Inteligência Artificial"Ao aprenderem a integrar as lições do passado com as inovações do presente, [os millenials] podem construir um caminho que não só honra as tradições, mas também acolhe a mudança. "
A geração dos millennials, aqueles que nasceram entre o principio dos anos 80 e a chegada aos anos 2000, encontra-se numa posição única e, muitas vezes, desafiadora. Eles são os intermediários entre dois mundos: o tradicional, marcado por valores e realidades pré-digitais, e o digital, onde a informação flui a uma velocidade vertiginosa. Este fenómeno, acrescido ao facto de ser a “geração sandwich” atual, carrega consigo uma série de responsabilidades e pressões que podem impactar profundamente o seu bem-estar psicológico.
Dupla Exposição: O Conflito de Gerações
Na Antropologia, o conceito de “transição cultural” é fundamental para entender como as sociedades evoluem e se adaptam. Os millennials são, de certa forma, os arautos desta transição, vivendo num espaço onde as expectativas dos pais em relação ao sucesso e à estabilidade financeira se confrontam com a realidade incerta do mundo digital. Enquanto os seus pais, maioritariamente da geração X ou Baby Boomers, valorizam a segurança no emprego e a vida familiar convencional, os millennials são frequentemente empurrados para o empreendedorismo, a flexibilidade e a inovação. Esta discrepância gera um dilema: como equilibrar as expectativas familiares com as novas oportunidades e desafios que a era digital proporciona?
A sobrecarga de informações é outra pressão significativa. Com acesso a um mundo de dados e opiniões a um clique de distância, os millennials enfrentam uma avalanche de perspectivas que podem ser confusas e contraditórias. Isso gera um estado de paralisia decisional, onde a dificuldade em escolher um caminho se torna um fardo emocional. A constante comparação com os outros, amplificada pelas redes sociais, pode levar a sentimentos de inadequação e ansiedade, criando um ciclo vicioso que afeta a saúde mental.
Sabedoria de Duas Realidades
Apesar dos desafios, a geração millennials também possui um rico capital cultural. Crescendo em dois mundos, eles desenvolvem uma perspetiva única que combina a sabedoria das tradições com a inovação da era digital. Esta habilidade de transitar entre diferentes realidades permite que os millennials sejam mais adaptáveis e resilientes, características valiosas num mundo em constante mudança. Eles aprendem a navegar em ambientes complexos, conciliando o que aprenderam com os seus pais, com as novas práticas e tecnologias que emergem.
Além disso, a experiência de ser a “geração sanduíche” pode também fortalecer laços familiares. Os millennials encontram-se, frequentemente, a cuidar não apenas dos seus filhos, mas também dos seus pais, criando uma dinâmica de apoio mútuo que pode ser enriquecedora. Este papel de mediador entre gerações pode fomentar um diálogo intergeracional que enriquece ambos os lados, promovendo uma compreensão mais profunda das necessidades e desafios de cada grupo.
Consequências Psicológicas e a Necessidade de Apoio
Entretanto, a pressão persistente pode levar a consequências psicológicas significativas. O burnout, a ansiedade e a depressão são problemas que afetam muitos millennials, resultantes da tensão constante entre as expectativas familiares e as realidades do mundo moderno. É crucial que haja uma maior compreensão e apoio, tanto a nível familiar como comunitário, para que esta geração possa encontrar um equilíbrio saudável.
Os millennials têm uma oportunidade única de moldar o futuro, aproveitando a riqueza das suas experiências. Ao aprenderem a integrar as lições do passado com as inovações do presente, podem construir um caminho que não só honra as tradições, mas também acolhe a mudança. A chave está em reconhecer que, mesmo sob pressão, a sabedoria de duas realidades pode ser uma força poderosa para a criação de um futuro mais inclusivo e sustentável.
Em última análise, os millennials devem ser vistos não apenas como a “geração sanduíche” e intermediaria do analógico para o digital, mas também como os arquitetos de uma nova era, onde a convergência de mundos pode gerar um inimaginável potencial.
"o largo. tentou ser demasiadas coisas ao mesmo tempo: gastronomia, moda, sustentabilidade, entretenimento. Perdeu-se na tentativa de agradar a todos e acabou por não ser reconhecível para ninguém."
Em 2010, criei a rádio kapa. Não havia plano, não havia orçamento, não havia audiência garantida. Havia música — muita música — e a vontade de a partilhar com quem quisesse ouvir.
Seis anos depois, quando fui despedido injustamente, a resposta natural foi criar. Não por terapia, não por impulso — mas porque sempre acreditei que era possível fazer jornalismo independente, sério e factual, sem pedir autorização a ninguém. O Largo do Beco nasceu assim, em agosto de 2017, numa plataforma de blogues que entretanto está para encerrar. Mais tarde passou a chamar-se o largo.. O ponto final era intencional.
Quinze anos depois, o projeto ainda existe. Isso não é pouco.
Nesse tempo, atravessei plataformas que encerraram, migrações forçadas, períodos de silêncio e de dúvida. Acumulei custos do meu próprio bolso, sem retorno financeiro. Mantive uma rádio a emitir 24 horas por dia com uma grelha de programação que inclui nomes como Robin Schulz, DJ Chus e Ori Uplift — e que todas as semanas leva aos ouvintes o Airplay40, o top 40 europeu apresentado pelo locutor britânico Spencer James. Estabeleci parcerias formais.
Fiz tudo com diversas pessoas sensacionais que se foram cruzando no meu caminho e fizeram dos vários projetos uma experiência única e intensa. Mas muito do trabalho foi solitário, com noites mal dormidas ou com um trabalho permanente e dedicado a resolver problemas que surgiam, enquanto o tempo que tinha se foi esvaindo para outras necessidades.
Não escrevo isto para impressionar. Escrevo porque só recentemente percebi que o problema nunca foi o projeto — foi a clareza. o largo. tentou ser demasiadas coisas ao mesmo tempo: gastronomia, moda, sustentabilidade, entretenimento. Perdeu-se na tentativa de agradar a todos e acabou por não ser reconhecível para ninguém.
Em janeiro de 2026, o SAPO Blogs anunciou o encerramento. o largo. regressou à sua plataforma própria — o endereço mantém-se: olargo.pt. E dessa vez, em vez de apenas migrar o conteúdo, decidi migrar também o foco.
A partir de agora, o largo. organiza-se em torno do que sempre foi o seu coração: música, media e cultura portuguesa. O menu está a ser simplificado. As categorias que não faziam sentido estão a ser removidas. A rádio passa a ter mais destaque — porque é o elemento que mais nos distingue de qualquer outro projeto independente português.
Não faço promessas sobre o que vai ser o largo. amanhã. Quinze anos ensinaram-me que os projetos não se constroem com declarações — constroem-se com consistência. Com a honestidade de dizer o que somos e o que não somos.
O que somos: uma publicação digital independente com foco em música, media e cultura portuguesa, com uma rádio que emite 24 horas por dia.
O que não somos: um meio de comunicação generalista, uma redação com recursos ou um projeto que cresce depressa.
O que queremos ser: uma voz reconhecida. Com tempo.
Mas mantenho uma certeza: queremos continuar a ter o mundo num blogue.
Arquivo Pessoal/Agência PúblicaEm entrevista à Agência Pública, a ativista iraniana Parvin Ardalan, exilada na Suécia, fala sobre as camadas de conflitos internos e externos e avalia desafios para redefinir futuro do Irão. Lê aqui um excerto e escuta a entrevista na íntegra.
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Andrea DiP, Sofia Amaral, Recardo Terto, Stela Diogo e Thaís Santana e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
No último 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram um ataque militar contra o Irã, na chamada “Operação Fúria Épica”. O ataque deixou centenas de mortos e ampliou o risco de uma escalada regional e até de uma nova corrida nuclear. Em meio aos ataques militares, as narrativas também entraram em disputa. Enquanto parte da imprensa e da população global acredita no objetivo de “libertar” o povo iraniano, dentro do país o conflito envolve disputas mais amplas e interesses que vão além da retórica de liberdade.
Para falar sobre os conflitos internos e avaliar os desafios para redefinir o futuro do país, o Pauta Pública conversou com Parvin Ardalan, jornalista, escritora e ativista feminista. Cofundadora do Centro Cultural das Mulheres Iranianas e da Campanha “Um Milhão de Assinaturas”, Parvin vive hoje exilada na Suécia. Ela fala sobre sua trajetória pessoal, perseguições enfrentadas dentro do regime e como os Estados Unidos e aliados representam apenas mais uma forma de dominação, mas destaca que “nessa situação de fragmentação social, algumas pessoas passaram a concordar até com a guerra, porque pensavam que essa seria a única maneira de provocar uma mudança de regime”.
Ardalan ainda destaca que o discurso dos Estados Unidos e Israel, de liberar o povo iraniano, não corresponde ao que acontece na realidade: “A guerra continua, muitas pessoas foram mortas e outras se espalharam pela região. […] A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os países usarem o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito tempo oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil. Mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados.”
Confira os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo:
Com ataques dos EUA e de Israel, mudança de regime, massacres. Temos visto muita desinformação na imprensa e nas redes sociais, inclusive entre pessoas da diáspora. Você poderia contextualizar para o público brasileiro o que realmente está acontecendo?
Não é fácil nem para nós. Primeiro, é importante dizer que olhar os acontecimentos à distância, da diáspora, sempre envolve riscos e possíveis mal-entendidos. Isso significa que estou olhando de fora para dentro. E tentando analisar o que está acontecendo. Para entender o que acontece hoje no Irã, precisamos ver isso como parte de um ciclo mais longo de protestos que vem se desenvolvendo há anos. Desde 2009, tivemos muitas manifestações populares. E com o tempo a distância entre elas foi ficando menor. Por exemplo, protestos de 2017 a 2020. Também houve protestos de professores, aposentados e trabalhadores. Todos relacionados a crises econômicas, ambientais e à perda de legitimidade da República Islâmica. Um dos maiores foi em setembro de 2022. Depois do assassinato de Gina Mahsa Amini,uma jovem curda morta por causa do hijab, que é obrigatório por lei. Depois que a polícia moral a atacou e ela morreu no hospital, começaram grandes protestos. Foi quando também criamos a rede “Feminists for Gina”. As mulheres passaram a tirar o hijab nas ruas. Isso não significa que a lei mudou. Mas mostra que as mulheres estão tentando mostrar autonomia e agência sobre como elas querem se vestir e como querem ocupar o espaço público. Nós temos essa história do passado no Irã, e a mais recente onda de protesto, desta vez, começou em dezembro de 2025. Foi no fim de dezembro de 2025 que parte de Teerã protestou na rua. E foi por causa do aumento de preços de tudo. Os protestos começaram nos bazares de uma das áreas importantes de Teerã e se espalharam para centenas de cidades, envolveram grupos sociais diferentes, especialmente jovens, e a escala de participação parece ter sido maior do que muitos protestos anteriores que tivemos durante a última década. E, ao mesmo tempo, este protesto também revelou novas dinâmicas políticas e tensões dentro da oposição. Então, a situação no Irã hoje é formada por várias realidades que se sobrepõem. Uma sociedade que tem tido um ciclo contínuo de protestos, um Estado que responde principalmente com repressão e a oposição fragmentada, com diferentes visões para o futuro do país. E, ao mesmo tempo, o Irã estava entrando em outro movimento sensível internacionalmente, com a renovação da tensão e as negociações em torno do programa nuclear do país. E, no meio da situação, com a internet já frágil, os ataques militares pelos Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro, adicionaram uma nova e muito perigosa dimensão para a crise e complicaram a situação.
Apesar das diferenças locais claras, as ações de Trump no Irã são muito semelhantes às que ele tomou na Venezuela. Em nome de libertar o povo, ele invade, ataca, sequestra, derruba governos e já não esconde seus interesses, como o petróleo. Agora ele está dizendo que precisa participar da escolha de um novo líder. Como você escuta essa narrativa de Trump de se posicionar como um salvador que vem de fora para resolver os problemas do país? E o que deve acontecer agora no Irã?
Na verdade, a narrativa de que um poder externo pode salvar o país por meio de intervenção militar é algo que vimos muitas vezes em nossa história. Ela costuma aparecer na linguagem da libertação ou da democracia. Mas, na realidade, geralmente está profundamente conectada a interesses geopolíticos e econômicos. Por isso, muitos iranianos escutam essa narrativa com grande ceticismo. Ao mesmo tempo, também precisamos entender o nível de frustração e exaustão dentro da sociedade iraniana. Na última década, as pessoas foram repetidamente às ruas. Cada vez que esses movimentos surgiram, foram respondidos com repressão e violência, sem qualquer mudança política significativa. Essa longa experiência de repressão criou um sentimento de desespero em muitas pessoas. Nesse contexto, algumas começam a acreditar que qualquer força externa poderia ajudá-las a mudar o sistema atual. Às vezes se ouve dentro do Irã a frase: “qualquer coisa seria melhor do que isso”. Mas esse tipo de pensamento geralmente vem de um lugar de exaustão, e não de uma visão política clara para o futuro. Ao mesmo tempo, a própria oposição permanece profundamente fragmentada. Por exemplo, alguns grupos apoiam a monarquia em torno de Reza Pahlavi, enquanto outros, incluindo muitos grupos democráticos, republicanos e da sociedade civil, além de movimentos de mulheres e feministas, defendem mudanças que venham de baixo para cima, e não impostas de cima. Durante as manifestações de 2025, quando Reza Pahlavi convocou as pessoas, e mais de um milhão foram às ruas, tivemos uma situação ambígua. Por um lado, foi a primeira vez que mais de um milhão de pessoas participaram de uma manifestação desse tipo. Naquele período, a internet estava completamente desligada e não podíamos fazer quase nada. Nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026 houve um massacre, quase um genocídio, contra manifestantes. Mais de mil pessoas foram mortas pelo governo em apenas dois dias. Esse sentimento de exaustão aumentou ainda mais. Quando Reza Pahlavi convocou as pessoas, muitas estavam pensando que não havia outro caminho. Para muitos, parecia que um “salvador” estava chegando, porque os Estados Unidos diziam que queriam negociar sobre o programa nuclear com o governo iraniano e estavam enviando forças militares para a região. Israel também dizia que estava tentando salvar o povo. Ao mesmo tempo, existe um grupo monarquista cujo apoio tem aumentado. Nessa situação de fragmentação social, algumas pessoas ficaram tão revoltadas que passaram a concordar até com a guerra, porque pensavam que essa seria a única maneira de provocar uma mudança de regime. Assim, a ideia de mudança de regime tornou-se mais presente e mais forte do que outros debates, especialmente entre pessoas dentro do Irã. Essa situação tornou-se ainda mais paradoxal quando Ali Khamenei, líder do Irã, foi morto em um ataque israelense. Em 28 de fevereiro houve ataques ao Irã e muitos membros do aparato militar foram mortos, especialmente da Guarda Revolucionária (IRGC), além do próprio Khamenei. Esse clima fortaleceu ainda mais a ideia de que talvez os Estados Unidos pudessem intervir e mudar o regime. Mas, infelizmente, isso não corresponde ao que acontece na realidade. A guerra continua, muitas pessoas foram mortas e outras se espalharam pela região. Os Estados Unidos não estão pensando nas pessoas, nem no bem-estar do país. Há muitos fatores que ainda vão aparecer gradualmente. No dia 8 de março foi anunciado que Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo Ali Khamenei, se tornou o novo líder. Ou seja, eles estão tentando reproduzir algo semelhante ao que ocorre no debate monarquista em torno de Reza Pahlavi, o filho do antigo xá assumindo o poder. Agora querem colocar Mojtaba, o filho do líder supremo, no lugar do pai. Isso significa uma espécie de nova forma de monarquia, mas em forma clerical. Estamos vivendo um momento muito incerto. O Irã enfrenta agitação social interna, pressão militar externa e profunda fragmentação política. A verdadeira questão é se uma transição democrática pode surgir de dentro da sociedade iraniana, por meio de alianças amplas e resistência civil, ou se o futuro será moldado por grupos militares, pela guerra ou por interesses geopolíticos de diferentes potências. Nada disso está claro para nenhum de nós. No debate feminista, especialmente na rede Feminists for Jina, sempre afirmamos que não concordamos com a guerra. Somos contra a guerra. Não queremos a volta da monarquia nem outra forma de ditadura. A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel, que tentam usar o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito tempo oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil. Mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados.
As autoridades passaram anos a testar ferramentas, a desenvolver aplicações e a tentar restringir a forma como os russos utilizam a Internet. As falhas generalizadas na rede e a confusão em torno das aplicações de mensagens estão a testar a paciência da população.
Este artigo é uma tradução para português de Portugal de um artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).
O WhatsApp está a sofrer fortes limitações de velocidade. O Telegram está prestes a ser bloqueado. Os soldados estão furiosos. O Max, uma aplicação de mensagens com o apoio do Estado, está a ser imposto a todos. Os comandantes alertam que o Max não é seguro. O cidadão russo comum tenta evitá-lo.
Ah! E, como se não bastasse, a Internet móvel está a ser desligada em todo o lado, pelo que, na moderna Moscovo do século XXI, não é possível chamar um táxi, encomendar entrega de comida ou sequer consultar um mapa online.
Na capital russa, uma cidade hiperconectada e dependente das redes móveis — para não falar de muitas outras vilas e cidades pelo país fora —, a Internet, juntamente com as aplicações de que os russos dependem para o seu quotidiano, está a colapsar.
Se perguntarmos ao Kremlin como está a lidar com a situação:
"Estamos a usar telefones fixos", afirmou o porta-voz Dmitry Peskov.
Mas se perguntarmos ao cidadão russo comum:
"Eles têm todos carros com luzes prioritárias da polícia e nós nem sequer conseguimos chamar um táxi ou reservar um veículo partilhado", desabafou Maksim, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, referindo-se aos pirilampos intermitentes, amplamente detestados pela população, que os governantes utilizam para contornar o infame trânsito de Moscovo.
No início deste mês, contou Maksim, chegou atrasado ao trabalho na sua deslocação desde o subúrbio de Zelenograd, devido aos cortes de Internet no centro de Moscovo.
"Não havia absolutamente qualquer rede. Por isso, apanhei um comboio suburbano, depois o metro, e ainda tive de andar quase dois quilómetros a pé até ao nosso armazém", relatou à RFE/RL Siberia.Realities. "Nem sequer consegui pagar o aluguer de uma trotineta elétrica."
O mundo digital russo está a ser agitado por uma série de tensões cruzadas, na sua maioria resultantes da tentativa dos reguladores governamentais e das principais agências de segurança do país em impor um controlo mais apertado sobre os cidadãos comuns: o que leem, o que veem, o que partilham, o que encomendam, como pagam.
Basicamente, tudo o que fazem online.
"Uma parte significativa dos moscovitas está habituada a uma experiência de Internet muito confortável, habituada a viver em canais acolhedores do Telegram e a comunicar através de uma aplicação de mensagens muito prática. Agora, os moscovitas estão a ser expulsos desse ambiente bastante confortável", explicou Igor Yakovenko, sociólogo russo, ao Serviço Russo da RFE/RL.
"O Kremlin está a tentar transformar a Internet russa num ecossistema fechado, em que todos os serviços importantes são controlados e acessíveis" ao Serviço Federal de Segurança (FSB), escreveu a comentadora russa Maria Kolymchenko num artigo para o Carnegie Russia Eurasia Center, com sede em Berlim. "Se existem plataformas estrangeiras que ainda não foram bloqueadas, é apenas porque ainda não há uma alternativa nacional viável."
O que se passa?
Estas convulsões derivam de uma série de medidas políticas lideradas pelo regulador estatal de tecnologia, o Roskomnadzor, com o apoio do Kremlin.
A primeira está relacionada com as aplicações de mensagens.
Há vários anos que os reguladores têm vindo a trabalhar com líderes da indústria tecnológica russa para desenvolver alternativas às duas aplicações de mensagens mais populares entre os russos: o WhatsApp, detido pela empresa-mãe do Facebook, e o Telegram, propriedade de Pavel Durov, empresário tecnológico exilado.
O Roskomnadzor tem vindo a estrangular gradualmente as duas aplicações, reduzindo a sua velocidade para as tornar inutilizáveis. A agência tem adotado medidas semelhantes com o YouTube, o serviço de transmissão de vídeo mais popular no país, detido pela empresa-mãe da Google.
A imprensa russa avança que o Telegram poderá ser totalmente bloqueado no país a partir de 1 de abril.
Paralelamente, as autoridades têm promovido uma aplicação de mensagens alternativa desenvolvida pela VK, a gigante das redes sociais cujos quadros superiores incluem figuras ligadas ao Kremlin.
Essa aplicação, batizada de Messenger Max, foi lançada no ano passado com o apoio público do presidente Vladimir Putin. Desde então, os órgãos de comunicação estatais e alinhados com o Estado têm feito uma promoção agressiva da mesma.
As autoridades locais também têm exercido uma forte pressão sobre os russos para fazerem a transição. A partir de setembro, os novos dispositivos móveis adquiridos na Rússia terão de trazer o Max pré-instalado. Na semana passada, uma universidade de Moscovo anunciou que não entregaria os diplomas aos alunos finalistas a menos que estes instalassem o Max.
"A Rússia está a restringir o acesso ao Telegram para forçar os seus cidadãos a aderirem a uma aplicação controlada pelo Estado, criada para a vigilância e censura política", acusou Durov numa publicação na rede social X no mês passado.
Porém, os russos estão a resistir à mudança e a procurar formas criativas de evitar a sua instalação nos telemóveis.
Por seu turno, o Telegram é amplamente utilizado não só pelos civis russos, mas também pelos soldados destacados para a Ucrânia, bem como pelos chamados Z Bloggers, que utilizam o Telegram para amplificar a propaganda de guerra e angariar fundos para si próprios e para as unidades militares.
O estrangulamento do Telegram — agravado pelas notícias de que os comandantes ordenaram a sua eliminação total dos telemóveis dos soldados — provocou um descontentamento aberto entre as tropas e os seus apoiantes públicos.
"Quem é que está a abrandar o Telegram?", questionou Sergei Mironov, um proeminente deputado, num discurso indignado no mês passado. "Vão para a frente de batalha, para a [guerra]. Os rapazes que estão a derramar sangue — a única ligação que têm com as suas famílias e amigos é através do Telegram. O que é que estão a fazer, idiotas? Eu chamo os bois pelos nomes. Idiotas! O que é que estão a fazer?"
Aumentando ainda mais a frustração, os comandantes russos proibiram a utilização do Max nos telemóveis dos soldados, invocando preocupações de segurança com a aplicação, de acordo com vários canais pró-guerra proeminentes do Telegram.
"Toda esta cacofonia em torno do Telegram é ridícula. Ridícula. Estamos simplesmente a trabalhar contra o nosso próprio povo, a piorar-lhes a vida", afirmou Andrei Bezrukov, um conhecido ex-agente "adormecido" das secretas russas que agora leciona numa universidade de Moscovo.
"Durante um período bastante difícil para o país, estamos a tentar — como poderei dizer? — aborrecer uma grande percentagem da nossa população, que naturalmente está a favor da vitória [na guerra da Ucrânia] e só quer o melhor", considerou numa entrevista em vídeo.
Em fevereiro, os legisladores aprovaram nova legislação que confere ao FSB e a outras agências policiais e de segurança o poder de ordenar aos operadores móveis o corte do serviço a qualquer cliente, caso seja necessário.
"Eu nem sequer consigo contactar os meus entes queridos" - utilizador russo
Para agravar todo este cenário, somam-se as falhas na internet móvel, que começaram a causar transtornos a milhões de moscovitas por volta de 6 de março.
Noutras regiões fronteiriças, as autoridades justificaram os cortes temporários como medidas necessárias para travar os drones ucranianos, que frequentemente dependem das redes móveis locais para se orientarem. Vários dias após o início das perturbações em Moscovo, Peskov afirmou que as medidas foram tomadas "no interesse da segurança", sem adiantar detalhes.
Alguns russos desabafaram a sua indignação com os cortes no Dia Internacional da Mulher, publicando diretamente na página da VK do Roskomnadzor, abaixo das felicitações da agência para o feriado que é amplamente celebrado na Rússia.
"Obrigado por desligarem a Internet no dia 8 de março — que belo presente! Nem sequer consigo contactar os meus entes queridos para os felicitar", escreveu um utilizador.
O impacto económico das falhas foi considerável, de acordo com o jornal Kommersant, que estimou perdas para as empresas de Moscovo entre os 3 e os 5 mil milhões de rublos (cerca de 32 a 53 milhões de euros) durante os primeiros cinco dias de cortes. Os mais afetados foram os retalhistas, os serviços de entrega de comida e estafetas e as empresas de carsharing.
Noutras grandes cidades, os russos já sofrem cortes nas redes móveis há meses. Em Petropavlovsk-Kamchatsky, uma cidade numa península da costa do Pacífico que fica a mais de 7 200 quilómetros da Ucrânia, registaram-se falhas em junho passado, tal como em Irkutsk, na Sibéria, onde os habitantes locais demonstraram pouca simpatia para com os moscovitas.
"Bem, agora vão sentir a nossa dor", atirou uma mulher de Irkutsk que se identificou apenas pelo primeiro nome, Natalya.
"Em junho, começaram a abrandar a nossa Internet, no final do ano houve um bloqueio total, e agora a situação é tal que pode ser bloqueada a qualquer momento, durante vários dias ou semanas", disse à RFE/RL Siberia.Realities. "Mesmo quando a rede está a funcionar, a velocidade é muito lenta — não conseguimos enviar vídeo ou áudio."
A confusão e a frustração suscitaram reações irónicas por parte da Ucrânia, onde o Telegram, o I e a Internet não sofrem restrições.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, antigo ator de comédia na sua carreira anterior, provocou Putin por causa dos apagões na Internet.
"Isto é, sabem, um passo atrás, um recuo de 100 anos", disse aos jornalistas na semana passada. "Qualquer dia, mais vale passarem para o correio em papel, telegramas e cavalos. É este o tipo de civilização que eles têm. Talvez o Putin até goste. Talvez seja assim que ele se volta a sentir jovem."
Mehaniq41/Envato ElementsResidentes deparam-se com constrangimentos no acesso a serviços essenciais, como pagamentos eletrónicos, aplicações de transporte e ferramentas de navegação.
Este artigo é uma tradução para português de Portugal de um artigo em inglês da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL).
Uma vaga de cortes na internet móvel atinge Moscovo há mais de uma semana, causando fortes constrangimentos no dia a dia da cidade e avolumando receios sobre até que ponto o governo de Vladimir Putin estará disposto a ir para reforçar o controlo sobre a atividade online.
Habitantes e empresas desta cidade com mais de 12 milhões de pessoas enfrentam dificuldades no acesso a um vasto leque de serviços, desde pagamentos digitais a aplicações de táxis e sistemas de navegação. Numa cidade tecnologicamente avançada e que concentra grande parte da riqueza da Rússia, as vendas de artigos analógicos, como pagers e mapas em papel, dispararam.
Desde o início de grande parte dos cortes, a 7 de março, a situação tem vindo a agravar-se. Até mesmo as páginas incluídas na "lista branca" do governo — plataformas alinhadas com o Estado que, em teoria, estariam isentas destas restrições — ficaram inacessíveis.
Oficialmente, o Kremlin atribui estas falhas a um reforço das medidas de segurança, sem, no entanto, adiantar grandes pormenores.
"Kiev está a utilizar métodos de ataque cada vez mais sofisticados, pelo que a Rússia necessita de medidas de proteção com uma exigência tecnológica crescente", justificou o porta-voz da presidência russa Dmitry Peskov a 12 de março. A declaração surge no contexto das retaliações ucranianas à invasão russa em grande escala, um conflito que entrou agora no seu quinto ano.
Os críticos do regime alertam que as autoridades estatais invocam frequentemente questões de segurança como pretexto para restringir a vida e as liberdades dos cidadãos.
"A liderança da Rússia é, pura e simplesmente, muito cobarde. Tão cobarde que as liberdades civis, a economia ou o bem-estar das pessoas lhe são indiferentes. Não se importa absolutamente nada com isso", acusa Mikhail Klimarev, ativista e diretor da organização Internet Protection Society.
Embora outras regiões do país já sofram interrupções há vários meses, os bloqueios na capital estão a gerar maior repercussão.
"A internet móvel tem sido cortada na Rússia desde junho de 2025. E só agora é que tudo isto chegou a Moscovo", explicou Klimarev à Current Time.
De acordo com os residentes, a rede móvel tem estado inoperacional em praticamente toda a cidade de Moscovo, afetando tanto as zonas centrais como os bairros periféricos.
"Trabalho como freelancer e preciso de uma boa ligação à internet. Tive de fazer um desconto a um cliente porque não consegui cumprir o prazo de entrega", relatou Alina, habitante de Moscovo, à RFE/RL Siberia.Realities.
Há anos que o governo de Putin procura controlar e limitar o acesso dos russos à internet. As autoridades têm visado gigantes ocidentais como o Facebook, a Google, a Apple e a Amazon, impulsionando simultaneamente alternativas nacionais, sobre as quais exercem maior controlo.
Ativistas e outros observadores suspeitam que o bloqueio da rede em Moscovo esteja a servir como balão de ensaio para o sistema de "listas brancas" de páginas autorizadas.
Este diretório restrito de recursos, disponível durante os apagões digitais, começou a ser testado no verão passado. A lista inclui sites de operadoras de telecomunicações, órgãos de comunicação social pró-Kremlin, agências governamentais, plataformas de comércio eletrónico e redes sociais como a Odnoklassniki e a VK (ex-VKontakte).
O Telegram, a aplicação de mensagens mais popular na Rússia, também tem registado problemas de acesso, à semelhança do que acontece com o WhatsApp.
"A acessibilidade ao Telegram caiu 80%", escreveu Klimarev a 16 de março, numa comparação com o dia anterior.
No ano passado, a Rússia lançou o Max, a sua própria aplicação de mensagens com o apoio do Estado, mas a iniciativa enfrenta forte contestação por parte dos críticos, que a encaram como uma ferramenta de vigilância estatal. A imprensa oficial desvaloriza estas preocupações, garantindo que se trata de uma plataforma segura e independente.
A 20 de fevereiro, Putin assinou uma lei que obriga as operadoras de telecomunicações a suspenderem os serviços a pedido do Serviço Federal de Segurança (FSB). Paralelamente, as autoridades isentaram as empresas de qualquer responsabilidade perante os clientes caso a interrupção decorra do cumprimento das exigências dos serviços de informações.
A censura de conteúdos online para reprimir a oposição, a monitorização do tráfego na internet em nome da segurança e o controlo apertado sobre os meios de comunicação social são práticas antigas do governo russo. A repressão estatal sobre a liberdade de expressão, de reunião e outras garantias fundamentais ganhou força com o regresso de Putin à presidência em 2012, e sofreu um novo agravamento desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022.
Município de Vila do CondePrograma de celebração da vida e obra do "Poeta Carpinteiro" prolonga-se ao longo de todo o ano.
Joaquim Moreira da Silva foi um figura ímpar da poesia portuguesa. Agora, o município de Vila do Conde vai homenagear o também conhecido "Poeta Carpinteiro". E as primeiras celebrações arrancam já este fim de semana.
Em nota enviada às redações, o município vila-condense indica que o programa arranca na cidade e na União de Freguesias de Vilar e Mosteiró: "As comemorações iniciam-se com um conjunto de iniciativas culturais e pedagógicas entre os dias 13 e 15 de março, envolvendo escolas, instituições locais e a comunidade", esclarece a autarquia, acrescentando, contudo que o programa se vai prolongar "ao longo de todo o ano de 2026, com exposições, espetáculos, performances educativas, tertúlias e a estreia do filme “O Carpinteiro da Palavra”, de Jaime Neves, prevista para dezembro".
Do programa, consta o espetáculo de marionetas "O Home que Lavra a Palavra", pela Companhia Teatro e Marionetas de Madrágora. O espetáculo será apresentado no dia 13 de março aos utentes do Centro de Convívio da Associação de Solidariedade Social de Mosteiró. O mesmo espetáculo será também apresentado na sede da Associação Cultural e Recreativa Honra e Dever no dia 15 de março.
No dia 14, será inaugurada a exposição "Joaquim Moreira da Silva: Exposição Biobibligráfica". A mostra estará patente até dia 21 de abril e será de entrada livre. Ainda no sábado, será promovido um Colóquio de História sobre o contexto histórico e cultural em que Moreira da Silva viveu e contará com intervenções da historiadora Raquel Varela e do investigador Maciel Santos.
Por fim, no dia 15 de março, data de nascimento do "Poeta Carpinteiro", haverá um Percurso Poético em Vilar, com leituras de poesia por Sandra Salomé e Isaque Ferreira e participação do Coral Honra e Dever.
"Com este programa diversificado, Vila do Conde pretende homenagear uma das figuras mais originais da sua história cultural, reforçando a ligação entre a memória, a literatura popular e a identidade local", frisa a autarquia.
Todo o programa detalhado pode ser consultado no site do município.
microgen/Envato ElementsMomento aconteceu durante um direto após o encontro entre o SL Benfica e o Real Madrid CF.
Dois profissionais da CMTV foram alvo de ameaças e insultos junto ao Estádio da Luz, em Lisboa, após o jogo desta terça-feira entre o SL Benfica e o Real Madrid CF, a contar para a primeira mão do playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões.
Os dois profissionais estariam a preparar-se para entrar em direto quando adeptos do SL Benfica abordaram o jornalista Pedro Neves de Sousa.A altercação foi transmitida em direto na emissão do canal de cabo e rapidamente partilhada nos sites do grupo medialivre, dona da CMTV e do jornal Correio da Manhã.
Em antena, a pivô Mariana Águas informou que quer Sousa quer o repórter de imagem "estão bem". Contudo, antes, garantiu que "as pessoas estavam a ser identificadas pelas autoridades" pois trata-se de "um crime público": "Vamos dar todo o seguimento que se impõe", garantiu a jornalista.
A situação aconteceu após o fim do jogo em que o SL Benfica perdeu frente ao Real Madrid CF por 0-1, com um golo de Vinícius Júnior. O jogo teve também um caso polémico, com um alegado episódio de racismo entre Vinícius e Prestianni. O jogador da formação encarnada terá chamado de "mono" ("macaco" em espanhol) ao avançando da equipa madrilena, tendo levado à interrupação da partida durante dez minutos.
ignis/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)Enquanto as imagens sexuais estão por todo o lado, as escolas japonesas continuam a tratar o sexo apenas como uma questão de biologia reprodutiva.
Imagens sexualizadas de corpos femininos inundam os espaços públicos no Japão, desde as capas de revistas nas lojas de conveniência aos cartazes publicitários nas ruas das cidades. Isto tornou-se algo tão comum que já é visto como perfeitamente normal.
Em outubro de 2025, uma petição no Change.org, intitulada “Protejam o Futuro das Nossas Crianças — Diga Não às Revistas Sexualmente Explícitas nas Lojas de Conveniência”, reuniu mais de 5 mil assinaturas. O objetivo era pressionar as lojas a retirarem as revistas para adultos das prateleiras, protegendo assim os menores. O argumento era de que este conteúdo explícito não passa de uma forma de assédio sexual e que prejudica as crianças na fase em que estão a construir a sua própria identidade.
Por essa altura, a escritora Emi S. partilhou uma reflexão no seu blogue no seu blogue no Medium:
Quando era criança, lembro-me de ver cartazes com rostos de mulheres e preços ao lado. No entanto, não me recordo de sentir qualquer desconforto na altura. Estava lá, simplesmente — era tratado como algo normal.
Emi S.
A Emi S. tocou num ponto essencial: a normalização da objetificação das mulheres na cultura popular japonesa. Muitas mulheres aceitam estas imagens sexualizadas como parte do dia a dia, ao ponto de nem as questionarem. E quando decidem demonstrar desconforto, as suas vozes são muitas vezes desvalorizadas como sendo um "exagero".
Imagens sexuais e a cultura popular japonesa
De onde vem este padrão? O boom dos media e da cultura popular no Japão pós-guerra criou um ecossistema visual onde o manga, o anime e as revistas impressas floresceram. O modelo das lojas de conveniência, que se espalhou nas décadas de 80 e 90, tornou as revistas — incluindo as pornográficas — acessíveis na rotina diária de qualquer pessoa.
De acordo com um estudo de 1989 citado pelo portal Nippon.com, 92,3% das lojas de conveniência vendiam revistas pornográficas. Mais tarde, a ascensão da estética moe[nota]A estética Moe foca-se em criar personagens de anime e manga que despertam no público um forte sentimento de afeto, ternura e um instinto quase paternal de proteção. Visualmente, define-se por traços suaves e "fofos", como olhos grandes e expressões de inocência, realçando uma vulnerabilidade que cativa emocionalmente o espectador.[/nota] no anime e no manga veio esbater ainda mais a linha entre o entretenimento e o erotismo. Isto é particularmente visível no crescimento do conteúdo "lolicon"[nota]O termo lolicon é uma abreviatura de "Lolita complex" e designa um género de manga, anime e videojogos focado na atração por raparigas pré-púberes ou personagens com traços marcadamente infantis. É uma das áreas mais polémicas da subcultura japonesa, sendo frequentemente criticada por normalizar a erotização de menores e por desafiar os limites éticos da liberdade de expressão.[/nota], onde personagens femininas jovens (ou com aparência infantil) são sexualizadas.
O lucro tem sido o grande motor deste mercado erótico, já que as revistas para adultos garantiam uma receita estável para muitos lojistas. No entanto, antes dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio 2020, as principais cadeias de lojas de conveniência — 7-Eleven, Lawson e FamilyMart — anunciaram que iriam deixar de vender estas revistas em todo o país. A decisão foi apresentada como um esforço para tornar as lojas "mais confortáveis para mulheres e crianças" e para "evitar manchar a imagem do Japão perante os turistas", o que marcou uma mudança simbólica importante.
Na internet, a medida dividiu opiniões. Os apoiantes viram nisto um progresso há muito esperado em termos de sensibilidade de género nos espaços públicos. Já os críticos consideraram a medida meramente teatral, argumentando que o Japão só agiu por causa da pressão estrangeira. No X (antigo Twitter), em 2019, a utilizadora Hoshikawa Shinya (@asitafukukazen) escreveu:
As mulheres queixam-se há anos e nada mudou até chegarem os Jogos Olímpicos. Isso mostra o quão pouco este país valoriza a voz das mulheres.
Hoshikawa Shinya (@asitafukukazen)
Embora estas imagens sejam agora menos visíveis nas grandes lojas, continuam a ser um elemento central da cultura pop e dos espaços públicos japoneses. Recentemente, surgiu também o alerta para anúncios sexualmente sugestivos em sites não pornográficos, bem como para a exposição de crianças a conteúdos sexualizados em jogos, manga e outros meios da subcultura.
Ainda assim, os pedidos para que existam mais restrições, como a criação de zonas específicas ou controlo de idade para aceder a conteúdos sexuais, tanto online como offline, acabam quase sempre por gerar controvérsia, com os críticos a defenderem que tais intervenções equivalem a censura.
O sexo continua a ser um tabu na escola e na sociedade
O debate sobre a liberdade de expressão vs. o direito a não ser objetificado (pela exposição pública de imagens eróticas) arrasta-se há anos sem que se chegue a um consenso.
Contudo, enquanto a sexualização continua a ser banal, a discussão educativa sobre sexualidade e consentimento é escassa no sistema de ensino japonês. Atualmente, as escolas ainda encaram o sexo apenas como uma questão de biologia reprodutiva. As aulas de educação sexual são frequentemente separadas por género: as raparigas aprendem sobre a menstruação enquanto os rapazes têm aulas de saúde geral ou desporto. Praticamente não se fala de sexualidade no sentido de consentimento, sexo seguro, relações saudáveis ou orientações sexuais.
Este currículo dividido por géneros reforça a ideia de que o conhecimento sexual é algo privado, vergonhoso ou até desnecessário. Como explicou o blogger Musashi, na plataforma Medium:
"A educação sexual japonesa tende a reforçar velhas normas e estereótipos de género. [...] A narrativa foca-se muito nas diferenças entre sexos e sublinha que homens e mulheres devem cumprir papéis distintos."
Como resultado, ainda hoje alguns japoneses veem a menstruação como um embaraço privado e não como uma questão de saúde pública, algo que já foi levantado pela deputada Ayaka Yoshida.
No entanto, os organizadores da campanha exigem que estas regras sejam substituídas por uma postura clara: todas as crianças devem ter acesso a uma educação sexual rigorosa e abrangente. Até agora, mais de 41 500 pessoas já assinaram a petição.
Na verdade, uma sociedade onde as imagens sexuais fazem parte do quotidiano exige uma educação sexual muito mais completa para combater estereótipos de género. Como indicam vários estudos de psicologia dos media, a exposição repetida a conteúdos que objetificam o corpo pode moldar a forma como os espectadores veem os papéis de género e os relacionamentos.
No Japão, piadas sexuais casuais, comentários sobre a aparência e pressupostos sobre o comportamento das mulheres são comuns em ambientes de trabalho e em escolas. Nos adolescentes, o contacto frequente com conteúdo erotizado em espaços públicos pode acabar por "anestesiar" a sensibilidade em relação ao que é um comportamento respeitoso ou inapropriado, normalizando o assédio sexual e o body shaming desde cedo.
E os danos são visíveis. Por exemplo, uma jovem de 14 anos queixou-se num fórum para adolescentes que os rapazes comentavam frequentemente sobre o seu peito, perguntando: "Não tens vergonha de ter as mamas tão grandes?". Disse ainda que até os professores pareciam olhar para o peito dela antes de olharem para o seu rosto. O seu desabafo teve eco em muitas colegas, mas também gerou várias piadas sexuais por parte de rapazes.
Neste tipo de ambiente, é muito mais provável que as mulheres acabem por se "auto-objetificar", vendo a atratividade sexual como a principal medida do seu valor.
O desafio do Japão passa por conciliar o desejo de preservar a liberdade criativa e erótica com a necessidade de garantir que os espaços públicos respeitam a dignidade humana. O primeiro passo pode muito bem começar pela introdução de um currículo de educação sexual mais aberto, abrangente e diversificado.
Este artigo, escrito por Jo Carter, foi originalmente publicado no site Global Voices Online e republicado em português de Portugal n'o largo. ao abrigo da licença Creative Commons CC BY 3.0.
KYNASTUDIO/Envato ElementsEm plataformas como o Discord, os jovens envolvem-se em desafios violentos. Animais e raparigas estão entre as vítimas mais frequentes.
Esta é uma republicação integral em português do Brasil de um artigo da autoria de Amanda Audi, com edição de Bruno Fonseca, e disponibilizado originalmente no site da Agência Pública.
Uma menina de 13 anos faz uma transmissão ao vivo em um grupo da rede social Discord. Ela ateia fogo em um gato enquanto mostra em tempo real aos outros usuários. O animal corre pela casa, alastrando as chamas. Depois, ela posta no grupo: “Botei fogo na casa, daora”.
Essa foi uma das cenas chocantes que as pesquisadoras independentes Tatiana Azevedo e Letícia Oliveira tiveram acesso enquanto monitoravam grupos extremistas no Discord entre 2023 e 2024. “São coisas que eu nunca vou esquecer, mudaram a minha vida”, afirma Azevedo.
Elas publicaram ano passado um relatório sobre situações brutais que ocorrem nos grupos da rede social, chamados de panelas. Crianças e adolescentes estão entre os principais envolvidos em crimes que também incluem incentivo à automutilação, suicídio e estupros virtuais coletivos (em que as vítimas são forçadas a praticar atos sexuais ou se exporem na rede social).
Os atos são chamados de “lulz”, termo usado para designar uma “brincadeira” ou desafio que muitas vezes envolve violência. “Começa com pequenas transgressões, como pichar ou escrever no próprio corpo o nome do grupo, e muitas vezes descamba para atos extremos. Eles fazem isso para ganhar status e serem aceitos”, diz Azevedo.
Agressões contra animais são comuns porque eles oferecem pouca ou nenhuma resistência. Muitas vezes os autores cobram um valor (como uma assinatura) das pessoas que queiram assistir ao espetáculo macabro.
O caso de Orelha, cachorro comunitário que foi espancado em um bairro nobre de Florianópolis (Santa Catarina) e teve que passar por eutanásia no início de janeiro devido à gravidade dos ferimentos, reacendeu o debate sobre o risco de jovens serem expostos a ideias extremistas em ambientes virtuais sem moderação.
Nesta terça-feira (3 de janeiro), a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu as investigações sobre a morte de Orelha e pediu a internação de um adolescente que teria sido o autor das agressões. Além disso, quatro adolescentes foram apontados como autores de uma tentativa de afogamento de outro cão comunitário do mesmo local, chamado Caramelo.
Os nomes e idades dos adolescentes não foram revelados em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê sigilo total em casos envolvendo menores de 18 anos. Dois pais e um tio dos jovens também foram indiciados por tentar coagir um vigilante que teria testemunhado o crime.
Até o momento, não há indícios de que os adolescentes faziam parte de grupos extremistas online. Porém, especialistas apontam que situações como as de Orelha e Caramelo são sintomáticas de um processo de radicalização.
“O zoosadismo é um grande indicador de radicalização e um passo grande para a mobilização à violência. A gente tem visto a violência como uma moeda social. Quanto mais sádico e perverso, maior estatuto interno dentro da minha rede, da minha panela, eu tenho”, disse o procurador Fábio Costa Pereira, que integra o Projeto Sinais, de prevenção a violência extrema praticada por jovens e adolescentes, nas redes sociais do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Para o procurador, as famílias precisam ter cuidado com a maneira que os jovens usam a internet. “Esses adolescentes têm acesso ilimitado a telas porque as famílias permitem”, ele continua. “Muitas das nossas crianças e adolescentes passaram a viver no mundo digital sem a percepção das consequências catastróficas que elas têm no mundo real.”
Animais e jovens raparigas são as principais vítimas de grupos violentos nas redes
Um dos indícios de que os jovens são os mais afetados é que episódios violentos monitorados pelas pesquisadoras no Discord aumentaram durante a pandemia e, depois, em períodos de férias escolares. “São momentos em que os adolescentes ficam em casa e podem usar a internet livremente. Por isso o ECA Digital (medidas que visam proteger menores de 16 anos nas redes sociais, que começam a valer em março) é tão importante”, afirma Oliveira.
Segundo as autoras, as maiores vítimas de violência nos grupos são meninas e animais. “As vítimas são predominantemente do gênero feminino. Animais como gatos, cachorros, pássaros, sapos e outros animais de pequeno porte são frequentemente violentados em sessões de tortura animal. Os agressores são, majoritariamente, do sexo masculino”, diz um trecho do relatório.
Entre os episódios narrados no relatório, está o de um adolescente de 17 anos do Rio Grande do Sul que furtou, torturou e matou um cachorro e transmitiu ao vivo pelo Discord. Outro de Goiás fez uma live enquanto maltratava e enforcava um cão.
Azevedo ainda conta ter presenciado o momento em que uma menina foi obrigada pelos outros participantes a praticar atos de zoofilia com um cachorro. Ela explica que líderes dos grupos, principalmente meninos, coagem meninas a fazerem o que eles querem ameaçando expor vídeos íntimos ou as expondo aos pais. “Elas vão ficar traumatizadas para o resto da vida”, acredita.
Quem maltrata animais, também pode agredir pessoas
No ano passado, o Brasil teve 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia – quase 5 mil no total. Houve um aumento de 20% em relação a 2024. Santa Catarina, terra de Orelha e Caramelo, foi o segundo estado com mais notificações em 2025, atrás apenas do Rio Grande do Sul.
ONGs de proteção de direitos dos animais pontuam que os casos de violência quase nunca são isolados. “Dois pesquisadores norte-americanos no começo da década de 1980 entenderam que a violência é uma só. As pessoas que abusam e violentam animais podem violentar pessoas ou vice-versa”, afirma Rosangela Gebara, diretora de relações institucionais da ONG Ampara Animal.
Os pesquisadores citados, Phil Arkow e Frank Ascione, criaram a Teoria do Elo, que identifica uma conexão próxima entre a crueldade animal e a violência doméstica contra mulheres, crianças e idosos, alvos considerados vulneráveis. Estudos sobre serial killers apontam que quase todos eles tiveram episódios de maus-tratos a animais – como o Maníaco do Parque ou Jeffrey Dahmer.
“Se você tem criança ou adolescente muito violento contra animais, isso tem que ser investigado do ponto de vista psiquiátrico. Não se pode dizer que é coisa de criança. Pode ser um fator preditivo, precoce, de pessoas desajustadas que poderiam cometer crimes piores”, diz Gebara.
No Brasil, frequentemente as punições a pessoas acusadas de maus-tratos a animais são brandas ou substituídas por penas alternativas – com exceção dos casos que mobilizaram a opinião pública.
A primeira pessoa condenada por crueldade animal no país é Dalva Lina da Silva, presa em 2018. Ela se apresentava como protetora de animais, mas ONGs desconfiavam que os cachorros e gatos entregues a ela eram adotados muito rapidamente. Um detetive particular a acompanhou por quase um mês e identificou mais de 30 corpos de animais mortos em sacos de lixo que ela deixava na rua de sua casa. Segundo as investigações, eles recebiam injeções letais de uma substância controlada. A mulher recebeu pena de 12 anos de prisão, posteriormente ampliados para 17 anos.
Os casos de maior repercussão foram responsáveis pelas mudanças na legislação penal nos últimos anos. Entre os episódios mais emblemáticos está o da cadela Manchinha, em 2018, atacada e envenenada por um segurança na frente de uma unidade do Carrefour em Osasco (São Paulo). A violência gerou protestos nas ruas e redes sociais, contribuindo para consolidar no Congresso um projeto de lei que revisou as penas por maus-tratos a animais domésticos.
Em julho de 2020, o caso do pit bull Sansão – mutilado com a remoção das patas traseiras em Confins (Minas Gerais) – ensejou a aprovação da chamada Lei Sansão, em 2020, que aumentou a pena para quem cometer abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar cães e gatos.
O episódio de Orelha deslanchou debates sobre possíveis alterações legislativas, inclusive propostas recentes para aumentar ainda mais as penas ou vedar a substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos para crimes de maus-tratos.
Um dos projetos de lei apresentados recentemente trata da proteção de animais comunitários, como Orelha e Caramelo. Se aprovado, o texto reconhece a existência de milhares de animais sem lar fixo e prevê programas de incentivo para pessoas e comunidades responsáveis pelos cuidados com eles. Ainda não há previsão de quando será votado.
Conteúdo extremista espalha-se nas redes quase sem controle
Segundo estudo do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP), entre 2001 e 2024, houve 49 ataques a escolas no Brasil. Entre eles, há um padrão de comportamento: os autores frequentemente estavam vinculados a comunidades digitais, como Discord, X, Telegram e TikTok, e eram, em sua maioria, jovens, brancos e do sexo masculino.
Apesar do conteúdo extremista estar presente em quase todas as redes, o Discord parece ser o ambiente preferido pelo seu modo de funcionamento. A rede é formada de grupos fechados, cujo conteúdo veiculado internamente não é acessível para quem está fora e sofre pouco controle de moderação. Para entrar, é necessário ter um convite e muitas vezes passar por uma entrevista. Além disso, boa parte do conteúdo é transmitida ao vivo, e não fica gravada após ser encerrada.
Em 2023, a rede foi associada a ataques armados em escolas no Brasil. Representantes da empresa, junto com outras big techs, como X (antigo Twitter) e TikTok, foram chamados a tomar providências pelo então ministro da Justiça, Flávio Dino. De lá para cá, porém, pouca coisa mudou.
Para Tatiana Azevedo, que em seu período infiltrada observou como as redes sociais são permissivas com o acesso de menores de idade a discurso de ódio, nada realmente deve mudar se não houver responsabilização das grandes empresas de tecnologia.
“Algumas têm iniciativas incipientes de controle, outras simplesmente lavam as mãos”, afirma. “Tem que haver um investimento muito grande das big techs em dinheiro e em ações que busquem mudanças reais, não só pra tampar buraco, senão ação policial nenhuma vai ser suficiente.” Ela cita como exemplo a iniciativa do Roblox de vedar a conversa entre menores, que, em vez de resolver o problema, também criou um mercado de venda de contas verificadas.
YuriArcursPeopleimages/Envato ElementsVários estudos já demonstraram "desigualdades sociais estão profundamente associadas a pior saúde e bem-estar em idades mais avançadas". Resultados da investigação vão ter impactos na definição de políticas mais inclusivas.
Uma equipa de investigação do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) e da Universidade de Saragoça, explorou como o estatuto social subjetivo de pessoas mais de 70 anos modera os efeitos positivos no bem-estar associados à participação em atividades de voluntariado para este grupo demográfico. Os resultados têm implicações na definição de políticas e práticas inclusivas que possam maximizar os efeitos positivos do voluntariado na terceira idade.
A psicóloga social e investigadora do CIS-Iscte, Luísa Lima, explica que “estudos anteriores têm demonstrado consistentemente que as desigualdades sociais estão profundamente associadas a pior saúde e bem-estar em idades mais avançadas”. Segundo a investigadora, o voluntariado tem sido identificado como um recurso poderoso para as pessoas mais velhas, pois pode melhorar o bem-estar psicológico, fortalecer a autoestima e reduzir os sintomas depressivos. Apesar desses benefícios, “as pessoas com mais de 70 anos fazem voluntariado significativamente menos do que aquelas, digamos, na casa dos 50 ou 60 anos”. Então, por que razão as pessoas mais velhas se envolvem menos em voluntariado? De acordo com Luísa Lima, existem inúmeros fatores que podem afetar a vontade de participar nessas atividades, desde limitações físicas e cognitivas que podem restringir o envolvimento das pessoas, até à perceção que outras pessoas têm da sua capacidade para o fazer. “Os padrões de voluntariado variam consoante o tipo de atividade e o país em que as pessoas vivem, sugerindo um papel importante dos contextos sociais e culturais”, esclarece a investigadora. Nas sociedades ocidentais, as pessoas mais velhas são frequentemente vistas como tendo menos poder, estatuto e valor social do que adultos de meia-idade, o que pode moldar tanto as suas oportunidades de se envolverem em voluntariado como o seu bem-estar.
Investigações anteriores têm-se focado principalmente em como fatores objetivos, como o rendimento e a educação, influenciam a relação entre o voluntariado e o bem-estar subjetivo. Neste estudo, publicado em 2025, a equipa de investigação composta por cientistas do CIS-Iscte e da Universidade de Saragoça analisou como o estatuto social subjetivo – a forma como as pessoas percebem a sua posição na hierarquia social – pode influenciar essa relação em pessoas com 70 anos ou mais, em diferentes sistemas de segurança social europeus.
Com base em dados do European Social Survey (ESS) recolhidos entre 2008 e 2010, a equipa de investigação realizou análises sobre dados de 8331 pessoas com mais de 70 anos, de 29 países europeus. A equipa examinou diferentes aspetos da vida das pessoas, nomeadamente: se faziam voluntariado ou não, como se sentiam em relação às suas vidas (saúde, felicidade, satisfação geral), género, educação, rendimento e estado civil. Mais importante, a equipa de investigação calculou um indicador ao nível nacional sobre o grau de respeito geralmente demonstrado pelas pessoas idosas nesse país (ou seja, o seu estatuto social subjetivo), com base na forma como os inquiridos do ESS consideram que a maioria das pessoas no seu país percebe o estatuto das pessoas mais velhas. A equipa de investigação utilizou modelos multiníveis para analisar os dados a nível individual e nacional, considerando diferentes sistemas de segurança social, o que ajudou a compreender não só se o voluntariado tem efeitos positivos, mas também em que condições sociais pode ser mais ou menos benéfico.
Os resultados do estudo mostraram que as pessoas mais velhas que fazem voluntariado relatam melhores resultados em termos de saúde, felicidade e satisfação com a vida do que aquelas que não participam nesse tipo de atividades. Este padrão foi observado de forma clara e consistente nos vários países europeus. “Este estudo revela um mecanismo psicológico crítico: o efeito moderador das perceções sociais sobre o envelhecimento nos benefícios do voluntariado segue um padrão consistente com a teoria da identidade social, em que o estatuto social percebido amplifica ou atenua a autoestima e o propósito que derivam de comportamentos pró-sociais em idade avançada”, explica Julia Sánchez-García, da Universidade de Saragoça, autora principal do estudo. Especificamente, a equipa de investigação verificou que a relação positiva entre o voluntariado e o bem-estar era significativamente mais forte nos países onde as pessoas mais velhas são vistas como tendo um estatuto social mais elevado e são tratadas com maior respeito. De acordo com o estudo, nesses contextos, o voluntariado está associado a uma melhor autoavaliação da saúde, maior felicidade e melhor qualidade de vida em geral para as pessoas com mais de 70 anos. Em contrapartida, essa relação era mais fraca nos países onde as pessoas mais velhas são vistas de forma mais negativa ou enfrentam atitudes mais discriminatórias em relação à idade. Sibila Marques (CIS-Iscte), também autora deste estudo, explica que “as perceções sociais do envelhecimento desempenham um papel crucial na definição do benefício que as pessoas mais velhas retiram do envolvimento social e das atividades de voluntariado”. Acrescenta que “as nossas análises também indicaram que viver numa sociedade que atribui um estatuto social mais elevado às pessoas mais velhas estava diretamente associado a uma melhor saúde e bem-estar em idade avançada”. A investigadora sugere que a redução do idadismo (preconceito com base na idade) e o reforço do respeito pelas pessoas mais velhas podem potencialmente melhorar a participação em voluntariado e os seus efeitos positivos no bem-estar.
A equipa de investigação conclui que melhorar o estatuto social de pessoas mais vellhas através de políticas inclusivas e intergeracionais poderia reforçar os benefícios do voluntariado no bem-estar e apoiar a conquista de um envelhecimento saudável, ativo e equitativo, alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A equipa desta investigação publicada no Journal of Applied Social Psychology é composta por Julia Sánchez-García (Universidade de Saragoça), Maria Luísa Lima (CIS-Iscte), Sibila Marques (CIS-Iscte), Ana Isabel Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça) e Marta Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça).