ser utilizada como um potenciador de sabor mesmo quando os produtos estão visualmente ocultos”, como é o caso do café para levar (takeaway). O investigador sugere ainda que os restaurantes e cafés podem considerar a possibilidade de personalizar listas de reprodução específicas para complementar os seus menus, “criando uma atmosfera que aumenta a satisfação com o sabor”.

    19 fevereiro 2025

    ChatGPT: “Penso, logo existo?"

    frimufilms/Envato Elements

    Leviatã é o nome de um monstro bíblico e também o título da obra mais célebre do filósofo inglês Thomas Hobbes, publicada em 1651. Este texto é um dos mais influentes sobre a estrutura da sociedade organizada. Como salienta o Prof. Arlindo Oliveira em seu recente ensaio “A Inteligência Artificial Generativa”, é um dos primeiros registos do argumento de que o raciocínio humano resulta da manipulação aritmética de símbolos.

    Embora seja um conceito antigo, é inegável que foi durante a Segunda Grande Guerra que se começaram a construir os primeiros computadores. Desde então, sucessivos avanços tecnológicos permitiram ao consumidor ter no seu bolso um telemóvel que parecia pura ficção científica há apenas algumas décadas.

    Tudo isso parecia natural para os consumidores, e o termo “Inteligência Artificial” era, até então, apenas motivo de estudo para investigadores. No entanto, a chegada do ChatGPT em 2022 rapidamente transformou essa realidade, sendo adotado por milhares de utilizadores. Atualmente, a recente entrada do DeepSeek, uma ferramenta chinesa, também está a gerar enorme entusiasmo.

    Quem já interagiu com o ChatGPT pode ter ficado convencido de que esses modelos são infalíveis e possuem a capacidade de pensar. Mas será realmente assim? O que são e como funcionam?

    De forma simplificada, os grandes modelos de linguagem (em inglês, Large Language Models – LLMs) são sistemas complexos, treinados com quantidades gigantescas de texto da Internet. Eles utilizam redes neuronais profundas, que são estruturas matemáticas que imitam o funcionamento do cérebro humano, para processar e analisar a linguagem. Uma arquitetura específica de rede neuronal, chamada de Transformer, permite que o modelo preste atenção a diferentes partes do texto simultaneamente, compreendendo o contexto e as relações entre as palavras. Ao receber um texto, esses modelos usam o seu conhecimento para prever a próxima palavra, frase ou parágrafo mais provável, gerando respostas coerentes.

    No entanto, apesar das numerosas vantagens, como a assistência na escrita ou na geração de ideias, recomenda-se sempre a verificação de factos, pois está documentado que esses modelos podem inventar fontes inexistentes de forma convincente.

    Concluindo, o ChatGPT existe, mas (por agora) quem pensa é o leitor.

    18 fevereiro 2025

    Chaves: MACNA encerra para obras

    Município de Chaves
    Espaço estará fechado até março

    O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA), em Chaves, vai estar estar encerrado durante quase um mês devido a obras, anunciou a autarquia esta segunda-feira.

    Numa pequena nota enviada às redações, o município esclarece que o encerramento é necessário devido aos "trabalhos necessários para desmontagem da exposição “Os lugares de Nadir”, bem como a preparação do espaço com reparação de paredes e pinturas para acolher o próximo momento expositivo".

    O espaço estará, assim, encerrado até dia 15 de março, coincidindo com a inauguração da exposição "NADIR: Sequenzas".

    "Solicita-se a compreensão pelo incómodo que este encerramento temporário possa causar", acrescenta o município.

    O MACNA foi inaugurado em 2016. Gerido pela autarquia, expõe em permanência obras do pintor flaviense Nadir Afonso, bem como obras de outros artistas nacionais.

    14 fevereiro 2025

    BOOMFIT vai para a rua em campanha para Dia dos Namorados

    BOOMFIT
    Marca diz que a ação serve para "humanizar a marca"

    É mais uma ação da marca portuguesa de equipamentos e acessórios de fitness: a BOOMFIT quis pôr à prova os mais apaixonados numa ação pela ruas do Porto.

    Incentivando as pessoas a "realizar alguns exercícios como prova dos seus sentimentos", a ação, que se transformou num vídeo disponível nas redes sociais da marca, "teve como objetivo lançar questões sobre o amor": "Desafiamos casais e solteiros a responder a perguntas e a enfrentar desafios físicos ligados ao mundo do fitness", diz o CEO da marca Vítor Brandão, que se mostrou satisfeito com a iniciativa, até porque "a adesão foi muito positiva".

    Numa nota enviada à imprensa, a marca de Vila Nova de Famalicão sustenta que a iniciativa é "uma oportunidade para humanizar a marca", criando uma ligação com o público potencial ou já conhecedor do mundo do fitness: "Somos uma equipa feita de pessoas e queremos reforçar essa ligação com a nossa comunidade", refere o CEO, acrescentando que a ação se insere numa estratégia de "dar a conhecer a nossa marca a quem ainda não está tão familiarizado com o nosso meio".

    A BOOMFIT é uma loja online de equipamentos e acessórios. Fundada em 2016, a marca equipa dezenas de ginásios e espaços fitness por todo o país.

    13 janeiro 2025

    BOOMFIT lança campanha pela importância da prevenção do suícidio

    BOOMFIT
    Ação decorre nas redes sociais com o mote "Escolhe Viver"

    Coincidindo com o dia mundial de Combate à Depressão, a marca online de fitness BOOMFIT lançou uma nova campanha nas suas redes sociais: "Escolhe Viver" é o mote de um vídeo que pretende apelar à importância da prevenção do suicídio.

    A nova campanha insere-se na estratégia da marca de promoção de estilos de vida mais ativos que impactam o bem-estar emocional: "É essencial abordar a prevenção e o combate à depressão, destacando a importância de cuidar da saúde mental de forma integral”, diz o CEO da BOOMFIT Vítor Brandão. A marca recorre mesmo a dados da Organização Mundial de Saúde para dizer que a doença "afeta 300 milhões de pessoas em todo o mundo e é a principal causa de incapacidade global. A cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo devido a sintomas causadas por esta doença", frisa a marca.

    O vídeo, que está disponível nas redes sociais da marca, traz "a história de um jovem que enfrenta momentos depressivos, equacionando o suicídio, mas que, afinal escolhe viver, sendo o exercício físico o seu verdadeiro aliado". "Todas as ações e todo o "barulho" que se faça em prol deste tema são essenciais", acrescenta Brandão.

    Esta não é a primeira vez que a marca aposta em campanhas de grande impacto social. Ainda em dezembro passado, lançou a campanha "Autodefesa não é violência", inserindo-se numa estratégia de ser "uma voz ativa na promoção de estilos de vida saudáveis"."Muito mais do que um simples vídeo que apela ao estilo de vida saudável ou ao exercício físico, a BOOMFIT pretende passar uma mensagem encorajadora e de apelo ao pedido de ajuda profissional", conclui a marca em nota enviada à imprensa.

    11 janeiro 2025

    Morreu o jornalista Daniel Ribeiro

    Reprodução Rádio Alfa
    Tinha 71 anos.

    O jornalista português Daniel Ribeiro morreu esta sexta-feira em Lisboa. A informação foi avançada pela Rádio Alfa na manhã deste sábado.

    O profissional colaborou com a edição em português da Radio França Internacional (RFI) e Antena 1, tendo desempenhado funções de diretor de antena na Rádio Alfa, em Paris. Atualmente, era correspondente da estação lusófona de rádio em Portugal e jornalista no Expresso.

    No seu site, a Alfa recorda Ribeiro como "um profissional que sempre dignificou a profissão, respeitando sempre a isenção e a objectividade e um grande respeito pelos ouvintes e leitores nos orgãos de informação onde trabalhou". Ao longo da sua carreira, o jornalista publicou reportagens sobre situações de guerra, de crise e até sobre a emigração portuguesa.

    A morte de Ribeiro mereceu uma reação por parte do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que fez publicar uma nota no site da Presidência em que lembra o "jornalismo sério e competente" do profissional

    O funeral acontece esta terça-feira, a partir das 16h, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

    Daniel Ribeiro tinha 71 anos.

    08 janeiro 2025

    Mulheres que denunciaram Boaventura de Sousa Santos por assédio são processadas na Justiça

    Milton Martínez/Secretaría de Cultura de la Ciudad de México (CC BY 2.0 DEED)
    Quatro das 14 investigadoras que fazem parte do grupo que acusa o docente de assédio sexuais e morais tornaram-se arguidas

    Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Mariama Correia e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

    Quase dois anos depois de divulgarem a primeira carta anônima com denúncias de assédio sexual e moral contra o professor e sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, as pesquisadoras do coletivo internacional de vítimas do acadêmico estão sob julgamento. Quatro das 14 mulheres que fazem parte do grupo foram processadas pelo próprio Boaventura em uma ação de defesa da honra chamada de pedido de tutela de personalidade, que corre no Juízo Local Cível de Coimbra, em Portugal. 

    A primeira audiência aconteceu nesta quarta-feira, 8 de janeiro. Na ação, Boaventura pede retratação pública nos principais jornais de Portugal, com o reconhecimento de sua excelência como professor e demonstração de profundo arrependimento. Também que a Justiça estabeleça multa contra as vítimas para forçar a retratação. As pesquisadoras que estão sendo julgadas são Sara Araújo, Carla Paiva, Maria Teresa Martins e Gabriela Freitas Figueiredo Rocha. Três delas foram ouvidas com exclusividade pela Agência Pública, em maio de 2024, quando decidiram sair do anonimato pela primeira vez e falar sobre os assédios sofridos enquanto estudaram ou trabalharam com Boaventura. 

    Os relatos delas envolvem denúncias de assédio sexual e moral, abuso de poder, violência verbal e extrativismo intelectual, que é quando o trabalho de outra pessoa é utilizado sem reconhecimento devido de autoria nem remuneração. 

    O coletivo de vítimas classifica a ação judicial como uma nova forma de assédio e de censura, e denunciam que as redes sociais das mulheres processadas estariam sofrendo monitoramento por Boaventura. Elas lançaram a página Academia Sem Assédio e uma campanha de arrecadação de fundos para pagar os gastos com o processo. A pesquisadora portuguesa Sara Araújo, que está entre as rés, escreveu no Facebook: “Fizemos tudo o que nos cabia e as únicas pessoas sob julgamento somos nós, as vítimas”.  

    Sara Araújo contou à Pública que sofreu assédios morais e sexuais quando trabalhou com Boaventura no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, que era coordenado por ele. Em uma das reuniões, o professor teria dito a ela: “O problema que existe entre nós é que tu és a única mulher com quem eu tenho uma relação tão próxima que não tem caráter sexual”. Boaventura nega as acusações feitas por ela e pelas outras pesquisadoras. Ele se diz vítima de “perseguição” e “vingança”.

    A advogada das rés, Lara Roque Figueiredo, informou que duas pesquisadoras foram ouvidas neste dia 8 e que outras seis audiências já estão marcadas para janeiro. Ela disse que a “ação busca constranger a liberdade e os direitos” dessas mulheres. “É um ataque para tentar silenciá-las. Consideramos inadmissível que alguém seja obrigado a desmentir a história da sua vida”, disse à Pública.

    Segundo Élida Lauris, pesquisadora brasileira que faz parte do coletivo de vítimas de Boaventura, o professor solicitou à Justiça que outras nove pesquisadoras que assinaram uma carta de denúncias contra ele sejam incluídas no julgamento. “Esse processo é um exemplo do assédio que sempre sofremos. É um processo feudal em que Boaventura de Sousa Santos espera que a Justiça lhe dê razão com base na ideia de que é uma autoridade, não importam os procedimentos, regras ou direitos fundamentais”, comentou.

    Para ela, a discussão que está sendo feita no tribunal em Portugal é central para os direitos das vítimas de assédio. “Pode se criar um precedente de defesa absurda dos agressores ou de afirmação do direito à denúncia. Se o tribunal afirmar que denunciar não é ofensa à honra abre um precedente para reforçar as denúncias e atacar a estratégia de defesa dos agressores, que querem tentar reverter as denúncias esperando que o conservadorismo dos tribunais os favoreça”, considera.

    A reportagem procurou Boaventura por e-mail, mas não recebeu respostas dele até a publicação. O espaço segue aberto.

    Inquérito sobre denúncias de assédio foi encerrado

    O professor, que tinha sido suspenso de suas atividades em 2023, demitiu-se em novembro passado alegando que o CES tinha conduzido o inquérito de forma parcial e sem direito à defesa. O CES encerrou o inquérito interno para apuração das denúncias sem que as conclusões do processo tenham se tornado públicas. A direção pediu desculpas públicas às vítimas de assédio e abuso, mas não citou Boaventura nominalmente.

    A advogada Lara Roque informou que, ainda em janeiro, representantes do Coletivo Internacional de Vítimas de Boaventura esperam se reunir com a direção do CES para entender o que aconteceu. “As pesquisadoras foram ouvidas mas não sabemos se chegaram a concluir a investigação”, disse. O processo do Ministério Público de Portugal que apura as denúncias de assédio sexual e moral contra o professor continua correndo em segredo de justiça. 

    Boaventura de Sousa Santos é um sociólogo de renome internacional, com livros publicados em vários idiomas e países. As primeiras acusações de assédio contra ele surgiram em março de 2023, no capítulo de um livro assinado por pesquisadoras de Coimbra. O texto protegia a identidade das denunciantes e não citava nominalmente Boaventura, chamado apenas de “professor-estrela”. Ele mesmo assumiu ser o “professor-estrela”.  

    Em abril de 2023, a Pública revelou com exclusividade as denúncias da deputada federal Bella Gonçalves (PSOL-MG), que contou ter sofrido assédio sexual do professor quando foi orientanda de doutorado.

    07 janeiro 2025

    Doze livros de ciência de 2024

    GaudiLab/Envato Elements
    Cinco deles são de autores portugueses

    Esta é a minha escolha dos doze melhores livros de ciência publicados em Portugal em 2024. Cinco deles são de autores portugueses. A ordem é a alfabética do apelido do primeiro autor.

    1. Acemoglu, Daron e Johnson, Simon. Poder e Progresso. A nossa luta milenar pela tecnologia e prosperidade. Temas & Debates.
      Os dois autores, professores de Economia no MIT, receberam o Prémio Nobel da Economia em 2024. O primeiro autor já tinha sido autor, com James Robinson, de O Equilíbrio do Poder e do best-seller Porque Falham as Nações, ambos publicados pela Temas e Debates. O tema do livro é a evolução da ciência e tecnologia e o seu impacto na economia e na vida.
    2. Alves, Miriam e Kono, Yara. As Peças Mais Pequenas. Tudo o que vemos é feito do que não vemos. Planeta Tangerina.
      Uma jornalista portuguesa e uma ilustradora brasileira fizeram um belo livro para crianças que explica que «tudo o que vemos é feito do que não vemos».  Na ciência, o essencial é invisível aos olhos: os átomos formam tudo à nossa volta e dentro de nós. Mas, mais do que descrever a ciência, a primeira autora fala do processo de descoberta. E a segunda ilustra o texto esplendidamente.
    3. Cardoso, Vítor. O Eclipse do Tempo. Guia para entrar em buracos negros. Oficina do Livro.
      Um astrofísico português com grande currículo no estudo de buracos negros, professor no Instituto Superior Técnico e no Instituto Niels Bohr em Copenhaga, escreveu uma obra de divulgação sobre o tempo e esses «monstros cósmicos» que engolem tudo. O prefácio é do Nobel da Física Reinhard Genzel, o astrofísico alemão que ajudou a determinar a massa do superburaco negro que está no centro da nossa galáxia, e o posfácio de Emanuele Berti, presidente da Sociedade Internacional de Relatividade Geral e Gravitação.
    4. Carvalho, António Galopim de. Ao Romper da Aurora. Âncora.
      O professor jubilado de Ciências da Terra da Universidade de Lisboa, autor de muitos outros livros, reúne aqui muitos dos textos, à volta da sua vida, que escreveu para as redes sociais. O título explica-se porque o professor gosta de escrever de madrugada. O resultado é um longo depoimento pessoal de um dos nossos maires divulgadores de ciência. No final do ano, Galopim de Carvalho publicou ainda, na mesma editora, Aprender a Gostar de Saber.
    5. Conway, Ed. Mundo Material. Uma história substancial do nosso passado e futuro. Temas e Debates.
      Um premiado jornalista de economia inglês realizou uma viagem pelo mundo para nos contar os materiais que se extraem dom interior do nosso planeta e o modo como são transformados para formarem os objetos de que precisamos. Por exemplo, de onde vem o silício dos nossos chips de computadores? Vem da areia…
    6. Kissinger, Henry; Mundie, Craige; e Schmidt, Eric. Génesis. Inteligência artificial, esperança e o espírito humano. Dom Quixote.
      Um ensaio que fornece uma ampla matéria de reflexão sobre os prementes desafios da Inteligência Artificial, da autoria do político e estadista norte-americano falecido em 2023 com cem anos, de um ex-diretor da Microsot e de um ex-CEO da Google. O primeiro e o terceiro autores já tinham analisado o assunto no seu livro, com Daniel Huttenlocher, A Era da Inteligência Artificial e o Nosso Futuro Humano (também na Dom Quixote).
    7. Levitt, Dan. De Que Somos Feitos? A história dos átomos do seu corpo, desde o Big Bang até ao jantar de ontem, Lua de Papel.
      Este livro de um realizador norte-americano de documentários científicos conta-nos como temos dentro de nós quer partículas do Big Bang quer átomos cozinhadios nas estrelas. Somos essencialmente água e, na molécula de água, o hidrogénio veio do Big Bang e o oxigénio das estrelas. Escrevi o prefácio.
    8. Marçal, David. Como Perder Amigos Rapidamente e Aborrecer Pessoas com Factos e Ciência. Gradiva.
      O bioquímico e comunicador de ciência que escreve regularmente no Público disseca o mundo de hoje, largamente irracional, numa perspectiva racional, baseada em factos e na ciência, neste livro com um título irónico. No mundo polarizado em que vivemos, é natural que alguns dos seus textos, bem escritos e documentados, sejam polémicos. E escrevi o prefácio.
    9. Osório, Luís. A Última Lição de Manuel Sobrinho Simões. Contraponto.
      O conhecido jornalista e escritor fez uma longa entrevista a um dos dois cientistas portugueses mais conhecidos, Manuel Sobrinho Simões, médico patologista da Universidade do Porto, especialista em cancro da tiroide e fundador do IPATIMUP.
    10. Reich, David. Quem Somos e Como Chegámos até Aqui. O ADN antigo e os novos avanços científicos acerca do passado. Gradiva.
      Um especialista norte-americano em genoma antigo conta como a decifração do genoma está a revelar a nossa ancestralidade. As diferenças biológicas entre as populações actuais pode ser compreendida pode ser mais bem compreendida à luz dos mais recentes desenvolvimentos.
    11. Rovelli, Carlo. Há lugares no mundo onde a gentileza é mais importante do que as regras. Objectiva.O físico italiano Rovelli é um dos nomes cimeiros da divulgação da Física. Este livro, que surge na sequência de outros sucessos do mesmo autor, contém um conjunto de crónicas originalmente saídas na imprensa italiana. Na sua diversidade, exibem os dotes de escrita do autor, para além claro do seu conhecimento da ciência e da história e da sua sensibilidade para ligar a ciência à arte.
    12. Tyson, Neil de Grasse e Walker, Lindsay. Para o Infinito e Mais Além. Uma viagem de descoberta cósmica. Gradiva.
      O norte-americano Tyson, autor de Astrofísica para Gente com Pressa (também na Gradiva), é um dos divulgadores de ciência mais brilhantes da era pós Carl Sagan, com quem aliás se encointrou em jovem. Walker, por sua vez, é uma comunicadora de ciência na área do audiovisual. Juntos fizeram um belo volume ilustrado que nos conduz aos mistérios do cosmos, dos quais os maiores estão bem longe da Terra. A tradução é minha.

      Ficaria mal comigo se não juntasse em nota final os meus dois livros deste ano, o primeiro para pré-adultos e adultos e o segundo para os mais pequenos: Toda a Física Divertida, Gradiva, com desenhos de José Bandeira, e, com Luísa Ducla Soares e Daniel Completo, No Mundo dos Porquês. A ciência cantada e contada, Canto das Cores, com desenhos de Cristina Completo.

      Boas Festas com boas leituras!

      26 dezembro 2024

      Países tentam acordo global para limitar poluição por plásticos

      Muntaka Chasant/Wikimedia Commons
      Diante de impactos, mais de 170 países discutem a produção e descarte de materiais plásticos

      Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Isabel Seta e edição de Mariama Correia e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

      Resíduo mais abundante no oceano, que forma “sopas” de lixo no Pacífico Norte e, até 2050, pode superar, em peso, a quantidade de peixes nos mares, o plástico está em todos os lugares. Chegou a cantos remotos do planeta e polui também o ar. Em suas formas microscópicas, já foi detectado em órgãos humanos e até no sangue e no leite materno.

      É um material que leva entre centenas e milhares de anos para se decompor. Assim, a maior parte do plástico que a humanidade já produziu ainda está entre nós. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep), dos mais de 9,2 bilhões de toneladas geradas desde a década de 1950, sete bilhões viraram lixo.

      Diante desse cenário, dezenas de países querem chegar a um acordo global inédito para conter a poluição por plásticos. A partir deste dia 25 de novembro, representantes de 175 nações, incluindo o Brasil, estarão reunidos em Busan, na Coreia do Sul, para a quinta e última rodada de negociações.

      O objetivo é finalizar um tratado internacional, com poder de lei, que aborde todo o ciclo de vida dos plásticos – da produção e design ao descarte.

      Diminuir a quantidade de plásticos de uso único (como copos descartáveis), estabelecer critérios para o design que facilitem a reciclagem, reduzir o uso de substâncias químicas tóxicas e definir recursos para a implementação das medidas são alguns dos assuntos a serem resolvidos.

      A principal questão na mesa de negociação é se haverá limites estabelecidos para a produção de plástico, levando a uma redução progressiva, ou se só serão definidas medidas para melhorar o descarte e a gestão dos resíduos.

      Por que isso importa?

      A cada ano, mais de 430 milhões de toneladas de plástico são produzidas no planeta, mas apenas 9% são reciclados. Para diminuir essa conta, representantes de 175 nações, incluindo o Brasil, se reúnem em Busan, na Coreia do Sul, com o objetivo de assinar um tratado internacional inédito capaz de conter a poluição por plásticos.

      A cada ano, produzimos mais de 430 milhões de toneladas – das quais dois terços são produtos de vida curta, rapidamente descartados. A perspectiva é que a produção triplique até 2060. Hoje, apenas 9% do plástico é reciclado, conforme a OCDE. No Brasil, o material representa 17% de todos os resíduos processados por cooperativas e associações de catadores, segundo a Fundação Heinrich Boll Brasil. 

      “O foco na reciclagem para solucionar o problema não é o caminho. Temos que reduzir a produção de plástico, porque não conseguimos processar a quantidade de plástico via gestão de resíduos”, diz Ecimara dos Santos Silva, do Comitê Gestor da Aliança Resíduo Zero Brasil. 

      A produção plástica é um problema também para o clima, já que a imensa maioria das resinas é gerada por meio de combustíveis fósseis. Uma análise do laboratório federal americano Berkeley estimou que, em um cenário conservador de aumento da produção, as emissões de gases do efeito estufa da produção de plásticos primários podem dobrar até 2050, respondendo por 21% a 26% do orçamento mundial de emissões de carbono necessário para conter o aquecimento global em 1,5 ºC.

      Reprodução/UNEP

      No debate internacional, a Coalizão de Alta Ambição, grupo de 67 países (entre eles Peru, Chile, Reino Unido, França, Ruanda e Nigéria), quer construir um tratado para acabar com a poluição plástica até 2040, reduzindo a produção e estabelecendo medidas de responsabilidade para os produtores. 

      Já países líderes na geração de resíduos – como Estados Unidos, China e Índia –, além dos grandes produtores de petróleo e gás – caso da Arábia Saudita –, são contra a definição de limites. 

      Para o Brasil, a implementação de restrições de produção precisaria vir acompanhada de transições justas, inclusive para catadores e outros trabalhadores do ramo, e apoio para a implementação de medidas. O financiamento, como costuma acontecer nesse tipo de acordo, é outro ponto delicado da negociação. Trata-se do dinheiro a ser mobilizado para que os países possam implementar as medidas, como recursos para melhorar a gestão de resíduos em países em desenvolvimento ou para estabelecer medidas de controle e monitoramento do uso de substâncias químicas. 

      “Um acordo ambicioso na área de plásticos precisa ser igualmente ambicioso nos meios de implementação”, afirmou Maria Angélica Ikeda, diretora do departamento de Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores e chefe da delegação brasileira nas negociações do tratado. 

      À Agência Pública, já em Busan para o início das reuniões, Ikeda lembrou que o financiamento foi o grande tema das duas últimas conferências da ONU sobre o Clima (a COP29), realizada nas últimas semanas no Azerbaijão, e sobre a conferência da Biodiversidade, que ocorreu na Colômbia no final de outubro. Na COP29, os países concordaram em 300 bilhões de dólares anuais para enfrentar a mudança do clima, muito aquém da meta de1,3 trilhão, como pleiteado pelos países em desenvolvimento. Já na COP da Biodiversidade, a impossibilidade de chegar a um acordo sobre financiamento postergou as discussões para uma rodada adicional no ano que vem. 

      “Esse tema [do financiamento] é muito importante. E, no caso dos plásticos principalmente, porque os países em desenvolvimento nem têm ainda as legislações e políticas necessárias para implementar o acordo. Há uma grande lacuna institucional e legal para os países em desenvolvimento e isso precisa ser apoiado pelos meios de implementação”, disse Ikeda. 

      Os países discutem também o banimento ou a diminuição progressiva do uso de substâncias químicas tóxicas em plásticos, associadas a riscos reprodutivos, de câncer, entre outros problemas para a saúde. 

      Um grande levantamento, publicado neste ano, apontou para a existência de 16 mil químicos em plásticos, 4,2 mil deles “altamente perigosos” para a saúde humana e para o meio ambiente – menos de mil deles, no entanto, são regulamentados pelas agências de controle ao redor do mundo. 

      O problema é que nem todos os países dizem ter condições ou estruturas administrativas para acabar com o uso dessas substâncias da mesma forma. A ideia então, apresentada pelo presidente do comitê internacional estabelecido para negociar o tratado, é formar listas iniciais com produtos a serem controlados, possivelmente com algumas exceções, além de critérios para que os países possam identificar outros produtos plásticos e químicos de preocupação.

      O trio formado por Noruega, Ilhas Cook e Ruanda elaborou uma sugestão inicial de duas listas, uma de substâncias a serem banidas e outra daquelas a serem evitadas ou minimizadas. São mais de 1,3 mil – entre bisfenóis [composto usado para fazer resinas epóxi], retardantes de chamas, plastificantes e ftalatos [substâncias que deixam o plástico mais maleável e são tidas como cancerígenas]. Destas, pouco mais de 50 são regulamentadas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como mostra um cruzamento feito pelo órgão. A partir de decisões do Mercosul, o Brasil trabalha com “listas positivas”, que determinam limites e condições para que substâncias sejam consideradas seguras para entrar em contato com alimentos.  

      Outra questão é como conter o proliferamento de micros e nanoplásticos – partículas minúsculas que vão se soltando dos plásticos conforme o uso e até na reciclagem. Segundo uma coalizão de cientistas independentes, elas respondem por cerca de um quarto da poluição atual e não podem ser removidas do ambiente. Por isso, defendem uma abordagem que diminua a geração dessas partículas durante todo o ciclo de vida dos produtos. 

      São tantos problemas que o acordo precisa resolver que algumas organizações já defendem que nem todas as decisões sejam tomadas por consenso entre os países, como de praxe em tratados internacionais. 

      “Um tratado com medidas vinculativas apoiadas pela maioria dos governos será muito mais eficaz do que um tratado voluntário apoiado por todos os governos”, afirmou Eirik Lindebjerg, chefe da delegação da organização sem fins lucrativos WWF (Fundo Mundial da Natureza, na sigla em inglês). 

      Resta, ainda, a preocupação de que o lobby da indústria do petróleo e do gás atrapalhe as negociações. Na rodada anterior, um levantamento do Centro para Direito Ambiental Internacional (CIEL) mostrou que os 195 lobistas da indústria petroleira e química superaram toda a delegação da União Europeia, com 180 integrantes. O número foi, ainda, sete vezes maior que o de representantes de povos indígenas e cinco vezes o de cientistas independentes.

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