microgen/Envato ElementsMomento aconteceu durante um direto após o encontro entre o SL Benfica e o Real Madrid CF.
Dois profissionais da CMTV foram alvo de ameaças e insultos junto ao Estádio da Luz, em Lisboa, após o jogo desta terça-feira entre o SL Benfica e o Real Madrid CF, a contar para a primeira mão do playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões.
Os dois profissionais estariam a preparar-se para entrar em direto quando adeptos do SL Benfica abordaram o jornalista Pedro Neves de Sousa.A altercação foi transmitida em direto na emissão do canal de cabo e rapidamente partilhada nos sites do grupo medialivre, dona da CMTV e do jornal Correio da Manhã.
Em antena, a pivô Mariana Águas informou que quer Sousa quer o repórter de imagem "estão bem". Contudo, antes, garantiu que "as pessoas estavam a ser identificadas pelas autoridades" pois trata-se de "um crime público": "Vamos dar todo o seguimento que se impõe", garantiu a jornalista.
A situação aconteceu após o fim do jogo em que o SL Benfica perdeu frente ao Real Madrid CF por 0-1, com um golo de Vinícius Júnior. O jogo teve também um caso polémico, com um alegado episódio de racismo entre Vinícius e Prestianni. O jogador da formação encarnada terá chamado de "mono" ("macaco" em espanhol) ao avançando da equipa madrilena, tendo levado à interrupação da partida durante dez minutos.
ignis/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)Enquanto as imagens sexuais estão por todo o lado, as escolas japonesas continuam a tratar o sexo apenas como uma questão de biologia reprodutiva.
Imagens sexualizadas de corpos femininos inundam os espaços públicos no Japão, desde as capas de revistas nas lojas de conveniência aos cartazes publicitários nas ruas das cidades. Isto tornou-se algo tão comum que já é visto como perfeitamente normal.
Em outubro de 2025, uma petição no Change.org, intitulada “Protejam o Futuro das Nossas Crianças — Diga Não às Revistas Sexualmente Explícitas nas Lojas de Conveniência”, reuniu mais de 5 mil assinaturas. O objetivo era pressionar as lojas a retirarem as revistas para adultos das prateleiras, protegendo assim os menores. O argumento era de que este conteúdo explícito não passa de uma forma de assédio sexual e que prejudica as crianças na fase em que estão a construir a sua própria identidade.
Por essa altura, a escritora Emi S. partilhou uma reflexão no seu blogue no seu blogue no Medium:
Quando era criança, lembro-me de ver cartazes com rostos de mulheres e preços ao lado. No entanto, não me recordo de sentir qualquer desconforto na altura. Estava lá, simplesmente — era tratado como algo normal.
Emi S.
A Emi S. tocou num ponto essencial: a normalização da objetificação das mulheres na cultura popular japonesa. Muitas mulheres aceitam estas imagens sexualizadas como parte do dia a dia, ao ponto de nem as questionarem. E quando decidem demonstrar desconforto, as suas vozes são muitas vezes desvalorizadas como sendo um "exagero".
Imagens sexuais e a cultura popular japonesa
De onde vem este padrão? O boom dos media e da cultura popular no Japão pós-guerra criou um ecossistema visual onde o manga, o anime e as revistas impressas floresceram. O modelo das lojas de conveniência, que se espalhou nas décadas de 80 e 90, tornou as revistas — incluindo as pornográficas — acessíveis na rotina diária de qualquer pessoa.
De acordo com um estudo de 1989 citado pelo portal Nippon.com, 92,3% das lojas de conveniência vendiam revistas pornográficas. Mais tarde, a ascensão da estética moe[nota]A estética Moe foca-se em criar personagens de anime e manga que despertam no público um forte sentimento de afeto, ternura e um instinto quase paternal de proteção. Visualmente, define-se por traços suaves e "fofos", como olhos grandes e expressões de inocência, realçando uma vulnerabilidade que cativa emocionalmente o espectador.[/nota] no anime e no manga veio esbater ainda mais a linha entre o entretenimento e o erotismo. Isto é particularmente visível no crescimento do conteúdo "lolicon"[nota]O termo lolicon é uma abreviatura de "Lolita complex" e designa um género de manga, anime e videojogos focado na atração por raparigas pré-púberes ou personagens com traços marcadamente infantis. É uma das áreas mais polémicas da subcultura japonesa, sendo frequentemente criticada por normalizar a erotização de menores e por desafiar os limites éticos da liberdade de expressão.[/nota], onde personagens femininas jovens (ou com aparência infantil) são sexualizadas.
O lucro tem sido o grande motor deste mercado erótico, já que as revistas para adultos garantiam uma receita estável para muitos lojistas. No entanto, antes dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio 2020, as principais cadeias de lojas de conveniência — 7-Eleven, Lawson e FamilyMart — anunciaram que iriam deixar de vender estas revistas em todo o país. A decisão foi apresentada como um esforço para tornar as lojas "mais confortáveis para mulheres e crianças" e para "evitar manchar a imagem do Japão perante os turistas", o que marcou uma mudança simbólica importante.
Na internet, a medida dividiu opiniões. Os apoiantes viram nisto um progresso há muito esperado em termos de sensibilidade de género nos espaços públicos. Já os críticos consideraram a medida meramente teatral, argumentando que o Japão só agiu por causa da pressão estrangeira. No X (antigo Twitter), em 2019, a utilizadora Hoshikawa Shinya (@asitafukukazen) escreveu:
As mulheres queixam-se há anos e nada mudou até chegarem os Jogos Olímpicos. Isso mostra o quão pouco este país valoriza a voz das mulheres.
Hoshikawa Shinya (@asitafukukazen)
Embora estas imagens sejam agora menos visíveis nas grandes lojas, continuam a ser um elemento central da cultura pop e dos espaços públicos japoneses. Recentemente, surgiu também o alerta para anúncios sexualmente sugestivos em sites não pornográficos, bem como para a exposição de crianças a conteúdos sexualizados em jogos, manga e outros meios da subcultura.
Ainda assim, os pedidos para que existam mais restrições, como a criação de zonas específicas ou controlo de idade para aceder a conteúdos sexuais, tanto online como offline, acabam quase sempre por gerar controvérsia, com os críticos a defenderem que tais intervenções equivalem a censura.
O sexo continua a ser um tabu na escola e na sociedade
O debate sobre a liberdade de expressão vs. o direito a não ser objetificado (pela exposição pública de imagens eróticas) arrasta-se há anos sem que se chegue a um consenso.
Contudo, enquanto a sexualização continua a ser banal, a discussão educativa sobre sexualidade e consentimento é escassa no sistema de ensino japonês. Atualmente, as escolas ainda encaram o sexo apenas como uma questão de biologia reprodutiva. As aulas de educação sexual são frequentemente separadas por género: as raparigas aprendem sobre a menstruação enquanto os rapazes têm aulas de saúde geral ou desporto. Praticamente não se fala de sexualidade no sentido de consentimento, sexo seguro, relações saudáveis ou orientações sexuais.
Este currículo dividido por géneros reforça a ideia de que o conhecimento sexual é algo privado, vergonhoso ou até desnecessário. Como explicou o blogger Musashi, na plataforma Medium:
"A educação sexual japonesa tende a reforçar velhas normas e estereótipos de género. [...] A narrativa foca-se muito nas diferenças entre sexos e sublinha que homens e mulheres devem cumprir papéis distintos."
Como resultado, ainda hoje alguns japoneses veem a menstruação como um embaraço privado e não como uma questão de saúde pública, algo que já foi levantado pela deputada Ayaka Yoshida.
No entanto, os organizadores da campanha exigem que estas regras sejam substituídas por uma postura clara: todas as crianças devem ter acesso a uma educação sexual rigorosa e abrangente. Até agora, mais de 41 500 pessoas já assinaram a petição.
Na verdade, uma sociedade onde as imagens sexuais fazem parte do quotidiano exige uma educação sexual muito mais completa para combater estereótipos de género. Como indicam vários estudos de psicologia dos media, a exposição repetida a conteúdos que objetificam o corpo pode moldar a forma como os espectadores veem os papéis de género e os relacionamentos.
No Japão, piadas sexuais casuais, comentários sobre a aparência e pressupostos sobre o comportamento das mulheres são comuns em ambientes de trabalho e em escolas. Nos adolescentes, o contacto frequente com conteúdo erotizado em espaços públicos pode acabar por "anestesiar" a sensibilidade em relação ao que é um comportamento respeitoso ou inapropriado, normalizando o assédio sexual e o body shaming desde cedo.
E os danos são visíveis. Por exemplo, uma jovem de 14 anos queixou-se num fórum para adolescentes que os rapazes comentavam frequentemente sobre o seu peito, perguntando: "Não tens vergonha de ter as mamas tão grandes?". Disse ainda que até os professores pareciam olhar para o peito dela antes de olharem para o seu rosto. O seu desabafo teve eco em muitas colegas, mas também gerou várias piadas sexuais por parte de rapazes.
Neste tipo de ambiente, é muito mais provável que as mulheres acabem por se "auto-objetificar", vendo a atratividade sexual como a principal medida do seu valor.
O desafio do Japão passa por conciliar o desejo de preservar a liberdade criativa e erótica com a necessidade de garantir que os espaços públicos respeitam a dignidade humana. O primeiro passo pode muito bem começar pela introdução de um currículo de educação sexual mais aberto, abrangente e diversificado.
Este artigo, escrito por Jo Carter, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.
KYNASTUDIO/Envato ElementsEm plataformas como o Discord, os jovens envolvem-se em desafios violentos. Animais e raparigas estão entre as vítimas mais frequentes.
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Amanda Audi, com edição de Bruno Fonseca, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
Uma menina de 13 anos faz uma transmissão ao vivo em um grupo da rede social Discord. Ela ateia fogo em um gato enquanto mostra em tempo real aos outros usuários. O animal corre pela casa, alastrando as chamas. Depois, ela posta no grupo: “Botei fogo na casa, daora”.
Essa foi uma das cenas chocantes que as pesquisadoras independentes Tatiana Azevedo e Letícia Oliveira tiveram acesso enquanto monitoravam grupos extremistas no Discord entre 2023 e 2024. “São coisas que eu nunca vou esquecer, mudaram a minha vida”, afirma Azevedo.
Elas publicaram ano passado um relatório sobre situações brutais que ocorrem nos grupos da rede social, chamados de panelas. Crianças e adolescentes estão entre os principais envolvidos em crimes que também incluem incentivo à automutilação, suicídio e estupros virtuais coletivos (em que as vítimas são forçadas a praticar atos sexuais ou se exporem na rede social).
Os atos são chamados de “lulz”, termo usado para designar uma “brincadeira” ou desafio que muitas vezes envolve violência. “Começa com pequenas transgressões, como pichar ou escrever no próprio corpo o nome do grupo, e muitas vezes descamba para atos extremos. Eles fazem isso para ganhar status e serem aceitos”, diz Azevedo.
Agressões contra animais são comuns porque eles oferecem pouca ou nenhuma resistência. Muitas vezes os autores cobram um valor (como uma assinatura) das pessoas que queiram assistir ao espetáculo macabro.
O caso de Orelha, cachorro comunitário que foi espancado em um bairro nobre de Florianópolis (Santa Catarina) e teve que passar por eutanásia no início de janeiro devido à gravidade dos ferimentos, reacendeu o debate sobre o risco de jovens serem expostos a ideias extremistas em ambientes virtuais sem moderação.
Nesta terça-feira (3 de janeiro), a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu as investigações sobre a morte de Orelha e pediu a internação de um adolescente que teria sido o autor das agressões. Além disso, quatro adolescentes foram apontados como autores de uma tentativa de afogamento de outro cão comunitário do mesmo local, chamado Caramelo.
Os nomes e idades dos adolescentes não foram revelados em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê sigilo total em casos envolvendo menores de 18 anos. Dois pais e um tio dos jovens também foram indiciados por tentar coagir um vigilante que teria testemunhado o crime.
Até o momento, não há indícios de que os adolescentes faziam parte de grupos extremistas online. Porém, especialistas apontam que situações como as de Orelha e Caramelo são sintomáticas de um processo de radicalização.
“O zoosadismo é um grande indicador de radicalização e um passo grande para a mobilização à violência. A gente tem visto a violência como uma moeda social. Quanto mais sádico e perverso, maior estatuto interno dentro da minha rede, da minha panela, eu tenho”, disse o procurador Fábio Costa Pereira, que integra o Projeto Sinais, de prevenção a violência extrema praticada por jovens e adolescentes, nas redes sociais do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Para o procurador, as famílias precisam ter cuidado com a maneira que os jovens usam a internet. “Esses adolescentes têm acesso ilimitado a telas porque as famílias permitem”, ele continua. “Muitas das nossas crianças e adolescentes passaram a viver no mundo digital sem a percepção das consequências catastróficas que elas têm no mundo real.”
Animais e jovens raparigas são as principais vítimas de grupos violentos nas redes
Um dos indícios de que os jovens são os mais afetados é que episódios violentos monitorados pelas pesquisadoras no Discord aumentaram durante a pandemia e, depois, em períodos de férias escolares. “São momentos em que os adolescentes ficam em casa e podem usar a internet livremente. Por isso o ECA Digital (medidas que visam proteger menores de 16 anos nas redes sociais, que começam a valer em março) é tão importante”, afirma Oliveira.
Segundo as autoras, as maiores vítimas de violência nos grupos são meninas e animais. “As vítimas são predominantemente do gênero feminino. Animais como gatos, cachorros, pássaros, sapos e outros animais de pequeno porte são frequentemente violentados em sessões de tortura animal. Os agressores são, majoritariamente, do sexo masculino”, diz um trecho do relatório.
Entre os episódios narrados no relatório, está o de um adolescente de 17 anos do Rio Grande do Sul que furtou, torturou e matou um cachorro e transmitiu ao vivo pelo Discord. Outro de Goiás fez uma live enquanto maltratava e enforcava um cão.
Azevedo ainda conta ter presenciado o momento em que uma menina foi obrigada pelos outros participantes a praticar atos de zoofilia com um cachorro. Ela explica que líderes dos grupos, principalmente meninos, coagem meninas a fazerem o que eles querem ameaçando expor vídeos íntimos ou as expondo aos pais. “Elas vão ficar traumatizadas para o resto da vida”, acredita.
Quem maltrata animais, também pode agredir pessoas
No ano passado, o Brasil teve 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia – quase 5 mil no total. Houve um aumento de 20% em relação a 2024. Santa Catarina, terra de Orelha e Caramelo, foi o segundo estado com mais notificações em 2025, atrás apenas do Rio Grande do Sul.
ONGs de proteção de direitos dos animais pontuam que os casos de violência quase nunca são isolados. “Dois pesquisadores norte-americanos no começo da década de 1980 entenderam que a violência é uma só. As pessoas que abusam e violentam animais podem violentar pessoas ou vice-versa”, afirma Rosangela Gebara, diretora de relações institucionais da ONG Ampara Animal.
Os pesquisadores citados, Phil Arkow e Frank Ascione, criaram a Teoria do Elo, que identifica uma conexão próxima entre a crueldade animal e a violência doméstica contra mulheres, crianças e idosos, alvos considerados vulneráveis. Estudos sobre serial killers apontam que quase todos eles tiveram episódios de maus-tratos a animais – como o Maníaco do Parque ou Jeffrey Dahmer.
“Se você tem criança ou adolescente muito violento contra animais, isso tem que ser investigado do ponto de vista psiquiátrico. Não se pode dizer que é coisa de criança. Pode ser um fator preditivo, precoce, de pessoas desajustadas que poderiam cometer crimes piores”, diz Gebara.
No Brasil, frequentemente as punições a pessoas acusadas de maus-tratos a animais são brandas ou substituídas por penas alternativas – com exceção dos casos que mobilizaram a opinião pública.
A primeira pessoa condenada por crueldade animal no país é Dalva Lina da Silva, presa em 2018. Ela se apresentava como protetora de animais, mas ONGs desconfiavam que os cachorros e gatos entregues a ela eram adotados muito rapidamente. Um detetive particular a acompanhou por quase um mês e identificou mais de 30 corpos de animais mortos em sacos de lixo que ela deixava na rua de sua casa. Segundo as investigações, eles recebiam injeções letais de uma substância controlada. A mulher recebeu pena de 12 anos de prisão, posteriormente ampliados para 17 anos.
Os casos de maior repercussão foram responsáveis pelas mudanças na legislação penal nos últimos anos. Entre os episódios mais emblemáticos está o da cadela Manchinha, em 2018, atacada e envenenada por um segurança na frente de uma unidade do Carrefour em Osasco (São Paulo). A violência gerou protestos nas ruas e redes sociais, contribuindo para consolidar no Congresso um projeto de lei que revisou as penas por maus-tratos a animais domésticos.
Em julho de 2020, o caso do pit bull Sansão – mutilado com a remoção das patas traseiras em Confins (Minas Gerais) – ensejou a aprovação da chamada Lei Sansão, em 2020, que aumentou a pena para quem cometer abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar cães e gatos.
O episódio de Orelha deslanchou debates sobre possíveis alterações legislativas, inclusive propostas recentes para aumentar ainda mais as penas ou vedar a substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos para crimes de maus-tratos.
Um dos projetos de lei apresentados recentemente trata da proteção de animais comunitários, como Orelha e Caramelo. Se aprovado, o texto reconhece a existência de milhares de animais sem lar fixo e prevê programas de incentivo para pessoas e comunidades responsáveis pelos cuidados com eles. Ainda não há previsão de quando será votado.
Conteúdo extremista espalha-se nas redes quase sem controle
Segundo estudo do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP), entre 2001 e 2024, houve 49 ataques a escolas no Brasil. Entre eles, há um padrão de comportamento: os autores frequentemente estavam vinculados a comunidades digitais, como Discord, X, Telegram e TikTok, e eram, em sua maioria, jovens, brancos e do sexo masculino.
Apesar do conteúdo extremista estar presente em quase todas as redes, o Discord parece ser o ambiente preferido pelo seu modo de funcionamento. A rede é formada de grupos fechados, cujo conteúdo veiculado internamente não é acessível para quem está fora e sofre pouco controle de moderação. Para entrar, é necessário ter um convite e muitas vezes passar por uma entrevista. Além disso, boa parte do conteúdo é transmitida ao vivo, e não fica gravada após ser encerrada.
Em 2023, a rede foi associada a ataques armados em escolas no Brasil. Representantes da empresa, junto com outras big techs, como X (antigo Twitter) e TikTok, foram chamados a tomar providências pelo então ministro da Justiça, Flávio Dino. De lá para cá, porém, pouca coisa mudou.
Para Tatiana Azevedo, que em seu período infiltrada observou como as redes sociais são permissivas com o acesso de menores de idade a discurso de ódio, nada realmente deve mudar se não houver responsabilização das grandes empresas de tecnologia.
“Algumas têm iniciativas incipientes de controle, outras simplesmente lavam as mãos”, afirma. “Tem que haver um investimento muito grande das big techs em dinheiro e em ações que busquem mudanças reais, não só pra tampar buraco, senão ação policial nenhuma vai ser suficiente.” Ela cita como exemplo a iniciativa do Roblox de vedar a conversa entre menores, que, em vez de resolver o problema, também criou um mercado de venda de contas verificadas.
YuriArcursPeopleimages/Envato ElementsVários estudos já demonstraram "desigualdades sociais estão profundamente associadas a pior saúde e bem-estar em idades mais avançadas". Resultados da investigação vão ter impactos na definição de políticas mais inclusivas.
Uma equipa de investigação do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) e da Universidade de Saragoça, explorou como o estatuto social subjetivo de pessoas mais de 70 anos modera os efeitos positivos no bem-estar associados à participação em atividades de voluntariado para este grupo demográfico. Os resultados têm implicações na definição de políticas e práticas inclusivas que possam maximizar os efeitos positivos do voluntariado na terceira idade.
A psicóloga social e investigadora do CIS-Iscte, Luísa Lima, explica que “estudos anteriores têm demonstrado consistentemente que as desigualdades sociais estão profundamente associadas a pior saúde e bem-estar em idades mais avançadas”. Segundo a investigadora, o voluntariado tem sido identificado como um recurso poderoso para as pessoas mais velhas, pois pode melhorar o bem-estar psicológico, fortalecer a autoestima e reduzir os sintomas depressivos. Apesar desses benefícios, “as pessoas com mais de 70 anos fazem voluntariado significativamente menos do que aquelas, digamos, na casa dos 50 ou 60 anos”. Então, por que razão as pessoas mais velhas se envolvem menos em voluntariado? De acordo com Luísa Lima, existem inúmeros fatores que podem afetar a vontade de participar nessas atividades, desde limitações físicas e cognitivas que podem restringir o envolvimento das pessoas, até à perceção que outras pessoas têm da sua capacidade para o fazer. “Os padrões de voluntariado variam consoante o tipo de atividade e o país em que as pessoas vivem, sugerindo um papel importante dos contextos sociais e culturais”, esclarece a investigadora. Nas sociedades ocidentais, as pessoas mais velhas são frequentemente vistas como tendo menos poder, estatuto e valor social do que adultos de meia-idade, o que pode moldar tanto as suas oportunidades de se envolverem em voluntariado como o seu bem-estar.
Investigações anteriores têm-se focado principalmente em como fatores objetivos, como o rendimento e a educação, influenciam a relação entre o voluntariado e o bem-estar subjetivo. Neste estudo, publicado em 2025, a equipa de investigação composta por cientistas do CIS-Iscte e da Universidade de Saragoça analisou como o estatuto social subjetivo – a forma como as pessoas percebem a sua posição na hierarquia social – pode influenciar essa relação em pessoas com 70 anos ou mais, em diferentes sistemas de segurança social europeus.
Com base em dados do European Social Survey (ESS) recolhidos entre 2008 e 2010, a equipa de investigação realizou análises sobre dados de 8331 pessoas com mais de 70 anos, de 29 países europeus. A equipa examinou diferentes aspetos da vida das pessoas, nomeadamente: se faziam voluntariado ou não, como se sentiam em relação às suas vidas (saúde, felicidade, satisfação geral), género, educação, rendimento e estado civil. Mais importante, a equipa de investigação calculou um indicador ao nível nacional sobre o grau de respeito geralmente demonstrado pelas pessoas idosas nesse país (ou seja, o seu estatuto social subjetivo), com base na forma como os inquiridos do ESS consideram que a maioria das pessoas no seu país percebe o estatuto das pessoas mais velhas. A equipa de investigação utilizou modelos multiníveis para analisar os dados a nível individual e nacional, considerando diferentes sistemas de segurança social, o que ajudou a compreender não só se o voluntariado tem efeitos positivos, mas também em que condições sociais pode ser mais ou menos benéfico.
Os resultados do estudo mostraram que as pessoas mais velhas que fazem voluntariado relatam melhores resultados em termos de saúde, felicidade e satisfação com a vida do que aquelas que não participam nesse tipo de atividades. Este padrão foi observado de forma clara e consistente nos vários países europeus. “Este estudo revela um mecanismo psicológico crítico: o efeito moderador das perceções sociais sobre o envelhecimento nos benefícios do voluntariado segue um padrão consistente com a teoria da identidade social, em que o estatuto social percebido amplifica ou atenua a autoestima e o propósito que derivam de comportamentos pró-sociais em idade avançada”, explica Julia Sánchez-García, da Universidade de Saragoça, autora principal do estudo. Especificamente, a equipa de investigação verificou que a relação positiva entre o voluntariado e o bem-estar era significativamente mais forte nos países onde as pessoas mais velhas são vistas como tendo um estatuto social mais elevado e são tratadas com maior respeito. De acordo com o estudo, nesses contextos, o voluntariado está associado a uma melhor autoavaliação da saúde, maior felicidade e melhor qualidade de vida em geral para as pessoas com mais de 70 anos. Em contrapartida, essa relação era mais fraca nos países onde as pessoas mais velhas são vistas de forma mais negativa ou enfrentam atitudes mais discriminatórias em relação à idade. Sibila Marques (CIS-Iscte), também autora deste estudo, explica que “as perceções sociais do envelhecimento desempenham um papel crucial na definição do benefício que as pessoas mais velhas retiram do envolvimento social e das atividades de voluntariado”. Acrescenta que “as nossas análises também indicaram que viver numa sociedade que atribui um estatuto social mais elevado às pessoas mais velhas estava diretamente associado a uma melhor saúde e bem-estar em idade avançada”. A investigadora sugere que a redução do idadismo (preconceito com base na idade) e o reforço do respeito pelas pessoas mais velhas podem potencialmente melhorar a participação em voluntariado e os seus efeitos positivos no bem-estar.
A equipa de investigação conclui que melhorar o estatuto social de pessoas mais vellhas através de políticas inclusivas e intergeracionais poderia reforçar os benefícios do voluntariado no bem-estar e apoiar a conquista de um envelhecimento saudável, ativo e equitativo, alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A equipa desta investigação publicada no Journal of Applied Social Psychology é composta por Julia Sánchez-García (Universidade de Saragoça), Maria Luísa Lima (CIS-Iscte), Sibila Marques (CIS-Iscte), Ana Isabel Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça) e Marta Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça).
JustVector/Envato ElementsNo “mundo pequeno” dos átomos e das partículas elementares, as leis de Newton deixam de se aplicar tal como as conhecemos, e a incerteza passa a ser uma característica fundamental da realidade
As Nações Unidas assinalaram o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas em 2025. Este ano não foi escolhido por acaso.
Foi há um século que os trabalhos pioneiros de Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger, em 1925, lançaram os alicerces da mecânica quântica moderna e transformaram para sempre a nossa compreensão da Natureza.
A física quântica é, desde a sua origem, profundamente contraintuitiva. No “mundo pequeno” dos átomos e das partículas elementares, as leis de Newton deixam de se aplicar tal como as conhecemos, e a incerteza passa a ser uma característica fundamental da realidade. Até Albert Einstein teve dificuldade em aceitá-la totalmente resumido na célebre frase: “Deus não joga aos dados”.
Um século depois, porém, não restam dúvidas quanto à solidez dos fundamentos da mecânica quântica.
Mais do que um exercício teórico, ela tornou-se parte integrante do nosso quotidiano. Por exemplo, a fotónica quântica está a revolucionar a imagiologia médica e os métodos de diagnóstico. A química quântica apoia o desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos, permitindo simular moléculas complexas com uma precisão inédita. A engenharia quântica contribui para células solares mais eficientes e acessíveis e para fontes de luz LED de baixo consumo e reduzidas emissões. Este progresso assenta também em descobertas fundamentais, como o estudo do efeito túnel quântico em sistemas macroscópicos, associado a investigadores de referência como John Clarke, Michel H. Devoret e John M. Martinis, galardoados com o prémio Nobel Física em 2025.
A física quântica nasceu como uma resposta ousada a perguntas difíceis sobre a Natureza. Cem anos depois, sabemos que há muito mais para descobrir no mundo quântico. Talvez essa seja a mais útil lição de ciência.
Para compreendermos o mundo, mesmo quando ele parece estranho, o crivo científico é fundamental. As aplicações úteis podem ou não surgir, mas a capacidade de deslumbramento será sempre o motor essencial para os jovens que estão hoje a descobrir a carreira de investigação como o seu caminho.
É o fim do serviço de blogues do portal SAPO: o portal português anunciou esta segunda-feira o encerramento do SAPO Blogs.
Num artigo publicado no blogue oficial da "Equipa" da plataforma, esta decisão advém da "mudança nos hábitos de publicação e consumo de conteúdos": "O surgimento das redes sociais, associado à imediatez permitida pelos smartphones, transformou a forma como comunicamos e criamos no meio virtual, diminuindo aos poucos o apelo e a utilidade dos blogs como plataforma de expressão", frisa o comunicado.
O fim do serviço acontecerá de forma faseada, sendo que já a partir de 30 de junho "não será mais possível publicar ou editar qualquer blog na plataforma". No dia 30 de novembro, o serviço será descontinuado de forma definitiva, sendo eliminados "todos os conteúdos alojados".
"Temos muito orgulho do contributo que o SAPO Blogs deu, ao longo destes 23 anos, para fazer crescer e dinamizar a blogosfera em Portugal", acrescenta o portal.
o largo. volta a plataforma própria.
O fim do SAPO Blogs corresponde também a uma nova migração dos conteúdos para a plataforma própria que o blogue ainda detém. A alteração acontecerá durante o próximo fim de semana, coincidindo com um novo ciclo de publicações.
MEOEstá prevista a saída de 14 estações da grelha.
A MEO anunciou a saída de vários canais da sua grelha.
Canais infantis, séries e música estão incluídos na listagem que atinge mais de catorze canais. Além dos canais MTV 00's e MTV Live, que terminam emissão a 01 de janeiro, E! Entertainment, Fashion TV, Fashion TV 4K, Mezzo, Mezzo Live, MTV Portugal, Nick Jr, Nickelodeon, Q,SyFy, Trace Brasil e Trace Toca deixam a grelha "a partir do próximo dia 31-12-2025", refere a operadora em nota de rodapé no site publicada à data da publicação deste artigo.
A operadora não diz qual o motivo para a saída destes canais da grelha. Contudo, muitos dos canais mantêm-se disponíveis nas restantes operadores nacionais.
BOOMFIT/DivulgaçãoAção homenageia profissionais em serviço na noite de 24 de dezembro.
Traz uma "mensagem emotiva" e quer homenagear "aqueles que passam a noite mais mágica do ano ao serviço da comunidade". A marca portuguesa BOOMFIT lançou esta quarta-feira a campanha "Há vitórias que nem sempre acontecem em campo". A decorrer nas páginas das várias redes sociais da loja online de produtos de fitness, a ação de Natal reúne atletas de várias modalidades para lembrar os profissionais que estão na "linha da frente" durante esta quadra.
Numa nota enviada às redações, a empresa de Vila Nova de Famalicão diz que optou por uma tónica simbólica e sentida: "Com um tom emocional, o vídeo pretende homenagear enfermeiros, agentes de autoridade, operários, assistentes sociais e todos os que, mesmo na noite de Natal, continuam a cuidar, proteger e assegurar o funcionamento do país", refere. Por seu turno, o CEO da BOOMFIT Vítor Brandão diz que, com a ação, a BOOMFIT quis "dar voz a uma mensagem maior do que nós: agradecer a todos os profissionais que continuam a dar o seu melhor quando o resto do mundo está a celebrar. O gesto simbólico de trocar o equipamento desportivo por uma farda representa respeito, empatia e reconhecimento por quem mantém o país em movimento, mesmo nos dias mais especiais".
Produzido internamente, o vídeo da loja online de equipamentos e acessórios de fitness tem a participação de atletas das equipas de ténis e voleibol do Ginásio Clube Vilacondense, da equipa do Basquete Clube de Barcelos e da equipa de futsal do Futebol Clube de Famalicão: "“Acreditamos que integrar atletas de clubes locais acrescenta autenticidade e profundidade à mensagem", acrescenta Brandão.
karmanovalive/Envato ElementsCOMECE diz que decisão pode ser o combustível para "sentimentos antieuropeus".
Um acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia (UE) levou a que a Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (COMECE) emitisse uma posição que alerta que a decisão pode extravasar as competências comunitárias na questão do direito da família e do reconhecimento do casamento homossexual.
Segundo a agência de notícias católica Ecclesia, a COMECE diz que a decisão pode interferir em questões da soberania e identidade de cada país da União, podendo mesmo levar a "fomentar a pressão para alterar o direito nacional da família" e "desenvolvimentos negativos noutras áreas sensíveis, como a barriga de aluguer" ou, até, "alimentar sentimentos antieuropeus nos Estados-Membros".
O caso, denominado de "Wojewoda Mazowiecki", remonta à 2023 quando um casal homossexual polaco tentou efetuar a transcrição da sua certidão de casamento, celebrado em Berlim, Alemanha, em 2018. Contudo, na Polónia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é reconhecido, pelo que o pedido foi negado. Chamado a decidir, o Tribunal, apesar de não impor a alteração da definição de casamento no direito nacional, obrigou ao reconhecimento daquela união, até porque tal decisão viola o direito de circulação de pessoas dentro do espaço comunitário, causando "graves inconvenientes a nível administrativo, profissional e privado" e obrigando o casal a viver como pessoas não casadas no país de onde são originários.
"A decisão do Tribunal da UE terá impacto nos sistemas nacionais de direito da família" - COMECE
É certo que a Igreja Católica não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, a posição dos Bispos europeus vai um pouco mais longe, referindo que a decisão do Tribunal faz força para o reconhecimento de um ato que não existe nas leis de um país: "Exige [...] a introdução de procedimentos de reconhecimento e apela mesmo à não aplicação, se necessário, das disposições nacionais em causa", refere o comunicado, reforçando que a decisão "cria efetivamente uma convergência dos efeitos do direito matrimonial, muito embora a União não tenha mandato para harmonizar o direito da família", que é responsabilidade de cada Estado-Membro.
Assim, o COMECE alerta que "a decisão do Tribunal da UE terá impacto nos sistemas nacionais de direito da família e poderá fomentar pressões para a sua alteração", focando que a definição de casamento, em alguns países, "é parte integrante" da sua identidade nacional.
O comunicado termina dizendo que a decisão pode também alimentar outras sensibilidades contra a UE: "Recordando o contexto desafiante que a União Europeia atravessa atualmente, inclusive no que toca à sua perceção em vários países, não surpreende que este tipo de decisões alimente sentimentos antieuropeus nos Estados-Membros e possa ser facilmente instrumentalizado nesse sentido", conclui.
Image-Source/Envato ElementsResultados poderão abrir caminho a novas práticas educativas.
É a esta questão que Marta Martins, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), pretende responder. Em dois projetos complementares, estuda tanto a predisposição rítmica das crianças como o efeito causal do treino musical rítmico na aquisição da leitura e da escrita. Esta investigação irá ainda mapear as bases neuronais desta relação através de ressonância magnética estrutural e funcional.
“O processamento de vários aspetos rítmicos musicais tem sido consistentemente associado às competências de leitura e escrita das crianças, sobretudo nas fases iniciais de aprendizagem. No entanto, continua por esclarecer como esta relação se desenvolve e quais os mecanismos que a sustentam”, explica Marta Martins. A investigadora sublinha que os estudos existentes deixam várias questões sem resposta, incluindo se o treino musical que trabalha predominantemente aspetos rítmicos poderá promover estas aprendizagens e se esse efeito é independente da fase de aprendizagem em que a crianças se encontra. Para responder a estas questões, a investigadora do CIS-Iscte coordena agora dois projetos de investigação dedicados a explorar estes efeitos.
Dois projetos, um objetivo
O projeto “RhythMus_inRaw – Evaluating Musical Rhythm Predisposition and Training in Shaping Children’s Reading and Writing Skills”, financiado pela fundação BIAL (Ref. 139/2024) e realizado em colaboração com o Agrupamento de Escolas Irmãos Passos (Matosinhos), dá continuidade ao trabalho de Marta Martins sobre os fatores neurocognitivos associados às dificuldades de leitura, aprofundando o papel que o treino musical rítmico poderá desempenhar na sua mitigação.
Neste projeto, a investigadora conduz um ensaio controlado randomizado por grupo (cluster randomized control trial), em que turmas inteiras são distribuídas aleatoriamente por três condições experimentais: treino musical exclusivamente rítmico, treino musical Orff (treino musical compreensivo que funciona como um controlo ativo) ou grupo sem treino organizado e sistemático (controlo passivo). No estudo participarão crianças de 6 anos, falantes de português, que frequentam escolas públicas do Agrupamento, e que serão monitorizadas ao longo de dois anos letivos. “As crianças serão avaliadas antes, durante e após o treino em tarefas rítmicas, leitura, escrita e motricidade fina, bem como em medidas de cognição geral, musicalidade e variáveis sociodemográficas.”, esclarece Marta Martins. O estudo decorre no contexto escolar regular, assegurando elevada validade ecológica. Serão também recolhidos dados de ressonância magnética, com enfoque na função cerebral, permitindo mapear as redes neuronais que sustentam estes processos e a relação entre ritmo e literacia.
A investigadora antecipa que “o treino rítmico melhore diferentes processos rítmicos, incluindo a perceção e sincronização”, competências que os seus trabalhos anteriores relacionam à leitura através de processes fonológicos, bem como às melhorias motoras resultantes do treino musical. Assim, prevê-se que o treino rítmico reforce simultaneamente processos fonológicos e motores, que contribuirão para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Em contraste, “o treino musical Orff que iremos implementar deverá melhorar a motricidade fina e alguns processos rítmicos (ainda que em menor escala), replicando resultados dos nossos estudos anteriores e, consequentemente, impactar principalmente a fluência da escrita”, explica. Os correlatos neuronais deverão refletir as alterações comportamentais observadas, particularmente em regiões auditivas e motoras.
Para expandir esta linha de investigação, Marta Martins iniciará em breve o projeto “Rhythm4RAW – Can Training in Musical Rhythm Improve Children’s Reading and Writing Skills?”, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (Ref. 2023.16303.ICDT). O projeto integra três estudos: a adaptação e validação de uma escala para avaliar de forma compreensiva a musicalidade de crianças, criando a primeira ferramenta portuguesa com este propósito; um estudo transversal com crianças dos 6 aos 12 anos, que compara as competências de leitura e escrita de crianças com e sem treino rítmico, incluindo no grupo sem treino rítmico crianças com elevada predisposição rítmica; e um ensaio controlado randomizado por grupo, semelhante ao implementado no projeto RhythMus_inRaw, que replicará o estudo anterior mas com enfoque nos correlatos de estrutura cerebral que suportam a relação entre processamento rítmico e leitura e escrita. Em conjunto, estes estudos permitirão distinguir os efeitos da predisposição dos efeitos causais do treino, e clarificar em que condições o processamento rítmico pode apoiar o desenvolvimento da literacia.
De acordo com a investigadora, as diferenças-chave entre os dois projetos residem no tipo de correlato neuronal analisado e no desenho experimental adotado para estudar a mesma questão de investigação. O projeto RhythMus_InRaw centra-se na predisposição rítmica e nos efeitos do treino rítmico ao longo de dois anos letivos em crianças de 6 anos, e na função cerebral subjacente ao processamento rítmico e às competências de literacia. O projeto Rhythm4RAW tem um alcance mais abrangente, inclui estudos com desenho transversal e longitudinal, integra a validação de uma escala de musicalidade, e foca-se nos correlatos estruturais associados aos efeitos em estudo. Além disso, examina a relação entre ritmo e literacia numa faixa etária mais alargada, envolvendo crianças dos 6 aos 12 anos.
Porquê treinar as competências rítmicas?
A fundamentar estes projetos, o trabalho anterior de Marta Martins, realizado em colaboração com investigadores da Universidade do Porto, demonstrou que a perceção de ritmo – e não a de melodia – se associa às competências de leitura de crianças do primeiro ano de escolaridade. “Os nossos resultados sugerem ainda que esta relação é mediada pelo processamento fonológico”, explica Marta Martins, sublinhando que “os processos rítmicos parecem ajudar as crianças a discriminar e organizar as unidades sonoras de fala, suportando o desenvolvimento da leitura”, acrescenta. A investigadora do CIS-Iscte está neste momento a trabalhar sobre os dados de um novo estudo em que participaram mais de 300 crianças do 1º ao 4º ano de escolaridade, e em os resultados suportam novamente a relação entre perceção rítmica e leitura e a mediação desta relação por processos fonológicos. A investigadora adianta, no entanto, que “esta relação se esbate em crianças em estados de desenvolvimento leitor mais avançado”. Estes resultados preliminares levaram ao reorientar da faixa etária alvo nos dois estudos longitudinais agora a arrancar, e que incluirão crianças com 6 anos, acompanhando-as ao longo do 1º e 2º ano do ensino básico, precisamente a fase mais sensível e inicial de aquisição da leitura e da escrita.
De uma forma geral, o conhecimento atual sugere que o treino rítmico pode ser útil como suporte à aprendizagem da leitura e da escrita, em particular em estádios iniciais de aquisição. Contudo, esta premissa necessita ser testada através de estudos longitudinais que considerem as diferenças individuais entre crianças e os seus contextos.
A pré-disposição rítmica e o contexto familiar são importantes para a aprendizagem da leitura e da escrita?
Num outro estudo publicado em coautoria com colaboradores das Universidades do Porto e de Jena, Marta Martins explorou longitudinalmente como a predisposição rítmica modula os efeitos do treino musical na componente motora e quais as regiões cerebrais implicadas nesse processo. Durante cerca de 6 meses, crianças de 8 anos participaram em treino musical, treino desportivo, ou integraram um grupo de controlo sem treino sistemático e organizado, sendo avaliadas antes e após o treino em competências rítmicas e motoras e através de neuroimagem estrutural. “Observámos que, antes do treino musical, as crianças com melhor perceção rítmica apresentavam menor volume de matéria cinzenta em diversas regiões motoras”, afirma Marta Martins. A investigadora acrescenta que “o treino musical melhorou o desempenho motor das crianças, e esse efeito foi mais saliente naquelas com melhor discriminação rítmica no início do estudo”. Os resultados indicaram ainda que o treino musical induziu a redução de volume de matéria cinzenta no cerebelo e no giro fusiforme do hemisfério esquerdo—regiões que se associavam à perceção rítmica antes do treino—e que esta redução se correlacionou com melhorias superiores na motricidade. Nenhum destes efeitos foi observado nos grupos de treino desportivo ou de controlo. “Este estudo demonstrou que o treino musical Orff promove o desenvolvimento motor e fá-lo de forma mais marcada em crianças com melhor perceção rítmica. Resta-nos ainda clarificar se estas melhorias motoras podem transferir-se para a fluência de escrita—uma das questões a que queremos responder nos novos projetos”, sintetiza a investigadora.
Num estudo prévio, distinguido pela Associação Portuguesa de Psicologia Experimental com o Prémio APPE 2023, a mesma equipa investigou se diferenças no QI e no estatuto socioeconómico se refletiam em diferenças estruturais no cérebro de crianças com dificuldades de fluência de leitura. Os resultados indicaram que as crianças com défices de fluência apresentavam menor volume de matéria cinzenta no giro temporal superior direito e noutras regiões occipito-temporais e fusiformes, quando comparadas com os leitores típicos. Além disso, entre as crianças com dificuldades de leitura, as diferenças no volume de determinadas áreas dependiam do estatuto socioeconómico, mas não do QI. Como refere a investigadora, “entre as crianças com dificuldades de leitura, aquelas que provinham de contextos socioeconómicos mais favorecidos apresentavam maior volume de matéria cinzenta no giro angular direito do que crianças provenientes de contextos menos favorecidos.”. O giro angular é uma região do lobo parietal envolvida na integração de informação multimodal e que está implicado na compreensão semântica da linguagem, no processamento simbólico (incluindo o numérico), e em funções cognitivas como memória e atenção. Para a equipa de investigação, as diferenças nesta região podem refletir níveis distintos de estimulação cognitiva ou de linguagem, ou variações nos níveis de atenção, frequentemente associados a contextos socioeconomicamente menos favorecidos.
O que se espera descobrir e porque é que isso importa
Apesar dos avanços já alcançados, a literatura é ainda parca em estudos longitudinais e multimétodo que permitam acompanhar, com rigor, o processo de aquisição da leitura e da escrita, contribuindo para diminuir os seus défices. Ainda menos são aqueles que investigam como o processamento rítmico e o treino musical rítmico podem influenciar estas aprendizagens. É precisamente essa lacuna que os projetos que agora se iniciam e que têm parceiros nas Universidades do Porto, Jena e Boston, na Unilabs—Boavista, nas ULS São João e Matosinhos e no Agrupamento de Escolas Irmãos Passos, procuram preencher. Ao combinar medidas comportamentais, treino musical rigorosamente controlado e neuroimagem funcional e estrutural, estes projetos posicionam-se para responder a perguntas fundamentais: De que forma o comportamento e o cérebro se moldam com o treino rítmico? Quem beneficia mais deste treino e porquê? Como é que predisposição e experiência interagem no moldar da literacia? Os resultados que emergirem destes estudos não só aprofundarão o conhecimento científico sobre este tema, como poderão abrir caminho a novas práticas educativas, mais sensíveis às diferenças individuais e informadas por evidência robusta. No conjunto, este trabalho antecipa uma contribuição decisiva para compreender como o ritmo, um elemento universal da experiência humana, se pode tornar um aliado poderoso na promoção da literacia infantil.
Dremia/DivulgaçãoProjeto "único" é uma iniciativa conjunta do Canal Hollywood e da Majora.
Quem será o produtor do próximo blockbuster? Esta é a premissa do jogo de tabuleiro "Missão Hollywood", uma iniciativa do Canal Hollywood e da empresa portuguesa Majora, e que vem a tempo de ser uma "sugestão ideal de presente para este Natal".
Na nota enviada às redações, o canal de cinema produzido pela Dreamia refere que o projeto é "inédito" e é "inspirado no universo do cinema", juntando "sorte, estratégia e humor". O jogo envolve todo o processo de um filme, "desde contratar atores e escrever o guião até escolher o estúdio ideal para as filmagens". Contudo, nem tudo é fácil: "O percurso (...) está repleto de desafios e imprevistos que testam a capacidade de adaptação e planeamento dos jogadores", reforça o canal.
Para a estação, "o jogo “Missão Hollywood” é uma forma de transformar o amor pelos filmes numa experiência partilhada, onde todos se podem sentir parte de uma grande produção", refere o diretor de marketing do Hollywood Jorge Ruano, acrescentando que o projeto "traduz o traduz o espírito do Canal Hollywood: entretenimento, emoção e união em torno do cinema, sendo uma oportunidade para juntar famílias e amigos à volta da mesa, criando as suas próprias histórias". Por seu turno, o CEO da octagenária Majora Ricardo Feist considera esta parceria com "todo o sentido, pela afinidade natural entre o entretenimento e o espírito familiar que ambos promovemos", sustenta.
O jogo está já à venda em grandes superfícies e pequeno retalho com um preço de €29,99.
iLixe48/Envato Elements"A validação através de “likes” tornou-se um símbolo de aceitação e sucesso."
No mundo contemporâneo, as redes sociais tornaram-se um espaço onde a validação social é constantemente medida através de “likes”, comentários e partilhas. Esta nova “economia da atenção” transformou a forma como nos relacionamos, levando a um sentimento inevitável: a inveja. Podemos analisar como esta emoção, considerada negativa, se manifesta e se intensificou na era digital.
A inveja, enquanto sentimento humano, é tão antiga quanto a própria civilização. Na Antropologia, é estudada como um motor de comportamento social que pode, paradoxalmente, promover a coesão ou gerar conflitos. Nas redes sociais, no entanto, a inveja ganha uma nova dimensão. Quando visualizamos as vidas aparentemente perfeitas de amigos, influenciadores ou celebridades, é fácil sentir que não estamos à altura. A comparação constante que as plataformas digitais promovem alimenta um ciclo vicioso de insatisfação e descontentamento.
A falta de apreciação nas redes sociais é um fenômeno notável. O “não like” pode ser interpretado como um sinal de desprezo, com consequências que criam uma espécie de hierarquia social. Os jovens, em particular, são suscetíveis a esta dinâmica; a validação através de “likes” tornou-se um símbolo de aceitação e sucesso. Quando publicam uma foto ou um momento especial e recebem uma resposta fria do público, a desilusão é palpável. Essa sensação de desvalorização pode levar a um estado de angústia emocional, gerando uma busca incessante por mais validação, que, por sua vez, intensifica a competição entre pares.
Do ponto de vista antropológico, esta dinâmica pode ser compreendida através do conceito de “capital social”. O antropólogo Pierre Bourdieu destacou que o “capital social” é acumulado através de redes de relações e interações sociais. Nas redes sociais, os “likes” e comentários funcionam como uma forma de capital. Aqueles que têm mais seguidores e interações são, muitas vezes, vistos como mais influentes e desejáveis. Este fenómeno não aumenta apenas a pressão para ter uma presença digital “perfeita”, mas também solidifica a ideia de que o valor de uma pessoa pode ser medido em termos de popularidade online.
A natureza efémera das interações digitais também exacerba a inveja. Uma publicação que recebe uma enxurrada de “likes” e comentários positivos num dia, pode ser rapidamente esquecida no “feed”, levando os indivíduos a lutar por uma atenção fugaz. Essa volatilidade alimenta uma cultura de superficialidade onde o conteúdo autêntico muitas vezes é deixado de lado em favor do que é visualmente apelativo ou que gera mais “engagement”. A necessidade de ser constantemente visto e validado torna-se uma pressão omnipresente, criando um ambiente onde a inveja pode prosperar.
Para lidar com este ciclo de inveja e validação social, é crucial promover uma maior consciencialização sobre a natureza das redes sociais. Precisamos lembrar que o que vemos online é frequentemente uma construção da realidade, filtrada e editada para parecer ideal. A verdadeira conexão humana não deve ser medida em “likes”, mas sim na profundidade das relações que cultivamos fora das telas. A valorização de experiências autênticas e a promoção da empatia nas interações online podem ajudar a mitigar os efeitos corrosivos da inveja.
Em suma, a inveja nas redes sociais é um reflexo de uma sociedade que valoriza a aparência e a validação superficial. Ao entendermos as dinâmicas sociais que operam nestes espaços, podemos começar a desconstruir as narrativas que alimentam a insegurança e a comparação. É tempo de resgatar o valor das relações autênticas e da autoapreciação, reconhecendo que a verdadeira riqueza está nas nossas experiências e conexões humanas, e não no número de “likes” ou subscrições.
O cineasta português Manuel Paula Dias morreu este sábado, informou em comunicado o Cine Clube de Avanca, Estarreja. O realizador aveirense notabilizou-se pela realização de vários filmes documentais sobre a vida da cidade de onde era natural.
Caracterizado como uma "figura ímpar da memória cultural de Aveiro", Dias filmou durante as décadas de 60 e 70 do século XX "a vida da cidade, da região e da ria de Aveiro, criando um vasto e valioso arquivo audiovisual que preserva tradições, paisagens e modos de vida hoje desaparecidos", refere o Cine Clube, acrescentando que o realizador "deixa um legado maior no cinema documental português e uma memória artística profundamente entrelaçada com a história de Aveiro e da sua gente".
O documentário "Sal, Duro Sal" é uma das obras mais reconhecidas do cineasta, tendo integrado vários festivais de cinema como o Mar Film Festival ou o RIOS - Festival Internacional de Cinema Documental e Transmedia. "Nos últimos anos, dedicava-se à escrita de um livro sobre a história da sua família e o início da indústria de fundição em Aveiro", acrescenta o Cine Clube.
Armanda Claro/Media CapitalQueixas denunciam favorecimento de homens homossexuais para determinadas funções
A notícia é do jornal digital Observador. O diretor executivo da CNN Portugal Frederico Roque de Pinho está a ser alvo de uma investigação interna por denúncias por alegado favorecimento de funcionários e colaboradores do canal de notícias em função da sua orientação sexual.
Segundo o mesmo jornal, foram apresentadas várias queixas contra o gestor, alegando que Roque de Pinho escolhe profissionais homens homossexuais para cargos e tarefas de maior destaque, em detrimento de outros profissionais da estação. As denúncias vão mais longe, falando de critérios discriminatórios para essa seleção quando aqueles profissionais são favorecidos para dar a cara pelo canal.
Os relatos foram considerados sólidos e fez com que avançasse uma investigação interna mais aprofundada, com o Observador a indicar que foram ouvidos vários jornalistas, elementos de chefias da redação da CNN Portugal e da TVI, assim como vários outros funcionários. O diretor de informação da TVI e diretor da CNN Portugal Nuno Santos também foi ouvido.
As conclusões da investigação foram dadas a conhecer ao gestor na noite da passada quarta-feira, quando se deslocou às instalações do canal de Queluz de Baixo depois de estar de férias no Brasil. No dia seguinte, administração e Roque de Pinho estiveram reunidos para decidir o próximo passo, tendo sido discutida uma eventual suspensão do gestor ou, até, uma desvinculação da empresa. Contudo, o jornal não avança qual o resultado desse encontro.
"Da minha parte, não há processo nenhum" - Roque de Pinho
Quando confrontado pelo jornal digital, Frederico Roque de Pinho referiu que o processo... não existe. Recusando a ser "julgado na imprensa", o diretor no canal de notícias do grupo Media Capital é perentório: "Da minha parte, não há processo nenhum".
O gestor diz mesmo não ter conhecimento do processo e para "perguntar à empresa se houve ou não algum", até porque diz que é do seu "entendimento" que continua em funções. Quanto às suas férias, elas foram apenas estendidas: "Alarguei o meu período de férias pelo tempo que for necessário".
Também Nuno Santos foi contactado pelo jornal digital, assim como o acionista maioritário da Media Capital Mário Ferreira, o CEO Pedro Morais Leitão e do diretor-geral da TVI e da CNN Portugal José Eduardo Moniz, mas ou recusaram comentar o caso ou não responderam às solicitações do jornal.
Yasmin Velloso/Agência PúblicaMulheres são as principais vítimas. Lei brasileira endurece penas, mas criadores contam com impunidade.
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Guilherme Cavacanti, e editado por Ed Wanderley, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
“Ruivinha”, “Novinha”, “Safada”. As tags buscadas por Rafaela Bomfim em um site internacional, para seu desespero, revelavam ela mesma, mas sem roupas. Nos comentários, usuários discutiam sua identidade e faziam discursos que a deixaram em estado de paranoia por semanas. As imagens, falsas, foram recriadas com auxílio de inteligência artificial (IA) a partir de suas publicações pessoais no Instagram.
“E a minha paranoia é: e se dessa [numa próxima] vez ninguém ver? E se ficar por aí? Eu entrei no perfil do cara que postou e tinha milhares de meninas. Muitas provavelmente nem sonham que isso está sendo feito com elas”, contou a estudante de design de 21 anos que vive em Brasília. A criação de deep nudes, imagens falsas que usam o rosto de pessoas reais em corpos criados com IA, já é alvo de uma lei específica deste ano que eleva a punição de violência psicológica com o uso de tecnologia, mas que, segundo especialistas ouvidas pela Agência Pública, não acompanham a dimensão e velocidade do problema.
O problema é mais recorrente do que se pensa. Em junho deste ano, estudantes de uma escola de Belo Horizonte venderam montagens pornográficas de alunas, entre 12 e 17 anos, em aplicativos de mensagens, como mostrouO Tempo. Dois anos antes, em 2023, jovens de um colégio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, também usaram IA para criar imagens íntimas falsas de mais de 20 colegas, como reportou a CNN.
A líder de projetos em inteligência artificial no Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (Ip.Rec), Clarissa Mendes, explica que a violência dos deep nudes não se reduz ao caráter “irreal” das imagens. “Existe a tendência de achar que porque não é verdade, porque não são imagens reais, não há consequências práticas. Só que o que a gente encontra de pesquisa em relação aos efeitos diz o contrário: vítimas de abuso digital têm danos duradouros, complexos e abrangentes”, explica a pesquisadora.
Impactos na saúde mental de mulheres de todas as idades vítimas desse tipo de crime foram relatados na tese de doutorado da socióloga Laís Patrocínio, professora da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Depressão, automutilação, transtornos alimentares, ideações suicidas e dificuldades de convívio social estão entre as sequelas e a pesquisadora destaca que a culpa se torna central em “qualquer tipo de violência de gênero”: “Culpa e vergonha. A culpa é uma grande vilã, porque se você [acha] que é a culpada, por que você pediria ajuda?”, diz Patrocínio.
“Talvez, no fim das contas, faça muito pouca diferença se aquela bunda é daquela mulher ou não, porque o rosto dela tá ali. Por mais que seja falso, a pessoa está exposta de uma forma íntima, descontextualizada”, destaca Patrocínio. “A exposição, em si, uma hora passa, porque as pessoas esquecem. Mas os danos para vida pessoal e profissional são muito mais difíceis de reverter”, completou.
A estudante universitária Rafaela Bomfim foi vítima de uma deep nude criada com Inteligência Artificial | Yasmin Velloso/Agência Pública
“Vês que tem uma foto tua, nua, na casa de banho da tua casa”
Era um dia frio e Rafaela Bomfim estava em uma viagem na Europa quando recebeu a ligação do então namorado. “Ele me ligou e falou: ‘eu preciso te contar uma coisa, mas eu preciso que você fique calma’”, relembra. Do outro lado da linha, veio a notícia: fotos suas, publicadas recentemente no feed e stories do Instagram, haviam sido transformadas em pornografia exposta em um site adulto e já somava milhares de visualizações.
A plataforma atendia a pedidos de usuários para criar nudes com uso de IA. As fotos originais, lembra a estudante, eram imagens despretensiosas, tirada de costas, fazendo pose, até serem adulteradas. “Minha reação foi ficar muito assustada […] A sensação que me deixou foi que eu fui abusada. A partir do momento que parece muito [real], sabe? Era uma foto no cenário que eu tinha tirado. Era no banheiro da minha casa. E você bate o olho naquilo e você vê que tem uma foto sua, nua, no banheiro da sua casa…”, contou, emocionada.
“O pior de tudo isso é o sentimento de você como mulher, de saber que tem gente por ai que se sente titular do seu corpo”, afirmou Bomfim. O medo então não foi apenas da exposição, mas da insegurança constante que se instalou. Em um dos comentários, um usuário perguntou quem era a mulher da imagem; outro sugeriu chamá-lo na DM, insinuando saber sua identidade. Então, a estudante passou a desconfiar de colegas de faculdade, desfez conexões nas redes e passou a viver em estado de alerta.
A estudante universitária Rafaela Bomfim foi vítima de uma deep nude criada com Inteligência Artificial | Yasmin Velloso/Agência Pública
“Criei uma paranoia muito grande. Eu pensava: ‘todo dia eu pego o mesmo ônibus, vejo pessoas que não conheço, e se alguém ali sabe da minha rotina?’ […] Poderia ser alguém que estudou comigo, alguém próximo ou um desconhecido que sabe da minha rotina. Se uma pessoa tem a capacidade de fazer algo assim, o que ela não faria comigo na vida real?”, lembrou.
“Eu me arrependo, tipo, se eu tivesse corrido atrás dessa parada […] tivesse contratado alguém que sabe rastrear IP [identificação digital do criador das imagens]. […] Mas essa oportunidade eu perdi. E isso que faz a gente se sentir culpado, porque foi um momento muito difícil e eu não tava com a cabeça no lugar pra correr atrás”, confessa.
Segundo Rafaela, após acionar a plataforma, a remoção das imagens foi rápida – a postagem foi excluída no mesmo dia. Se livrar do impacto da experiência, no entanto, não ocorreu na mesma velocidade, o que ela descreve como uma sensação de trauma e “muito humilhante”: “Como é que a gente se protege disso? Você se isola do resto da sociedade? Para de postar foto sua? Não existe isso”.
Muito além da lei: o desafio de prevenir a violência
Desde abril, está em vigor no Brasil a Lei 15.123/25, de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que aumenta a pena de violência psicológica contra a mulher quando praticada com o uso de IA. Nesses casos, a punição, que varia de seis meses a dois anos de prisão, é agravada em 50%. Apesar do avanço, especialistas ouvidos pela Pública apontam que a legislação não acompanha a rapidez das novas formas de agressão.
A advogada e pesquisadora Lucimara Plaza Tena explica que as vítimas podem recorrer a instrumentos já previstos no ordenamento jurídico, como o Código Penal e o Marco Civil da Internet. Ainda assim, há lacunas importantes, como a ausência de responsabilização efetiva das plataformas que lucram com esse conteúdo e a dificuldade de identificar os autores.
“Não existe uma regulamentação hoje suficiente que responsabiliza o provedor […] Ele monetiza por conta disso. Então, ele tem que ter alguma responsabilidade também”, afirma Tena, que pesquisa as conexões entre direito e IA.
Foi nesse cenário que a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher realizou uma audiência pública para discutir os impactos da tecnologia na violência de gênero, em setembro. “A que não estão sujeitas as crianças e os adolescentes navegando nas redes sociais sem nenhum tipo de controle, de fiscalização e de legislação específica que nos proteja?”, questionou a deputada Erika Hilton (Psol – SP), que presidiu o início da sessão.
Entre as participantes, estava a diretora de pesquisa do InternetLab, Clarice Tavares, que destacou a insuficiência do arcabouço legal e a necessidade de novas formas de regulação. Para ela, o debate brasileiro ainda está excessivamente focado na criminalização. “Quando a gente pensa no uso do direito penal para esses casos, a gente está falando de uma resposta que vem depois que a violência já aconteceu. Não existe uma camada preventiva”, disse Tavares à Pública.
De acordo com a SaferNet, canais no Telegram têm sido usados para comercializar conteúdos ilícitos, inclusive mídias artificiais de celebridades brasileiras em contextos sexuais, com transações feitas via PIX. Além disso, o relatório aponta que, entre janeiro e julho de 2025, 64% das denúncias recebidas pelo Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos envolveram abuso sexual de crianças e adolescentes, número que inclui casos de imagens manipuladas e deepfakes gerados por inteligência artificial.
Já uma pesquisa do Instituto de Internet de Oxford (Oxford Internet Institute, em inglês), em 2024, identificou cerca de 35 mil modelos de deepfake públicos, baixados 15 milhões de vezes ao redor do mundo — 96% deles voltados para retratar mulheres.
Outro desafio, segundo Tavares, é enfrentar um problema que não se resume a indivíduos isolados, mas a um sistema inteiro que lucra e se organiza em torno da misoginia digital. “Essas plataformas, as redes masculinistas que se criam com essas novas tecnologias, é algo que se fortalece, que vão criando cada vez mais novos capítulos, ferramentas e aprofundamentos da misoginia, de formas de violência contra a mulher”, conclui.