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29 agosto 2025

INDIEROR leva a cena "Acampamento"

INDIEROR/Divulgação


Está prometido muito "humor, mistério e aventura" numa peça de teatro musical criada durante o Workshop de Verão do INDIEROR: "Acampamento" estreia este sábado, dia 30 de agosto, em Chaves. 


"Durante duas semanas intensivas, os/as participantes do Workshop de Verão 2025 da INDIEROR mergulharam na representação, canto e dança, criando este espetáculo de raiz", explica a entidade em nota enviada à imprensa. Ao todo, serão 16 jovens a levar a cena o espetáculo, algo que a entidade considera ser uma "adulta responsabilidade",  acrescentando que o enredo de "Acampamento" é para toda a família. "Num acampamento de verão, dois grupos rivais disputam provas e contam histórias à volta da fogueira. Mas quando uma nave espacial cai na floresta e surge Zé, o extraterrestre, tudo muda", frisa. 


O espetáculo será levado a cena no auditório do Centro Cultural de Chaves, a partir das 21h30. Os bilhetes ainda estão à venda. 

27 agosto 2025

A corrida contrarrelógio.

Rawpixel/Envato Elements


Na sociedade contemporânea, somos bombardeados por estímulos a cada segundo. O zumbido constante das notificações, o ”scrolling” infinito nas redes sociais e a expectativa de respostas imediatas transformaram a nossa forma de viver. Neste cenário, a urgência de tudo ser rápido e sem esforço tornou-se uma norma. Mas a que custo?


Um estudo revela que pessoas de várias cidades em redor do mundo andam 10% mais rápido do que há vinte anos. Este fenómeno é particularmente visível em centros empresariais como Singapura, Tóquio ou Nova Iorque. Contudo, essa pressa constante não se limita apenas ao modo como nos movemos, ela permeia todos os aspetos da nossa vida. A cultura da gratificação instantânea é notada, por exemplo, na coleção “One-Minute Bedtime Stories”, que visa atender à necessidade dos pais em contar histórias rápidas e objetivas. Esta ideia de que “cada segundo conta” molda a nossa percepção sobre a vida.


A tecnologia, embora traga inegáveis benefícios, contribui para a nossa impaciência. Se um elevador demora mais de 15 segundos a chegar, muitos já se sentem angustiados. A internet, com as suas promessas de velocidade, também nos condiciona a exigir respostas imediatas. A comunicação escrita tornou-se cada vez mais curta, com plataformas como o Twitter (agora “X”) a limitarem o número de caracteres, reforçando a ideia de que a brevidade é sinónimo de eficiência. No entanto, esta rapidez pode prejudicar a profundidade das nossas interações. Além disso, a pressão para sermos produtivos em todos os instantes gera um ciclo vicioso. O conceito de “burnout” ou esgotamento profissional, bastante discutido na atualidade, é um resultado direto dessa cultura de fazer mais em menos tempo. A psicóloga Christina Maslach, uma das principais investigadoras sobre o tema, alerta que a falta de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal pode levar a sérios problemas de saúde mental. A multitarefa, frequentemente glorificada como uma habilidade essencial, pode ser um dos principais vilões desse processo. Pesquisas da Universidade de Stanford mostram que, ao tentarmos realizar várias tarefas de uma só vez, diminuímos a nossa eficiência em até 40%. A fragmentação da nossa atenção não só nos torna menos produtivos, como também nos priva da capacidade de nos concentrarmos no que realmente importa.


No nosso tempo livre, a pressa também se faz sentir. Embora os nossos carros sejam mais rápidos, o trânsito nas cidades, como em Nova Iorque ou Paris, faz com que muitas vezes gastemos mais tempo nas estradas do que em lazer. Assim, estamos sempre apressados, mesmo quando não há necessidade. Essa busca incessante por velocidade pode levar a um estado de constante stress e ansiedade.


A era dos estímulos rápidos traz desafios significativos, mas também oportunidades para refletirmos sobre o que realmente queremos. Ao valorizarmos o esforço e a paciência, podemos transformar a pressão da modernidade numa força para o crescimento pessoal. Afinal, como disse o filósofo Sêneca, “A pressa é a inimiga da perfeição.”


Que possamos aprender a apreciar o tempo, e a beleza do caminho que percorremos.


12 agosto 2025

O assassinato de Anas al-Sharif e o colapso moral do jornalismo ocidental

AmparoGV/Envato Elements



É impossível como jornalista não ficar comovido com o contínuo massacre de jornalistas por Israel — como parte da sua campanha para matar o maior número possível de palestinianos em Gaza. Em 10 de agosto, Anas Al Sharif — cujas reportagens acompanhei esporadicamente através de traduções nas redes sociais desde 7 de outubro de 2023, e que ganhou o prémio Defensor dos Direitos Humanos da Amnistia Internacional no ano passado — foi morto juntamente com outros três jornalistas da Al Jazeera e dois jornalistas freelancers. Eles estavam alojados numa tenda para jornalistas montada em frente ao hospital Al-Shifa. Foi um assassinato direcionado: Israel admitiu isso, alegando, como sempre de forma patética, que a sua última vítima era membro do Hamas.


É impossível não ficar afetado, como disse antes. Mas alguns jornalistas estão a conseguir isso muito bem. Aqui está a BBC a repetir sem questionar a alegação de Israel. E aqui está a Reuters a fazer o mesmo:


Em português: "Al Sharif era o chefe de uma célula do Hamas e 'foi o responsável por promover ataques com rockets contra civis israelitas e tropas das FDI (Forças de Defesa de Israel)', afirmaram os militares israelitas num comunicado, citando como prova informações dos serviços secretos e documentos encontrados em Gaza."/Reprodução Reuters


A Reuters alterou o texto da sua notícia. Esta captura de ecrã, do segundo parágrafo do artigo, foi uma das várias captadas por utilizadores diligentes no Twitter, e começa como se a Reuters tivesse a certeza de que Al Sharif era o líder de uma célula do Hamas. Note-se que a parte inicial da frase não aparece entre aspas, o que, ao lidar com material tão absolutamente falso, é imperdoável. Na verdade, as palavras «Al Sharif era o líder de uma célula do Hamas» vêm quase literalmente de um tweet das Forças de Defesa de Israel; retirá-las das aspas é negligência jornalística.


A Reuters alterou o texto da sua notícia. Esta captura de ecrã, do segundo parágrafo do artigo, foi uma das várias captadas por utilizadores diligentes no Twitter, e começa como se a Reuters tivesse a certeza de que Al Sharif era o líder de uma célula do Hamas. Note-se que a parte inicial da frase não aparece entre aspas, o que, ao lidar com material tão absolutamente falso, é imperdoável. Na verdade, as palavras «Al Sharif era o líder de uma célula do Hamas» vêm quase literalmente de um tweet das Forças de Defesa de Israel; retirá-las das aspas é negligência jornalística.


Também é imperdoável que os jornalistas não denunciem uma mentira quando lhes é apresentada. Nenhuma das principais publicações ocidentais demonstrou sequer um pingo de ceticismo em relação à campanha implacável de Israel para pintar todos os jornalistas que mata como membros do Hamas, mesmo que, até agora, tenham sido mortos mais profissionais da comunicação social em Gaza do que nas duas guerras mundiais juntas. Estes dados não são do Hamas; são da Watson School of International and Public Affairs da Brown University. Nos Estados Unidos da América.


Captura de ecrã do site "Costs of War" ("Custos da Guerra"), em português) da Watson School of International and Public Affairs at Brown University. Fair Use


Parte da razão pela qual a BBC, o New York Times e outros meios de comunicação social não protestaram contra esses homicídios é porque podem se safar com base em um detalhe técnico. Eles não têm permissão para entrar em Gaza para reportar, então não podem «verificar de forma independente» se esses jornalistas assassinados eram realmente membros do Hamas. (É claro que essa é a razão pela qual Israel não permite que repórteres entrem em Gaza.) Mas a verdade também é que a linha traçada pela cor da pele continua viva e forte no jornalismo ocidental — em todos esses veículos de comunicação que, de outra forma, gritam com toda a convicção sobre a Primeira Emenda, a liberdade de imprensa e a importância do quinto poder.


Na sequência do Holocausto e da fundação de Israel, o Ocidente acolheu no seu seio branco um grupo de pessoas que anteriormente não considerava de todo brancas: os judeus. (Neste livro, o rabino americano Michael Lerner afirma que, no passado, os judeus foram «os principais “Outros”, foram discriminados social e legalmente, foram alvo de racismo e genocídio e, nesses termos, os judeus não são brancos». Ao que o académico negro Cornel West argumenta que os judeus alcançaram desde então o «privilégio da pele branca». Algumas destas dinâmicas históricas absorvi em conversas com amigos e colegas, nomeadamente com o formidável Pankaj Mishra).


O conflito entre Israel e a Palestina deveria ser enquadrado mais frequentemente como um conflito entre (os agora considerados) brancos e (os sempre e eternamente) pardos. Quando se enquadra dessa forma, fica mais fácil perceber por que o Ocidente apoia Israel incondicionalmente todas as vezes, mesmo quando Israel desrespeita os princípios que o Ocidente tanto apregoa. Como a liberdade de imprensa.


Assim , tal como o massacre de pessoas de pele morena e negra não importa muito para os governos ocidentais, também o assassinato seletivo de jornalistas de pele morena e negra não importa muito para as publicações ocidentais.


De qualquer forma, para a maioria dos editores em Londres e Nova Iorque, esses jornalistas só são bons o suficiente para permanecerem nas suas áreas e cobrirem os seus próprios quintais — e/ou para serem reduzidos ao estatuto de «facilitadores» quando há um correspondente estrangeiro disponível para ser enviado ao local.


Na morte, um jornalista de pele morena só encontrará defensores ocidentais se trabalhar para uma publicação ocidental ou se a sua morte puder ser aproveitada para ganhar pontos políticos. Jamal Khashoggi, o escritor do Washington Post esquartejado pela Arábia Saudita na sua embaixada em Istambul em 2018, cumpria ambos os critérios. Anas al-Sharif, um homem de pele morena que reportava em árabe para um meio de comunicação árabe durante um ataque de Israel, não cumpria nenhum dos dois.


06 agosto 2025

"Lilo e Stitch" chega ao Disney+ em setembro

The Walt Disney Company Portugal/Divulgação


A Disney promete "uma aventura inesquecível cheia de caos, charme e fofura". Depois do sucesso no cinema, "Lilo e Stitch" chega agora ao serviço de streaming da dona do Mickey Mouse: o filme estreia no Disney+ em setembro. 


A nova versão em imagem real conta com as interpretações de Sydney Elizebeth Agudong, Billy Magnussen, Tia Carrere, Hannah Waddingham, Chris Sanders, Courtney B. Vance, Zach Galifianakis e Maia Kealoha. Baseado no filme homónimo em desenho animado, a readaptação mantém-se algo fiel ao original, trazendo "uma nova energia à hilariante e comovente história de Lilo e do seu “animal de estimação” adotado e pouco convencional, Stitch", refere a Disney, acrescentando que os "cenários tropicais exuberantes oferecem visuais acolhedores e calorosos, à imagem da “família encontrada” que Lilo e Stitch constroem juntos, homenageando de forma autêntica a cultura e a beleza do Havai". 


A nova versão do filme de 2002 atingiu a marca dos mil milhões de dólares em todo o mundo, sendo mesmo "o primeiro título da Motion Picture Association (MPA) de 2025 a atingir este marco". 


O original "Lilo e Stitch" está também disponível na plataforma de streaming e mantém-se um sucesso, estando já "em desenvolvimento" uma nova sequela: "Com mais de 640 milhões de horas vistas em todo o mundo, a franquia continua a conquistar corações e a encantar fãs por todo o planeta", frisa a gigante do entretenimento. 


O filme ficará disponível a partir de 03 de setembro. 


 

31 julho 2025

Equipa liderada pela Universidade de Coimbra cria instrumento para melhorar a qualidade do apoio durante o luto

Pressmaster/Envato Elements


Uma equipa de investigação, liderada pela Universidade de Coimbra (UC), desenvolveu e testou em Portugal um inquérito que permite avaliar a qualidade do apoio prestado por serviços de saúde durante o luto. Com os resultados positivos deste estudo-piloto, as investigadoras acreditam que este instrumento pode contribuir para melhorar a prestação deste acompanhamento, e, assim, ajudar as pessoas a lidar com a perda.


A equipa da UC conduziu esta investigação com o objetivo central de “compreender a experiências dos familiares de quem faleceu em relação ao apoio prestado, incluindo dificuldades que tenham tido em aceder e receber apoio, tanto pelo próprio serviço de saúde, como por outros recursos disponíveis na comunidade”, revela a investigadora da Faculdade de Medicina da UC (FMUC), Maja de Brito.


Por norma, “os inquéritos habitualmente utilizados nos serviços de saúde centram-se na avaliação da satisfação com o serviço, mas este inquérito que desenvolvemos propõe uma abordagem diferente, ao focar-se em múltiplas dimensões da qualidade do apoio no luto”, contextualiza a também psicóloga clínica.


Neste âmbito, o instrumento desenvolvido “abrange todos os níveis de apoio, desde os cuidados especializados até ao apoio informal, oferecendo uma imagem completa do ecossistema de apoio ao luto ao qual as pessoas enlutadas recorrem”, avança a investigadora da Universidade de Coimbra. “Este mapeamento ajuda a identificar quem são os agentes de apoio numa determinada comunidade e, com isso, favorece a criação de redes de colaboração mais eficazes entre hospitais, cuidados primários, serviços especializados e comunidade. Deste modo, o inquérito contribui para melhorar a continuidade dos cuidados, uma das principais fragilidades apontadas no apoio ao luto a nível global”, acrescenta.


Em concreto, como revela Maja de Brito, “a utilidade do apoio recebido (ou seja, até que ponto a pessoa sentiu que o apoio ajudou ou mudou algo para melhor), as preferências de apoio (os tipos de apoio que a pessoa gostaria de ter recebido, mas que não estavam disponíveis, seja por razões práticas/logísticas ou porque não existem atualmente), o acesso ao apoio (como foi procurado, como se acedeu, e se existiram obstáculos), e as barreiras ao apoio (porque é que, mesmo havendo necessidade e vontade de receber apoio, algumas pessoas não conseguem obtê-lo)” são alguns dos pontos-chave deste inquérito que criado e testado pela equipa liderada pela UC.


O inquérito foi implementado junto de familiares de pessoas diagnosticadas com cancro que receberam cuidados no Serviço de Medicina Paliativa da Unidade Local de Saúde de Santa Maria. Participaram 20 pessoas, que tinham perdido um dos progenitores, filho, parceiro ou irmão há mais de um ano.


A equipa de investigação revela que, para os familiares, “responder ao inquérito foi vivido como uma oportunidade valiosa de: 1) contribuir para a produção de novo conhecimento e, assim, ajudar outras pessoas; 2) ter as suas experiências ouvidas e reconhecidas, com o objetivo de melhorar os serviços de apoio no futuro; 3) ajudar a quebrar um tabu social, a dificuldade em falar abertamente sobre a morte e o luto; 4) prestar homenagem ao familiar falecido”.


Maja de Brito sublinha o papel dos serviços de saúde no acompanhamento durante um processo de luto: “esses serviços devem, pelo menos, realizar uma avaliação inicial das necessidades de apoio no luto e fornecer informação básica sobre o luto e os recursos disponíveis”.


Sobre as mais-valias deste inquérito para os serviços de apoio, a cientista explica que “quando utilizado de forma sistemática, pode ajudar os serviços a escutar e a aprender com o testemunho das pessoas enlutadas, melhorando a sua capacidade de resposta. Ao mesmo tempo, quando as pessoas sentem que a sua dor é reconhecida e que as suas experiências são levadas a sério, isso pode representar um passo essencial no seu processo de integração da perda”.


Quanto a melhorias que podem ser originadas por esta escuta dos familiares, a investigadora adianta que “ao compreendermos melhor as necessidades e preferências de cada pessoa, podemos avançar para um modelo de apoio que não se limite à gestão da perda, mas que promova a criação de sentido, a resiliência e a ligação humana para que ninguém tenha de sofrer em silêncio”. Por exemplo, podem ser implementadas melhorias como “adaptação das vias de comunicação às preferências dos enlutados, para que a informação básica sobre o luto e apoios existentes possa chegar a todos; expandir a oferta de apoios – apoio em grupo, apoio baseado em atividades (caminhadas, expressão artística, entre outras atividades); disponibilidade dos serviços de apoio (horários, disponibilidade de apoio telefónico, por vídeochamada, reforço de recursos nas equipas psicossociais, entre outros)”, partilha.


“Este estudo parte da convicção de que o apoio ao luto é uma responsabilidade partilhada entre profissionais, serviços, comunidades e redes de proximidade para que os prestadores de apoio de diferentes setores se articulem melhor no acompanhamento de quem vive com uma perda”, sublinha Maja de Brito.


O inquérito pode ser aplicado em outros serviços de saúde, estando disponível em língua inglesa no artigo científico Surveying the quality of bereavement support within a service setting: A pilot study using cognitive interviewing with bereaved people, publicado na revista Palliative Medicine: https://doi.org/10.1177/02692163251353012. Para acesso à versão em língua portuguesa, as entidades interessadas devem contactar a equipa de investigação da UC, através do endereço de e-mailmaja.furlan@uc.pt.


O estudo contou também com a participação de investigadoras do King’s College London, da Universidade de Bristol, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e do ISPA – Instituto Universitário. Foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pela Fundação Calouste Gulbenkian, através do projeto DINAMO – Dinamizar formação avançada e investigação para otimizar os cuidados paliativos domiciliários em Portugal, liderado pela investigadora coordenadora da FMUC, Bárbara Gomes.


27 julho 2025

Morreu o arquiteto Nuno Portas

Rosa Pomar/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)


O arquiteto português Nuno Portas morreu este domingo em Lisboa. A informação foi confirmada pela família a vários órgãos de comunicação social. Estava internado no hospital do Mar, na Bobadela.


Nascido em Vila Viçosa em 1934, Portas foi o dinamizador do programa estatal SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) nos governos pós-25 de Abril. Além disso, recebeu vários prémios ao longo da sua carreira como é o caso do prémio Sir Patrick Abercrombie de Urbanismo, atribuído pela União Internacional de Arquitetos em 2005, e escreveu para várias revistas portuguesa e estrangeiras, sendo também consultor da Organização das Nações Unidas e da União Europeia. 


Nuno Portas era também pai de Miguel Portas (dirigente do partido Bloco de Esquerda, já falecido), Paulo Portas (antigo lider do partido CDS-PP e atual comentador televisivo) e Catarina Portas (jornalista).


Numa nota publicada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa classificou Portas como "uma das personalidades mais visionárias e brilhantes da vida académica, cultural, política e social da resistência de inspiração católica dos anos 50, 60 e 70 do século passado": "Sendo uma personalidade visceralmente solitária, dedicou-se à comunidade e deixou discípulos muito diversificados em todos os domínios em que foi excecional", acrescenta. 


Nuno Portas tinha 90 anos. 

26 julho 2025

“O meu corpo está fraco, não consigo mais”: jornalistas da AFP também passam fome em Gaza

Jaber Jehad Badwan/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)



Em meio ao genocídio imposto por Israel à Faixa de Gaza, os últimos jornalistas da Agência France-Presse (AFP) ainda presentes no território alertam: “vamos morrer de fome”. A declaração dramática foi feita pela equipe local da agência, que enfrenta não apenas os perigos da guerra desproporcional, mas também o colapso total das condições de sobrevivência na região. Sem acesso a comida, água potável, assistência médica ou possibilidade de saída segura, os profissionais relatam estar à beira de uma catástrofe humanitária pessoal.


Desde o ataque de um grupo do Hamas em 7 de outubro de 2023, Gaza tornou-se o cenário de um genocídio que já deixou cerca de 60 mil mortos, segundo autoridades de saúde locais. Nesta semana, a ONU denunciou um ‘show de horrores’ e disparada de desnutrição em Gaza. Além disso, mais de 100 ONGs denunciam ‘fome em massa’. Israel disse não ter identificado fome extrema em Gaza e nega acusações. No entanto, admitiu que pouca ajuda chega aos palestinos, e culpou a ONU por isso.


O chefe da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos, Unrwa, chegou a ressaltar que Gaza é agora “um inferno” para mais de 2 milhões de pessoas e observou que as crianças continuam morrendo de desnutrição e desidratação.


Essa escalada da crise alimentar é confirmada por Médicos Sem Fronteiras (MSF), que relatou em julho níveis sem precedentes de desnutrição aguda em duas clínicas mantidas na região, uma em Cidade de Gaza, no norte, e outra em Al-Mawasi, no sul do país. Mais de 700 mulheres grávidas e lactantes e quase 500 crianças estão em situação de desnutrição moderada ou grave. Em uma das unidades, o número de crianças desnutridas entre 6 e 23 meses triplicou entre maio e julho, atingindo 326 casos, o maior registrado pela organização no território até hoje.


Para Mohammed Abu Mughaisib, coordenador clínico da MSF, a situação é inédita: “É a primeira vez que testemunhamos uma prevalência tão grave de casos de desnutrição em Gaza. A fome poderia acabar amanhã se as autoridades israelenses permitissem a entrada suficiente de alimentos”, disse o coordenador em um texto publicado no site da organização. 


A médica Joanne Perry reforça o alerta: “Mães me pedem comida para seus filhos. Mulheres grávidas de seis meses muitas vezes não pesam mais do que 40 quilos”. Além disso, a organização denuncia o colapso do saneamento e a superlotação de abrigos, com bloqueio de alimentos, medicamentos e combustível, agravando o quadro de colapso total da saúde pública.


Nesse cenário de devastação, os jornalistas locais tornaram-se tanto testemunhas quanto vítimas. Em carta assinada pela Sociedade de Jornalistas da AFP (SDJ), publicada em 21 de julho de 2025, a agência alerta que seus últimos repórteres em Gaza estão prestes a morrer de fome: “Vemos a situação deles piorar. São jovens, estão perdendo peso e muitos já não têm mais forças físicas para trabalhar. Pedir ajuda virou parte da rotina diária”, afirma a nota, enfatizando que “se nada for feito imediatamente, os últimos jornalistas em Gaza vão morrer”.


Um dos casos mais emblemáticos é o de Bashar, fotógrafo freelancer da AFP desde 2010. Vivendo entre os escombros da casa do irmão em Cidade de Gaza, ele publicou nas redes: “Não tenho mais forças para continuar trabalhando para a imprensa. Meu corpo está fraco e não consigo mais.” Ele relatou que seu irmão mais velho havia morrido de fome. A família enfrenta extrema precariedade e casos de infecção intestinal, sem sequer conseguir usar transporte motorizado devido ao alto risco de bombardeio.


Mesmo recebendo salário mensal simbólico da AFP, os jornalistas não conseguem comprar alimentos. O sistema bancário colapsou e taxas de até 40% encarecem qualquer transação. A AFP diz não conseguir abastecer veículos; os deslocamentos só ocorrem a pé ou em carroças de tração animal.


Crimes de guerra


Para Cilene Victor, jornalista e professora da Universidade Metodista de São Paulo, o bloqueio da ajuda humanitária em Gaza configura uma grave violação das normas internacionais. “Provocar a morte por inanição é uma forma horrenda de crime de guerra. Israel conseguiu atualizar todas as formas de violação de direitos humanos, e isso inclui jornalistas sendo colocados sob risco real de morrer de fome”, afirma Cilene, que também é líder do grupo de pesquisa Jornalismo Humanitário e Media Interventions, da universidade. 


A pesquisadora denuncia o apagamento da importância dos jornalistas locais. “Parece que esses jornalistas valem menos para a sociedade internacional, como se fossem só mais um palestino entre os outros deixados para trás. Mas são eles que conhecem cada curva daquele território, são eles que garantem que a informação continue saindo mesmo quando o mundo se cala”, pontua.


O testemunho da jornalista Ahlam reforça o cenário de abandono: “Toda vez que saio para uma entrevista, não sei se voltarei viva.” Para ela, “o maior problema é a falta de comida e água.”


A FDJ destaca: “Desde que a AFP foi fundada, em agosto de 1944, alguns de nossos jornalistas foram mortos em conflitos, feridos ou feitos reféns. Mas nunca houve registro de que tivéssemos de assistir colegas morrerem de fome.”


Cilene conclui que “é urgente que Israel permita a entrada da imprensa internacional. Gaza virou um lugar onde o jornalismo praticamente desapareceu.”


Em 2024, mais de 60 veículos internacionais assinaram uma carta conjunta pedindo a proteção dos jornalistas que ainda atuam na região. O documento cobra a criação de corredores humanitários seguros e acesso à ajuda internacional para trabalhadores da imprensa, que seguem expostos a bombardeios, fome e doenças. Porém, a realidade piorou. “Gaza inteira hoje é uma cena de tamanha afronta moral e humanitária. É o inaceitável se tornando cotidiano”, resume Cilene Victor.


20 julho 2025

Investigação apresenta novo modelo para compreender os impactos individuais da prevenção da cultura de cancelamento

iLixe48/Envato Elements


Um estudo recente realizado no Centro de Investigação e de Intervenção Social do Iscte-Instituto Universitário de Lisboa (CIS-Iscte) introduz o modelo de Pressão para uma Conduta Perfeita (PPC, do inglês Pressure for a Perfect Conduct), concebido para explicar a forma como os indivíduos experimentam e respondem à cultura do cancelamento.


Com o rápido crescimento da Internet e das redes sociais, as pessoas podem hoje comunicar entre si mais facilmente do que nunca. Neste contexto, as plataformas digitais podem imortalizar a informação, tendo-se tornado cada vez mais locais de escrutínio da nossa atividade passada. Com esta possibilidade, surgiu também a sensação de vigilância constante dos discursos, com a consequente autovigilância e autocensura para evitar ser-se alvo de cancelamento. A cultura de cancelamento (cancel culture) pode ser definida como a prática generalizada, em grande parte impulsionada pelas redes sociais, em que indivíduos ou grupos retiram coletivamente o apoio a uma pessoa, empresa ou organização que se considera ter agido de forma ofensiva ou imoral. De acordo com os autores, esta cultura de cancelamento “funciona como uma forma moderna de vergonha pública ou de responsabilização, muitas vezes descrita como um ‘tribunal de opinião pública’ digital”.


Os autores desta investigação – Tiago Rôxo Aguiar (CIS-Iscte & BRU-Iscte), Diniz Lopes (CIS-Iscte) e Thomas R. Brooks (New Mexico Highlands University) – consideram que, nestas condições, as pessoas são impulsionadas a procurar a perfeição para evitar o escrutínio e o cancelamento online. Assim, propõem um novo conceito – a Pressão para uma Conduta Perfeita (PPC) – e um novo modelo teórico para explorar os efeitos individuais que surgem da prevenção do cancelamento.


No artigo publicado, a PPC é descrita como “a pressão que uma pessoa sente para se comportar de forma perfeita sob a ameaça de ser cancelada”. Esta pressão está fortemente enraizada no conceito de perfecionismo, no sentido em que as pessoas estabelecem padrões pessoais excessivamente elevados e se envolvem em autoavaliações demasiado críticas para evitar erros a todo o custo. É frequente observarmos pessoas que se retratam como tendo um corpo perfeito ou um estilo de vida perfeito, que constituem exemplos de como o perfecionismo está intrinsecamente ligado às redes sociais. Os autores explicam que “como ser cancelado pode resultar em desaprovação social, danos à reputação ou outras consequências negativas” (por exemplo, J.K. Rowling), a ameaça de ser cancelado motivará as pessoas a manter uma persona online altamente cuidada e polida para evitar repercussões.


Com base em investigação desenvolvida em vários subcampos da Psicologia Social, os investigadores explicam que a cultura do cancelamento pode servir como um mecanismo de controlo para reforçar um leque de valores e/ou comportamentos, levando a uma mais elevada autovigilância e a autoapresentação perfeita. A adoção destes comportamentos seria uma estratégia adaptativa para evitar o cancelamento através da variável psicológica mediadora aqui apresentada (a pressão para uma conduta perfeita). “O modelo teórico que propomos considera cinco variáveis que predizem esta pressão para uma conduta perfeita: a auto-pressão percebida e o estatuto percebido, que se relacionam com aspirações perfecionistas; e as repercussões do cancelamento percebidas, a identidade de grupo e o nível de concordância com a opinião pública, que se relacionam com preocupações perfecionistas”, esclarece Tiago Rôxo Aguiar, doutorando em Psicologia no Iscte e primeiro autor deste artigo científico.


No estudo, a equipa de investigação avaliou empiricamente a validade externa do modelo proposto, realizando entrevistas exaustivas com 20 utilizadores e utilizadoras de redes sociais em Portugal. Através da análise de conteúdo das transcrições das entrevistas, a equipa explorou a forma como a cultura de cancelamento influencia o comportamento online e offline, a saúde mental e as opiniões das pessoas. Os e as participantes relataram sentir uma pressão considerável para se comportarem de forma a reduzir as possibilidades de virem a ser canceladas. Impulsionadas pela constante monitorização e julgamento dos outros, esta pressão levaria então a um sentido elevado de autovigilância e comportamentos ligados à autocensura.


Embora investigação prévia não seja consensual quanto à existência ou à valência da cultura de cancelamento, os dados deste estudo sugerem que pessoas leigas reconhecem o fenómeno e consideram que o cancelamento pode ser realizado a qualquer pessoa, e não apenas por figuras poderosas. Além disso, participantes afirmaram que esta pressão para uma conduta perfeita pode ter impacto na saúde mental das pessoas e nas suas interações sociais, tanto para quem é cancelado como para quem cancela. “Os resultados globais, embora obtidos com uma amostra limitada, apoiam o potencial do modelo enquanto ferramenta de investigação futura para quantificar e prever como a cultura de cancelamento afeta as pessoas em diferentes contextos”, concluem os autores.


Ao propor uma abordagem estruturada para avaliar os efeitos psicológicos da cultura de cancelamento, esta investigação abre novas possibilidades para a investigação psicossocial. Também leva a sociedade a considerar as implicações do vigilantismo online na saúde mental e a necessidade de intervenções para atenuar os seus efeitos adversos. Em termos gerais, o estudo oferece um enquadramento fundamental para a compreensão e a abordagem dos efeitos pessoais da cultura de cancelamento na era digital, com a clara necessidade de desenvolver mais investigação sobre o tópico.


15 julho 2025

"O Verão em que Me Apaixonei" regressa para última temporada

 


Amazon Prime Video/Divulgação


São os últimos 11 episódios de "O Verão Em Que Me Apaixonei". A terceira temporada série original da plataforma de streaming Amazon Prime Video estreia esta quarta-feira. 


Depois de se ter tornado um fenómeno de audiências, a nova temporada da versão televisiva do sucesso de Jenny Han, o "drama multigeracional" chega agora ao fim: "Gira em torno de um triângulo amoroso entre uma jovem e dois irmãos, a relação em mudança entre mães e filhos e o poder de uma forte amizade feminina", descreve a plataforma, acrescentando que a série "é uma história de amadurecimento sobre o primeiro amor, o primeiro desgosto e a magia de um verão perfeito". Os romances de Han foram, aliás, publicados em mais de 30 idiomas e foram adaptados a televisão para a Amazon Prime Video. A escritora é também produtora executiva da série "XO, Kitty" e de três filmes da triologia "All The Boys", da Netflix. 


Nesta terceira temporada, Belly está no final do terceiro ano da universidade e aguarda por mais um verão junto de Jeremiah, a sua "alma gémea". Tudo parece estar a seguir o curso normal, "até que alguns acontecimentos emocionantes trazem o seu primeiro amor, Conrad, de volta. Agora, quase a chegar à vida adulta, Belly encontra-se num dilema e tem de decidir que irmão tem o seu coração". 


A série ficará disponível para todos os subscritores da plataforma em mais de 240 países e territórios. 



 

09 julho 2025

Lisboa e Porto são das cidades mais "LGBTI+ friendly" do mundo

andreonegin/Envato Elements


Segurança, vida noturna e políticas inclusivas. Estes foram os três fatores que fizeram com Lisboa e o Porto fossem eleitas como as cidades mais "LGBTI+ friendly" pela plataforma Big 7 Travel. 


Numa nota enviada às redações esta quarta-feira, a Plataforma Portugal Pride indica que o ranking foi lançado em junho passado e que a capital portuguesa e a cidade "Invicta" ultrapassaram cidades como Madrid, Londres ou Amesterdão: "Este reconhecimento internacional é visto como fruto de uma aposta estratégica de longo prazo de Portugal no turismo LGBTI+, iniciada em 2017", frisa a entidade. 


Para o coordenador da Portugal Pride Diogo Vieira da Silva, o progresso português deve-se em grande parte a privados e à sociedade civil, "que preencheram uma lacuna nas entidades oficiais. Até hoje, as agências nacionais e regionais de promoção turística não têm equipas dedicadas ao segmento LGBTI+, ao contrário de outros mercados", critica. 


Apesar destes entraves, a verdade é que o país é o único a figurar no top 10 da Big 7 Travel com duas cidades. A "Invicta" ocupa o terceiro lugar do top e é descrita como tendo "uma sensação de inclusão e aceitação, independentemente on se vá", destacando a rua das Galerias de Paris como um dos pontos LGBTI+ principais. Já Lisboa é a líder e é descrita como "pioneira no desenvolvimento de uma comunidade segura, solidária e divertida para pessoas queer". A Big 7 Travel diz mesmo que todo o país é "LGBTI+ friendly", quando reforça que Portugal "despenalizou a homossexualidade em 1982 e foi o oitavo país do mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010". 


Para Silva, esta visão sobre o país é fruto da estratégia de aposta na promoção de Portugal como um destino inclusivo, algo que deve continuar com a nova Estratégia de Turismo 2035, um documento que deverá ser apresentado ainda este ano, lembrando que o país "foi dos primeiros países do mundo a promover-se internacionalmente como destino LGBTI+". Caso a promoção não continue com a nova Estratégia, para o consultor,  será algo "preocupante": "Os retornos económicos deste segmento são evidentes e a sua ausência numa estratégia só se explicaria por motivos ideológicos, não por falta de valor económico".


A perspetiva de Silva é sustentada por dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (ou "World Travel & Tourism Council", em inglês), que indica que o turismo LGBTI+ já representa mais de 200 mil milhões de dólares (cerca de 170,6 mil milhões de euros). Por seu turno, a Organização Mundial de Turismo estima mesmo que entre 5 a 10% de todos os turistas a nível mundial são do segmento LGBTI+, sendo que são consumidores que viajam com maior frequência e gastem mais que outros segmentos. 


Além de Lisboa (1.º lugar) e Porto (3.º), Dublin, na Irelanda, ocupa a segunda posição do top. Londres (Reino Unido), Madrid (Espanha), Berlim (Alemanha), Amesterdão (Países Baixos), São Francisco (Estados Unidos da América), Toronto (Canadá) e Sidney (Austrália) completam o top 10. 

Planeamento de ruas verdes em Portugal não se alinha com o envelhecimento ativo

Alexandros Giannakakis/Unsplash


Apesar dos impactos ambientais positivos que se têm observado com o desenvolvimento das ruas verdes, estudo realizado no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa alerta para o facto de frequentemente não incluírem elementos essenciais para as pessoas mais velhas, como pavimentos acessíveis, zonas de descanso ou medidas de segurança, levantando preocupações sobre inclusão social.


Um pouco por todo o mundo, têm vindo a ser desenvolvidas políticas de mobilidade ativa com o objetivo de reduzir a emissão de gases com efeito de estufa para mitigar o impacto das alterações climáticas. A criação de mais espaços verdes e de ciclovias são algumas dessas medidas. Contudo, um estudo realizado no Iscte alerta para a necessidade de o planeamento urbano considerar as políticas públicas de envelhecimento ativo.


Neste estudo, a equipa de investigação explorou a intersecção entre o planeamento urbano e a inclusão, focando-se em como as ruas verdes, fundamentalmente as que integram vegetação e mobilidade suave, podem apoiar a mobilidade e o bem-estar de adultos mais velhos. “O planeamento do desenho urbano das ruas verdes tem tido como premissa a mitigação das alterações climáticas e a promoção do bem-estar, vindo, por isso, a englobar o incremento em espaços verdes e de exercício físico, e a criação de ciclovias”, explica André Samora-Arvela, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador integrado do Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetura (ISTAR-Iscte), primeiro autor do estudo. “Neste estudo avaliámos o grau de alinhamento das políticas públicas de mobilidade ativa e de envelhecimento ativo a nível internacional, nacional e local que, neste caso, se refere à cidade de Lisboa”, esclarece o investigador. O objetivo foi diagnosticar em que medida as políticas de mobilidade ativa consagram o respeito pelas diretrizes das estratégicas de envelhecimento ativo.


Os resultados do estudo sugerem que embora as políticas internacionais e municipais enfatizem atualmente ambientes urbanos amigos das pessoas idosas e, as estratégias de envelhecimento ativo em Portugal permanecem desligadas das políticas de mobilidade ativa. “Em linha com o panorama internacional, os nossos resultados indicam que Portugal tem avançado na definição de políticas de mobilidade sustentável impulsionadas pelas metas climáticas” afirma Sara Eloy, arquiteta, professora na Universidade de Antuérpia e investigadora associada do ISTAR-Iscte. De acordo com esta análise, a mobilidade ativa (pedonal e ciclável) em Portugal parece ter resultado essencialmente da experiência e do estudo das políticas implementadas em Lisboa, exemplificando como a prática municipal pode influenciar a prática nacional. Contudo, em contraste com as políticas internacionais, as políticas de envelhecimento em Portugal afiguram ainda como desarticuladas das de mobilidade ativa.


Por que é importante considerar o envelhecimento ativo nas políticas de mobilidade e no planeamento urbano?


De acordo com Sibila Marques, psicóloga social, professora do Iscte e investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), “incluir estratégias de envelhecimento ativo nas políticas de mobilidade é fundamental para promover cidades mais acessíveis, seguras e inclusivas para todas as pessoas”. Se o desenvolvimento de ruas não considera o ponto de vista das pessoas mais velhas, “corremos o risco de aumentar o seu isolamento social, diminuir a sua autonomia, reforçando desigualdades sociais e o idadismo”, alerta a investigadora. Mariana Montalvão, bolseira de investigação no CIS-Iscte, relembra ainda que um mau desenho de ruas pode “colocar em risco a segurança das pessoas mais velhas” dando como exemplo a calçada portuguesa, que, devido à falta de manutenção, constitui, muitas vezes, um perigo para pessoas de qualquer idade. Representando uma questão de justiça social e inclusão, estes e outros riscos podem comprometer a qualidade de vida dos idosos com potencial de aumento da pressão sobre os sistemas de saúde e de cuidados.


Para esta equipa de investigação, a análise realizada permite concluir que as ruas verdes e iniciativas relacionadas com a transição climática têm sido desenvolvidas principalmente ao nível municipal, mas frequentemente sem uma consistente abordagem participativa ou inclusiva. “Para criar cidades verdadeiramente inclusivas é essencial considerar também o ponto de vista das pessoas mais velhas através de, por exemplo, projetos participativos”, sugere e enfatiza Sibila Marques.


“Para serem bem-sucedidas, as políticas devem ser implementadas com todos e para todos”, pode ler-se na conclusão do artigo publicado. Este estudo foi realizado no âmbito do projeto GreenCity4Aging (REF. 2022.03478.PTDC), financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e coordenado por Sibila Marques e Sara Eloy.


30 junho 2025

Investigadores desenvolvem método inovador para tornar modelos de IA mais explicáveis e confiáveis na indústria

Universidade de Coimbra


O avanço acelerado das soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA) tem levantado um dos maiores desafios atuais: a confiança humana nos modelos de alto desempenho, sobretudo pela dificuldade em compreender como tomam as suas decisões. Esta questão é particularmente crítica em ambientes industriais, onde é imperativo que os sistemas sejam não só exatos, mas também transparentes e explicáveis para garantir a segurança e eficácia das operações.


Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) propôs uma metodologia inovadora que permite extrair conhecimento interpretável a partir de modelos complexos de IA, tornando-os acessíveis aos operadores industriais. A abordagem baseia-se na utilização de sistemas de lógica difusa (fuzzy systems), para representar as dinâmicas dos processos industriais de forma simples, mas eficaz.


«Este método foi desenvolvido com base numa arquitetura do tipo “professor-aluno” (knowledge distillation), onde um modelo complexo (NFN-LSTM), que combina redes neuronais do tipo Long Short-Term Memory com lógica difusa, serve de referência para treinar um modelo mais simples e interpretável (NFN-MOD). Este último recorre a funções com entradas atrasadas para simular a memória temporal do processo, aliando desempenho à compreensibilidade», explica Jorge S. S. Júnior, aluno de doutoramento do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC) da FCTUC.


De acordo com a equipa de investigadores, esta investigação demonstrou a eficácia da metodologia em dois casos de estudo com dados reais: uma unidade de recuperação de enxofre e um processo de moagem na indústria cimenteira. Em ambos, o modelo NFN-MOD conseguiu replicar o comportamento do modelo professor com elevada precisão, ao mesmo tempo que oferecia explicações claras sobre os fatores que influenciam eventos críticos, como picos de emissões de gases nocivos ou variações na concentração de resíduos.


«Além disso, o modelo introduz uma nova forma de análise contextual, permitindo aos operadores compreender melhor os diferentes cenários industriais e apoiar a tomada de decisões. O método promete, assim, aumentar significativamente a confiança nos sistemas de IA e otimizar o controlo de processos em ambientes industriais exigentes», conclui a equipa de investigadores.


Este trabalho foi desenvolvido no âmbito da tese de doutoramento de Jorge S. S. Júnior, sob orientação de Jérôme Mendes, investigador do Centro de Engenharia Mecânica, Materiais e Processos (CEMMPRE), e coorientação de Cristiano Premebida, investigador do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR), em colaboração com Francisco Souza (imec-NL, OnePlanet Research Center, Países Baixos).


O artigo “Distilling Complex Knowledge Into Explainable T–S Fuzzy Systems”, publicado na revista IEEE Transactions on Fuzzy Systems, pode ser consultado aqui. Esta publicação foi destacada na IEEE Computational Intelligence Society (CIS) Newsletter como “Research Frontier”.


29 junho 2025

Genocídio em Gaza: palestiniano, que perdeu pelo menos 56 familiares, parou de contar os mortos

Iason Raissis/Unsplash



O Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, citado pela agência WAFA (Agência de Notícias da Palestina), divulgou dados alarmantes na última terça-feira, 17 de junho: mais de 55 mil mortos e 130 mil feridos desde 7 de outubro de 2023. Uma guerra que já ultrapassa os 600 dias, com raízes históricas profundas, e que se expande com novos ataques a outros países do Oriente Médio, como os recentes bombardeios de Israel ao Irã.


Para analisar os conflitos em Gaza e as consequências globais do genocídio contra os palestinos, o Pauta Pública da semana recebeu o jornalista Ramzy Baroud. Descendente e refugiado palestino, Baroud viveu na pele perdas irreparáveis. Ele relata ter parado de contabilizar seus familiares mortos após a perda de 56 pessoas, incluindo sua irmã, uma médica assassinada por um drone israelense enquanto tentava salvar vidas. “Ela morreu em um massacre, depois de ver corpos mutilados implorando ajuda. Na última ligação que fez, me disse que seu corpo estava ali, mas seu espírito tinha morrido”.


Ao longo da conversa, Ramzy recorda as dores e denuncia o apagamento e a omissão global diante das mortes de civis inocentes. “Não é possível dizer que não sabíamos. Isso está acontecendo ao vivo, há mais de 600 dias. E ainda assim, seguem fornecendo armas, apoio político e legitimidade”, critica. Para ele, o que ocorre em Gaza não é um conflito: “Estamos lidando com psicopatas que chegaram a um ponto, em que não só deixaram de ver qualquer fragmento da humanidade de suas vítimas, como também perderam sua própria humanidade.”


Leia os principais trechos da entrevista e ouça o podcast completo para aprofundar a compreensão sobre este tema crucial.



A saga de uma família refugiada: vítimas de um genocídio em curso


Ramzy Baroud reflete sobre a complexidade de sua posição como intelectual e jornalista ao relatar uma história que afeta diretamente sua comunidade. “Isso cria não exatamente um dilema, mas te puxa emocionalmente pra dentro da história”. Ele menciona o conceito acadêmico de posicionalidade, onde se fala não apenas como narrador, mas como ator na história. Contudo, jamais imaginou que sua família seria vítima ativa de um genocídio.


O jornalista revela ter perdido “centenas, sem exagero, 56 membros da minha família direta” antes de interromper a contagem. “Não valia a pena continuar”, desabafa. Ele descreveu a angústia de receber mensagens de familiares no sul de Gaza perguntando sobre o destino de parentes no norte, a poucos quilômetros de distância, sem comunicação. A dificuldade de reportar sobre as perdas enquanto tenta humanizar as vítimas, ao mesmo tempo em que precisa fornecer números e estatísticas para dimensionar a tragédia, é um desafio constante. “É mais do que inacreditável e eu nem estou mais lá. Imagine estar em Gaza e viver essa experiência, sendo jornalista e sendo alvo do exército israelense.”


O sacrifício de uma médica: a história da irmã de Ramzy


Perguntado sobre sua irmã, Ramzy Baroud a descreve como muito mais do que uma médica comum. “Minha irmã foi um exemplo do empoderamento das mulheres em Gaza. Ela era uma líder comunitária”, contou. Ela mobilizava a comunidade para lidar com doenças e angariar fundos para hospitais. Entre cinco irmãos e uma irmã, ela era a única que permaneceu em Gaza, tornando-se a representante da família para aqueles que tiveram que partir.


Com o início da guerra, seu papel como médica e mãe se intensificou. Poucos meses antes de seu martírio, seu marido, chefe do departamento de direito da Universidade Al-Azhar e intelectual respeitado, foi morto. Ele tinha dificuldades de locomoção devido a um problema nervoso e era cuidado por ela. Quando o exército israelense atacou o sul de Gaza, ele se recusou a fugir, mas cedeu à insistência da família. Ele saiu com os filhos, mas foi atingido na cabeça por uma bala ou projétil de drone e morreu no local, implorando para que os filhos fugissem.


Os filhos se recusaram a deixar a área, mesmo em meio a massacres, na esperança de recuperar o corpo do pai. Essa busca se tornou uma obsessão para a irmã de Ramzy nos últimos meses de sua vida, mas ela não conseguiu dar um enterro digno ao marido. Ela vivenciou o massacre de Nuseirat, um campo de refugiados atacado pelo exército israelense com apoio americano.


Ramzy recorda a última ligação com a irmã: “Ela me disse que tinha morrido naquele dia, que ela só existia no corpo, mas sua mente, seu espírito, estavam em outro lugar.” Ela descreveu ter visto “centenas de corpos mutilados nas ruas”, implorando por ajuda. “Como eu reconstruo corpos mutilados quando não há recursos, nem assistência médica, nem nada? Eu simplesmente congelei”, conta Ramzy sobre o que disse a irmã. Ela percebeuque as pessoas continuavam morrendo em suas mãos. “Ela disse que morreu naquele dia.”


Após o trauma, a irmã de Ramzy buscou refúgio nos destroços de sua casa, onde dormiu por dias. Em uma de suas idas e vindas para o hospital Nazer, em Yunis, um drone israelense a perseguiu e a matou. “Foi claramente um ato de assassinato”, afirma Ramzy, explicando que Israel visava eliminar médicos palestinos que trabalhavam em áreas que desejavam destruir. “Mataram centenas de médicos e profissionais de saúde, e queriam ter certeza de que ela também fosse embora, e foi assim, sabe, que ela foi embora.”


O papel da comunidade internacional, dos governos e dos media


Ramzy Baroud critica a inação da comunidade internacional, governos e mídia diante do genocídio em Gaza. Ele argumenta que, embora em outras disputas a inação possa ser compreensível, no caso palestino, “todos sabiam o que estava acontecendo”. O discurso genocida, segundo ele, sempre fez parte do sionismo israelense por 100 anos, culminando na fala aberta de expulsar e eliminar palestinos. A desumanização, comparando palestinos a “bestas” ou “baratas”, é um discurso racista familiar em outros massacres históricos.


Para Ramzy, Israel não é o único responsável pelo genocídio. “Cada editor, cada jornal, cada autoridade, cada político, cada humanitário, cada pessoa que conhece o discurso vindo de Israel e o marginalizou intencionalmente, sem noticiar, também é responsável pelo genocídio.”


Aqueles que tentaram encobrir os crimes israelenses no início do genocídio também são cúmplices. Agora, até a grande mídia e líderes como Emmanuel Macron falam abertamente sobre genocídio e crimes de guerra. Baroud sugere duas razões para esse “súbito despertar moral” do Ocidente: primeiro, a tentativa de proteger seus legados históricos de uma mancha duradoura; segundo, a percepção de que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu não conseguiu “concluir o trabalho” após mais de 600 dias, levando-os a tentar “salvar” a situação.


Tortura em direto e conteúdo para redes sociais


Um novo e perturbador componente deste genocídio é a transmissão ao vivo da tortura e assassinato de civis, aliada à criação de conteúdo para redes sociais, critica Ramzy Baroud. Ele descreve vídeos de soldados israelenses dançando entre ruínas, destruindo casas, vestindo roupas de vítimas e jovens israelenses cantando sobre queimar vilas. Ele questiona como isso influencia a visão do mundo sobre o conflito.


Segundo ele, historicamente, a relação entre palestinos e israelenses era vista como um “conflito”. Embora se pudesse apoiar os palestinos e reconhecer a ocupação israelense, a ideia de “conflito” ainda prevalecia. No entanto, o que se vê agora “vai além de qualquer contextualização racional”. Ramzy descreve os perpetradores como “psicopatas” que não só perderam a capacidade de ver a humanidade de suas vítimas, mas também a sua própria humanidade. Ele argumenta que, se um psicopata não percebe sua condição, e é capacitado com armas e bombas por outros, permitindo-lhe “mutilar os mortos”, a situação se torna ainda mais grave.


Para ele, este genocídio difere de outros no passado por sua natureza contínua e pela impossibilidade de fuga para milhões de pessoas em um local já cercado e desnutrido. “Você está falando de um grupo de milhões de pessoas que estão vivendo em um local já cercado, já desnutridas, e não têm como escapar”, enfatiza. Mesmo as “zonas de segurança” se tornam locais de morte. “Estamos lidando com um tipo de genocídio que você nem sabe como processar mentalmente. Isso ocorre diariamente, e qualquer pessoa pode ser morta a qualquer momento e sem motivo algum.”


28 junho 2025

Conselho Superior de Magistratura alvo de ataque informático

NomadSoul/Envato Elements


O Conselho Superior de Magistratura foi alvo de um ataque informático este sábado, colocando o seu site indisponível. Segundo a CNN Portugal, a origem do ataque ainda não foi identificada. 


O ciberataque focou-se apenas no site institucional, não havendo, atualmente, indícios de que outros sistemas com dados pessoais tenham sido atacados, até porque, ao contrário destes, o site está alojado num servidor externo e disponibiliza apenas informações públicas. Aos meios de comunicação social, o Conselho confirma o ataque e refere que o seu "Serviço de Informática está a proceder à análise e à reposição da plataforma a partir de cópias de segurança". 


O site esteve a encaminhar os visitantes para um site indonésio de venda online de medicamentos até que a equipa informática conseguiu recuperar o controlo da plataforma. Atualmente, quem visitar a página verá um erro genérico, indicando a indisponibilidade da plataforma. A recuperação total poderá demorar alguns dias. 


O ciberataque já foi comunicado às autoridades. 

22 junho 2025

Trump diz que EUA realizou ataques "muito bem sucedidos" contra instalações nucleares iranianas, incluindo Fordow

The Whit House (Domínio Público)



- em atualização - 


O Presidente dos Estados Unidos da América Donald Trump referiu que os militares estadunidenses atacaram três instalações nucleares no Irão - Fordow, Natanz e Esfahan - e que os aviões que realizaram a missão já estão a regressar aos EUA.


“Concluímos o nosso ataque muito bem sucedido às três instalações nucleares no Irão, incluindo Fordow, Natanz e Esfahan”, escreveu Trump este sábado numa publicação nas redes sociais. "Todos os aviões estão agora fora do espaço aéreo do Irão. Uma carga completa de BOMBAS foi lançada no local principal, Fordow. Todos os aviões estão a caminho de casa em segurança", escreveu


A emissora pública israelita KAN citou um funcionário israelita que afirmou que os ataques foram efetuados em plena coordenação com Washington.


As autoridades iranianas não comentaram imediatamente o anúncio.


Trump estava a ponderar o envolvimento militar direto dos EUA na guerra entre Israel e o Irão e tinha previsto reunir-se com a sua equipa de segurança nacional este sábado. Agora diz que vai fazer um comunicado ao país às 22h00, hora local.


O anúncio foi feito apenas dois dias depois de Trump ter afirmado que decidiria “dentro de duas semanas” se se juntaria a Israel no ataque ao Irão no seu esforço para destruir as instalações nucleares iranianas.


Este sábado foi noticiado que os bombardeiros stealth B-2 dos EUA - capazes de transportar as chamadas bombas destruidoras de bunkers - estavam a sair dos Estados Unidos e a atravessar o Oceano Pacífico.


As autoridades estadunidenses e israelitas tinham dito anteriormente que os EUA eram o único país com capacidade para atacar as instalações nucleares iranianas enterradas no subsolo.


Trump repostou um post nas redes sociais no X pela Open Source Intel que dizia: “Fordow foi-se”.


Israel e o Irão têm trocado várias ondas de ataques devastadores desde que Israel lançou uma campanha aérea a 13 de junho, afirmando que Teerão estava prestes a desenvolver uma arma nuclear. O Irão nega que o seu programa nuclear vise a construção de uma bomba atómica.


O Presidente do Irão Masoud Pezeshkian afirmou ainda este sábado que o Irão não iria suspender o seu programa nuclear “em nenhuma circunstância” e o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano Abbas Araqchi avisou que o envolvimento militar dos EUA no programa nuclear “seria muito, muito perigoso para todos”.


Falando à margem de uma reunião da Organização de Cooperação Islâmica na Turquia, Araqchi disse que o Irão estava aberto a mais diálogo, mas sublinhou que o Irão não tinha interesse em negociar com os EUA enquanto Israel continuasse a atacar.


Numa chamada telefónica com o Presidente francês Emmanuel Macron, Pezeshkian disse que o Irão estava “pronto para discutir e cooperar para criar confiança no campo das actividades nucleares pacíficas”.


“No entanto, não concordamos em reduzir as atividades nucleares a zero em nenhuma circunstância”, acrescentou, de acordo com a agência de notícias oficial iraniana IRNA.


Israel disse este sábado que matou mais três comandantes iranianos na sua ofensiva, enquanto o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irão anunciou que uma “vasta” onda de “drones suicidas” tinha sido lançada contra “alvos estratégicos” em Israel.


19 junho 2025

A imprensa regional anda a definhar há 50 anos

DragonImages/Envato Elements


No seguimento dos artigos onde falei e continuarei a falar sobre o jornalismo regional, temos que, sem sombra de dúvida, dedicar um capítulo para falar da forma como os órgãos de comunicação social regionais se formam e gerem, bem como também escamotear o que de facto está mal e devia ser corrigido, no que concerne ao financiamento das empresas que gerem os títulos de comunicação.


Primeiramente, temos de entender que os órgãos de comunicação regionais, antes de o serem, em primeiro lugar são empresas, ou outra qualquer forma jurídica fiscal, devidamente legal e autorizada. Depois de devidamente constituído o veículo comercial e fiscal, inicia-se o processo de registo junto à ERC, do novo órgão de comunicação pretendido. Após a aprovação, pode-se iniciar o trabalho de comunicação, seja em que formato for, através de texto, áudio, som, televisão, no online, impresso, ou em ambos. 


O problema começa após 6 meses, em que e por via da dimensão da maior parte dos órgãos de comunicação regionais existentes, (arrisco dizer talvez mais de 80%), não existe capacidade financeira para criar uma estrutura comercial que traga retorno para a empresa detentora do título em atividade (salvo obviamente alguns títulos que o conseguem, felizmente). A parca publicidade angariada depressa se esgota, e o jornalismo regional não sendo apoiado estatalmente ou localmente, pelo trabalho que faz, sendo a primeira linha de uma democracia sã (dizem os entendidos), na minha opinião cada vez mais instável, não resta outra hipótese que é a de começarem a criar buraco financeiro, fechando a atividade algum tempo depois, ou mesmo emagrecerem o título para os serviços mínimos, ansiando que alguma coisa vá mudar no futuro. 


Isto, caros leitores e colegas, advém da má regulação do setor por parte do estado, bem como de uma política de apoios financeiros, quase em exclusivo para os órgãos nacionais, em detrimento dos regionais. Aplaude-se o trabalho do jornalismo regional, no levantamento de questões fundamentais, na divulgação do que de melhor se faz, semanalmente, nos concelhos, mas depois não se criam mecanismos de apoio financeiros. Pede-se que façamos gratuitamente este trabalho, sem pensarem que existem custos e nem sempre a publicidade angariada cobre os custos de exploração (ordenados, equipamento, rendas e gestão diária). 


A publicidade nacional privada, raramente baixa aos regionais, fruto de e mais uma vez, uma má regulação do setor. Eu percebo que não caiba ao governo dizer às empresas que tem de gastar determinado valor no jornalismo regional, pois sendo empresas privadas, não se pode, de modo algum, condicionar a liberdade de escolha dos veículos publicitários que usam para divulgar os seus produtos, mas o governo também pode recusar determinadas adjudicações, mediante determinados posicionamentos. Ou não? Conhecem o regulamento que obriga as rádios (públicas ou privadas) a passarem uma determinada percentagem de música portuguesa, em função da que não é? Neste caso, e a bem da música portuguesa, o governo impõe esta condição. Porque não e em defesa do jornalismo regional, também impor-se que as empresas que trabalhem para o estado (central ou local), e nos seus orçamentos de marketing, terem de cativar uma verba para apoiar a imprensa regional? É assim tão censurável? Penso que não e resolveria uma grande parte dos problemas neste setor.


A somar ao problema de uma prática já enraizada, de que raramente as marcas nacionais estão presentes nos órgãos regionais, pelo menos com alguma expressão, é o próprio governo que não dá o exemplo. O valor que cativa anualmente para adjudicar publicidade no setor regional da comunicação, raramente tem uma execução que ultrapassa metade do previsto, simplesmente porque os ministérios e as secretarias de estado estão-se nas tintas. É mais confortável e rápido negociar com 4 ou 5 grupos que detém 80% dos órgãos nacionais, a terem de construir uma plataforma que vise trabalhar com o setor regional. O mais caricato é que a verba para o regional, em larga medida, nada tem a ver com as verbas para o nacional (falo apenas de publicidade, nada mais). Ou seja, se determinado ministério não gastar a verba afeta ao setor regional, simplesmente essa verba não transita para outra rúbrica, dando-se, no final do exercício, como não executada, figurando nas contas do governo, na rúbrica da não execução orçamental, no final do ano. Interpelando-se estes senhores dos ministérios, sobre a razão destes procedimentos em relação ao setor regional, têm a devida lata de dizer que os jornais regionais é que não se aproximam e não enviam propostas. Em 2022,2023, 2024 e 2025, tive o cuidado de contatar 8 ministérios e 4 secretarias de estado, bem como 23 institutos públicos (fiz isto todos os anos), que dependem do orçamento de estado, nomeadamente e no que concerne à rúbrica da publicidade. Em 4 anos de contatos, em mais de 150 e-mails e 65 chamadas feitas, o resultado foi ZERO. Nem uma adjudicação, nem um pedido de orçamento, e a taxa de ausência de respostas por parte dos destinatários, ronda os 95%. 


Com isto não digo que não existam órgãos regionais que fazem adjudicações ao estado, mas são muito poucos, contando-se pelos dedos. Nas adjudicações ao poder regional (quase em exclusivo às câmaras), existe uma inversão de 180 graus. As câmaras continuam a ser ainda o maior cliente da imprensa regional, embora, na minha opinião, terá de se regular o acesso a essas adjudicações, no sentido de permitir uma maior clareza que possa tornar mais independente a relação de certos órgãos com o poder local. Mas isto dá outro artigo!


No governo anterior, iniciou-se um trabalho com o ex-secretário de estado (agora Ministro) e mesmo com o Ministro da tutela da altura (agora candidato à CM do Porto), e embora não seja ainda a solução perfeita, é um começo. Mas como já referi em artigo anterior, receio que esse trabalho seja para meter na gaveta, se o setor regional não se mexer, organizar-se e começar a fazer algum barulho. 


Tem de se perceber que ao governo em exercício (qualquer um), não interessa reforçar os poderes dos jornalistas. Governos caem e são eleitos em Portugal e no mundo, muito devido à ação de um verdadeiro jornalismo independente, que denuncia o que mal está e consequentemente faz cair secretários de estados, ministros e governos. Como os governos não podem tocar nos nacionais, exercem uma espécie de vingança nos regionais. Vão dando umas migalhas de vez em quando (e às vezes uns doces), mas o verdadeiro manjar dos deuses é sempre para os mesmos. 


Há que rapidamente alterar esta política. Nos últimos 20 anos fecharam mais de metade dos títulos regionais e neste momento mais de 80% do que existe ainda em atividade encontra-se com grandes dificuldades de solvência. 


Há que fazer um trabalho urgente de sensibilização da opinião pública. Somente com quem nos lê, vê e ouve, podemos ter força.  Quem nos lê, vê e ouve diariamente, são os que votam, são os que têm opinião na sociedade e são aqueles que serão a nossa força futura. Há que os trazer para o problema, explicar o que está mal e fazer dessas pessoas parte da solução.


Por outro lado, temos de unir o setor, identificar os pontos fracos, apresentar propostas e traçar estratégias. Basta de falarmos para dentro e muitas vezes entre os dentes, com a boca meio fechada. 


No nosso setor, infelizmente, também temos indivíduos que não prestam, que se vendem ao poder em troca de algumas benesses exclusivas, para que paralisem o nosso setor e incrementem uma política de demagogia estruturada, adiando dessa forma posicionamentos que há muito deveriam estar no terreno. Esses indivíduos têm de ser também postos fora das estruturas associativas, denunciados e se for caso disso processados judicialmente. O setor do jornalismo regional tem de se purgar para renascer.


Somos muito pequenos separados, mas muito fortes juntos. 


18 junho 2025

Viver "com propósito" pode diminuir impacto da dor crónica

Studio_OMG/Envato Elements


Investigação Universidade de Washington e do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa foi publicado na revista Pain Medicine. Este explora a forma como cultivar a crença numa vida com um propósito, apesar dos desafios da dor crónica, pode promover melhorias ao nível psicológico.


“A dor crónica é um problema generalizado que tem o potencial de impactar negativamente o bem-estar e a qualidade de vida”, explica Alexandra Ferreira-Valente, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social do Iscte (CIS-Iscte). O estudo teve como objetivo explorar de que forma as crenças sobre ter uma vida com significado estão associadas a um melhor ajustamento em adultos com dor crónica.


A equipa de investigação realizou um questionário a uma amostra diversificada de 164 participantes com dor crónica. Avaliaram um conjunto de variáveis psicológicas, incluindo sintomas de perturbação de stress pós-traumático (PSPT), ansiedade, depressão, crenças pessoais e estratégias para lidar com a dor crónica e a sua interferência na vida quotidiana. Os resultados indicaram que a capacidade de encontrar um sentido para a vida, mesmo no meio da adversidade, estava associada a uma menor interferência da dor e a sintomas menos graves de PSPT, ansiedade e depressão. Isto reforça a ideia de que a promoção de um sentido de propósito é fundamental para o bem-estar emocional de uma pessoa, apesar das adversidades. As intervenções psicológicas fenomenológicas existenciais que se centram no significado e no sentido de objetivo, juntamente com os tratamentos físicos, podem ser um instrumento poderoso para este fim.


“Os nossos resultados revelaram que as pessoas que mantiveram uma forte crença na sua capacidade de viver com significado, apesar da dor, apresentaram melhores níveis de funcionamento e resiliência”, explica Alexandra Ferreira-Valente. Segundo a investigadora, este resultado sugere que as crenças e atitudes pessoais podem servir como fatores críticos na gestão do impacto psicológico da doença crónica.


Entre as implicações mais abrangentes do estudo, a equipa de investigação salienta a necessidade de integrar a resiliência psicológica e a criação de significado nos planos de tratamento da dor crónica. Isto porque, segundo o estudo, a compreensão de que é possível ter uma vida com significado apesar da dor e o reforço do sentido de propósito de uma pessoa pode levar a melhores abordagens terapêuticas. “Para isso, é necessária uma abordagem multidisciplinar nos serviços de saúde para a dor crónica”, conclui Alexandra Ferreira-Valente.


A equipa de investigação, constituída por David E. Reed II (Universidade de Washington; VA Puget Sound Health Care), Melissa A. Day (Universidade de Washington; Universidade de Queensland), Alexandra Ferreira-Valente (CIS-Iscte) e Mark P. Jensen (Universidade de Washington), deixa ainda a sugestão de que estudos futuros se devem centrar na exploração das relações causais entre os sistemas de crenças e os impactos na saúde.


15 junho 2025

Influencer brasileira Laura Sabino sobrevive a tentativa de homícidio e sofre ataques nas redes


Acervo pessoal de Laura Sabino/Guilherme Gandolfi


Na manhã de 14 de março, uma sexta-feira, a influenciadora Laura Sabino estudava em seu quarto, em Belo Horizonte (MG), quando sofreu uma tentativa de assassinato. Ela estava debruçada sobre um livro quando ouviu um barulho na sala de casa. Pensou que poderia ser o seu gato e levantou a cabeça para olhar. Mas o que ela viu, pela fresta da porta, iria assombrar a sua vida para sempre. 


Nos 20 minutos seguintes, Sabino seria atingida com pelo menos nove golpes de faca desferidos pelo próprio irmão, que ainda tentou queimá-la viva. As facadas perfuraram seu abdômen, braços e ombros. Não se trata, porém, de um episódio isolado de violência doméstica, mas sim o resultado de anos de ameaças sistemáticas que misturam misoginia, perseguição política e falhas crônicas do Estado, segundo ela relata.


Documentos obtidos pela Agência Pública revelam que nem mesmo os cinco boletins de ocorrência, a inclusão no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos e uma medida protetiva concedida cinco dias antes do ataque foram suficientes para livrar a influenciadora da agressão que quase a levou à morte.


Com quase 1 milhão de seguidores nas redes sociais, Laura Sabino é uma das vozes mais conhecidas da esquerda na internet. Aos 25 anos, a estudante de História produz conteúdo sobre política desde 2019, e vários de seus posts “furaram a bolha” e viralizaram para fora do seu público – como quando fez um vídeo rebatendo argumentos do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira sobre o escândalo do INSS. 


Naquela sexta-feira, a influenciadora havia comprado um bolo e preparado suco para receber o pai, que estava voltando de um pós-doutorado em Portugal. Sabino tem uma profunda admiração por ele, que foi o primeiro da família com formação superior, depois de vender salgados na rua para ajudar na renda da família. Ele trabalhou como professor da rede pública mineira por duas décadas e, hoje, dá aulas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde a filha também estuda.


Violência anunciada


Dois dias antes do ataque, um influenciador de direita com milhares de seguidores publicou uma fake news sobre Sabino, em que a associava a drogas e a acusava de maltratar funcionários de um prédio na Zona Sul de Belo Horizonte (onde ela nunca morou). Ela desmentiu e anunciou medidas judiciais contra o autor do post, mas ainda assim, a mentira se espalhou como rastilho de pólvora.


Nas 48 horas seguintes, a influenciadora recebeu uma montanha de mensagens de ódio e sofreu a tentativa de assassinato. Para ela, os fatos podem estar relacionados. Durante o ataque, de acordo com a influenciadora, o irmão fez menções que remeteram à notícia falsa. “Ele disse que eu era um personagem da internet, que defendo patifarias, que por isso eu estava me fodendo na internet”, afirma.


Captura de ecrã da conversa entre Sabino e o irmão | Agência Pública


Há anos a influenciadora é atacada nas redes sociais pelos seus posicionamentos políticos, o que quase sempre descamba para agressões e ameaças. Uma das situações traumáticas foi quando usuários anônimos viralizaram um vídeo pornô como se fosse ela nas imagens – na verdade, era apenas uma outra mulher ruiva.


Sabino registrou três boletins de ocorrência relatando as ameaças, mas nada aconteceu. Com medo de os ataques ultrapassarem o ambiente virtual e ameaçarem a sua integridade física, ela decidiu sair de casa e passou a alternar hospedagens em casas de parentes e amigos. Foi neste contexto que Sabino passou a também ser constrangida e ameaçada pelo irmão, cujo nome não será divulgado a pedido da família.


Áudios e mensagens a que a reportagem teve acesso mostram que ele ligava para a irmã várias vezes por dia, a chamava de “vagabunda” e outras palavras de baixo calão, dizia que iria para casa dela pegar “tudo o que tinha dentro” e fazia ameaças com tom violento.


Em 4 de setembro do ano passado, Sabino participou de uma audiência pública sobre violência de gênero contra mulheres ligadas à política em Minas Gerais, em que relatou como as ameaças nas redes sociais se aproximavam cada vez mais de sua vida privada. Em dezembro, ela foi incluída no Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos.


A influenciadora também pediu uma medida protetiva com base na Lei Maria da Penha contra o irmão, que foi autorizada em 10 de março – apenas cinco dias antes da tentativa de feminicídio. No entanto, ele foi notificado pela Justiça apenas na semana seguinte ao crime.


Com medo do que poderia acontecer e se sentindo desamparada, Sabino escondeu facas e objetos cortantes de sua casa, passou a evitar espaços abertos em eventos, reduziu a participação no cursinho comunitário que atua e diminuiu sua presença online.


"Alguém podia tanto te matar"


No áudio a que a reportagem teve acesso e que consta na medida protetiva, o agressor reproduz falas sexistas e homofóbicas. “Você paga simpatia para todo mundo, para essas bichas, essas pessoas aí. Você desde pequena sabe que eu não colo com esse povo, com essas patifarias, e vem me abraçar”, disse o irmão de Sabino. “Você é uma vagabunda que nem minha mãe falou”.


Sabino se recorda que, na ocasião, ela estava feliz porque o cursinho popular que ajudou a idealizar estava para começar a funcionar. Animada, deu um abraço no irmão. Ele se trancou no quarto e mandou um áudio a chamando de “filha da puta” e “desgraçada”, seguido das críticas ao cursinho e a culpando pelo seu quadro depressivo. 


Nas semanas seguintes, depois de ligar diversas vezes para a irmã, que evitava atender, ele mandou uma mensagem ameaçadora. “Mas alguém podia tanto te matar, vei. Na moral. Vagabunda”, escreveu.


Nos meses anteriores ao crime, Sabino e seu pai procuraram formas de lidar com a situação. Eles pagavam por tratamento especializado para o irmão, mas perceberam que o seu quadro de saúde mental se deteriorava. Pediram ajuda a unidades de saúde que pudessem oferecer internação, mas não encontraram vaga pelo sistema público e os preços de clínicas particulares passavam das dezenas de milhares de reais, o que é incompatível com o orçamento da família.


Com a relação impossível dentro da casa do pai, o irmão foi morar com uma tia na metade do ano passado. Depois, no fim de 2024, se mudou para a casa da mãe, que, segundo a família, deixou o convívio com os filhos quando eles ainda eram crianças, sem participação emocional ou financeira durante o crescimento deles.


A Agência Pública tentou contato com a defesa do irmão de Sabino mas, segundo a Defensoria Pública de Minas Gerais, ainda não houve designação de um defensor para o caso.


A tentativa de feminicídio


Segundo Sabino, o agressor saiu cedo da casa onde estava morando nos últimos meses e foi de ônibus até onde a irmã estava. Chegando lá, por volta das 10h, ele pulou o muro [o barulho que Sabino escutou] e pegou o que encontrou na cozinha: duas facas de serra. Se encaminhou ao quarto de Sabino e imediatamente começou a golpeá-la. 


Ela só teve tempo de levar os braços para a frente do rosto, no intuito de se defender. Ela inicialmente achou que estava recebendo socos, até começar a sentir uma ardência incomum e algo quente escorrendo. Foi então que olhou para baixo, viu o chão cheio de sangue e entendeu que na verdade estava sendo esfaqueada. “Pensei que ia morrer. Sentia meu corpo ficando mais fraco. Esse episódio aconteceu em uns 20 minutos, mais ou menos, mas na minha cabeça foram duas horas”, diz.


Entre luta física e desmaios, a influenciadora sentiu algo gelado em sua perna e um cheiro forte. Nesse momento, ela percebeu que ele tinha jogado álcool gel em seu corpo e estava tentando a matar queimada. “Senti que a cama deu um desnível, como se ele tivesse se levantado. Abri o olho e vi ele indo na mochila dele pegar o fósforo. Nessa hora saí correndo, consegui pegar o celular e corri”, conta ela. “Quando passei da porta do quintal, liguei pro meu namorado e falei: “Ele me matou. Ele conseguiu. Eu vou morrer”.


O autor foi preso em flagrante, que depois foi convertida em prisão preventiva. Hoje ele segue preso em Belo Horizonte, enquanto aguarda julgamento.


“Vou ficar doce igual caramelo”


A família diz não saber ao certo o que levou o agressor a cometer um ato tão extremo. O relacionamento era marcado por conflitos e episódios de agressividade, mas ninguém imaginava que a situação pudesse chegar a uma tentativa de feminicídio. No entanto, eles levantam algumas hipóteses.


Segundo Sabino, o irmão apresentava piora na saúde mental e nos episódios violentos, e o tom ameaçador teria se agravado com a notícia do pós-doutorado de seu pai. As intimidações também teriam aumentado depois que ele se mudou para a casa da mãe e interrompeu o tratamento psiquiátrico.


No boletim de ocorrência registrado no dia do crime, o agressor disse a sua versão. “Segundo o autor, ele pulou a janela e foi para matá-la e posteriormente cometer autoextermínio, utilizando álcool e fogo. Ele alega que queria fazer isso para atingir o pai e deixá-lo com remorso, pois alega que o pai tem o hábito de tomar o seu dinheiro”, diz o documento.


Acervo pessoal de Laura Sabino/Guilherme Gandolfi


Alguns áudios enviados pelo irmão a Sabino reproduzem termos misóginos típicos de grupos extremistas, como os que ela recebe no ambiente online. Ainda não se sabe exatamente qual o nível da participação do agressor nestes grupos. 


A vida após a sobrevivência


Ribeirão das Neves, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte em que Sabino cresceu, figura entre os piores lugares do país para ser mulher segundo um levantamento do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), que avalia o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) feminino. Criada na periferia, ela atua desde adolescente em coletivos de acolhimento a vítimas de violência doméstica — mesmo quando, paradoxalmente, hesitava em reconhecer-se como uma delas. “Queria manter minha dignidade e ajudar outras mulheres”, diz.


Retomando a rotina, o que inclui os estudos e o trabalho nas redes e em movimentos sociais, Sabino afirma que suas convicções seguem firmes. “Essa violência foi apenas um episódio de uma vida inteira de luta”, ela diz, frisando que não se vê como uma vítima.


Ela só resolveu falar sobre o episódio agora, quase três meses depois da tentativa de feminicídio, após receber mensagens perturbadoras nas redes sociais. “Comecei a ver comentários como: ‘Laura, você devia fazer mais vídeos de corte, ouvi dizer que você é boa com cortes’, no Twitter e Instagram”, relata. “Prefiro contar minha história a um veículo sério, que apure os fatos com justiça, antes que a extrema direita distorça tudo. Não quero que tratem isso como mero furo jornalístico”, afirma.


Os números mostram que a violência que Sabino sofreu não é um caso isolado. Segundo o estudo “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, quase metade dos ataques políticos entre 2022 e 2024 tiveram mulheres como alvo – a maioria começa pelas redes sociais, e, depois, pode migrar para o “mundo real”, como parece ter sido o caso da influenciadora.


“A luta de Laura simboliza mais do que resistência: ela escancara a urgência de políticas efetivas de proteção a defensores e defensoras de direitos humanos. É preciso garantir que ativistas como ela possam continuar seu trabalho sem medo, com dignidade, segurança e respeito”, disse, em nota, a equipe do Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos de Minas Gerais, que Sabino faz parte.


Aos poucos, ela e o pai retomam suas atividades e tentam processar o trauma. “Alguns dias são mais leves, outros são pesados. Quando deito na cama, tudo volta na minha cabeça. É como um luto”, ela desabafa.


13 junho 2025

"Humano, Demasiado Humano"

LightFieldStudios/Envato Elements


“Humano, Demasiado Humano” de Neil D. Lawrence, apesar do título que evoca a obra filosófica de Nietzsche, mergulha numa exploração cativante e acessível do panorama da Inteligência Artificial (IA). Longe de ser um tratado filosófico denso, o livro posiciona-se como um guia esclarecedor para qualquer pessoa interessada em compreender o impacto multifacetado da IA nas nossas vidas.


Este livro, “Humano, Demasiado Humano”, foi publicado entre nós em Fevereiro de 2025, pela editora Gradiva, inserido na sua prestigiada coleção “Ciência Aberta” com o número 251. Recorde-se que a coleção “Ciência Aberta” é atualmente coordenada por Carlos Fiolhais, que também fez a revisão científica deste livro. A tradução do original em inglês esteve a cargo de Jorge Pereirinha Pires.


Lawrence, um proeminente especialista em IA, consegue a proeza de desmistificar conceitos complexos, tornando-os compreensíveis até mesmo para leitores sem formação técnica. A sua escrita é clara e envolvente, pontuada por analogias perspicazes e exemplos do mundo real que ilustram as capacidades e limitações da IA. O autor evita o sensacionalismo, optando por uma abordagem equilibrada que reconhece tanto o potencial transformador da IA quanto os seus desafios inerentes.


Um dos pontos mais fortes do livro reside na sua capacidade de traçar um panorama abrangente da IA, desde os seus fundamentos históricos até às suas aplicações mais recentes. Lawrence discute a evolução da aprendizagem de máquina, as redes neuronais e o processamento de linguagem natural, sem sobrecarregar o leitor com jargões técnicos excessivos. Em vez disso, ele foca-se nos princípios subjacentes e nas implicações práticas de cada tecnologia.


Além da dimensão técnica, “Humano, Demasiado Humano” destaca-se pela sua análise das ramificações sociais e éticas da IA. Lawrence aborda questões cruciais como a privacidade de dados, o viés algorítmico, a automação e o futuro do trabalho, e a responsabilidade na tomada de decisões por sistemas autónomos. O autor convida os leitores a refletir criticamente sobre estas questões, promovendo um diálogo necessário sobre como podemos moldar um futuro onde a IA seja uma força para o bem.


Apesar do seu tom geralmente optimista em relação ao progresso tecnológico, Lawrence não ignora os perigos potenciais. Ele sublinha a importância de uma governança robusta e de uma regulamentação cuidadosa para garantir que a IA seja desenvolvida e implementada de forma responsável e ética. O livro não oferece soluções fáceis, mas sim um quadro para pensar sobre os desafios e oportunidades que a IA nos apresenta.


Em suma, “Humano, Demasiado Humano” é uma leitura essencial para quem deseja ir além dos soundbitesda mídia e obter uma compreensão mais profunda da IA. É um livro que informa, provoca a reflexão e capacita os leitores a participar da discussão sobre o futuro da tecnologia. Neil D. Lawrence entregou uma obra que é tanto um guia prático quanto um convite à contemplação sobre o nosso lugar num mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial.



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