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20 janeiro 2026

Física Quântica: passado, presente e futuro

JustVector/Envato Elements
No “mundo pequeno” dos átomos e das partículas elementares, as leis de Newton deixam de se aplicar tal como as conhecemos, e a incerteza passa a ser uma característica fundamental da realidade

As Nações Unidas assinalaram o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas em 2025. Este ano não foi escolhido por acaso.

Foi há um século que os trabalhos pioneiros de Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger, em 1925, lançaram os alicerces da mecânica quântica moderna e transformaram para sempre a nossa compreensão da Natureza.

A física quântica é, desde a sua origem, profundamente contraintuitiva. No “mundo pequeno” dos átomos e das partículas elementares, as leis de Newton deixam de se aplicar tal como as conhecemos, e a incerteza passa a ser uma característica fundamental da realidade. Até Albert Einstein teve dificuldade em aceitá-la totalmente resumido na célebre frase: “Deus não joga aos dados”.

Um século depois, porém, não restam dúvidas quanto à solidez dos fundamentos da mecânica quântica.

Mais do que um exercício teórico, ela tornou-se parte integrante do nosso quotidiano. Por exemplo, a fotónica quântica está a revolucionar a imagiologia médica e os métodos de diagnóstico. A química quântica apoia o desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos, permitindo simular moléculas complexas com uma precisão inédita. A engenharia quântica contribui para células solares mais eficientes e acessíveis e para fontes de luz LED de baixo consumo e reduzidas emissões. Este progresso assenta também em descobertas fundamentais, como o estudo do efeito túnel quântico em sistemas macroscópicos, associado a investigadores de referência como John Clarke, Michel H. Devoret e John M. Martinis, galardoados com o prémio Nobel Física em 2025.

A física quântica nasceu como uma resposta ousada a perguntas difíceis sobre a Natureza. Cem anos depois, sabemos que há muito mais para descobrir no mundo quântico. Talvez essa seja a mais útil lição de ciência.

Para compreendermos o mundo, mesmo quando ele parece estranho, o crivo científico é fundamental. As aplicações úteis podem ou não surgir, mas a capacidade de deslumbramento será sempre o motor essencial para os jovens que estão hoje a descobrir a carreira de investigação como o seu caminho.

Os próximos cem anos de ciência começam hoje.

14 janeiro 2026

SAPO encerra plataforma de blogues

Bruno Micael Fernandes/o largo.

Plataforma é descontinuada a 30 de novembro.


É o fim do serviço de blogues do portal SAPO: o portal português anunciou esta segunda-feira o encerramento do SAPO Blogs. 

 

Num artigo publicado no blogue oficial da "Equipa" da plataforma, esta decisão advém da "mudança nos hábitos de publicação e consumo de conteúdos": "O surgimento das redes sociais, associado à imediatez permitida pelos smartphones, transformou a forma como comunicamos e criamos no meio virtual, diminuindo aos poucos o apelo e a utilidade dos blogs como plataforma de expressão", frisa o comunicado. 

 

O fim do serviço acontecerá de forma faseada, sendo que já a partir de 30 de junho "não será mais possível publicar ou editar qualquer blog na plataforma". No dia 30 de novembro, o serviço será descontinuado de forma definitiva, sendo eliminados "todos os conteúdos alojados". 

 

"Temos muito orgulho do contributo que o SAPO Blogs deu, ao longo destes 23 anos, para fazer crescer e dinamizar a blogosfera em Portugal", acrescenta o portal. 

 

o largo. volta a plataforma própria. 

 

O fim do SAPO Blogs corresponde também a uma nova migração dos conteúdos para a plataforma própria que o blogue ainda detém. A alteração acontecerá durante o próximo fim de semana, coincidindo com um novo ciclo de publicações. 

 

O endereço mantém-se o mesmo: https://olargo.pt

12 dezembro 2025

MEO perde mais canais

MEO
Está prevista a saída de 14 estações da grelha.

A MEO anunciou a saída de vários canais da sua grelha. 

Canais infantis, séries e música estão incluídos na listagem que atinge mais de catorze canais. Além dos canais MTV 00's e MTV Live, que terminam emissão a 01 de janeiro, E! Entertainment, Fashion TV, Fashion TV 4K, Mezzo, Mezzo Live, MTV Portugal, Nick Jr, Nickelodeon, Q, SyFy, Trace Brasil e Trace Toca deixam a grelha "a partir do próximo dia 31-12-2025", refere a operadora em nota de rodapé no site publicada à data da publicação deste artigo. 

A operadora não diz qual o motivo para a saída destes canais da grelha. Contudo, muitos dos canais mantêm-se disponíveis nas restantes operadores nacionais.

 

10 dezembro 2025

BOOMFIT lança campanha de Natal nas redes sociais

BOOMFIT/Divulgação
Ação homenageia profissionais em serviço na noite de 24 de dezembro.

Traz uma "mensagem emotiva" e quer homenagear "aqueles que passam a noite mais mágica do ano ao serviço da comunidade". A marca portuguesa BOOMFIT lançou esta quarta-feira a campanha "Há vitórias que nem sempre acontecem em campo". A decorrer nas páginas das várias redes sociais da loja online de produtos de fitness, a ação de Natal reúne atletas de várias modalidades para lembrar os profissionais que estão na "linha da frente" durante esta quadra. 

Numa nota enviada às redações, a empresa de Vila Nova de Famalicão diz que optou por uma tónica simbólica e sentida: "Com um tom emocional, o vídeo pretende homenagear enfermeiros, agentes de autoridade, operários, assistentes sociais e todos os que, mesmo na noite de Natal, continuam a cuidar, proteger e assegurar o funcionamento do país", refere. Por seu turno, o CEO da BOOMFIT Vítor Brandão diz que, com a ação, a BOOMFIT quis "dar voz a uma mensagem maior do que nós: agradecer a todos os profissionais que continuam a dar o seu melhor quando o resto do mundo está a celebrar. O gesto simbólico de trocar o equipamento desportivo por uma farda representa respeito, empatia e reconhecimento por quem mantém o país em movimento, mesmo nos dias mais especiais". 

Produzido internamente, o vídeo da loja online de equipamentos e acessórios de fitness tem a participação de atletas das equipas de ténis e voleibol do Ginásio Clube Vilacondense, da equipa do Basquete Clube de Barcelos e da equipa de futsal do Futebol Clube de Famalicão: "“Acreditamos que integrar atletas de clubes locais acrescenta autenticidade e profundidade à mensagem", acrescenta Brandão.

O vídeo já está disponível nas redes sociais. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Acórdão do Tribunal Europeu sobre casamento homossexual extravasa limites da competência da UE, dizem Bispos

karmanovalive/Envato Elements
COMECE diz que decisão pode ser o combustível para "sentimentos antieuropeus".

Um acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia (UE) levou a que a Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (COMECE) emitisse uma posição que alerta que a decisão pode extravasar as competências comunitárias na questão do direito da família e do reconhecimento do casamento homossexual. 

Segundo a agência de notícias católica Ecclesia, a COMECE diz que a decisão pode interferir em questões da soberania e identidade de cada país da União, podendo mesmo levar a "fomentar a pressão para alterar o direito nacional da família" e "desenvolvimentos negativos noutras áreas sensíveis, como a barriga de aluguer" ou, até, "alimentar sentimentos antieuropeus nos Estados-Membros". 

O caso, denominado de "Wojewoda Mazowiecki", remonta à 2023 quando um casal homossexual polaco tentou efetuar a transcrição da sua certidão de casamento, celebrado em Berlim, Alemanha, em 2018. Contudo, na Polónia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é reconhecido, pelo que o pedido foi negado. Chamado a decidir, o Tribunal, apesar de não impor a alteração da definição de casamento no direito nacional, obrigou ao reconhecimento daquela união, até porque tal decisão viola o direito de circulação de pessoas dentro do espaço comunitário, causando "graves inconvenientes a nível administrativo, profissional e privado" e obrigando o casal a viver como pessoas não casadas no país de onde são originários. 

"A decisão do Tribunal da UE terá impacto nos sistemas nacionais de direito da família" - COMECE

É certo que a Igreja Católica não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, a posição dos Bispos europeus vai um pouco mais longe, referindo que a decisão do Tribunal faz força para o reconhecimento de um ato que não existe nas leis de um país: "Exige [...] a introdução de procedimentos de reconhecimento e apela mesmo à não aplicação, se necessário, das disposições nacionais em causa", refere o comunicado, reforçando que a decisão "cria efetivamente uma convergência dos efeitos do direito matrimonial, muito embora a União não tenha mandato para harmonizar o direito da família", que é responsabilidade de cada Estado-Membro.

Assim, o COMECE alerta que "a decisão do Tribunal da UE terá impacto nos sistemas nacionais de direito da família e poderá fomentar pressões para a sua alteração", focando que a definição de casamento, em alguns países, "é parte integrante" da sua identidade nacional. 

O comunicado termina dizendo que a decisão pode também alimentar outras sensibilidades contra a UE: "Recordando o contexto desafiante que a União Europeia atravessa atualmente, inclusive no que toca à sua perceção em vários países, não surpreende que este tipo de decisões alimente sentimentos antieuropeus nos Estados-Membros e possa ser facilmente instrumentalizado nesse sentido", conclui. 

07 dezembro 2025

Será que as competências rítmicas moldam a forma como aprendemos a ler e a escrever?

Image-Source/Envato Elements
Resultados poderão abrir caminho a novas práticas educativas.

É a esta questão que Marta Martins, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), pretende responder. Em dois projetos complementares, estuda tanto a predisposição rítmica das crianças como o efeito causal do treino musical rítmico na aquisição da leitura e da escrita. Esta investigação irá ainda mapear as bases neuronais desta relação através de ressonância magnética estrutural e funcional.

“O processamento de vários aspetos rítmicos musicais tem sido consistentemente associado às competências de leitura e escrita das crianças, sobretudo nas fases iniciais de aprendizagem. No entanto, continua por esclarecer como esta relação se desenvolve e quais os mecanismos que a sustentam”, explica Marta Martins. A investigadora sublinha que os estudos existentes deixam várias questões sem resposta, incluindo se o treino musical que trabalha predominantemente aspetos rítmicos poderá promover estas aprendizagens e se esse efeito é independente da fase de aprendizagem em que a crianças se encontra. Para responder a estas questões, a investigadora do CIS-Iscte coordena agora dois projetos de investigação dedicados a explorar estes efeitos.

Dois projetos, um objetivo

O projeto “RhythMus_inRaw – Evaluating Musical Rhythm Predisposition and Training in Shaping Children’s Reading and Writing Skills”, financiado pela fundação BIAL (Ref. 139/2024) e realizado em colaboração com o Agrupamento de Escolas Irmãos Passos (Matosinhos), dá continuidade ao trabalho de Marta Martins sobre os fatores neurocognitivos associados às dificuldades de leitura, aprofundando o papel que o treino musical rítmico poderá desempenhar na sua mitigação.

Neste projeto, a investigadora conduz um ensaio controlado randomizado por grupo (cluster randomized control trial), em que turmas inteiras são distribuídas aleatoriamente por três condições experimentais:  treino musical exclusivamente rítmico, treino musical Orff (treino musical compreensivo que funciona como um controlo ativo) ou grupo sem treino organizado e sistemático (controlo passivo). No estudo participarão crianças de 6 anos, falantes de português, que frequentam escolas públicas do Agrupamento, e que serão monitorizadas ao longo de dois anos letivos. “As crianças serão avaliadas antes, durante e após o treino em tarefas rítmicas, leitura, escrita e motricidade fina, bem como em medidas de cognição geral, musicalidade e variáveis sociodemográficas.”, esclarece Marta Martins. O estudo decorre no contexto escolar regular, assegurando elevada validade ecológica. Serão também recolhidos dados de ressonância magnética, com enfoque na função cerebral, permitindo mapear as redes neuronais que sustentam estes processos e a relação entre ritmo e literacia.

A investigadora antecipa que “o treino rítmico melhore diferentes processos rítmicos, incluindo a perceção e sincronização”, competências que os seus trabalhos anteriores relacionam à leitura através de processes fonológicos, bem como às melhorias motoras resultantes do treino musical. Assim, prevê-se que o treino rítmico reforce simultaneamente processos fonológicos e motores, que contribuirão para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Em contraste, “o treino musical Orff que iremos implementar deverá melhorar a motricidade fina e alguns processos rítmicos (ainda que em menor escala), replicando resultados dos nossos estudos anteriores e, consequentemente, impactar principalmente a fluência da escrita”, explica. Os correlatos neuronais deverão refletir as alterações comportamentais observadas, particularmente em regiões auditivas e motoras.

Para expandir esta linha de investigação, Marta Martins iniciará em breve o projeto “Rhythm4RAW – Can Training in Musical Rhythm Improve Children’s Reading and Writing Skills?”, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (Ref. 2023.16303.ICDT). O projeto integra três estudos: a adaptação e validação de uma escala para avaliar de forma compreensiva a musicalidade de crianças, criando a primeira ferramenta portuguesa com este propósito; um estudo transversal com crianças dos 6 aos 12 anos, que compara as competências de leitura e escrita de crianças com e sem treino rítmico, incluindo no grupo sem treino rítmico crianças com elevada predisposição rítmica; e um ensaio controlado randomizado por grupo, semelhante ao implementado no projeto RhythMus_inRaw, que replicará o estudo anterior mas com enfoque nos correlatos de estrutura cerebral que suportam a relação entre processamento rítmico e leitura e escrita. Em conjunto, estes estudos permitirão distinguir os efeitos da predisposição dos efeitos causais do treino, e clarificar em que condições o processamento rítmico pode apoiar o desenvolvimento da literacia.

De acordo com a investigadora, as diferenças-chave entre os dois projetos residem no tipo de correlato neuronal analisado e no desenho experimental adotado para estudar a mesma questão de investigação. O projeto RhythMus_InRaw centra-se na predisposição rítmica e nos efeitos do treino rítmico ao longo de dois anos letivos em crianças de 6 anos, e na função cerebral subjacente ao processamento rítmico e às competências de literacia. O projeto Rhythm4RAW tem um alcance mais abrangente, inclui estudos com desenho transversal e longitudinal, integra a validação de uma escala de musicalidade, e foca-se nos correlatos estruturais associados aos efeitos em estudo. Além disso, examina a relação entre ritmo e literacia numa faixa etária mais alargada, envolvendo crianças dos 6 aos 12 anos.

Porquê treinar as competências rítmicas?

A fundamentar estes projetos, o trabalho anterior de Marta Martins, realizado em colaboração com investigadores da Universidade do Porto, demonstrou que a perceção de ritmo – e não a de melodia – se associa às competências de leitura de crianças do primeiro ano de escolaridade. “Os nossos resultados sugerem ainda que esta relação é mediada pelo processamento fonológico”, explica Marta Martins, sublinhando que “os processos rítmicos parecem ajudar as crianças a discriminar e organizar as unidades sonoras de fala, suportando o desenvolvimento da leitura”, acrescenta. A investigadora do CIS-Iscte está neste momento a trabalhar sobre os dados de um novo estudo em que participaram mais de 300 crianças do 1º ao 4º ano de escolaridade, e em os resultados suportam novamente a relação entre perceção rítmica e leitura e a mediação desta relação por processos fonológicos. A investigadora adianta, no entanto, que “esta relação se esbate em crianças em estados de desenvolvimento leitor mais avançado”. Estes resultados preliminares levaram ao reorientar da faixa etária alvo nos dois estudos longitudinais agora a arrancar, e que incluirão crianças com 6 anos, acompanhando-as ao longo do 1º e 2º ano do ensino básico, precisamente a fase mais sensível e inicial de aquisição da leitura e da escrita.

De uma forma geral, o conhecimento atual sugere que o treino rítmico pode ser útil como suporte à aprendizagem da leitura e da escrita, em particular em estádios iniciais de aquisição. Contudo, esta premissa necessita ser testada através de estudos longitudinais que considerem as diferenças individuais entre crianças e os seus contextos.

A pré-disposição rítmica e o contexto familiar são importantes para a aprendizagem da leitura e da escrita?

Num outro estudo publicado em coautoria com colaboradores das Universidades do Porto e de Jena, Marta Martins explorou longitudinalmente como a predisposição rítmica modula os efeitos do treino musical na componente motora e quais as regiões cerebrais implicadas nesse processo. Durante cerca de 6 meses, crianças de 8 anos participaram em treino musical, treino desportivo, ou integraram um grupo de controlo sem treino sistemático e organizado, sendo avaliadas antes e após o treino em competências rítmicas e motoras e através de neuroimagem estrutural. “Observámos que, antes do treino musical, as crianças com melhor perceção rítmica apresentavam menor volume de matéria cinzenta em diversas regiões motoras”, afirma Marta Martins. A investigadora acrescenta que “o treino musical melhorou o desempenho motor das crianças, e esse efeito foi mais saliente naquelas com melhor discriminação rítmica no início do estudo”. Os resultados indicaram ainda que o treino musical induziu a redução de volume de matéria cinzenta no cerebelo e no giro fusiforme do hemisfério esquerdo—regiões que se associavam à perceção rítmica antes do treino—e que esta redução se correlacionou com melhorias superiores na motricidade. Nenhum destes efeitos foi observado nos grupos de treino desportivo ou de controlo. “Este estudo demonstrou que o treino musical Orff promove o desenvolvimento motor e fá-lo de forma mais marcada em crianças com melhor perceção rítmica. Resta-nos ainda clarificar se estas melhorias motoras podem transferir-se para a fluência de escrita—uma das questões a que queremos responder nos novos projetos”, sintetiza a investigadora.

Num estudo prévio, distinguido pela Associação Portuguesa de Psicologia Experimental com o Prémio APPE 2023, a mesma equipa investigou se diferenças no QI e no estatuto socioeconómico se refletiam em diferenças estruturais no cérebro de crianças com dificuldades de fluência de leitura. Os resultados indicaram que as crianças com défices de fluência apresentavam menor volume de matéria cinzenta no giro temporal superior direito e noutras regiões occipito-temporais e fusiformes, quando comparadas com os leitores típicos. Além disso, entre as crianças com dificuldades de leitura, as diferenças no volume de determinadas áreas dependiam do estatuto socioeconómico, mas não do QI. Como refere a investigadora, “entre as crianças com dificuldades de leitura, aquelas que provinham de contextos socioeconómicos mais favorecidos apresentavam maior volume de matéria cinzenta no giro angular direito do que crianças provenientes de contextos menos favorecidos.”. O giro angular é uma região do lobo parietal envolvida na integração de informação multimodal e que está implicado na compreensão semântica da linguagem, no processamento simbólico (incluindo o numérico), e em funções cognitivas como memória e atenção. Para a equipa de investigação, as diferenças nesta região podem refletir níveis distintos de estimulação cognitiva ou de linguagem, ou variações nos níveis de atenção, frequentemente associados a contextos socioeconomicamente menos favorecidos.

O que se espera descobrir e porque é que isso importa

Apesar dos avanços já alcançados, a literatura é ainda parca em estudos longitudinais e multimétodo que permitam acompanhar, com rigor, o processo de aquisição da leitura e da escrita, contribuindo para diminuir os seus défices. Ainda menos são aqueles que investigam como o processamento rítmico e o treino musical rítmico podem influenciar estas aprendizagens. É precisamente essa lacuna que os projetos que agora se iniciam e que têm parceiros nas Universidades do Porto, Jena e Boston, na Unilabs—Boavista, nas ULS São João e Matosinhos e no Agrupamento de Escolas Irmãos Passos, procuram preencher. Ao combinar medidas comportamentais, treino musical rigorosamente controlado e neuroimagem funcional e estrutural, estes projetos posicionam-se para responder a perguntas fundamentais: De que forma o comportamento e o cérebro se moldam com o treino rítmico? Quem beneficia mais deste treino e porquê? Como é que predisposição e experiência interagem no moldar da literacia? Os resultados que emergirem destes estudos não só aprofundarão o conhecimento científico sobre este tema, como poderão abrir caminho a novas práticas educativas, mais sensíveis às diferenças individuais e informadas por evidência robusta. No conjunto, este trabalho antecipa uma contribuição decisiva para compreender como o ritmo, um elemento universal da experiência humana, se pode tornar um aliado poderoso na promoção da literacia infantil.

04 dezembro 2025

"Missão Hollywood" junta família em jogo de tabuleiro

Dremia/Divulgação
Projeto "único" é uma iniciativa conjunta do Canal Hollywood e da Majora.

Quem será o produtor do próximo blockbuster? Esta é a premissa do jogo de tabuleiro "Missão Hollywood", uma iniciativa do Canal Hollywood  e da empresa portuguesa Majora, e que vem a tempo de ser uma "sugestão ideal de presente para este Natal". 

Na nota enviada às redações, o canal de cinema produzido pela Dreamia refere que o projeto é "inédito" e é "inspirado no universo do cinema", juntando "sorte, estratégia e humor". O jogo envolve todo o processo de um filme, "desde contratar atores e escrever o guião até escolher o estúdio ideal para as filmagens". Contudo, nem tudo é fácil: "O percurso (...) está repleto de desafios e imprevistos que testam a capacidade de adaptação e planeamento dos jogadores", reforça o canal. 

Para a estação, "o jogo “Missão Hollywood” é uma forma de transformar o amor pelos filmes numa experiência partilhada, onde todos se podem sentir parte de uma grande produção", refere o diretor de marketing do Hollywood Jorge Ruano, acrescentando que o projeto "traduz o traduz o espírito do Canal Hollywood: entretenimento, emoção e união em torno do cinema, sendo uma oportunidade para juntar famílias e amigos à volta da mesa, criando as suas próprias histórias". Por seu turno, o CEO da octagenária Majora Ricardo Feist considera esta parceria com "todo o sentido, pela afinidade natural entre o entretenimento e o espírito familiar que ambos promovemos", sustenta.  

 O jogo está já à venda em grandes superfícies e pequeno retalho com um preço de €29,99. 

01 dezembro 2025

A justiça do polegar levantado.

iLixe48/Envato Elements
"A validação através de “likes” tornou-se um símbolo de aceitação e sucesso."

No mundo contemporâneo, as redes sociais tornaram-se um espaço onde a validação social é constantemente medida através de “likes”, comentários e partilhas. Esta nova “economia da atenção” transformou a forma como nos relacionamos, levando a um sentimento inevitável: a inveja. Podemos analisar como esta emoção, considerada negativa, se manifesta e se intensificou na era digital.

A inveja, enquanto sentimento humano, é tão antiga quanto a própria civilização. Na Antropologia, é estudada como um motor de comportamento social que pode, paradoxalmente, promover a coesão ou gerar conflitos. Nas redes sociais, no entanto, a inveja ganha uma nova dimensão. Quando visualizamos as vidas aparentemente perfeitas de amigos, influenciadores ou celebridades, é fácil sentir que não estamos à altura. A comparação constante que as plataformas digitais promovem alimenta um ciclo vicioso de insatisfação e descontentamento.

A falta de apreciação nas redes sociais é um fenômeno notável. O “não like” pode ser interpretado como um sinal de desprezo, com consequências que criam uma espécie de hierarquia social. Os jovens, em particular, são suscetíveis a esta dinâmica; a validação através de “likes” tornou-se um símbolo de aceitação e sucesso. Quando publicam uma foto ou um momento especial e recebem uma resposta fria do público, a desilusão é palpável. Essa sensação de desvalorização pode levar a um estado de angústia emocional, gerando uma busca incessante por mais validação, que, por sua vez, intensifica a competição entre pares.

Do ponto de vista antropológico, esta dinâmica pode ser compreendida através do conceito de “capital social”. O antropólogo Pierre Bourdieu destacou que o “capital social” é acumulado através de redes de relações e interações sociais. Nas redes sociais, os “likes” e comentários funcionam como uma forma de capital. Aqueles que têm mais seguidores e interações são, muitas vezes, vistos como mais influentes e desejáveis. Este fenómeno não aumenta apenas a pressão para ter uma presença digital “perfeita”, mas também solidifica a ideia de que o valor de uma pessoa pode ser medido em termos de popularidade online.

A natureza efémera das interações digitais também exacerba a inveja. Uma publicação que recebe uma enxurrada de “likes” e comentários positivos num dia, pode ser rapidamente esquecida no “feed”, levando os indivíduos a lutar por uma atenção fugaz. Essa volatilidade alimenta uma cultura de superficialidade onde o conteúdo autêntico muitas vezes é deixado de lado em favor do que é visualmente apelativo ou que gera mais “engagement”. A necessidade de ser constantemente visto e validado torna-se uma pressão omnipresente, criando um ambiente onde a inveja pode prosperar.

Para lidar com este ciclo de inveja e validação social, é crucial promover uma maior consciencialização sobre a natureza das redes sociais. Precisamos lembrar que o que vemos online é frequentemente uma construção da realidade, filtrada e editada para parecer ideal. A verdadeira conexão humana não deve ser medida em “likes”, mas sim na profundidade das relações que cultivamos fora das telas. A valorização de experiências autênticas e a promoção da empatia nas interações online podem ajudar a mitigar os efeitos corrosivos da inveja.

Em suma, a inveja nas redes sociais é um reflexo de uma sociedade que valoriza a aparência e a validação superficial. Ao entendermos as dinâmicas sociais que operam nestes espaços, podemos começar a desconstruir as narrativas que alimentam a insegurança e a comparação. É tempo de resgatar o valor das relações autênticas e da autoapreciação, reconhecendo que a verdadeira riqueza está nas nossas experiências e conexões humanas, e não no número de “likes” ou subscrições.

16 novembro 2025

Morreu o cineasta Manuel Paula Dias

Redzen2/Envato Elements
Tinha 90 anos.

O cineasta português Manuel Paula Dias morreu este sábado, informou em comunicado o Cine Clube de Avanca, Estarreja. O realizador aveirense notabilizou-se pela realização de vários filmes documentais sobre a vida da cidade de onde era natural. 

Caracterizado como uma "figura ímpar da memória cultural de Aveiro", Dias filmou durante as décadas de 60 e 70 do século XX "a vida da cidade, da região e da ria de Aveiro, criando um vasto e valioso arquivo audiovisual que preserva tradições, paisagens e modos de vida hoje desaparecidos", refere o Cine Clube, acrescentando que o realizador "deixa um legado maior no cinema documental português e uma memória artística profundamente entrelaçada com a história de Aveiro e da sua gente". 

O documentário "Sal, Duro Sal" é uma das obras mais reconhecidas do cineasta, tendo integrado vários festivais de cinema como o Mar Film Festival ou o RIOS - Festival Internacional de Cinema Documental e Transmedia. "Nos últimos anos, dedicava-se à escrita de um livro sobre a história da sua família e o início da indústria de fundição em Aveiro", acrescenta o Cine Clube.

Manuel Paula Dias tinha 90 anos. 

15 novembro 2025

Diretor da CNN Portugal acusado de discriminação por orientação sexual

Armanda Claro/Media Capital
Queixas denunciam favorecimento de homens homossexuais para determinadas funções

A notícia é do jornal digital Observador. O diretor executivo da CNN Portugal Frederico Roque de Pinho está a ser alvo de uma investigação interna por denúncias por alegado favorecimento de funcionários e colaboradores do canal de notícias em função da sua orientação sexual. 

Segundo o mesmo jornal, foram apresentadas várias queixas contra o gestor, alegando que Roque de Pinho escolhe profissionais homens homossexuais para cargos e tarefas de maior destaque, em detrimento de outros profissionais da estação. As denúncias vão mais longe, falando de critérios discriminatórios para essa seleção quando aqueles profissionais são favorecidos para dar a cara pelo canal. 

Os relatos foram considerados sólidos e fez com que avançasse uma investigação interna mais aprofundada, com o Observador a indicar que foram ouvidos vários jornalistas, elementos de chefias da redação da CNN Portugal e da TVI, assim como vários outros funcionários. O diretor de informação da TVI e diretor da CNN Portugal Nuno Santos também foi ouvido. 

As conclusões da investigação foram dadas a conhecer ao gestor na noite da passada quarta-feira, quando se deslocou às instalações do canal de Queluz de Baixo depois de estar de férias no Brasil. No dia seguinte, administração e Roque de Pinho estiveram reunidos para decidir o próximo passo, tendo sido discutida uma eventual suspensão do gestor ou, até, uma desvinculação da empresa. Contudo, o jornal não avança qual o resultado desse encontro. 

"Da minha parte, não há processo nenhum" - Roque de Pinho

Quando confrontado pelo jornal digital, Frederico Roque de Pinho referiu que o processo... não existe. Recusando a ser "julgado na imprensa", o diretor no canal de notícias do grupo Media Capital é perentório: "Da minha parte, não há processo nenhum". 

O gestor diz mesmo não ter conhecimento do processo e para "perguntar à empresa se houve ou não algum", até porque diz que é do seu "entendimento" que continua em funções. Quanto às suas férias, elas foram apenas estendidas: "Alarguei o meu período de férias pelo tempo que for necessário". 

Também Nuno Santos foi contactado pelo jornal digital, assim como o acionista maioritário da Media Capital Mário Ferreira, o CEO Pedro Morais Leitão e do diretor-geral da TVI  e da CNN Portugal José Eduardo Moniz, mas ou recusaram comentar o caso ou não responderam às solicitações do jornal. 

13 novembro 2025

Vítimas de nudes com IA sofrem num limbo digital enquanto os sites lucram: “Senti-me abusada”

Yasmin Velloso/Agência Pública
Mulheres são as principais vítimas. Lei brasileira endurece penas, mas criadores contam com impunidade.

Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Guilherme Cavacanti, e editado por Ed Wanderley, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.

“Ruivinha”, “Novinha”, “Safada”. As tags buscadas por Rafaela Bomfim em um site internacional, para seu desespero, revelavam ela mesma, mas sem roupas. Nos comentários, usuários discutiam sua identidade e faziam discursos que a deixaram em estado de paranoia por semanas. As imagens, falsas, foram recriadas com auxílio de inteligência artificial (IA) a partir de suas publicações pessoais no Instagram.

“E a minha paranoia é: e se dessa [numa próxima] vez ninguém ver? E se ficar por aí? Eu entrei no perfil do cara que postou e tinha milhares de meninas. Muitas provavelmente nem sonham que isso está sendo feito com elas”, contou a estudante de design de 21 anos que vive em Brasília. A criação de deep nudes, imagens falsas que usam o rosto de pessoas reais em corpos criados com IA, já é alvo de uma lei específica deste ano que eleva a punição de violência psicológica com o uso de tecnologia, mas que, segundo especialistas ouvidas pela Agência Pública, não acompanham a dimensão e velocidade do problema.

O problema é mais recorrente do que se pensa. Em junho deste ano, estudantes de uma escola de Belo Horizonte venderam montagens pornográficas de alunas, entre 12 e 17 anos, em aplicativos de mensagens, como mostrouO Tempo. Dois anos antes, em 2023, jovens de um colégio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, também usaram IA para criar imagens íntimas falsas de mais de 20 colegas, como reportou a CNN.

A líder de projetos em inteligência artificial no Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (Ip.Rec), Clarissa Mendes, explica que a violência dos deep nudes não se reduz ao caráter “irreal” das imagens. “Existe a tendência de achar que porque não é verdade, porque não são imagens reais, não há consequências práticas. Só que o que a gente encontra de pesquisa em relação aos efeitos diz o contrário: vítimas de abuso digital têm danos duradouros, complexos e abrangentes”, explica a pesquisadora.

Impactos na saúde mental de mulheres de todas as idades vítimas desse tipo de crime foram relatados na tese de doutorado da socióloga Laís Patrocínio, professora da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Depressão, automutilação, transtornos alimentares, ideações suicidas e dificuldades de convívio social estão entre as sequelas e a pesquisadora destaca que a culpa se torna central em “qualquer tipo de violência de gênero”: “Culpa e vergonha. A culpa é uma grande vilã, porque se você [acha] que é a culpada, por que você pediria ajuda?”, diz Patrocínio.

“Talvez, no fim das contas, faça muito pouca diferença se aquela bunda é daquela mulher ou não, porque o rosto dela tá ali. Por mais que seja falso, a pessoa está exposta de uma forma íntima, descontextualizada”, destaca Patrocínio. “A exposição, em si, uma hora passa, porque as pessoas esquecem. Mas os danos para vida pessoal e profissional são muito mais difíceis de reverter”, completou.

A estudante universitária Rafaela Bomfim foi vítima de uma deep nude criada com Inteligência Artificial | Yasmin Velloso/Agência Pública

“Vês que tem uma foto tua, nua, na casa de banho da tua casa”

Era um dia frio e Rafaela Bomfim estava em uma viagem na Europa quando recebeu a ligação do então namorado. “Ele me ligou e falou: ‘eu preciso te contar uma coisa, mas eu preciso que você fique calma’”, relembra. Do outro lado da linha, veio a notícia: fotos suas, publicadas recentemente no feed e stories do Instagram, haviam sido transformadas em pornografia exposta em um site adulto e já somava milhares de visualizações.

A plataforma atendia a pedidos de usuários para criar nudes com uso de IA. As fotos originais, lembra a estudante, eram imagens despretensiosas, tirada de costas, fazendo pose, até serem adulteradas. “Minha reação foi ficar muito assustada […] A sensação que me deixou foi que eu fui abusada. A partir do momento que parece muito [real], sabe? Era uma foto no cenário que eu tinha tirado. Era no banheiro da minha casa. E você bate o olho naquilo e você vê que tem uma foto sua, nua, no banheiro da sua casa…”, contou, emocionada. 

“O pior de tudo isso é o sentimento de você como mulher, de saber que tem gente por ai que se sente titular do seu corpo”, afirmou Bomfim. O medo então não foi apenas da exposição, mas da insegurança constante que se instalou. Em um dos comentários, um usuário perguntou quem era a mulher da imagem; outro sugeriu chamá-lo na DM, insinuando saber sua identidade. Então, a estudante passou a desconfiar de colegas de faculdade, desfez conexões nas redes e passou a viver em estado de alerta.

A estudante universitária Rafaela Bomfim foi vítima de uma deep nude criada com Inteligência Artificial | Yasmin Velloso/Agência Pública

“Criei uma paranoia muito grande. Eu pensava: ‘todo dia eu pego o mesmo ônibus, vejo pessoas que não conheço, e se alguém ali sabe da minha rotina?’ […] Poderia ser alguém que estudou comigo, alguém próximo ou um desconhecido que sabe da minha rotina. Se uma pessoa tem a capacidade de fazer algo assim, o que ela não faria comigo na vida real?”, lembrou. 

“Eu me arrependo, tipo, se eu tivesse corrido atrás dessa parada […] tivesse contratado alguém que sabe rastrear IP [identificação digital do criador das imagens]. […] Mas essa oportunidade eu perdi. E isso que faz a gente se sentir culpado, porque foi um momento muito difícil e eu não tava com a cabeça no lugar pra correr atrás”, confessa.

Segundo Rafaela, após acionar a plataforma, a remoção das imagens foi rápida – a postagem foi excluída no mesmo dia. Se livrar do impacto da experiência, no entanto, não ocorreu na mesma velocidade, o que ela descreve como uma sensação de trauma e “muito humilhante”: “Como é que a gente se protege disso? Você se isola do resto da sociedade? Para de postar foto sua? Não existe isso”.

Muito além da lei: o desafio de prevenir a violência

Desde abril, está em vigor no Brasil a Lei 15.123/25, de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que aumenta a pena de violência psicológica contra a mulher quando praticada com o uso de IA. Nesses casos, a punição, que varia de seis meses a dois anos de prisão, é agravada em 50%. Apesar do avanço, especialistas ouvidos pela Pública apontam que a legislação não acompanha a rapidez das novas formas de agressão.

A advogada e pesquisadora Lucimara Plaza Tena explica que as vítimas podem recorrer a instrumentos já previstos no ordenamento jurídico, como o Código Penal e o Marco Civil da Internet. Ainda assim, há lacunas importantes, como a ausência de responsabilização efetiva das plataformas que lucram com esse conteúdo e a dificuldade de identificar os autores. 

“Não existe uma regulamentação hoje suficiente que responsabiliza o provedor […] Ele monetiza por conta disso. Então, ele tem que ter alguma responsabilidade também”, afirma Tena, que pesquisa as conexões entre direito e IA.

Foi nesse cenário que a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher realizou uma audiência pública para discutir os impactos da tecnologia na violência de gênero, em setembro. “A que não estão sujeitas as crianças e os adolescentes navegando nas redes sociais sem nenhum tipo de controle, de fiscalização e de legislação específica que nos proteja?”, questionou a deputada Erika Hilton (Psol – SP), que presidiu o início da sessão.

Entre as participantes, estava a diretora de pesquisa do InternetLab, Clarice Tavares, que destacou a insuficiência do arcabouço legal e a necessidade de novas formas de regulação. Para ela, o debate brasileiro ainda está excessivamente focado na criminalização. “Quando a gente pensa no uso do direito penal para esses casos, a gente está falando de uma resposta que vem depois que a violência já aconteceu. Não existe uma camada preventiva”, disse Tavares à Pública.

De acordo com a SaferNet, canais no Telegram têm sido usados para comercializar conteúdos ilícitos, inclusive mídias artificiais de celebridades brasileiras em contextos sexuais, com transações feitas via PIX. Além disso, o relatório aponta que, entre janeiro e julho de 2025, 64% das denúncias recebidas pelo Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos envolveram abuso sexual de crianças e adolescentes, número que inclui casos de imagens manipuladas e deepfakes gerados por inteligência artificial. 

Já uma pesquisa do Instituto de Internet de Oxford (Oxford Internet Institute, em inglês), em 2024, identificou cerca de 35 mil modelos de deepfake públicos, baixados 15 milhões de vezes ao redor do mundo — 96% deles voltados para retratar mulheres.

Outro desafio, segundo Tavares, é enfrentar um problema que não se resume a indivíduos isolados, mas a um sistema inteiro que lucra e se organiza em torno da misoginia digital. “Essas plataformas, as redes masculinistas que se criam com essas novas tecnologias, é algo que se fortalece, que vão criando cada vez mais novos capítulos, ferramentas e aprofundamentos da misoginia, de formas de violência contra a mulher”, conclui.

03 novembro 2025

CEP divulga nova tradução de livro da Bíblia

halfpoint
Comissão está a pedir o envolvimento da comunidade no projeto de tradução

A Comissão Coordenadora de tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disponibilizou a nova versão do chamado “Livro de Joel”, incluído no Antigo Testamento. A nova tradução foi disponibilizada online este sábado, dia 01. 

Numa nota enviada à Agência ECCLESIA, a Comissão da CEP considera que o livro é uma reflexão poética sobre a realidade do povo de Israel: "Com bons rasgos de lirismo, devemos admitir que Joel escreveu uma obra-prima de poesia vigorosa e possante, construída com rigor literário, na qual são habilmente utilizados alguns motivos proféticos tradicionais", refere a apresentação do texto bíblico, acrescentando que o profeta, cujo nome poderia ser "Yo'el", visto que é o nome que surge em epígrafe no texto, "usa um vocabulário quase clássico, mas em estilo exuberante, com recurso a imagens, a metáforas e a paralelismos". Não é possível datar com precisão a data em que o "Livro de Joel" foi redigido, mas os especialistas concordam que o texto terá sido escrito entre 515 e 332 a.C., uma época posterior ao "exílio de Israel". 

CEP quer participação da comunidade

Tal como já fez com as traduções dos outros livros da Bíblia, que têm vindo a ser publicados desde 2021, a Comissão quer envolver todos no processo de tradução para português. 

O processo, iniciado em 2019, envolve 34 investigadores e tem feito a tradução dos livros da Bíblia a partir dos idiomas originais. Na altura do lançamento, o coordenador da Comissão da Tradução da Bíblia Padre Mário de Sousa dizia que o desafio estava em manter a fidelidade às línguas originais e, ao mesmo tempo, ser “compreensível para os leitores de hoje“.

Com o "Livro de Joel", a Comissão quer continuar a "acolher o contributo dos leitores, em ordem ao melhoramento da compreensibilidade do texto", sendo possível descarregar a tradução provisória no site da CEP.   

O "Livro de Joel" é um dos livros do Antigo Testamento, sendo um dos mais pequenos de toda a Bíblia, sendo composto apenas por três capítulos. 

01 novembro 2025

Ser ou Ter? O Fascínio das Marcas.

Kit Suman/Unsplash
"O consumismo tornou-se mais do que um mero hábito — é um palco de afirmação social."

Estou no meio do centro comercial, cercada por vitrines reluzentes, gente apressada, música animada e aquele cheiro de novidade misturado com desejo. Os meus olhos percorrem os logótipos das marcas, as camisolas no expositor, as sapatilhas na montra e os perfumes que prometem adoçar a minha imagem. Sinto que não lhes pertenço, que há um muro invisível entre mim e tudo isto.

No bolso, o dinheiro não chega. Sei disso, mas cá dentro cresce uma vontade: quero ser vista, reconhecida, valorizada. Pergunto-me se, ao comprar algo de marca, vou conseguir esse objetivo, sentir aquela confiança que vejo nos anúncios ou nos amigos que as exibem. O preço pisca, desafia, e a minha cabeça começa a negociar comigo própria: será que vale a pena? Talvez consiga se poupar este mês? Talvez escolha uma só peça?

Cresce um nó na garganta — o medo de ficar de fora, de parecer menos, de não acompanhar os demais. A razão diz que é só um objeto, uma marca, mas a emoção grita que é mais do que isso: é aceitação, é identidade. Penso, repenso, hesito. Não quero estar sempre à margem. Comprar, só um pouco, talvez me faça sentir parte do grupo e elevar o meu valor, mesmo que por uns instantes.

No fundo, no meio das luzes do centro comercial, procuro alguma coisa que me faça sentir especial.

Num mundo onde a publicidade nos envolve por todos os lados, o consumismo tornou-se mais do que um mero hábito — é um palco de afirmação social, aspiração e identidade. No coração deste fenómeno late uma obsessão: a procura incessante por produtos de marca. Mas porquê este fascínio? O que nos leva a medir o nosso valor através do que compramos?

Desde as primeiras civilizações até à sociedade globalizada de hoje, a relação do ser humano com os objetos que possui sempre foi muito mais do que utilitária. Se antes um objeto era símbolo de sobrevivência ou ferramenta de trabalho, a modernidade atribuiu-lhes um papel novo — o de símbolos. Com a Revolução Industrial, a avalanche de bens acessíveis gerou novos desejos e, com eles, nasceu o branding: um passaporte para o reconhecimento e a pertença.

As marcas deixaram de ser assinaturas de garantia e passaram a ser bandeiras de estilos de vida. São elas que nos dão entrada para certos grupos, que nos posicionam socialmente, que alimentam sonhos e imaginários. Comprar um produto de marca, nos dias de hoje, é um ato carregado de significado: uma declaração pública de quem somos, de quem ambicionamos ser. Somos, também, cutucados constantemente por campanhas de marketing engenhosas, criadoras de desejos por vezes utópicos, de modas passageiras e de necessidades construídas.

A antropologia lança luz sobre esta dinâmica: nós, seres sociais, procuramos pertença e reconhecimento. A teoria da identidade social explica que nos vemos refletidos nos grupos a que aspiramos pertencer, e para isso seguimos os códigos — um deles é o consumo visível. Não surpreende, por isso, que o valor pessoal seja frequentemente confundido com a posse de bens, reflexo de uma cultura mediática que associa sucesso à imagem.

Contudo, esta corrida frenética ao consumo tem consequências profundas. O planeta ressente-se da exploração de recursos, trabalhadores veem-se esmagados por lógicas produtivas implacáveis — e nós próprios ficamos reféns de uma constante inquietação: será que tenho o suficiente? Será que sou aquilo que pareço?

É, pois, urgente repensar o consumo. Mais do que nunca, precisamos de um olhar crítico, de abraçar a compra consciente, de valorizar a durabilidade sobre a moda, a necessidade real sobre o impulso. Ser humano é mais do que possuir; é saber escolher o que importa. O futuro, sustentável, agradece.

30 outubro 2025

"O Que Acontece Depois" estreia no TVCine

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Filme é realizado e protagonizado por Meg Ryan.

É descrito como um filme que traz "uma abordagem sensível e madura ao amor e às escolhas feitas durante a juventude". "O Que Acontece Depois" estreia este domingo, dia 02, no TVCine Top. 

Protagonizado por David Duchovny e Meg Ryan, que também realiza, o filme traz a história de Bill (Duchovny) e Willa (Ryan), um casal há muito separado e que se reencontra anos depois num aeroporto, durante uma tempestade de neve: "À medida que a noite avança e os respetivos voos são cancelados, mergulham numa troca de memórias da sua anterior relação, frustrações e emoções antigas, num diálogo cheio de humor, tensão e nostalgia", descreve o canal premium de cinema, realçando que o casal vai-se confrontar "com o que foram e as pessoas que, entretanto, se tornaram", entrando num processo de reflexão sobre "o que ainda os une. Será esta uma segunda oportunidade ou há feridas que o tempo não consegue curar?".

"O Que Acontece Depois" será emitido a partir das 21h35. Após a transmissão, o filme fica disponível no serviço de streaming TVCine+. 

 

29 outubro 2025

Como é que as pessoas assexuais navegam a intimidade?

Chiara Guercio/Unsplash


Um estudo realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) explorou os fatores associados às diferentes cognições, emoções e desejos reportados por pessoas do espetro da assexualidade (“a-spec” – termo mais inclusivo para ilustrar a diversidade de experiências e vivências). Os resultados deste estudo salientam a importância das diferenças individuais nas vivências das pessoas a-spec, algo que pode contribuir para promover uma sociedade mais informada e a elaboração de políticas mais inclusivas.


A assexualidade é tipicamente definida como a falta de atração sexual (por vezes, associada a uma repulsa sexual). Contudo, essa definição é simplista e limitada para descrever a multiplicidade de experiências vividas pelas pessoas da comunidade a-spec. Explorar e caracterizar essa pluralidade de vivências foi o mote para a investigação levada a cabo por Ana Catarina Carvalho, doutoranda em Psicologia no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, e David L. Rodrigues, investigador no CIS-Iscte. O estudo foi recentemente publicado na revista Sexuality Research and Social Policy e parcialmente financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Refs.: 2023.01784.BD e 2020.00523.CEECIND).


Ana Catarina Carvalho refere que “nos últimos anos, tem havido uma crescente visibilidade da assexualidade, através de ativismo e de comunidades online como a Rede para a Visibilidade e Educação Assexual (AVEN, do inglês Asexual Visilibity and Education Network)”. Apesar disso, a assexualidade continua sub-representada na investigação.


“As experiências das pessoas a-spec são muito diversas”, afirma o investigador David L. Rodrigues. De acordo com a literatura, as vivências de pessoas a-spec incluem: pouca ou nenhuma atração sexual; sentir atração sexual apenas após o estabelecimento de ligações emocionais profundas; e até experienciar níveis flutuantes de atração sexual. Da mesma forma, algumas pessoas a-spec podem sentir pouca ou nenhuma atração romântica, enquanto outras podem sentir atração romântica (com ou sem atração sexual). “Estas diferenças e nuances relacionam-se a perceções, sentimentos e experiências distintas dentro da comunidade assexual. Por exemplo, na forma como as pessoas interpretam e navegam por relacionamentos sociais e afetivos”, afirma o investigador.


No estudo realizado, 456 pessoas de diversas nacionalidades que se identificaram como a-spec, responderam a diversas questões relacionadas com a sua identificação com a assexualidade, a intensidade das suas atrações sexuais e românticas, e acerca de estilos de vinculação (i.e., a forma como as pessoas experienciam a intimidade e dependência emocional). Foram também exploradas as suas experiências prévias relativamente a relações passadas, para melhor compreender as suas vivências e preferências.


De uma forma geral, os resultados indicaram uma forte identificação com a assexualidade. Pessoas com maior identificação com a assexualidade relataram ter menos experiência com parceiros românticos e sexuais. Paralelamente, pessoas que reportaram maior atração sexual e romântica reportaram ter tido mais relacionamentos. Ana Catarina Carvalho explica que “estes resultados salientam que algumas pessoas assexuais podem necessitar de relacionamentos para perceberem e aceitarem a sua falta de atração sexual, enquanto outras estão ainda a explorar os seus desejos e muitas vezes têm dificuldades em estabelecer relações por sentirem receio de assumir a sua identidade assexual a parceiros ou parceiras”. Quando analisados os padrões de vinculação, os dados indicam que um estilo de vinculação evitante estava associado a níveis mais elevados de identificação assexual e com menores níveis de atração sexual e romântica; foi ainda encontrada uma associação entre a vinculação ansiosa e a atração romântica e desejo por relações íntimas. A investigadora esclarece que os resultados observados vão de encontro a resultados prévios da literatura, acrescentando que “ter um vínculo afetivo evitante pode criar conflitos entre a identidade assexual e os sentimentos de atração romântica, levando algumas pessoas a temer a intimidade, evitar a proximidade e manter uma distância emocional com parceiros ou parceiras; paralelamente, um padrão de vinculação ansiosa nas pessoas assexuais pode estar associado ao facto de considerarem a possibilidade de ter relações íntimas no futuro e sentirem ansiedade devido a um medo de rejeição, que pode estar relacionado, ou não, com a incerteza do que a outra pessoa poderá esperar delas em termos da relação romântica e sexual”.


22 outubro 2025

Jornalistas detidos Andrzej Poczobut e Mzia Amaglobeli galardoados com o Prémio Sakharov 2025

Beko/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)



O Prémio Sakharov 2025 foi atribuído a dois jornalistas, o polaco-bielorrusso Andrzej Poczobut e a georgiana Mzia Amaglobeli, que estão presos por acusações relacionadas com as suas peças sobre democracia e sociedade civil.


A Conferência de Presidentes do Parlamento Europeu, composta pelos líderes dos grupos políticos do parlamento e pela presidente Roberta Metsola, anunciou os vencedores a 22 de outubro.


"Ambos são jornalistas atualmente detidos, sob acusações forjadas, por simplesmente fazerem o seu trabalho e por se manifestarem contra a injustiça", disse Metsola num comunicado em que anuncia os vencedores.


"A sua coragem tornou-os símbolos da luta pela liberdade e pela democracia. Esta Câmara está com eles e com todos aqueles que continuam a exigir liberdade."


Estudantes sérvios que protestam contra o governo em Belgrado há mais de um ano e jornalistas e trabalhadores humanitários na Faixa de Gaza também foram pré-selecionados para o prémio de 50 mil euros.


O principal prémio de direitos humanos da União Europeia foi criado em 1988 em honra do cientista e dissidente russo Andrei Sakharov e tornou-se uma das principais ferramentas de relações públicas da câmara, com regimes repressivos a atacar frequentemente os legisladores europeus por causa das nomeações e dos vencedores.


A lista de laureados anteriores inclui o antigo presidente sul-africano Nelson Mandela, o líder da oposição russo Aleksei Navalny e a ativista paquistanesa pela educação Malala Yousafzai.


Crítico Aberto de Lukashenko


Poczobut trabalhou para várias publicações bielorrussas e polacas e foi um dos líderes da organização política "União de Polacos na Bielorrússia", que representa a minoria polaca no país. Crítico aberto do regime do governante autoritário de longa data Aleksandr Lukashenko, Poczobut foi repetidamente detido pelas autoridades.


Detido em 2021 como parte da repressão política contra a oposição e a sociedade civil no país, após as eleições presidenciais fraudulentas do ano anterior, foi posteriormente condenado a oito anos numa colónia penal.


Embora tenham sido negadas visitas à sua família, tem havido esperança de que ele possa ser libertado em breve, uma vez que os Estados Unidos têm estado a negociar com Minsk o alívio de algumas sanções em troca da libertação de alguns dos estimados milhares de prisioneiros políticos no país.


O político da oposição Alyaksandr Milinkevich, a associação de jornalistas bielorrussos e a oposição democrática na Bielorrússia, liderada por Svyatlana Tsikhanouskaya, já foram anteriormente galardoados com o prémio.


Deterioração da Saúde na Prisão


Amaglobeli, fundadora dos meios de comunicação independentes Batumelebi e Netgazeti, foi detida no início de 2025 e posteriormente condenada a dois anos de prisão por "resistir ou usar violência contra um agente da autoridade" durante um protesto pró-europeu após as controversas eleições parlamentares na Geórgia, em outubro de 2024.


Desde então, tem havido numerosos relatos sobre a deterioração da sua saúde enquanto está presa. O seu veredito, denunciado pela UE, pelas Federações Europeia e Internacional de Jornalistas e por grupos de defesa dos direitos, é visto como parte de uma campanha estatal mais ampla para silenciar a dissidência e restringir a liberdade de expressão na Geórgia.


Considerada a primeira prisioneira política do sexo feminino na Geórgia desde a sua independência em 1991, é também a primeira georgiana a receber o prémio.


A cerimónia de entrega do prémio terá lugar em Estrasburgo, a 16 de dezembro.


21 outubro 2025

Morreu o empresário Francisco Pinto Balsemão

Grupo IMPRESA


O empresário e ex-político português Francisco Pinto Balsemão morreu esta terça-feira, em Lisboa. A informação foi avançada pela SIC Notícias, que acrescentou que morte aconteceu de causas naturais. 


Fundador do Partido Social Democrata, onde era o militante n.º 1, teve uma atividade política bastante ativo, tendo desempenhado funções de deputado, ministro e primeiro-ministro. Foi também fundador do jornal Expresso em 1978,  já na década de 90 do século XX, foi o principal promotor e fundador da SIC. Atualmente, era o presidente não executivo do grupo Impresa. 


Aos jornalistas, o primeiro-ministro português Luís Montegro frisou o papel de Balsemão para a democracia, dizendo que o empresário foi "alguém que também representou Portugal exercendo a missão de liderar um Governo e ser primeiro-ministro". O governante acrescentou que quer decretar luto nacional pela morte de Balsemão. 


Já o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota publicada no site da Presidência, classificou Balsemão como "uma das personalidades mais marcantes dos últimos sessenta anos. Na política, na sociedade, na afirmação da liberdade de expressão e de imprensa". Elencado o passado político e de atividade nos media, Rebelo de Sousa acrescenta que o empresário era um "visionário, pioneiro, criativo, determinado, batalhador, democrata, social-democrata, europeísta e atlantista [...] Portugal não o esquece. Portugal nunca o esquecerá". 


Francisco Pinto Balsemão tinha 88 anos. 

20 outubro 2025

Apagão na Amazon deixa sites indisponíveis

Abid Shah/Unsplash


Um problema num dos centros de dados da Amazon Web Services, a divisão da Amazon para serviços de alojamento de aplicações web, afetou sites e empresas em todo o mundo esta segunda-feira. A falha aconteceu ao início da manhã e afetou plataformas como o Canva, Fortnite, Snapchat ou Google, além de bancos ou sites governamentais. 


O erro foi classificado pela gigante como um "problema operacional" num centro de dados nos estado da Vírgina, nos Estados Unidos da América, e já estará em resolução. 


Aquando da publicação deste artigo, a dimensão do impacto do problema a nível mundial não era totalmente conhecida. 

18 outubro 2025

O que vem depois do cessar-fogo na Faixa de Gaza?

Abedallah Alhaj/UNRWA/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)



Por mais difícil que tenha sido alcançar um cessar-fogo na Faixa de Gaza, essa foi a parte mais fácil. Resta agora encarar de frente um desafio que se arrasta desde 1948, sem solução: a criação de um Estado palestino soberano, com fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente.


Não há nada na articulação feita pelo presidente americano, Donald Trump, que garanta à nação palestina a criação de um Estado próprio agora. Pelo contrário, as declarações dele vão no sentido oposto – Trump já disse que Gaza deveria ser transformada num resort de luxo e seus habitantes, mandados para países vizinhos. Além disso, criticou as potências europeias que reconheceram o Estado palestino, desaprovando e desinflando um movimento coordenado, coerente e contundente, que poderia ter desembocado num desenlace positivo e definitivo para toda essa história.


Daniel Torok//The White House/Governo dos Estados Unidos da América/Domínio Público


Um cessar-fogo frágil, mas importante


A despeito das insuficiências, o cessar-fogo deve, ainda assim, ser saudado por ter permitido a devolução a Israel 20 civis que passaram mais de 700 dias sequestrados ilegalmente pelo Hamas em Gaza e de 2 mil palestinos que, ao deixarem as prisões israelenses – alguns dos quais após longos períodos de encarceramento, sem acusação formal e direito de defesa –, relataram os suplícios aos quais foram submetidos, muitos deles durante anos. Além disso, mesmo sendo um cessar-fogo frágil, dezenas ou centenas de vidas inocentes – incluindo muito especialmente a vida de crianças – já estão sendo poupadas, a cada bomba que deixa de cair, a cada tiro que não é mais disparado.


Contudo, o arranjo é precário e há um risco permanente de que tudo retroceda. A falta de uma solução definitiva para a questão palestina pode reascender a espiral de violência que tantas vezes ao longo da história assaltou a região. A soma do ressentimento com o desejo de vingança é um combustível de alta octanagem, que permanece estocado na região, à espera de uma nova fagulha de agressão, seja de que lado for.


Unidade do Serviço de Comunicação das Forças de Defesa de Israel (CC BY-SA 3.0)


Palestina e Israel: a solução dos dois Estados


A criação de um Estado palestino é fundamental para desarmar esses explosivos. Só que Israel – este governo em particular, chefiado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu – teme, de forma cada vez mais paranoica e eloquente, a existência de um Estado vizinho organizado, soberano e hostil, que possa vir a ter uma Força Armada própria, fronteiras livres e acesso a armas de munição. O temor israelense é que um Estado vizinho com essas características acabe se convertendo numa ameaça existencial ainda mais difícil de ser contida do que um mero grupo armado organizado. Esse temor não é de todo absurdo, porque o Hamas de fato tem como fundamento proclamado a destruição do Estado de Israel.


Em tese, a solução seria alijar o Hamas das estruturas formais de poder na Faixa de Gaza e obliterar sua capacidade militar, de maneira que seus membros remanescentes não tivessem influência para além do mero discurso. Segundo essa ideia, o poder seria administrado, no fim, pela própria Autoridade Nacional Palestina (ANP), que já governa a Cisjordânia, tendo Mahmoud Abbas como sua figura de proa – um personagem palatável aos EUA e às potências europeias, com trânsito nos países árabes e com relativa boa aceitação dos palestinos, apesar das acusações de corrupção e incompetência.   


Em termos simples, a ANP – ou alguma outra estrutura civil correlata que viesse a ser criada – representaria a expressão política do poder palestino sem o componente violento e incendiário do Hamas. Foi afinal para apoiar esse arranjo que, no encontro que selou o cessar-fogo, no Egito, esta semana, Trump apertou a mão de Abbas e se deixou fotografar ao lado dele, num encontro em que o Hamas, obviamente, jamais estaria presente.


Tudo isso, entretanto, é discurso, não ação. Na prática, em Israel, o percentual da população que realmente acredita numa solução de dois Estados é muito baixo: só 27%, na pesquisa Gallup publicada em setembro deste ano. Do lado palestino, a situação é só um pouco melhor: 33% dos moradores da Cisjordânia acreditam na solução de dois Estados. Não existem dados de Gaza, pois não foi possível fazer essas perguntas à população local em meio à guerra.


O que esses percentuais demonstram é que a melhor saída política possível só tem o apoio de um terço das populações envolvidas. O restante prefere um Estado israelense que expulse ou incorpore os palestinos como cidadãos de segunda classe; ou um Estado palestino que expulse ou incorpore os israelenses ou judeus, como queira, também na qualidade de cidadãos de segunda categoria. Ou seja, as alternativas à solução de dois Estados são, na melhor das hipóteses, receitas para um Apartheid institucionalizado, no interior de um único Estado, seja ele qual for.


Unidade do Serviço de Comunicação das Forças de Defesa de Israel (CC BY-SA 3.0)


Gaza: três caminhos para o futuro


Qualquer um desses cenários é, no entanto, distante. Por enquanto, o que existe é um mero cessar-fogo, que apenas congela o conflito em seu estado atual. O próximo passo – seja na direção longínqua da solução de dois Estados ou não – passa por pelo menos três fatores intermediários: formação de uma burocracia administrativa internacional para gerir os assuntos locais, incluindo a administração de toda a ajuda humanitária; criação de algum tipo de força estrangeira, sem a participação de Israel e com anuência do Conselho de Segurança, para exercer o controle securitário da zona; e reconstrução física das estruturas civis que, por mais de 700 dias, foram bombardeadas de maneira inclemente, no que alguns especialistas passaram a chamar de “urbicídio”.


O plano de Tony Blair para os palestinianos


Como as Nações Unidas estão alijadas das principais decisões recentes sobre a Faixa de Gaza e ainda não existe nenhuma autoridade constituída que substitua o Hamas na gestão desse território palestino, torna-se difícil saber quem é realmente o ponto de referência nesse processo de reconstrução. A pista mais sólida nesse sentido é o plano atribuído ao ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair. São 21 páginas de um planejamento de três anos, nos quais são descritas as estruturas de governança da Faixa de Gaza, no que seria um período de transição até uma suposta autonomia total das autoridades locais.


Até lá, seria montado um governo controlado por personalidades estrangeiras instaladas no exterior, cujo mandato seria outorgado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, prevendo prerrogativas para negociar desde a entrada de ajuda humanitária até os contratos de reconstrução, passando pela criação de uma polícia local e de outros corpos armados de segurança que atuariam dentro de Gaza. 


Os palestinos participariam dessa entidade chamada Gita, sigla em inglês de Autoridade Internacional Transitória em Gaza, mas só na base da pirâmide. No topo, estariam personalidades estrangeiras, que assumiriam a interlocução internacional com doadores, agências humanitárias, governos estrangeiros, Nações Unidas, Banco Mundial, empresas privadas e outros atores envolvidos.


ONU pode fazer da Palestina um Haiti no Médio Oriente


A receita de Blair não é muito diferente da abordagem que a ONU tentou nos anos 1990 e 2000 em lugares como o Haiti, nos quais Estados burocraticamente disfuncionais ou simplesmente falidos foram substituídos por uma burocracia internacional, acompanhada de forças multinacionais de paz, que realizaram ações ambiciosas e abrangentes de “peace building” ou “construção da paz”. Na teoria, a ideia era promover uma reconstrução meramente técnica e apolítica, para que então as forças políticas pudessem dar sequência ao trabalho, de maneira autônoma.


Se essa estratégia passa a impressão de tutela é porque de fato se trata de mais uma proposta de tutela sobre os palestinos, ironicamente protagonizada por um cidadão do Reino Unido, numa reedição aproximada do Mandato Britânico que vigorou na Palestina dos anos 1920 até 1948. Se de fato for implementado, o plano de Blair repetirá uma receita desgastada, que desperta a ojeriza própria do antigo colonialismo.


O problema é que não existe hoje sobre a mesa nenhuma outra proposta viável. Se Israel recuar da Faixa de Gaza, o mais provável é que o Hamas simplesmente reassuma o papel que desempenha na região desde 2007, quando expulsou o rival Fatah e assumiu o controle militar e político. Como isso seria inadmissível para Israel e EUA, o mais provável é a formação de um consórcio político estrangeiro para a gestão local, seja nos moldes propostos por Blair, seja em algum outro esquema semelhante.


A questão de uma força armada palestiniana


Criar um Estado soberano livre de tutela inclui outorgar à burocracia local a gestão da segurança de seu próprio território e de sua população. Enquanto os palestinos não tiverem a gestão de sua própria polícia e de suas Forças Armadas, não haverá de fato um Estado soberano, mas um Estado tutelado, seja por uma potência de ocupação, como Israel, seja por uma força multinacional de paz. Serão estrangeiros detendo palestinos e eventualmente, em casos extremos, disparando contra palestinos.


Como está fora de cogitação rearmar e empoderar o Hamas, então o mais provável é que se forme um consórcio de forças estrangeiras para exercer essa função. Uma das hipóteses é a de que o Conselho de Segurança empregue “seus” capacetes azuis em Gaza, mesmo com todo o risco de inoperância e de incompetências que isso envolve, como demostram os 46 anos de existência da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil, na sigla em inglês), onde armas e munições continuaram chegando ao Hezbollah e onde Israel seguiu fazendo incursões armadas – duas claras violações ao mandato dos capacetes azuis alocados na região desde 1978.


A outra hipótese é a de que essa costura seja feita fora das Nações Unidas, seja por meio da formação de um consórcio militar de países árabes, seja por meio de uma intervenção unilateral americana, que poderia agir tanto por meio de suas próprias forças armadas quanto com o envio de agentes privados de segurança, como os americanos cansaram de fazer nos processos de “reconstrução”, em lugares como Iraque, Afeganistão e Paquistão, e como os russos fizeram em outros contextos, como por exemplo nos países do Sahel. 


A reconstrução física de Gaza


Grande parte da Faixa de Gaza está no chão. Foram mais de 700 dias de intensos ataques israelenses, dirigidos contra a estrutura civil palestina. Além da demolição de prédios e de casas inteiras, grande parte da rede de coleta de esgoto e de suprimento de água limpa foi afetada, assim como as cadeias de transmissão de energia elétrica e a infraestrutura de locomoção, como estradas e ruas. O impacto de uma bomba não provoca apenas a demolição de seu alvo, mas também desconjunta tubulações, corta fios e cabos de transmissão, causa danos estruturais em viadutos e em pontes próximas, condenando estruturas e construções ao redor, que precisam ser interditadas e demolidas, antes de se pensar em reconstrução. 


O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento diz que 80% de todos os edifícios da Faixa de Gaza estão danificados e 92% da Cidade de Gaza também. A quantidade de escombros é monumental: são 55 milhões de toneladas de material arruinado, o que equivale a 13 pirâmides do Egito.


Em fevereiro deste ano, o Banco Mundial estimava em 53 bilhões de dólares o custo de reconstrução da Faixa de Gaza. Agora, esse custo subiu para 70 bilhões de dólares, dos quais pelo menos 20 bilhões teriam de ser desembolsados ao longo dos próximos três anos.


Haverá dinheiro para pelo menos parte dessa reconstrução. Havendo dinheiro, haverá empresas para reconstruir. O mais provável é que os projetos sejam tocados por firmas ligadas a alguns dos 30 países que estão participando desse condomínio político que respondeu pelo acordo de cessar-fogo e pelas conversas sobre a reconstrução que deve se seguir, caso não haja nenhuma reviravolta inesperada.  


The White House/Domínio Público


O futuro das relações com Israel e a campanha de Trump


A relativa paz trazida pelo cessar-fogo foi imposta a contragosto a Netanyahu e aos membros mais radicais de seu gabinete, que não se cansaram de proclamar publicamente a intenção de ocupar e colonizar Gaza, pregando a expulsão e o extermínio dos palestinos. Parte dessas declarações estão contidas no processo movido pela África do Sul contra Israel, por genocídio, na Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda. O Brasil é um dos países que se uniram a esse processo na instância que é responsável por julgar países, não pessoas. 


Não há nenhum prazo a vista para que essa corte responda se Israel cometeu ou não um crime de genocídio na Faixa de Gaza. Os israelenses têm até janeiro de 2026 para responder às arguições. Até lá, o desgaste é muito mais político do que jurídico. 


Além da questão do genocídio, a Corte Internacional de Justiça analisa ainda um outro processo, também movido pela África do Sul, que trata das responsabilidades humanitárias de Israel em relação à população palestina mantida sob ocupação. Neste caso, a Corte deve emitir sua opinião meramente consultiva no dia 22 de outubro.


Por fim, pesam contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa dele, Yolav Gallant, um pedido de prisão emitido pela Câmara de Instrução do Tribunal Penal Internacional, que também fica em Haia, mas é responsável por julgar pessoas, não Estados.


Israel não é parte do TPI, mas os crimes atribuídos a Netanyahu e Gallant foram cometidos no território palestino, que reconhece a jurisdição do Tribunal e, embora não seja plenamente reconhecido como um Estado, preenche requisito suficientes para a contração desse compromisso, aos olhos do TPI.


Na prática, Netanyahu e Gallant só vão presos se pisarem no território de um Estado membro do Estatuto de Roma, que senta as bases para a existência do TPI, desde que esse Estado em questão decida captura-los e enviá-los a Haia, o que poucos governos têm coragem de fazer. O Brasil é um dos membros, assim como países da União Européia. Os EUA nunca fizeram parte desse tratado.


Os dois pedidos de prisão foram enfraquecidos pelas acusações de assédio sexual que pesam contra o procurador do TPI, o britânico Karim Khan, que passou a ser pivô de um escândalo de grandes proporções morais. Além disso, Trump certamente reagiria a qualquer atitude hostil do TPI contra autoridades israelenses, o que demonstra que suas intenções em Gaza não têm a ver com fazer justiça, promover reparação e facilitar saídas políticas duradouras, que deem conta dos problemas de fundo.


O interesse do presidente Trump parece ter alcance mais curto e muito ligado à promoção de sua própria imagem de pacificador e estadista, o que pode ser insuficiente para a questão palestina, mas foi o bastante para congelar o conflito, pelo menos por enquanto. 


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